A forma que comemos muda nossas emoções, nossas emoções mudam o que comemos

Uma emoção é um estado de sentimento mental e fisiológico que direciona nossa atenção e guia nosso comportamento. As emoções mudam de momento a momento e foram desenvolvidas, em grande parte, para nos ajudar a fazer julgamentos rápidos sobre estímulos e a orientar corretamente o comportamento apropriado em cada situação.

3d2fc5bef9250f95da6146dd0b4541a0.jpg

Nossa resposta a uma emoção básica (raiva, nojo, medo, tristeza, felicidade) é imediata e rápida. Vemos uma criança correndo em direção à rua e disparamos atrás dela. Nosso coração dispara e a adrenalina é liberada. Por outro lado, nossa resposta a uma emoção secundária (ciúme, orgulho, vaidade, vergonha, culpa) é mais lenta pois são mais complexas.

Todas as emoções interferem na forma como comemos, que tipo de alimentos comemos e quanto comemos. O medo geralmente inibe a fome, o que faz sentido do ponto de vista biológico e evolutivo, porque na hora do medo temos que correr e não deitar na rede para digerir a feijoada.

Outras emoções primárias podem modular a alimentação em ambas as direções: algumas pessoas comem menos quando estão tristes, outras comem mais. Por outro lado, o que comemos afeta nossas emoções. Dietas pobres em ômega-3, triptofano, vitaminas do complexo B, magnésio e zinco, impactam negativamente o humor.

Existem 5 caminhos pelos quais as emoções afetam a alimentação: sensoriais ou afetivos, associativos, energéticos, neuroquímicos e farmacológicos.

Screen Shot 2020-05-04 at 1.55.37 PM.jpg

Caminho associativo: é a influência de nossas associações ou opiniões, possivelmente de experiências passadas com os alimentos a serem ingeridos. Por exemplo, o cheirinho de bolo da avó pode abrir o apetite por associarmos o aroma do alimento à momentos felizes. Mas associação também pode ser negativa. Por exemplo, uma pessoa pode rejeitar chuchu por ter experimentado na infância e vomitado. Uma pessoa que nunca come frituras pois considera-as péssima para a saúde, chega a uma festa faminta e só há salgados fritos. A pessoa pode comer e imediatamente ficar de mal humor.

Caminho sensorial-afetivo: descreve como a comida afeta o paladar, o que também influencia o humor. A sensação de doçura, por exemplo, é inatamente agradável, enquanto a amargura é inatamente aversiva. Os bebês mostram uma reação afetiva positiva quando expostos a soluções de sabor doce. O prazer melhora também o humor, mesmo antes dos nutrientes do alimento chegarem à corrente sanguínea ou ao cérebro. Por isso, muitas pessoas comem chocolates quando estão tristes.

Caminho energético: descreve a melhoria do humor quando uma pessoa faminta ingere comida. A restrição alimentar crônica severa pode até levar à depressão e ao estado emocional negativo constante.

Untitled.jpg

Caminho neuroquímico: descreve o efeito dos alimentos e seus nutrientes na produção de neurotransmissores. Por exemplo, carboidratos aumentam os níveis de serotonina e dopamina, reduzindo o estresse e gerando bem-estar. Discuto mais os aspectos neuroquímicos no curso online PsicoNutrição.

Caminho farmacológico: alimentos contém compostos que atuam como drogas no cérebro. Por exemplo, café, guaraná, refrigerantes a base de cola, cacau, chá verde possuem cafeína, que pode ter efeitos positivos e negativos, dependendo da dosagem e da tolerância individual. Dentro dos efeitos da cafeína destacam-se: melhoria do estado de humor, aumento da capacidade de concentração, inquietação, nervosismo, excitação, agitação.

Todos estes aspectos são importantíssimos e devem ser considerados igualmente. Uma dieta “limpa”, super saudável, que não considere os aspectos emotivos, associativos e energéticos dificilmente conseguirá ser mantida. Queremos ter saúde, mas também queremos ter prazer, queremos respeito à nossa cultura e experiências.

Processos cognitivos influenciam o comportamento alimentar

Higgs et al., 2017

dlPFC: córtex pré-frontal dorsolateral; COF: córtex orbitofrontal; vmPFC: córtex pré-frontal ventromedial.

