Comer o que se gosta afeta as emoções

O que comemos, quanto comemos e como comemos afeta a saúde física e mental. Existem estudos suficientes mostrando que uma dieta baseada em vegetais é a que proporciona maior qualidade de vida e longevidade. Contudo, estudos também mostram que o prazer ao comer também é muito importante para o bem estar e para o humor. Estudos mostram que o consumo de grandes quantidades de doces e açúcares afetam negativamente a saúde. Contudo, quando o consumo é moderado, parte de uma dieta saudável, rica em frutas e verduras, não há efeito negativo na saúde (Duyff et al., 2015).

A alimentação consciente pode ser uma forma de adequar o consumo de alimentos que causam prazer a uma pessoa e ainda mantê-la com saúde. A alimentação consciente nos ensina a focar no momento presente, apreciar a comida, seu cheiro, sabor e textura, assim como nas sensações do corpo, incluindo as de fome e saciedade. Pessoas que aprendem a se alimentar mais lentamente, prestando propositadamente atenção a todos os aspectos da alimentação comem menos, mantém mais facilmente um peso saudável e fazem naturalmente escolhas mais saudáveis (Jordan et al., 2014; Beshara, Hutchinson e Wilson, 2013).

E um estudo publicado em 2016 Meier, Noll e Molokwu mostraram ainda a importância de existirem alimentos considerados gostosos no cardápio de quem faz dieta.  Durante a pesquisa 258 estudantes de universidade dos Estados Unidos foram divididos em 4 grupos:

- Comer 14 gramas de chocolate ao leite  (75 kcal) enquanto ouve instrução gravada de alimentação consciente;

- Comer 14 gramas de chocolate ao leite  (75 kcal) ;

- Comer 17 gramas de biscoito tipo cracker (75 kcal) enquanto ouve instrução gravada de alimentação consciente;

- Comer 17 gramas de biscoito tipo cracker  (75 kcal) .

Antes e após o exercício os participantes responderam a uma série de questionários que mostraram que o primeiro grupo (que consumiu chocolate de forma consciente, observando cheiro, textura, sabor, cor, formato etc) tiveram um aumento de sentimentos positivos em relação aos outros grupos. Gostar do alimento mediou parcialmente os resultados, assim como prestar atenção ao alimento.

Estudos mostram que pessoas que incluem na dieta alimentos que gostam conseguem aderir a uma alimentação saudável por mais tempo, emagrecendo mais, controlando melhor a glicemia ou o perfil lipídico e sofrendo menos ansiedade durante o processo. Incorporar técnicas de alimentação consciente à rotina pode levar tempo. Por isto, a prática é fundamental. Escolher mastigar mais, escolher pousar o garfo à mesa, escolher pequenas porções e apreciar todos os aspectos do que se gosta é muito importante.

Você pode aprender mais sobre alimentação consciente baixando o eBook gratuito ou fazendo o curso online, no qual teoria, prática e meditações guiadas unem-se para que uma nova forma de se relacionar com o alimento apareça. 

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Escore NUTRIC para avaliação do risco nutricional em pacientes críticos

Ontem escrevi sobre o paradoxo nutricional do paciente internado em UTI. Eles podem precisar de mais nutrientes mas nem sempre conseguem fazer a metabolização adequada, o que resulta em hiperglicemia, azotemia e acidose metabólica. Por isto, o uso de ferramentas que possam auxiliar a equipe a identificação dos pacientes críticos com maior probabilidade de se beneficiar da terapia de nutrição enteral agressiva torna-se muito importante. O rastreamento de Risco Nutricional em pacientes críticos (NUTRIC)  é uma possibilidade para rastrear tais pacientes. O NUTRIC é a primeira ferramenta de avaliação de risco nutricional desenvolvida e validada especificamente para pacientes em críticos. Quanto maior é o escore em maior risco nutricional o paciente está. As pontuações NUTRIC mais elevadas também estão significativamente associadas à maior mortalidade em 6 meses.

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O reconhecimento de que nem todos os pacientes de UTI responderão da mesma forma às intervenções nutricionais fundamentam o escore NUTRIC. Rahman e colaboradores (2016)  o utilizaram para avaliar a adequação da terapêutica nutricional prescrita e sua associação com a mortalidade. Em média, os 1.199 pacientes acompanhados receberam 1817 Kcal ao dia e 98,3g de proteína. A taxa de mortalidade global de 28 dias nesta amostra de validação foi de 29% e a média. A adequação calórica média foi de 50,2% (o ideal é pelo menos 80%). Quanto maior foi a adequação nutricional menor foi a mortalidade dos pacientes após 28 dias em pacientes com escore NUTRIC elevado. Pacientes com escores mais baixos não se beneficiaram da progressão rápida da nutrição enteral. 

