Dieta cetogênica na doença de Doose

A doença de Doose é uma síndrome epiléptica pediátrica rara, com início entre os 7 meses e os 6 anos, farmacorresistente em aproximadamente 50% dos casos.

Quando a criança não responde ao tratamento medicamentoso, indica-se a dieta cetogênica como intervenção terapêutica de controle das crises epilépticas. A dieta cetogênica é uma dieta muito rica em gordura e extremamente restrita em carboidratos. É isto que induz a cetose nutricional, com aumento de corpos cetônicos (β-hidroxibutirato, acetoacetato, acetona) no plasma.

O cérebro passa a usar corpos cetônicos como substrato energético e esta troca de substrato gera uma redução ou mesmo cessação das crises convulsivas, como no caso publicado por Basul e colaboradores em 2024.

Criança antes e após a dieta cetogênica

O artigo apresenta o caso de uma criança de 3 anos, farmacorresistente, com 20 a 25 crises atônicas ao dia. A dieta cetgoênica inicial continha 6% de carboidratos, 15% de proteínas e 79% de cetogênica e depois evolui para a razão 2:1 (lipídios:proteína+carboidratos). O alvo da cetonúria para controle das crises foi β-hidroxibutirato acima de 4.

O estado de cetose promove:
• aumento da neurotransmissão inibitória (GABA)
• redução da excitabilidade neuronal
• melhora da função mitocondrial
• menor estresse oxidativo cerebral

Após um mês de dieta houve redução das crises em 60%, após 2 meses em 80% e após 3 meses, a criança ficou 100% livre dos episódios convulsivos e obteve melhoria do neurodesenvolvimento.

Crianças em dieta cetogênica deve ser acompanhadas e suplementadas para que não haja deficiência de micronutrientes, dislipidemia e obstipação intestinal.

A dieta cetogênica constitui intervenção metabólica eficaz na síndrome de Doose, com potencial de remissão de crises e melhora neurodesenvolvimental. Atua via modulação energética cerebral e neurotransmissão inibitória, sendo particularmente relevante em casos farmacorresistentes. A adesão e individualização nutricional são determinantes críticos de sucesso.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

O que o sistema imune tem a ver com o autismo? 🧩🧬

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição multifatorial onde a genética e o ambiente se entrelaçam, mas a ciência está revelando um terceiro pilar fundamental: a imunogenética.

Estudos recentes mostram que o sistema imunológico de muitas crianças autistas opera de forma diferente, apresentando frequentemente desregulação imune, com:

1. Estado Inflamatório Persistente: Citocinas como IL-6 e TNF-α estão frequentemente elevadas em crianças com TEA. A IL-6, especificamente, possui uma forte correlação positiva com a gravidade dos sintomas na escala CARS; ou seja, quanto maior o nível dessa citocina, mais severos tendem a ser os déficits sociais e comportamentais.

2. O "Viés Th2": O sistema imune parece estar "desequilibrado". Enquanto há um aumento de mediadores inflamatórios, observa-se uma diminuição de citocinas como o IFN-γ (interferon-gama) dentro das células de defesa. Isso sugere uma resposta imune inclinada para o perfil Th2, que pode inibir a ativação imunológica celular necessária (Th1).

3. Células NK e Defesa: Um achado intrigante é que as células NK (Natural Killer), nossas "sentinelas", podem estar em número normal, mas sua capacidade de ataque (citotoxicidade) está reduzida. Essa falha funcional também se correlaciona com a gravidade do autismo e pode aumentar a vulnerabilidade a infecções.

4. Deficiência de Anticorpos: Muitos indivíduos com TEA apresentam níveis mais baixos de IgG e IgM, indicando uma possível deficiência na imunidade humoral seletiva.

5. Genética: Essas alterações não são aleatórias; elas refletem uma predisposição genética que afeta como as citocinas sinalizam e como o cérebro se organiza durante o desenvolvimento.

Entender esses marcadores permite que a ciência identifique subtipos biológicos de autismo. Isso abre portas para intervenções personalizadas, focadas em equilibrar o sistema imunológico e reduzir a neuroinflamação.

Identificação de biomarcadores genéticos no TEA

Este é um dos maiores desafios no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em um estudo de 2024, usando abordagem de bioinformática e aprendizado de máquina (machine learning), pesquisadores isolaram 6 genes centrais (hub genes) que apresentam extraordinário potencial diagnóstico e terapêutico: IGF2R, UBN1, TECPR2, CFLAR, FRAT2 e MME.