O círculo externo na imagem acima (em laranja) fornece uma visão geral dos processos que operam antes de uma refeição: a expectativa de comer, a visão do alimento a ser consumido, e a interação entre quaisquer objetivos (como ter mais saúde), memória do sabor e o prazer da comida, a atenção aos sinais alimentares (fome) determinarão se os indivíduos começarão a comer e que tipo de comida escolherão.

O círculo do meio (em verde) representa os processos dentro da refeição que influenciam a quantidade consumida. As sensações de prazer e recompensa tendem a ir diminuir conforme nos alimentamos (a primeira garfada é mais gostosa que a última) e levam ao término da refeição. A saciedade compreende componentes hormonais, metabólicos, cognitivos e também de memória. A atenção ao processo de alimentação e o controle cognitivo também influenciarão no término da refeição.

O círculo interno (em vermelho) representa os processos que operam entre as refeições, por exemplo, a memória episódica de uma refeição influenciará as decisões sobre quando iniciar a próxima refeição. Registramos as refeições na “memória episódica” nas áreas do hipocampo e no córtex pré-frontal. Esses registros nos guiam inconscientemente nas decisões do quanto comer nas refeições seguintes.

Porém, imagina não dar atenção adequada a refeição, vendo televisão ou usando o celular. O cérebro não percebe com a mesma eficiência se já comeu, se não comeu, se foi bom, se não foi, se foi suficiente… E se não lembrar que comeu vai querer comer mais. Prestar atenção às refeições é uma forma de reduzir em até 40% o consumo calórico durante as refeições.

Gostou? Aprenda mais sobre cérebro e nutrição em https://www.t21.video

Gostou? Por favor, compartilhe.
Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Benefícios da formação em yoga para terapeutas ocupacionais que trabalham com pessoas com transtorno do espectro autista (TEA)

O yoga é uma abordagem de saúde complementar que pode ser usada em paralelo com a medicina convencional para vários propósitos. Esta prática corpo-mente teve origem na índia e combina posturas físicas, técnicas respiratórias, meditação e relaxamento. Possui vários efeitos terapêuticos e tem sido utilizado no tratamento de pessoas com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), indivíduos com déficit de atenção transtorno de hiperatividade (TDAH), autismo e sobreviventes de câncer.

Pessoas com autismo podem apresentar dificuldades em manter conversas típicas, contato visual ou expressar emoções de forma apropriada. Também podem apresentar comportamentos repetitivos ou ritualizados. Também podem ter limitações no processamento sensorial, em diferentes intensidades. Terapeutas ocupacionais frequentemente estão envolvidos na equipe especializada no tratamento do autismo, tanto no ambiente escolar, quanto em clínicas.

O terapeuta ocupacional ajuda a criança a desenvolver habilidades da vida diária (como o treinamento do toalete, vestir-se, escovar os dentes, pentear cabelos, calçar sapatos, brincar funcional), ampliar as habilidades motoras (como segurar lápis, andar de bicicleta), integrar os sentidos, reduzindo as estereotipias. O terapeuta também pode utilizar-se de técnicas do yoga para acalmar e regular as emoções, reduzir a ansiedade e episódios de agressividade (Keenan-Mount, Albrecht & Waters, 2016).

Na escola, muitas vezes o cansaço e o excesso de informações reduz a aprendizagem de todas as crianças, inclusive as típicas. Estudos mostram que a inserção de práticas curtas de yoga em meio às aulas reduz a agitação e frustração das crianças. Por meio de orientações presenciais guiadas e também imagens mostradas em cartões, pôsteres, tablet ou smartphones as crianças visualizam posturas, modelando-as, imitando-as. Estudo mostrou que práticas curtas diárias, feitas em sala de aula por 16 semanas, reduziram os comportamentos desafiadores, a irritabilidade, a letargia, a auto exclusão social, a agressividade e a hiperatividade em crianças no espectro autista (Koenig, Buckley-Reen & Garg, 2012).

