Genética da sarcopenia

A sarcopenia é uma condição geriátrica definida pela perda progressiva de massa e função muscular, associada a desfechos clínicos adversos relevantes, incluindo fraturas, declínio funcional e aumento da mortalidade.

Embora seja mais frequente em idosos, pode iniciar-se já na meia-idade, com elevada prevalência em populações clínicas específicas, como pacientes com neoplasias, doença renal crónica, doença hepática e distúrbios metabólicos.

Nesses contextos, a sarcopenia atua também como marcador prognóstico independente, associando-se a menor sobrevida e maior incidência de complicações clínicas.

A prevalência da sarcopenia apresenta elevada variabilidade inter-estudos, influenciada principalmente pela ausência de uniformização metodológica na definição diagnóstica e nos métodos de avaliação da massa muscular, como bioimpedância elétrica (BIA) e absorciometria de dupla energia por raios X (DXA). Esta heterogeneidade resulta em ampla dispersão nas estimativas de prevalência reportadas em meta-análises.

Em revisões sistemáticas, a prevalência em idosos varia substancialmente conforme os critérios utilizados. Estimativas globais situam-se aproximadamente entre 5% e 22%, dependendo da definição aplicada, incluindo EWGSOP2, IWGS, EWGSOP e FNIH. Valores agregados sugerem prevalências médias entre 10% e 16% em populações comunitárias idosas, com variações associadas ao método de avaliação da massa muscular e ao ponto de corte utilizado. Meta-análises indicam ainda ligeira elevação da prevalência quando a BIA é utilizada em comparação com a DXA.

A heterogeneidade observada permanece parcialmente não explicada, mesmo em populações comparáveis, sugerindo influência de fatores metodológicos e operacionais na classificação diagnóstica. Também existe uma influência de variantes genéticas, como explico neste vídeo:

Consequências clínicas da sarcopenia

A sarcopenia associa-se consistentemente a piores desfechos em diferentes contextos clínicos. Em populações hospitalares e cirúrgicas, está relacionada a aumento de mortalidade, redução da sobrevida global e livre de progressão, maior incidência de complicações pós-operatórias, infeções e maior duração de internamento. A magnitude do risco varia conforme a condição clínica, sendo mais elevada em contextos de maior gravidade sistémica.

Em oncologia e cirurgia major, observa-se associação consistente com pior prognóstico, embora com variação entre tipos de tumor e procedimentos. Em doenças crónicas, a sarcopenia associa-se adicionalmente a progressão de doença hepática, maior risco de osteoporose em doença pulmonar obstrutiva crónica e eventos cardiovasculares adversos em doença arterial coronariana.

Em populações gerais, para além da mortalidade, a sarcopenia associa-se a maior risco de comprometimento cognitivo, quedas, fraturas, declínio funcional, hospitalização, síndrome metabólica, diabetes, doença hepática metabólica, hipertensão, depressão e disfagia. Entre estes desfechos, as quedas apresentam associação particularmente robusta, independentemente da definição utilizada.

A interpretação destas associações deve considerar limitações importantes, incluindo heterogeneidade metodológica, desenhos observacionais, possível viés de medição e ausência de causalidade estabelecida.

Efeitos anticatabólicos do ômega-3

Evidências experimentais sugerem que os ácidos graxos ômega-3 modulam vias envolvidas na síntese proteica muscular, com possível efeito anti-catabólico. Estudos em modelos de imobilização indicam atenuação da atrofia muscular e recuperação mais rápida após remobilização, sugerindo impacto na resposta anabólica ao stress mecânico.

Uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados em adultos idosos avaliou a suplementação de ômega-3 sobre massa muscular, força e desempenho funcional. Foram incluídos mais de 550 participantes, com intervenções entre 10 e 24 semanas, utilizando doses variáveis de EPA e DHA. Observou-se aumento modesto de massa magra, em torno de 0,3 kg em média, com maior efeito em doses superiores a 2 g/dia.

Outra meta-análise encontrou aumentos consistentes de massa muscular esquelética e força, particularmente do quadríceps, mesmo com doses baixas. A relação dose-resposta não foi linear, sugerindo que o efeito pode depender de variáveis como estado basal, idade, inflamação e duração da intervenção.

Em ensaio clínico com adultos entre 60 e 85 anos, a suplementação com EPA e DHA durante seis meses resultou em aumento de massa muscular e melhoria de força de preensão manual, força de membros superiores e inferiores e potência de membros inferiores, quando comparado com placebo.

Globalmente, os dados sugerem efeito modesto, mas consistente, do ômega-3 na preservação e função muscular em idosos, com maior relevância em contextos de risco de perda muscular.

Apesar disso, existe sinalização de possível associação entre suplementação de ômega-3 em doses elevadas e aumento do risco de fibrilação auricular, exigindo ponderação risco benefício em populações vulneráveis.

