Funções da Cisteína

A cisteína é um aminoácido que contém enxofre. Mesmo sendo descrito como um aminoácido “não essencial”, em condições de alta demanda de nutrientes, torna-se essencial. No fígado, uma via metabólica específica chamada transulfuração permite o fornecimento de cisteína pela conversão de um aminoácido essencial: a metionina. No entanto, esta interconversão de aminoácidos é insuficiente para fornecer as necessidades de cisteína das células cancerígenas que se dividem rapidamente.

Funções principais da cisteína

  1. Produção de queratina: Essencial para a saúde de cabelos, pele e unhas.

  2. Antioxidante: Contribui para a formação de glutationa, protegendo as células contra danos oxidativos.

  3. Saúde celular: Participa na desintoxicação de radicais livres e na regeneração celular.

  • Fontes alimentares:
    Alimentos ricos em proteínas, como carne, ovos, laticínios, peixe, nozes e sementes.

Reserva de cisteína

A cisteína é convertida em cistina oxidada extracelular que é importada às custas de uma molécula de glutamato. A cistina importada é então reduzida a cisteína pela cistina redutase (CR) (1). A cistina é composta por duas moléculas de cisteína ligadas por uma ponte dissulfeto e contribui para os níveis deste aminoácido em nosso corpo.

Pool de cisteína (Reserva de cisteína) - Daher, Vučetić, & Pouysségur, 2020

A conversão da metionina leva à síntese de cisteína através da via de transulfuração (2). Duas etapas importantes nesta síntese são a conversão de homocisteína em cistationina pela cistationina β-sintase (CBS) e a síntese de cisteína a partir de cistationina pela cistationase (CTH). A degradação da glutationa (GSH) via CHAC1 intracelularmente fornece fornecimento de cisteína (3). GSH, de fontes exógenas ou exportado de células via exportador de Proteína 1 de Resistência a Multidrogas (MRP1), é clivado extracelularmente pela γ-Glutamil transferase (GGT) formando substrato γ-Glutamil-X e Cisteinil-Glicina. Este dipeptídeo Cisteinil-Glicina pode ser potencialmente transportado via PEPT2 ou clivado pela dipeptidase liberando cisteína e glicina (5). A porção γ-Glutamil pode ser complexada com cisto(e)ina extracelular disponível, formando γ-Glutamil-cisteína. O fornecimento de cisteína do GSH é uma das principais funções do ciclo γ-Glutamil (4).

Importância da cisteína para a proteção cerebral

A partir do metabolismo da cisteína é produzida a glutationa (GSH), um tripeptídeo composto por três aminoácidos: glicina, cisteína e glutamato. É considerada um dos mais poderosos antioxidantes naturais produzidos pelo corpo.

  • Funções principais:

    1. Antioxidante: Neutraliza radicais livres, prevenindo danos às células.

    2. Desintoxicação: Ajuda na eliminação de toxinas e metais pesados no fígado.

    3. Sistema imunológico: Fortalece a resposta imunológica, protegendo contra infecções.

    4. Regeneração de outros antioxidantes: Como as vitaminas C e E.

    5. Proteção contra doenças: Reduz o risco de doenças crônicas associadas ao estresse oxidativo, incluindo as doenças neurodengerativas.

Como a glutationa é produzida?
A glutationa é sintetizada no fígado a partir dos aminoácidos cisteína, glicina e glutamato.

Síntese de glutationa - Legenda: AA, aminoácidos; Cys, cisteína; CysGly, cisteinilglicina; GCL, γ-glutamilcisteína ligase; GCT, γ-glutamil ciclotransferase; γGT, γ-glutamil transpeptidase; γGluCys, γ-glutamilcisteína; Glu, glutamato; Gly, glicina; G6PDH, glicose-6-fosfato desidrogenase; GPx, glutationa peroxidase; GR, glutationa redutase; GS, glutationa sintetase; GSH, glutationa; GSSG, dissulfeto de glutationa; GST, glutationa-S-transferase; H2O2, peróxido de hidrogênio; NADPH, fosfato de dinucleotídeo de nicotinamida adenina; 5-OP, 5-oxoprolina; 5-OPase, 5-oxoprolinase; ROH, álcool; ROOH, hidroperóxido.(Aoyama, & Nakaki, 2013)

Fontes alimentares de glutationa
A produção endógena é a principal via, mas pode ser aumentada pelo consumo de alimentos ricos em cisteína, como brócolis, alho, espinafre e carnes magras, ou através de suplementos de glutationa.

