Radicais livres e fígado gorduroso

Você já ouviu falar de NAFLD: doença hepática gordurosa não alcoólica? A NAFLD é caracterizada por acumulação de gordura no fígado (esteatose) em ausência de consumo excessivo de álcool, e está associada a resistência à insulina, alteração no metabolismo lipídico e stress oxidativo. Atualmente a sigla NAFLD tem sido substituída por duas outras: MASLD e MASH.

MASLD (Metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease). É a fase inicial. Acúmulo de gordura no fígado associado a disfunção metabólica.

MASH (Metabolic dysfunction-associated steatohepatitis). É a progressão inflamatória. Há lesão celular, inflamação e risco de fibrose.

A mudança de nome não é cosmética. Ela reflete o entendimento atual: o problema central não é o álcool ou mesmo a gordura. É a disfunção metabólica.

Antes se pensava assim:

  • gordura/álcool → inflamação → doença hepática

Hoje o modelo é este:

  • disfunção metabólica → desequilíbrio redox → alteração enzimática → acúmulo de gordura → inflamação → mais disfunção metabólica

Regulação redox das enzimas no metabolismo lipídico

O fígado desempenha um papel central no metabolismo das gorduras: síntese de ácidos gordos, esterificação em triglicerídeos, oxidação (β‑oxidação) etc. O estado redox (ex: razões NADH/NAD⁺, NADPH/NADP⁺, GSH/GSSG) modula actividade de várias enzimas envolvidas. Por exemplo, excesso de equivalentes redutores (muito NADH) pode suprimir β‑oxidação, favorecer lipogénese.

O estado redox é a relação entre:

  • NADH / NAD⁺

  • NADPH / NADP⁺

  • GSH / GSSG

Isso define:

  • produção de energia

  • oxidação de gordura

  • síntese de gordura

  • resposta inflamatória

  • sensibilidade à insulina

Não é detalhe bioquímico. É controle metabólico.

Quando há:

excesso de equivalentes redutores (especialmente NADH)

acontece:

  1. redução da β-oxidação

  2. aumento da lipogênese

  3. aumento de ROS

  4. resistência à insulina

Isso cria o ambiente perfeito para MASLD.

Modificações pós‑translacionais dependentes de redox

O stress oxidativo pode levar a modificações irreversíveis ou semi‑irreversíveis em proteínas (carbonilação, aductos com 4‑HNE, etc) que afectam a função normal das enzimas/metabolismo.

O desequilíbrio redox pode afectar a sensibilidade à insulina. Por exemplo, oxidação de ácido palmítico (vs oleico) leva a aumento de ROS, activação de JNK e inibição da sinalização da insulina.

A acumulação de gorduras no fígado (esteatose) e a resistência à insulina parecem mutuamente relacionadas, mas o mecanismo exacto está ainda por definir — o artigo sugere que o redox desequilibrado pode estar entre os elos de ligação.

Controladores transcricionais / receptores nucleares (NRs) como sensores redox e reguladores do metabolismo lipídico

Receptores nucleares como Peroxisome proliferator-activated receptors (PPAR α/γ/δ), Sterol regulatory element-binding proteins (SREBP), AMP-activated protein kinase (AMPK), Liver X receptors (LXR) e Farnesoid X receptor (FXR) surgem como choke‑points: regulam síntese/oxidação lipídica e são influenciados por ligandos lipídicos, mas também pelo estado redox.

  • Exemplo: H₂O₂ diminui a expressão de PPARα/γ (reduzindo β‑oxidação) e activa SREBP1c (aumentando lipogênese).

Portanto, os receptores nucleares podem actuar como sensores redox/metabólicos — transformando sinais de stress oxidativo em alterações no metabolismo lipídico.

Hoje, os principais alvos terapêuticos em MASLD/MASH são:

  • PPAR (α, γ, δ)

  • FXR

  • THR-β (receptor de hormona tiroideia)

  • AMPK

Esses receptores controlam:

  • oxidação de gordura

  • inflamação

  • sensibilidade à insulina

  • fibrose

E todos são regulados por estado redox. Estudos recentes mostram isso de forma direta:

  • Receptores nucleares regulam metabolismo lipídico, glicose, inflamação e fibrose, sendo considerados alvos terapêuticos promissores em MASLD.

  • Agonistas de PPAR estão em ensaios clínicos e demonstram melhora metabólica e hepática em pacientes com doença hepática metabólica.

Em 2024, foi aprovado o primeiro medicamento específico para MASH: o Resmetirom.