Referências importantes

  1. Smith GI, Atherton P, Reeds DN, Mohammed BS, Rankin D, Rennie MJ, et al. Omega-3 polyunsaturated fatty acids augment the muscle protein anabolic response to hyperinsulinaemia-hyperaminoacidaemia in healthy young and middle-aged men and women. Clin Sci (Lond). 2011;121(6):267-78.

  2. Abadi A, Brookes MJ, Salter AM, et al. Omega-3 fatty acids and skeletal muscle health: a systematic review and meta-analysis. Front Nutr. 2023;10:1119719.

  3. McGlory C, Calder PC, Nunes EA. The influence of omega-3 fatty acids on skeletal muscle protein turnover and function. Proc Nutr Soc. 2019;78(4):466-77.

  4. Dupont J, Dedeyne L, Dalle S, Koppo K. The role of omega-3 in the prevention and treatment of sarcopenia: systematic review and meta-analysis. Ageing Res Rev. 2019;53:100942.

  5. Da Boit M, Sibson R, Sivasubramaniam S, Meakin JR, McGlory C, Malkova D, et al. Sex differences in the effect of fish-oil supplementation on the adaptive response to resistance exercise training in older people: a randomized controlled trial. Am J Clin Nutr. 2017;105(1):151-8.

  6. Rodacki CL, Rodacki AL, Pereira G, Nabuco H, Ugrinowitsch C, Borges-Silva G, et al. Fish-oil supplementation enhances the effects of strength training in elderly women. Am J Clin Nutr. 2012;95(2):428-36.

  7. Chen Y, Liu Y, Zhang L, et al. Effects of omega-3 polyunsaturated fatty acid supplementation on muscle mass, strength and physical performance in older adults: a meta-analysis of randomized controlled trials. Clin Nutr. 2021;40(3):1095-1103.

  8. Kjaer TN, et al. Effects of omega-3 supplementation on muscle strength and physical performance: systematic review and meta-analysis. Nutrients. 2022;14(18):3790.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

SAÚDE ADRENAL NA MENOPAUSA

Durante os anos férteis da mulher, ovários e glândulas suprarenais colaboram na produção hormonal. Mas, na menopausa as glândulas adrenais passam a ser a principal fonte de precursores hormonais, especialmente DHEA e androstenediona.

Esses hormônios são convertidos em estrogênios no tecido adiposo, músculo, osso e cérebro. Por isso, a função adrenal deixa de ser apenas resposta ao estresse.

Na menopausa a adrenal passa a influenciar diretamente:

  • Energia e vitalidade

  • Massa muscular

  • Densidade óssea

  • Metabolismo energético

  • Cognição

  • Capacidade de adaptação ao estresse

  • Produção periférica de estrogênios

Quando a função adrenal está comprometida, é comum observarmos fadiga persistente, redução da tolerância ao estresse, perda de massa magra, ganho de gordura abdominal, maior instabilidade metabólica, sensação de esgotamento mesmo após uma noite de sono.

Isso não significa necessariamente que a adrenal "falhou", mas que a demanda aumentou. Na menopausa, a saúde hormonal depende da capacidade do organismo de produzir, converter e utilizar e excretar metabólitos hormonais de forma eficiente.

Como cuidar da saúde adrenal, especialmente na menopausa?

• Dormir o suficiente e manter horários regulares de sono - Privação de sono aumenta cortisol basal e reduz a capacidade adaptativa

• Garantir ingestão adequada de proteína - Aminoácidos são necessários para síntese hormonal, neurotransmissores e manutenção de massa magra

• Evitar restrição calórica crônica - Dietas muito restritivas aumentam sinal de estresse metabólico e pioram a resposta adrenal

• Manter treinamento de força regular - O músculo melhora a sensibilidade ao cortisol e reduz a carga inflamatória

• Controlar a carga de estresse, não apenas o estresse emocional - Excesso de treino, jejum prolongado, inflamação crônica e sono inadequado também são estressores biológicos]

• Garantir micronutrientes essenciais - Magnésio, vitamina C, vitaminas do complexo B, ferro e zinco participam diretamente da função adrenal e da produção de energia

Suplementos ajudam, mas cuidar da saúde adrenal vai muito além das cápsulas. É mais sobre reduzir a sobrecarga fisiológica e melhorar a capacidade de adaptação do organismo.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Como a inflamação impacta o metabolismo das estronas e seus efeitos hormonais

A inflamação crônica altera profundamente o metabolismo dos estrogênios modulando sua produção, interconversão, depuração e biodisponibilidade, o que pode resultar em um perfil hormonal mais estrogênico e potencialmente pró-proliferativo.

1. Aumento da produção periférica de estrona

Citocinas inflamatórias, principalmente IL-6 e TNF-α, aumentam a expressão da aromatase, especialmente no tecido adiposo inflamado.