Fontes de cisteína na dieta por 100g de alimentos:

  • Peito de frango cozido - 1,3g

  • Carne de porco cozida - 1,1g

  • Carne de boi cozida - 1,1g

  • Queijo parmesão - 1,0g

  • Ovos cozidos - 1,0g

  • Peixe assado - 0,8g

  • Tofu - 0,6g

  • Amêndoas - 0,5g

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Creatina: Mais do que Apenas Músculos

A creatina, frequentemente associada ao crescimento muscular, também tem um impacto significativo na saúde cerebral. Este artigo explora as pesquisas mais recentes sobre o papel da creatina no cérebro:

Bioenergética Cerebral

  • Reservatório de Energia: A creatina atua como um reservatório de energia no cérebro, essencial para o funcionamento ideal.

  • Fontes de Creatina Cerebral: Obtida por meio da dieta, produção no fígado e síntese limitada em células cerebrais.

  • Barreira Hematoencefálica: O transporte pela barreira hematoencefálica é crucial, mas limitado.

  • Fatores que Influenciam: Dieta, idade e síntese endógena desempenham papéis importantes nos níveis de creatina no cérebro.

Siglas: ADP: Adenosina difosfato, ATP: Adenosina trifosfato, CRT: Transportador de creatina, MtCK: Quinase de creatina mitocondrial, NMR: Ressonância magnética nuclear, PCr: Fosfocreatina Candow et al., 2023

A creatina alcança o citosol por meio dos transportadores de creatina (CRT) na barreira hematoencefálica, nos neurônios e nas células oligodendrócitas, contribuindo para a manutenção dos níveis de ATP glicolítico. A creatina entra nas mitocôndrias por meio das quinases de creatina mitocondrial (MtCKs) e converte ATP em PCr por meio da fosforilação oxidativa. ATP e PCr podem circular das mitocôndrias de volta ao citosol, regulando as demandas de energia, o que pode, por sua vez, melhorar o metabolismo energético do cérebro.

Função Cognitiva

  • Estudos em Animais: Resultados promissores na melhoria da memória e aprendizagem, com alguns efeitos específicos por sexo.

  • Estudos em Humanos: Resultados mistos em indivíduos saudáveis.

  • Estresse e Cognição: Pode beneficiar a cognição em situações de estresse, como privação de sono e fadiga mental.

Lesão Cerebral Traumática (LCT)

  • Neuroproteção: A creatina pode ajudar a reduzir os danos cerebrais e melhorar a recuperação.

  • Ensaios Clínicos: Algumas evidências sugerem benefícios na redução de sintomas pós-LCT em crianças.

A eficácia da creatina no tratamento dos sintomas de depressão e ansiedade também é promissora, mas são necessários ensaios clínicos que examinem os efeitos da creatina (independentemente de intervenções farmacológicas) nesses transtornos de humor antes que um consenso possa ser alcançado.

Como usar a creatina?

Você pode consumir alimentos de origem animal ou suplementar. A quantidade de creatina natural presente em alimentos como carne vermelha e frango é relativamente baixa. Para atingir 5 g de creatina apenas pela alimentação, você precisaria consumir quantidades bastante elevadas, como:

  • Carne vermelha crua: Aproximadamente 1 kg contém cerca de 4 a 5 g de creatina.

  • Frango cru: Aproximadamente 1,1 a 1,5 kg para obter 4 a 5 g de creatina.

