O que o sistema imune tem a ver com o autismo? 🧩🧬

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição multifatorial onde a genética e o ambiente se entrelaçam, mas a ciência está revelando um terceiro pilar fundamental: a imunogenética.

Estudos recentes mostram que o sistema imunológico de muitas crianças autistas opera de forma diferente, apresentando frequentemente desregulação imune, com:

1. Estado Inflamatório Persistente: Citocinas como IL-6 e TNF-α estão frequentemente elevadas em crianças com TEA. A IL-6, especificamente, possui uma forte correlação positiva com a gravidade dos sintomas na escala CARS; ou seja, quanto maior o nível dessa citocina, mais severos tendem a ser os déficits sociais e comportamentais.

2. O "Viés Th2": O sistema imune parece estar "desequilibrado". Enquanto há um aumento de mediadores inflamatórios, observa-se uma diminuição de citocinas como o IFN-γ (interferon-gama) dentro das células de defesa. Isso sugere uma resposta imune inclinada para o perfil Th2, que pode inibir a ativação imunológica celular necessária (Th1).

3. Células NK e Defesa: Um achado intrigante é que as células NK (Natural Killer), nossas "sentinelas", podem estar em número normal, mas sua capacidade de ataque (citotoxicidade) está reduzida. Essa falha funcional também se correlaciona com a gravidade do autismo e pode aumentar a vulnerabilidade a infecções.

4. Deficiência de Anticorpos: Muitos indivíduos com TEA apresentam níveis mais baixos de IgG e IgM, indicando uma possível deficiência na imunidade humoral seletiva.

5. Genética: Essas alterações não são aleatórias; elas refletem uma predisposição genética que afeta como as citocinas sinalizam e como o cérebro se organiza durante o desenvolvimento.

Entender esses marcadores permite que a ciência identifique subtipos biológicos de autismo. Isso abre portas para intervenções personalizadas, focadas em equilibrar o sistema imunológico e reduzir a neuroinflamação.

Identificação de biomarcadores genéticos no TEA

Este é um dos maiores desafios no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em um estudo de 2024, usando abordagem de bioinformática e aprendizado de máquina (machine learning), pesquisadores isolaram 6 genes centrais (hub genes) que apresentam extraordinário potencial diagnóstico e terapêutico: IGF2R, UBN1, TECPR2, CFLAR, FRAT2 e MME.

A relevância desses genes está fortemente ligada à sua interação com o sistema imunológico, especialmente com a infiltração de neutrófilos, sugerindo que muitos casos de TEA possuem raízes profundas na desregulação neuroimune.

Funções dos principais genes identificados

* IGF2R (Receptor de IGF-II): Conhecido como "receptor de limpeza", sua função primária é estabilizar os níveis locais de IGF através da degradação lisossômica. Ele regula a fosforilação oxidativa ao alterar o pH intracelular, afetando diretamente a expressão de fatores inflamatórios. Em crianças com TEA, os níveis de mRNA plasmático deste gene mostraram uma tendência significativa de redução.

* UBN1 (Ubinucleína 1): Este gene faz parte do complexo chaperona de histona HIRA e é crucial para a preservação das histonas alcalinas, desempenhando um papel vital no desenvolvimento intelectual. Curiosamente, embora o sequenciamento de célula única tenha mostrado níveis baixos em grupos mutantes, estudos de qPCR detectaram um aumento de mRNA livre no soro de crianças com autismo.

* CFLAR: Este gene apresenta um padrão de expressão específico em neutrófilos, sugerindo que ele pode servir como um biomarcador para a patogênese do TEA. A alta infiltração de neutrófilos combinada com a atividade do CFLAR pode aumentar a probabilidade de ocorrência do transtorno durante o desenvolvimento fetal.

* TECPR2, FRAT2 e MME: Completam o grupo de genes centrais identificados como alvos promissores para terapias personalizadas.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/