Metabolismo da testosterona

Os androgênios são um grupo de hormônios esteroides que desempenham um papel fundamental no desenvolvimento e na manutenção das características masculinas. Embora o termo seja frequentemente associado aos homens, eles também estão presentes e são essenciais para a saúde das mulheres (em níveis menores).

A testosterona (T) é o principal hormônio androgênico, sintetizado a partir do colesterol, e caracterizado por um núcleo ciclopentanoperidrofenantreno contendo 19 átomos de carbono e sem uma cadeia lateral no carbono 17. É produzida predominantemente pelas células de Leydig dos testículos nos homens, representando mais de 90%, e em menor grau pelos ovários nas mulheres e pelas glândulas adrenais em ambos os sexos (Puscasiu et al., 2025).

O primeiro passo na biossíntese a partir do colesterol é a transformação em progesterona (a). A progesterona pode ser convertida diretamente em testosterona via 17-hidroxiprogesterona (b) ou por uma etapa intermediária (c).

A progesterona é derivada do colesterol e segue duas rotas biossintéticas, uma primária e uma secundária. A progesterona é sintetizada inicialmente a partir do colesterol por meio da clivagem de sua cadeia lateral.

A via biossintética da progesterona para a testosterona diverge em duas direções. O principal processo de síntese envolve a produção de androstenediona pela ação da enzima liase C17-C20 sobre a 17-hidroxiprogesterona, que é derivada da progesterona pela ação da enzima 17-hidroxilase.

A androstenediona é convertida em testosterona pela enzima 17-hidroxiesteroide desidrogenase.

Uma pequena fração da testosterona é sintetizada a partir da conversão da androstenediona, envolvendo uma etapa intermediária na qual a 17-hidroxiprogesterona é transformada em deidroepiandrosterona, uma reação facilitada pela C17-C20 liase. Subsequentemente, a deidroepiandrosterona é convertida em androstenediona, catalisada pela hidroxiesteroide desidrogenase C4-C5 isomerase.

Em condições fisiológicas, uma pequena porcentagem da testosterona pode ser convertida em deidrotestosterona no organismo, um processo que ocorre nas células de Leydig, na próstata e nas vesículas seminais, resultando em efeitos androgênicos específicos. A enzima envolvida nesse processo é a 5-α-redutase, que transforma aproximadamente 8% da testosterona.

O androstenediol pode ser sintetizado nas células de Leydig e nas glândulas adrenais, produzindo efeitos androgênicos. Na glândula adrenal, 1% da testosterona pode ser convertida em estradiol pela aromatase, que desempenha um papel no controle da produção hormonal

Reposição de testosterona

A testosterona tem potência relativamente baixa e é metabolizada rapidamente pelo fígado; como molécula, ela é inativada na primeira passagem hepática, tornando sua administração oral inadequada.

Após administração intramuscular, é rapidamente absorvida e metabolizada. Pode ser usada estruturalmente inalterada, na forma de implante subcutâneo, adesivo transdérmico ou gel transdérmico com bomba, sempre após análise, indicação e com acompanhamento médico.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Resposta do Cortisol ao Despertar (CAR - Cortisol Awakening Response)

O artigo intitulado The Cortisol Awakening Response: Regulation and Functional Significance, publicado na revista Endocrine Reviews (Volume 46, Edição 1, Fevereiro de 2025), de autoria de Tobias Stalder e colaboradores, apresenta uma revisão abrangente sobre a Resposta do Cortisol ao Despertar (CAR - Cortisol Awakening Response).

O que é a CAR?

O CAR é o aumento rápido e acentuado nos níveis de cortisol que ocorre nos primeiros 30 a 45 minutos após o despertar matinal. Em indivíduos saudáveis, essa é a fase de maior secreção de cortisol de todo o ciclo de 24 horas.

Ao contrário do cortisol liberado durante o dia, o CAR é um impulso matinal único e serve para preparar o cérebro e o corpo para as demandas específicas do dia que está começando. Contudo, até o CAR tem um limite.

Os autores propõem um modelo integrativo onde a CAR é regulada por um sistema complexo que combina:

  • Processos Circadianos: O relógio biológico central (núcleo supraquiasmático) prepara o corpo para o despertar.

  • Processos Neurocognitivos e Ambientais: A resposta é influenciada pela antecipação dos desafios do dia e por experiências emocionais do dia anterior. O cérebro usa a CAR para "prever" a necessidade de energia e recursos.

O artigo sugere que esse pico de cortisol não é apenas um subproduto do despertar, mas serve a duas funções principais:

  • Mobilização de Recursos (Processo Primário): Preparar o organismo metabolicamente e imunologicamente para as demandas físicas e cognitivas iminentes.

  • Contrarregulação Emocional (Processo Secundário): Ajudar o organismo a processar e lidar com experiências emocionais adversas ou estressantes ocorridas anteriormente, promovendo resiliência.

Vias de Ação do cortisol

O cortisol liberado durante a CAR atua de duas formas:

  • Ações não genômicas (rápidas): Mudanças imediatas na excitabilidade neuronal e metabolismo.

  • Ações genômicas (lentas): Influência na expressão de genes, inclusive afetando os próprios "genes do relógio" (clock genes), o que ajuda a sincronizar os ritmos biológicos internos com a rotina diária.

A revisão destaca que uma CAR "bem ajustada" é sinal de saúde e capacidade adaptativa. Por outro lado, alterações nesse padrão (seja uma resposta exagerada ou uma resposta "achatada") estão frequentemente associadas a distúrbios de estresse, depressão, fadiga crônica e declínio cognitivo em idosos.