Raras pessoas consomem esta quantidade de carne ou frango ao dia. Por isto, usa-se a suplementação. Para melhor efeito o uso deve ser crônico, em geral após 3 semanas, com dose de 3 a 5g ao dia (ou 0,07g/Kg). A creatina monohidratada com selo creapure são mais confiáveis. Exemplos de marcas:

A creatina pode ser misturada à água, sucos ou shakes proteicos e consumida em qualquer hora do dia. Após a mistura deve ser bebida imediatamente. Contudo, se demorar um pouco não há problema. A conversão da creatina em creatinina na água é um processo gradual, e sua taxa depende de vários fatores, como temperatura, nível de pH e concentração. Aqui estão algumas diretrizes gerais com base em pesquisas disponíveis:

1. Temperatura

- Em temperatura ambiente (cerca de 20-25°C ou 68-77°F), a creatina pode permanecer relativamente estável por várias horas a um dia antes de ocorrer uma conversão significativa em creatinina.

- Em temperaturas mais altas, a taxa de conversão aumenta, então deixar a creatina em água quente ou em um ambiente quente acelerará o processo.

2. Nível de pH

- A creatina é mais estável em ambientes ácidos (pH abaixo de 7). Em um pH de 3-4, a creatina é muito estável e pode durar dias sem uma conversão significativa.

- Em pH neutro (cerca de 7) e em temperatura ambiente, cerca de 10-20% da creatina pode se converter em creatinina ao longo de um dia.

Para uso prático, misturar a creatina pouco antes do consumo é ideal para minimizar qualquer possível degradação. Se você precisar prepará-la com antecedência, armazená-la na geladeira pode ajudar a retardar o processo de conversão em creatinina.

Existe também uma nova tecnologia (clonapure) que tem um efeito mais imediato. É uma mistura de creatina monohidratada, fosfocreatina e fosfato. A saturação celular é 20 vezes mais rápida que a creatina monohidratada.

O clonapure está disponível para manipulação. As doses diárias variam de 1,8g a 3,0g ao dia. Precisa de ajuda? Marque aqui sua consulta online.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Gliose e neuroinflamação

A gliose é uma forma de resposta celular do SNC, caracterizada pela proliferação excessiva de células gliais, especialmente astrócitos. Essas células gliais se multiplicam para tentar reparar o tecido danificado ou inflamar, e formam uma cicatriz glial, que pode isolar a área lesionada.

A neuroinflamação e a gliose estão intimamente relacionadas, sendo que a gliose é, em muitos casos, uma consequência de processos neuroinflamatórios.

Neuroinflamação

A neuroinflamação é a resposta inflamatória no sistema nervoso central (SNC), que ocorre em resposta a lesões, infecções, disbiose intestinal, toxinas, ou distúrbios autoimunes. Essa inflamação é mediada principalmente por células do SNC, como astrócitos, microglia e oligodendrócitos. Em condições normais, a neuroinflamação é uma resposta protetora que visa reparar danos e combater agentes patológicos. No entanto, quando essa resposta é exacerbada ou crônica, pode levar a danos neuronais e contribuir para o desenvolvimento de várias doenças neurológicas.

Neuroinflamação (Welcome, & Mastoraskis, 2021). Medicamentos e fitoquímicos podem ajudar a combater a neuroinflamação.

Causas da Gliose

A gliose pode ser uma consequência de vários tipos de dano neuronal, incluindo:

  • Acidente Vascular Cerebral (AVC)

  • Esclerose Múltipla

  • Traumatismos cranianos

  • Doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson

  • Infecções do SNC

Relação entre Neuroinflamação e Gliose

A neuroinflamação é frequentemente um gatilho para a gliose. Quando ocorre uma inflamação no SNC, as células gliais (principalmente os astrócitos e a microglia) são ativadas para responder ao dano ou lesão. Essa ativação pode levar à:

  • Proliferação excessiva de astrócitos, formando uma cicatriz glial (gliose).

  • Liberação de substâncias inflamatórias, que podem danificar ainda mais os neurônios e criar um ambiente propenso à neurodegeneração.

  • Danos à barreira hematoencefálica e alterações no ambiente extracelular, que dificultam a recuperação do tecido cerebral.