Compher e colaboradores (2017) publicaram pesquisa na qual analisam dados de nutrição de 4.040 indivíduos internados em 202 UTIs. O objetivo principal do estudo foi avaliar a utilidade do rastreamento de Risco Nutricional em pacientes críticos (NUTRIC) e em que medida a terapia nutricional agressiva foi associado a melhores resultados (principalmente redução da mortalidade) em pacientes classificados como alto risco. Os autores usaram o escore NUTRIC modificado, omitido o nível sérico de interleucina-6 usado na descrição original, e definiram uma coorte de alto risco como os pacientes com pontuação igual ou maior a 5 (em intervalo de 0 a 9). As análises ajustadas mostraram que para cada aumento de 10% na ingestão de proteínas ou na ingestão calórica total, houve uma diminuição correspondente na mortalidade dos pacientes graves. Novamente, pacientes com escores mais baixos não se beneficiaram da progressão rápida da nutrição enteral. Os autores sugerem que a pontuação NUTRIC pode ser útil para identificar os pacientes de UTI que estão em maior risco de resultados ruins e que podem ser beneficiar do suporte nutricional mais agressivo. 

O escore NUTRIC, sem dúvida, representa o melhor sistema de pontuação atual para identificar pacientes de alto risco. Contudo, outros autores não conseguiram mostrar o benefício de aumento calórico e proteico em pacientes críticos (Needham et al., 2013Dhaliwal et al., 2014, Taylor et al., 2016). Parece existir uma tendência a uma progressão da terapia enteral bem lenta em pacientes menos graves e mais rápida em pacientes de maior risco. Esta postura supõe que há um subgrupo de pacientes de UTI que se beneficiam da alimentação hipercalórica e hiperproteica. Levando-se em consideração a natureza dinâmica e flutuante dos pacientes críticos, parâmetros como glicemia (2x/dia), sódio, potássio, ureia e creatinina (diariamente) devem ser monitorados para que ajustes possam ser feitos rapidamente (NCCAC, 2006). Certamente, estudos prospectivos e controlados responderão futuramente a perguntas acerca dos tipos de pacientes que se beneficiam de mais ou menos calorias e nutrientes. 

Escore NUTRIC adaptado para português (de Portugal) aqui.

Lista de co-morbidades a serem avaliadas pelo escore NUTRIC aqui.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

O Paradoxo nutricional do paciente internado em UTI

Muitas tentativas são feitas no sentido de aproximar a condição do paciente crítico a um estado de normalidade, com transfusões para elevar o hematócrito, grandes infusões de insulina para controlar a glicose, ventilação mecânica para normalizar os níveis de PCO2 e PO2. Contudo, muitas vezes não são observados benefícios nestas estratégias. Pelo contrário, frequentemente há um aumento da morbimortalidade após uma intervenção como as citadas.  A nutrição do paciente crítico é outro exemplo de terapêutica que exige grande cuidado, já que a alimentação agressiva e de alto teor calórico mostra-se, em grande parte das vezes, ineficaz e mesmo perigosa (Patel e Codner, 2016).

Apesar dos pacientes mais gravemente doentes ou desnutridos estarem em maior risco de complicações relacionadas com a nutrição, muitas vezes estes também são os menos aptos a receber e processar os nutrientes adequadamente. É como um carro que não funciona bem. Colocar mais combustível não o fará funcionar melhor. Pelo contrário, pode provocar maior escape de gases tóxicos. O mesmo acontece no paciente crítico (Marik, 2016). Ofertar mais nutrientes não fará o corpo funcionar melhor mas pode resultar em maior trabalho metabólico, maior produção de CO2 e acidose metabólica. Mesmo quando o estresse é relativamente menor, como no caso de uma cirurgia eletiva de grande porte, sabemos que a infusão de fluidos contendo dextrose eleva significativamente os níveis séricos de glicose e lactato em relação a soluções não contendo dextrose (Degoute et al., 1989). É o paradoxo do paciente da UTI. Apesar de precisar de mais nutrientes não consegue lidar bem com eles.

A administração excessiva de proteínas também pode ocasionar o aumento excessivo da concentração plasmática de ureia e de outros resíduos azotados ao invés de proporcionar melhorias em termos de conservação muscular ou rapidez na cicatrização de feridas (Cerra et al., 1989, Ishibashi et al., 1998).

Os efeitos adversos pró-inflamatórios dos lipídios, particularmente os derivados da soja em infusões intravenosas, têm sido bem documentados (Cerra et al., 1989; Taylor et al., 2016). E, finalmente, a administração de calorias em excesso tem sido associada ao aumento da massa gorda sem benefícios na melhoria da massa muscular magra, bem como piores resultados clínicos (Braunschwei et al., 2015Marik, 2016, Hart et al., 2002).

A arte da nutrição na UTI torna-se então reconhecer a presença e o grau de mau funcionamento do paciente e fornecer a quantidade correspondentemente óptima de combustível para proporcionar efeitos benéficos e aceleração da recuperação. Amanhã escreverei sobre o escore NUTRIC, utilizado para a avaliação do risco nutricional em pacientes críticos.

Você pode aprender mais sobre terapia nutricional e o cálculo das dietas acessando o curso de terapia nutricional enteral e parenteral.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/