O estudo consolida a ideia de que a CAR é uma "impressão digital" endócrina da nossa preparação para o dia, integrando sinais do relógio biológico com as expectativas psicológicas do indivíduo para otimizar o funcionamento do corpo e da mente.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

O preço biológico do estresse

O artigo científico "Perceived stress and allostatic load: Results from the All of Us Research Program" investigou como o estresse psicológico se transforma em danos físicos reais no corpo humano.

O estudo foca na Carga Alostática (CA). Enquanto o estresse é uma resposta imediata, a Carga Alostática é o "desgaste" acumulado. É o dano biológico que ocorre quando o corpo é forçado a se adaptar repetidamente a estressores crônicos sem tempo para se recuperar.

Os pesquisadores utilizaram dados de uma das maiores iniciativas de saúde dos EUA, o programa All of Us. Eles analisaram:

  • Estresse Percebido: Como as pessoas sentem que suas vidas são imprevisíveis ou sobrecarregadas.

  • Biomarcadores: Medições de colesterol, pressão arterial, açúcar no sangue (HbA1c) e função renal para calcular o índice de desgaste do corpo.

Observou-se relação positiva entre o estresse percebido e a carga alostática

Indivíduos com altos níveis de estresse percebido apresentaram uma probabilidade 2,18 vezes maior de ter uma Carga Alostática elevada. A solidão foi um dos fatores sociais mais fortemente associados ao desgaste biológico, agindo como um acelerador do envelhecimento sistêmico.

Curiosamente, a relação entre estresse e dano biológico foi mais clara em pessoas com rendas acima da linha de pobreza. Em grupos de extrema pobreza, outros fatores ambientais e nutricionais podem "mascarar" ou sobrepor o efeito do estresse psicológico puro.

O estudo prova que o estresse não afeta apenas a "mente" ou o "humor". Ele causa uma desregulação multissistêmica:

  1. Sistema Cardiovascular: Aumento da pressão.

  2. Sistema Metabólico: Pior processamento de gorduras e açúcares.

  3. Envelhecimento Precoce: O corpo "envelhece" biologicamente mais rápido do que a idade cronológica sugere.

O estresse crônico é um risco invisível, mas mensurável. Para proteger a saúde a longo prazo, não basta tratar sintomas isolados (como colesterol alto); é necessário abordar as causas psicossociais, como o estresse e o isolamento, que estão "quebrando" o equilíbrio do corpo.

Sua mente e seu corpo não estão separados. O estresse de hoje é a inflamação de amanhã.

Impacto do estresse no cérebro da mulher

Em situações de estresse liberamos o cortisol das glândulas suprarrenais. O cortisol é essencial à vida, ajudando o corpo a responder a desafios (luta ou fuga), regulando o metabolismo, a função imunológica e a resposta inflamatória.

Diante de um estressor real ou percebido, o cérebro sinaliza a liberação de cortisol. Em situações agudas (momentâneas), o cortisol é adaptativo e benéfico, fornecendo energia rápida. Contudo, no estresse crônico, o sistema falha em desligar, levando a uma exposição prolongada que danifica tecidos e órgãos.

Cortisol e o cérebro da mulher

Um estudo publicado em 2018 avaliou a resposta de despertar do cortisol (cortisol wakening response - CAR). Trata-se do aumento acentuado (50% a 150%) nos níveis de cortisol que ocorre nos primeiros 30 a 45 minutos após acordarmos.

Ao contrário do cortisol liberado durante o dia, o CAR é um impulso matinal único e serve para preparar o cérebro e o corpo para as demandas específicas do dia que está começando. Contudo, até o CAR tem um limite.

O estudo mostrou que quanto maior o cortisol, pior o desempenho de memória e percepção visual em mulheres de meia-idade, segundo dados da Framingham Heart Study (Generation 3) com 2.231 adultos sem demência. Nesse estudo, níveis mais elevados de cortisol matinal no sangue se associaram a pior desempenho em testes cognitivos, além de alterações estruturais no cérebro, como redução de substância cinzenta em áreas ligadas à memória e ao controle executivo, e mudanças na substância branca.

O efeito foi mais consistente em mulheres, sugerindo maior vulnerabilidade feminina ao impacto do estresse crônico sobre o cérebro. O mecanismo provável envolve ativação persistente do eixo do estresse (HPA), com excesso de glicocorticoides que afetam regiões como hipocampo e córtex pré-frontal, áreas essenciais para memória, foco e tomada de decisão. Esses achados reforçam a importância da gestão do estresse como estratégia de proteção cerebral ao longo da vida adulta, especialmente em mulheres, já que o estresse crônico não é apenas um estado emocional, mas um fator biológico com impacto direto na estrutura e função do cérebro.

O CAR funciona como um biomarcador. Pode também prever risco de depressão, mesmo antes dos sintomas clínicos aparecerem. A análise (feita pelo Dutch Test) ajuda a monitorar se um tratamento, como terapia ou medicação está realmente ajudando o sistema biológico a recuperar o equilíbrio.

Se você acorda sentindo-se acelerado ou, ao contrário, que seu motor nunca dá a partida, isso pode ser um sinal biológico de que seu sistema de resposta ao estresse precisa de atenção. O cortisol não é apenas um hormônio, é a maneira do seu corpo se preparar para o mundo. Quando o equilíbrio é interrompido, a saúde mental sofre as consequências.

Existem muitos fatores que podem interromper o equilíbrio, químicos, físicos, mentais, emocionais. Cuide-se!

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/