Mecanismo:

  • ativa THR-β

  • aumenta oxidação de ácidos gordos

  • reduz gordura hepática

Resultados:

  • cerca de 26 a 30% dos pacientes tiveram resolução da inflamação hepática em 52 semanas, versus cerca de 10% no placebo (Zhou et al., 2025).

Isso é uma prova clínica de conceito: modular receptores nucleares funciona

Defesas antioxidantes, terapêutica e implicações clínicas

O fígado possui mecanismos antioxidantes (ex: SOD, catalase, glutationa) que ficam comprometidos nas doenças do fígado. A acumulação de colesterol livre, por exemplo, pode esgotar a glutationa mitocondrial e predispor a lesão hepática.

Reforçar as defesas antioxidantes ou modular os receptores nucleares/­vias metabólicas redox‑dependentes aparece como alvo promissor para cuidados como fígado (Tauil et al., 2024).

Estudos mostram que compostos antioxidantes:

  • reduzem inflamação

  • melhoram função mitocondrial

  • modulam expressão génica metabólica

Especialmente polifenóis, flavonoides, compostos fenólicos dos alimentos, que atuam em:

  • PPAR

  • NF-κB

  • AMPK

  • Nrf2

Os fitocompostos podem atuar como compostos preventivos ou podem fornecer tratamento natural e complementar os tratamentos existentes para MAFLD e outras doenças hepáticas, como a esteatose. Os resultados dos ensaios clínicos incluídos mostram que esses compostos, em comparação com o placebo, podem alcançar o seguinte:

  • Reduzir o peso corporal, o IMC, a circunferência da cintura, os índices de gordura visceral e a massa de gordura abdominal visceral e subcutânea;

  • Diminuir o colesterol total plasmático, os triglicerídeos e o LDL-c;

  • Reduz as concentrações plasmáticas de LDL-c oxidado aterogênico;

  • Reduz a hemoglobina glicada, a glicemia, a resistência à insulina e o índice HOMA;

  • Reduz os níveis plasmáticos de leptina (bem como a relação leptina-adiponectina);

  • Reduz a excreção urinária de 8-isoprostano;

  • Reduz a indução de NF-κB;

  • Reduz os níveis séricos de citoqueratina-18 e kisspeptina;

  • Reduz os níveis de interleucinas pró-inflamatórias, como IL-1β, IL-6, IL-18 e TNF-α;

  • Diminui a expressão de mRNA do inflamassoma NLRP3 (caspase-1, IL-1β e IL-18) em células mononucleares do sangue periférico;

  • Reduz a pressão arterial sistólica e diastólica;

  • Melhora os níveis de HDL-c e adiponectina;

  • Melhorar a relação de atenuação entre fígado e baço na tomografia computadorizada;

  • Melhorar a dilatação mediada pelo fluxo e a espessura da íntima-média da carótida;

  • Diminuir o conteúdo de gordura hepática, o índice de esteatose e o nível de fibrose;

  • Melhorar os marcadores de fibrogênese.

  • Reduzir significativamente gama-GT, AST e ALT;

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

A doença hepática é, na verdade, um problema de todo o metabolismo

Quando o fígado acumula gordura e entra em disfunção, ele começa a alterar o equilíbrio de todo o organismo. Passa a libertar mais lipídios para o sangue, aumenta a inflamação e contribui para a resistência à insulina. Esse conjunto de alterações não fica limitado ao fígado. Ele “espalha-se” e impacta outros tecidos.

No coração, isso traduz-se em maior risco de aterosclerose, enfarto e insuficiência cardíaca. Muitas vezes, esse risco cardiovascular é mais relevante do que a própria progressão da doença hepática. No músculo, o excesso de gordura e a resistência à insulina dificultam o uso de glicose, favorecendo perda de massa muscular e piora do metabolismo. Nos rins, o ambiente inflamatório e a lipotoxicidade contribuem para declínio progressivo da função renal.

Células doentes apresentam:

  • aumento da lipogênese de novo, processo metabólico que converte excesso de carboidratos em proteínas em gordura, especialmente no fígado e tecido adiposo

  • alteração na composição de fosfolípidos de membrana

  • uso de lipídios como fonte de energia e sinalização

O excesso ou desequilíbrio lipídico leva a:

  • stress oxidativo

  • inflamação

  • disfunção mitocondrial

Alterações lipidômicas estão associadas a:

  • crescimento tumoral

  • invasão e metástase

  • angiogênese

  • inflamação

MASLD e MASH não são só doenças do fígado

MASLD (Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica) e MASH (Esteato-hepatite Associada à Disfunção Metabólica) são termos novos e mais precisos para doenças hepáticas gordurosas anteriormente conhecidas como NAFLD e NASH.

