O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma desordem caracterizada por comprometimentos sociocomunicativos e comportamentos e interesses repetitivos (CIR). Já indivíduos com síndrome de Down (SD) apresentam uma trissomia do cromossomo 21 (T21), ou seja, ao invés de dois cromossomos 21, possuem 3. Isto leva a uma superexpressão de genes deste cromossomo.
O diagnóstico de TEA em indivíduos com T21 pode ser desafiador devido à necessidade de diferenciar entre fenótipos comportamentais relacionados à SD e aqueles relacionados ao TEA.
Estudos de expressão genômica sugerem uma resposta imune desregulada, estresse oxidativo aumentado e metabolismo mitocondrial anormal como bases moleculares comuns no TEA, na síndrome de Rett e na síndrome de Down.
A SD está associada a taxas aumentadas de TEA. As razões exatas para a alta comorbidade do transtorno do espectro autista (TEA) em indivíduos com síndrome de Down (SD) ainda estão sendo investigadas.
Uma hipótese sugere que indivíduos com SD e TEA concomitantes podem apresentar variantes genéticas adicionais, além da trissomia do cromossomo 21, que atuam como modificadoras do fenótipo, potencialmente levando ao desenvolvimento do TEA.
O TEA em indivíduos com SD está associado a maior comprometimento cognitivo e fenótipos comportamentais específicos, frequentemente exigindo abordagens diagnósticas personalizadas.
Uma revisão sistemática de 15 artigos encontrou uma prevalência de TEA em indivíduos com SD variando de 12% a 41% [1]. Da mesma forma, um estudo de grande escala baseado em questionário com 674 indivíduos com SD (com idades entre 4 e 18 anos) utilizando o Questionário de Comunicação Social relatou que 37% pontuaram no ponto de corte ou acima dele para TEA, e 17% atingiram o ponto de corte sugerido para autismo [9]. Estudos populacionais relataram taxas de prevalência variáveis: um estudo com 41 crianças e adolescentes com síndrome de Down (idade média de 11 anos) constatou que 42% atendiam aos critérios do DSM para transtorno do espectro autista (TEA) [2]. Outro estudo, que avaliou 123 crianças com síndrome de Down (idade média de 73,4 meses), estimou a prevalência ponderada de TEA total em 18,2% (IC 95%: 9,7%-26,8%) [4].
Estudos unicêntricos também mostram variações: um estudo com 83 indivíduos com síndrome de Down (idade média de 15,13 anos) constatou que aproximadamente 37% atendiam ao ponto de corte para classificação de TEA usando a Escala de Gravidade Calibrada do ADOS-2 [3]. Um estudo retrospectivo com 562 indivíduos com síndrome de Down (idade mediana de 10 anos) identificou 13% com diagnóstico concomitante de TEA [6]. Em um estudo transversal menor com 24 crianças com síndrome de Down (com idades entre 18 e 60 meses), a prevalência de diagnósticos duplos de síndrome de Down e transtorno do espectro autista (TEA) foi de 4,2% [5]. Entre adultos, um estudo utilizando dados do Medicaid de 2011 a 2019 constatou que, em 2011, 4,1% dos inscritos com síndrome de Down apresentavam autismo concomitante, aumentando para 6,6% em 2019 [10].
Características Clínicas e Triagem
Indivíduos com síndrome de Down e TEA concomitante frequentemente apresentam maior comprometimento cognitivo, tanto em medidas verbais quanto não verbais, em comparação com aqueles com síndrome de Down ou TEA isoladamente [7]. Apesar desses desafios cognitivos, os sintomas de TEA em indivíduos com síndrome de Down e TEA podem parecer menos graves do que naqueles com TEA isoladamente, embora os sintomas de afeto social sejam mais elevados em comparação com indivíduos com síndrome de Down isoladamente [7].
Os procedimentos de triagem são cruciais para a detecção precoce, sendo que instrumentos como a Lista de Verificação Modificada para Autismo em Bebês (M-CHAT) e o Questionário de Comunicação Social são altamente sensíveis em crianças com SD, embora possam resultar em muitos falsos positivos [1] [4] [5]. A identificação precoce e o diagnóstico oportuno, juntamente com a intervenção, podem beneficiar o desenvolvimento, a qualidade de vida e a inclusão social [1].
O comportamento autolesivo é mais prevalente em indivíduos com TEA (50%) em comparação com aqueles com SD (18,4%), e a presença de características fenomenológicas do TEA aumenta o risco de autolesão em indivíduos com distúrbios genéticos como a SD [11].
Estresse oxidativo na T21 e TEA
O estresse oxidativo é caracterizado pelo desequilíbrio entre a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) e a capacidade do organismo de neutralizá-las por meio de antioxidantes. Tanto no Transtorno do Espectro Autista (TEA) quanto na Síndrome de Down (SD), essa condição desempenha um papel central na fisiopatologia e no desenvolvimento de comorbidades.
Estresse Oxidativo na Síndrome de Down (SD)
Na Síndrome de Down, o estresse oxidativo é considerado uma marca registrada da condição.
Causa Genética: A trissomia do cromossomo 21 leva à superexpressão do gene SOD1, resultando em um desequilíbrio na atividade da enzima superóxido dismutase e no acúmulo de radicais livres.
Disfunção Mitocondrial: As células na SD apresentam alterações bioenergéticas significativas, frequentemente descritas como um estado "pseudohipóxico", com acúmulo de metabólitos como lactato, succinato e fumarato.
Consequências Clínicas: Esse estado oxidativo crônico contribui para o prejuízo cognitivo e motor, o envelhecimento precoce e o aumento do risco de doença de Alzheimer precocemente.
Biomarcadores Identificados: Pesquisas utilizando inteligência artificial identificaram baixos níveis de vitamina C e altos níveis de quinurenina e urato como marcadores importantes de estresse oxidativo na SD.
Estresse Oxidativo no Autismo (TEA)