A relevância desses genes está fortemente ligada à sua interação com o sistema imunológico, especialmente com a infiltração de neutrófilos, sugerindo que muitos casos de TEA possuem raízes profundas na desregulação neuroimune.

Funções dos principais genes identificados

* IGF2R (Receptor de IGF-II): Conhecido como "receptor de limpeza", sua função primária é estabilizar os níveis locais de IGF através da degradação lisossômica. Ele regula a fosforilação oxidativa ao alterar o pH intracelular, afetando diretamente a expressão de fatores inflamatórios. Em crianças com TEA, os níveis de mRNA plasmático deste gene mostraram uma tendência significativa de redução.

* UBN1 (Ubinucleína 1): Este gene faz parte do complexo chaperona de histona HIRA e é crucial para a preservação das histonas alcalinas, desempenhando um papel vital no desenvolvimento intelectual. Curiosamente, embora o sequenciamento de célula única tenha mostrado níveis baixos em grupos mutantes, estudos de qPCR detectaram um aumento de mRNA livre no soro de crianças com autismo.

* CFLAR: Este gene apresenta um padrão de expressão específico em neutrófilos, sugerindo que ele pode servir como um biomarcador para a patogênese do TEA. A alta infiltração de neutrófilos combinada com a atividade do CFLAR pode aumentar a probabilidade de ocorrência do transtorno durante o desenvolvimento fetal.

* TECPR2, FRAT2 e MME: Completam o grupo de genes centrais identificados como alvos promissores para terapias personalizadas.

Quer saber mais? Inscreva-se no curso genômica visual. Teremos aula sobre o sistema imune no TEA dia 18/04.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Imunogenética no transtorno do espectro autista (TEA)

Em 2015 estava trabalhando nos EUA e nos atendimentos de mães de filhos no espectro do autismo começamos a notar um padrão. Muitas dessas mães tinham alterações imunes em maior frequência: lúpus, tiroidite de Hashimoto, artrite reumatoide, psoríase...

De lá para cá apareceram estudos em imunogenética no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Embora o TEA tenha uma forte componente genética, os genes tradicionalmente ligados às sinapses não explicam todo o quadro. Mas aí, os pesquisadores começaram a investigar os reguladores genéticos imunológicos.

As evidências apontam para três classes principais de genes associados (Arenella et al., 2023):

1. Processamento e apresentação de antígenos: Destacam-se os genes HLA (como HLA-DRB1 e DQB1), fundamentais na comunicação celular e plasticidade neuronal. Já o HLA-G é crucial na tolerância entre mãe e feto durante a gravidez.

2. Regulação imunológica: Genes como o VDR (receptor de vitamina D) e FOXP3 controlam a sinalização de células T e a homeostase neuroimune.

3. Sinalização de citocinas: Variações em genes como IL-1β, IL-6 e IFN-γ influenciam respostas inflamatórias que podem afetar o cérebro em desenvolvimento. A função desses genes vai além da imunidade; eles regulam a migração neuronal, a formação de sinapses e a poda sináptica.

A expressão desses genes é predominante no período pré-natal tardio e na primeira infância, janelas críticas para a organização cerebral. Se o sistema de "fiscalização" do cérebro (microglia) estiver desregulado por fatores genéticos ou ambientais, ele pode remover conexões em excesso, alterando a conectividade cerebral.

Estudos de transcriptômica mostram uma upregulação (hiperatividade) de genes imunológicos no sangue e em áreas cerebrais como os córtices frontal e temporal de indivíduos autistas. Esse estado pró-inflamatório persistente pode ter origem na programação fetal onde o ambiente uterino molda o sistema imune para o resto da vida.

Além disso, a maior vulnerabilidade masculina pode estar ligada ao cromossomo X, que abriga muitos genes do sistema imune, e ao efeito da testosterona, que pode exacerbar essas variações.

Compreender esses mecanismos permite identificar subgrupos clínicos, entender melhor o autismo regressiv e abre caminho para intervenções personalizadas que visem o equilíbrio neuroimunometabólico.

No dia 18/04 a @dralucianemartignoni irá presentear os alunos de genômica visual com uma aula sobre a imunologia no autismo. Para participar inscreva-se no curso genômica visual.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/