Além de aumentar o bem estar de crianças com autismo, a prática de yoga podem contribuir para a melhoria da saúde física e emocional do próprio terapeuta. Estes profissionais estão susceptíveis ao estresse falta de autonomia pela alta carga de trabalho, conflitos laborais, dificuldades inerentes ao próprio trabalho. Pesquisas têm demonstrado que a prática regular e continuada de yoga tem capacidade para modular a resposta fisiológica ao stress e à ansiedade, visto promover a melhoria da frequência cardíaca, a redução da pressão arterial e o aumento da capacidade respiratória.

michigan-med-c-ocd-01.jpg

Outras evidências apontam no sentido da prática do Yoga melhorar de forma significativa a capacidade de concentração e de manutenção da mente no momento presente reduzindo, assim, os níveis de stress e ansiedade relacionados com a preocupação excessiva da mente em acontecimentos futuros e imprevisíveis. Do mesmo modo, ao “obrigar” a mente a estar presente no aqui e agora, ajuda, também, a ultrapassar a tristeza e a melancolia associadas a acontecimentos do passado.

Existem cursos de formação online e também profissionais capacitados ensinando a distância. Escolha a melhor forma de iniciar ou avançar na sua prática.

No mês 10 deste curso de formação de instrutores de Yoga trato mais do tema yoga e autismo com exemplos práticos.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/
Tags ,

Mecanismos imunes que aumentam a severidade da infecção por COVID-19 em pessoas com síndrome de Down

Pessoas com síndrome de Down apresentam desregulação imune, evidenciada pela maior prevalência de hipotireoidismo, doença celíaca, alopecia areata, diabetes tipo 1. A nível molecular, mostram sinais de inflamação mesmo na ausência de infecção detectável. No contexto do COVID-19 ainda faltam dados clínicos em relação à morbimortalidade deste grupo de indivíduos. Mesmo assim, acaba de ser publicado um artigo com evidências de que pessoas com síndrome de Down devem ser consideradas de alto risco de desenvolvimento de sintomas severos, de precisarem ser hospitalizadas por mais tempo, necessitarem de cuidados intensivos e de adquirirem infecções bacterianas secundárias.

O vírus SARS-CoV-2 gera uma resposta imune exacerbada, uma chuva de citocinas, que gera danos em muitos órgãos, especialmente pulmões. Vários genes do cromossomo 21 desempenham papel no controle imune. Quatro dos seis genes para receptores de interferon (IFN) encontram-se no cromossomo 21. Interferon não pode estar nem baixa nem alta demais. Na SD a hiperativação de IFN pode piorar a inflamação nos pulmões daqueles com COVID-19 pois amplifica a tempestade de citocinas. Um exame barato que identifica se isto está ocorrendo é a ferritina, que não deve estar aumentada. O aumento indica que a tempestade de citocinas já começou e que o risco de febres mais altas é maior.

ESPINOSA, 2020 - Tempestade de citocinas inflamatórias na síndrome de Down

ESPINOSA, 2020 - Tempestade de citocinas inflamatórias na síndrome de Down

Pessoas com síndrome de Down também estão em maior risco de contraírem infecções bacterianas secundárias, quando doentes, especialmente quando hospitalizadas. Os danos causados pelo COVID-19, associada a pneumonia bacteriana (por M. tuberculosum ou S. pneumoniae) gera dispneia (falta de ar), danos pulmonares e até cardiovasculares. Anormalidades anatômicas nas vias aéreas superiores também aumentam o risco de infecções respiratórias na síndrome de Down. A própria apneia obstrutiva do sono, comum na síndrome de Down, frequentemente causa hipoxia e acidose respiratória.

Assim, mesmo na ausência de estudos clínicos e epidemiológicos sobre o impacto do COVID-19 em pessoas com síndrome de Down, os fatores de risco apresentados justificam maiores cuidados por parte da família e por parte da equipe de saúde (Espinosa, 2020). Ficar em casa é ainda a melhor estratégia.

Outro estudo revisou os componentes nutricionais que reduzem o risco de uma tempestade de citocinas, pela regulação de um fator de transcrição (PPAR-γ). Alimentos contendo ômega-3 (peixes do mar, óleo de peixe), açafrão, tomilho, orégano, alecrim, sálvia, romã e capim limão estão entre as possíveis estratégias da área (Ciavarella et al., 2020).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/