Como consequência:

  • ↑ conversão de androgênios (androstenediona) em estrona (E1)

  • Maior carga estrogênica periférica

Esse mecanismo é dominante em situações de obesidade, inflamação metabólica e envelhecimento.

2. Alteração da interconversão estrona ↔ estradiol

A inflamação modula as enzimas da família 17β-HSD, que controlam o equilíbrio entre estrona (E1) e estradiol (E2).

Pode ocorrer:

  • ↑ conversão de estradiol (E2) em estrona (E1) em tecidos inflamados

  • Alteração do equilíbrio local entre formas mais e menos ativas

Resultado funcional: mudança no perfil estrogênico tecidual e alteração da sinalização hormonal local, mesmo sem grandes alterações nos níveis sanguíneos.

3. Redução da conjugação e depuração hepática

A inflamação sistêmica pode suprimir enzimas hepáticas envolvidas no metabolismo das estronas:

  • SULTs (sulfatação)

  • UGTs (glucuronidação)

  • Citocromos CYP

E1 e E2 originam-se nas adrenais e ovários. O tecido mamário possui receptores para estrogênios e consegue fazer interconversão entre E1 e E2 via enzima 17βHSD, que ocorre localmente na mama. O fígado é o principal responsáveis pelas demais reações químicas no centro e parte inferior do diagrama. Transforma E1 em E2 com CYPS. Usa COMT, SUKT e UGTs para metabolização das estronas e do estradiol (Shameem et al., 2026)

Consequência da redução enzimática:

  • ↓ conjugação e eliminação de estrona

  • ↑ meia-vida circulante de estrogênios

Esse efeito é mais relevante em inflamação crônica sistêmica.

4. Alteração da distribuição e biodisponibilidade

A inflamação reduz a produção hepática de SHBG*, aumentando a fração livre de estrogênios, incluindo estrona.

*SHBG (Sex Hormone-Binding Globulin) é a globulina transportadora de hormônios sexuais.
Como resultado:

  • ↑ atividade biológica hormonal, mesmo com níveis totais normais

Sem SHBG os níveis de hormônios livres no plasma sobem, aumentando risco de condições como ovários policíticos pelo excesso de testosterona. SHBG também transporta estradiol, estrona, DHEA, adrostenediol, di-hidrotestosterona (Qu, & Donnelly, 2020).

5. Ativação local de estrona em tecidos inflamados

Tecidos inflamados podem aumentar enzimas que regeneram estrogênios ativos localmente, como a sulfatase esteroidal (STS), convertendo estrona sulfato (E1-S) em estrona ativa.

Isso é particularmente relevante em:

  • tecido adiposo

  • mama

  • endométrio

  • tumores hormônio-dependentes

Impacto da inflamação no metabolismo das estronas hidroxiladas

As estronas também sofrem hidroxilação via citocromos P450 (CYPs), gerando metabólitos com diferentes potenciais biológicos: 16α-OHE1, 4-OHE1 e 2-OHE1.

1. 16α-Hidroxiestrona (16α-OHE1)

  • Formada por CYP3A4 e CYP1A1

  • Estrogênica potente, liga-se covalentemente ao receptor

  • Inflamação:

    • Citocinas podem reduzir CYPs hepáticos

    • Em tecidos periféricos inflamados (adiposo, mama), CYP1B1 e CYP3A podem ser mantidos ou aumentados

  • Consequência: acúmulo local de 16α-OHE1, ↑ sinalização estrogênica e risco de carcinogênese

2. 4-Hidroxiestrona (4-OHE1)

  • Formada principalmente por CYP1B1

  • Potencial mutagênico por gerar radicais quinona que podem ligar-se ao DNA

  • Inflamação: ↑ CYP1B1 em tecidos inflamados → ↑ produção local de 4-OHE1

  • Maior risco de danos oxidativos e mutações

3. 2-Hidroxiestrona (2-OHE1)

  • Formada por CYP1A1/2, considerada “estrogênio seguro”

  • Inflamação reduz atividade hepática dos CYPs → ↓ formação de 2-OHE1

  • Resultado: perfil estrogênico favorecendo 16α-OHE1 e 4-OHE1, desviando a “rota de detoxificação” para vias mais proliferativas e oxidativas

4. Conjugação e eliminação

A inflamação também ↓ UGTs e SULTs, reduzindo a conjugação das estronas hidroxiladas.

  • Consequência: ↑ meia-vida e ↑ efeito local dos metabólitos ativos

Assim, a inflamação modifica o metabolismo das estronas em múltiplos níveis — produção periférica, interconversão, depuração hepática e ativação local — criando um ambiente mais estrogênico e potencialmente pró-proliferativo, especialmente em tecidos hormônio-dependentes.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/