  • afetam coração, músculo e rins

  • fazem parte de um problema metabólico global

MASLD (Doença Hepática Esteatótica): Frequentemente, esta é a fase inicial em que o excesso de gordura (esteatose) se acumula nas células do fígado. Muitas vezes é assintomática, mas está associada a condições metabólicas como obesidade, diabetes tipo 2 e colesterol alto.

MASH (Esteato-hepatite): Esta é a forma grave de MASLD, em que a gordura causa inchaço (inflamação) e danos significativos no fígado. Afeta cerca de 13% das pessoas com MASLD. Sem tratamento, a MASH pode causar fibrose (cicatrização) e levar a doença hepática avançada (cirrose).

Ambas as condições são melhor controladas com mudanças no estilo de vida, principalmente uma dieta saudável e aumento da atividade física para reduzir o peso.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Lipidômica: estrutura, função e impacto clínico do lipidoma humano

Os lipídios constituem uma das classes moleculares mais dinâmicas da biologia humana. Muito além de simples reserva energética, participam de organização de membranas, sinalização celular, regulação inflamatória e controle metabólico sistémico.

O conjunto total de lipídios de um sistema biológico é denominado lipidoma.

O que é o lipidoma

O lipidoma corresponde ao conjunto completo de lipídios presentes em:

  • membranas celulares

  • tecidos

  • fluidos biológicos

  • organismo como sistema integrado

Os lipídios são componentes fundamentais da arquitetura celular e da comunicação bioquímica. O lipidoma é altamente dinâmico e reflete o estado metabólico em tempo quase real.

O lipidoma é uma subfração do metaboloma, que inclui também:

  • aminoácidos

  • carboidratos

  • nucleotídeos

  • metabólitos intermediários

🧪 O que é lipidômica

A lipidômica é o campo da metabolômica dedicado ao estudo em larga escala dos lipídios em sistemas biológicos.

Inclui:

  • identificação de espécies lipídicas

  • quantificação de classes e subclasses

  • análise de vias metabólicas lipídicas

  • estudo de redes de interação entre lipídios, proteínas e outros metabolitos

A lipidômica investiga não apenas composição, mas também organização funcional e dinâmica metabólica dos lipídios.

Complexidade do sistema lipídico

O metabolismo lipídico envolve milhares de moléculas interagindo em redes integradas:

  • fosfolípidos estruturais

  • esfingolípidos regulatórios

  • triglicerídeos energéticos

  • eicosanoides sinalizadores

  • colesterol e derivados

Essas moléculas interagem com proteínas de membrana, enzimas e mediadores metabólicos, formando sistemas altamente regulados.

🔬 Lipidômica e tecnologia analítica

A análise lipidômica moderna depende de tecnologias de alta resolução, incluindo:

  • espectrometria de massas (LC-MS/MS)

  • cromatografia líquida

  • ressonância magnética nuclear

Essas técnicas permitem detecção de centenas a milhares de espécies lipídicas simultaneamente, com elevada precisão estrutural.

Lipidoma e metabolismo humano

O lipidoma reflete diretamente:

  • padrão alimentar

  • digestão e absorção de gorduras

  • atividade enzimática hepática

  • estado inflamatório

  • integridade mitocondrial

  • composição de membranas celulares

Assim, alterações no lipidoma estão associadas a disfunções metabólicas sistémicas.

🫀 Lipídios e doença metabólica

A disfunção do metabolismo lipídico está implicada em múltiplas condições:

  • doença cardiovascular aterosclerótica

  • resistência à insulina e síndrome metabólica

  • doença hepática gordurosa

  • neurodegeneração

  • inflamação crónica de baixo grau

  • alterações imunometabólicas

A lipidômica permite identificar assinaturas moleculares associadas a esses estados antes mesmo de alterações clínicas clássicas.

🧬 Nutrição e modulação do lipidoma

O lipidoma é altamente sensível ao ambiente nutricional.

A composição dietética influencia diretamente:

  • perfil de ácidos gordos incorporados em membranas

  • produção de mediadores inflamatórios lipídicos

  • fluidez e função das membranas celulares

  • sinalização metabólica intracelular

Alterações alimentares podem, portanto, modificar estrutura e função lipídica de forma mensurável.

A lipidômica representa a integração entre:

  • estrutura molecular dos lipídios

  • função biológica sistémica

  • expressão metabólica individual

  • resposta nutricional

O lipidoma é dinâmico e altamente sensível ao ambiente, tornando-se um marcador central da fisiologia e da doença metabólica contemporânea. Aprenda muito mais nos cursos de saúde de precisão.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/