Embora a gliose tenha a função de proteger e reparar o tecido neural, uma gliose crônica ou excessiva pode ser prejudicial, pois pode interferir na função neuronal e contribuir para o agravamento de doenças neurológicas.

Tratamento da Neuroinflamação e Gliose

Embora não haja tratamentos diretos para a gliose, o foco está em controlar a neuroinflamação e a condição subjacente que a causa. Algumas abordagens incluem:

  1. Medicamentos anti-inflamatórios:

    • Corticosteroides (em casos de inflamação aguda, como na esclerose múltipla) para reduzir a resposta inflamatória.

    • Imunomoduladores e imunossupressores em condições autoimunes como esclerose múltipla.

  2. Antioxidantes:

    • Substâncias que podem ajudar a reduzir o estresse oxidativo e a inflamação no cérebro.

    • Fitoquímicos como catequinas, ácido gálico, resveratrol, apigenina, ácido ferúlico, procianidinas, quercetina.

  3. Fármacos neuroprotetores:

    • Pesquisas estão sendo feitas para desenvolver medicamentos que possam proteger os neurônios e reduzir a gliose patológica associada a doenças neurodegenerativas.

  4. Terapias de reabilitação:

    • A fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional podem ajudar na recuperação funcional do sistema nervoso central em condições associadas a gliose e neuroinflamação.

  5. Estilo de vida saudável:

    • Dieta balanceada, exercícios físicos regulares e controle do estresse podem ajudar a reduzir os níveis de inflamação no cérebro e melhorar a saúde cerebral a longo prazo.

Dieta Cetogênica e Seus Efeitos no Cérebro

A dieta cetogênica tem sido estudada por seus efeitos no sistema nervoso, principalmente em relação a doenças neurológicas. Ela induz o estado de cetose, no qual o corpo queima gordura em vez de glicose como fonte primária de energia, produzindo corpos cetônicos (como o beta-hidroxibutirato, o principal combustível do cérebro nesse estado).

Alguns dos efeitos benéficos potenciais da dieta cetogênica no cérebro incluem:

  • Neuroproteção: Alguns estudos sugerem que a dieta cetogênica pode ter efeitos neuroprotetores, reduzindo o risco de lesões cerebrais e diminuindo a neuroinflamação.

  • Redução da inflamação: A dieta cetogênica pode ajudar a reduzir a inflamação no cérebro, um fator importante no desenvolvimento de gliose e em várias doenças neurológicas.

  • Estimulação da regeneração neuronal: Pesquisas indicam que a dieta cetogênica pode estimular a regeneração e proteção de neurônios, o que poderia reduzir o impacto da gliose.

Gliose e Dieta Cetogênica: Possíveis Conexões

Embora a pesquisa ainda esteja em andamento, há algumas maneiras pelas quais a dieta cetogênica pode influenciar a gliose:

  1. Redução da neuroinflamação: A neuroinflamação é um fator chave no desenvolvimento da gliose, e a dieta cetogênica tem demonstrado propriedades anti-inflamatórias. A redução da inflamação pode, teoricamente, diminuir a formação de gliose, especialmente em condições como esclerose múltipla, AVCs e lesões traumáticas cerebrais.

  2. Aumento de corpos cetônicos e neuroproteção: Os corpos cetônicos, especialmente o beta-hidroxibutirato, possuem propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes que podem proteger as células cerebrais contra danos, reduzindo a necessidade de uma resposta glial excessiva (gliose).

  3. Efeitos no metabolismo cerebral: A dieta cetogênica pode ajudar a melhorar o metabolismo cerebral em algumas condições neurodegenerativas. Isso pode ajudar a reduzir a quantidade de danos neuronais, o que, por sua vez, pode minimizar a ativação de células gliais e a formação de gliose.

  4. Possível papel na recuperação de lesões cerebrais: Em casos de lesões cerebrais ou AVCs, a dieta cetogênica pode acelerar a recuperação, reduzindo a inflamação e a formação de cicatrizes gliais excessivas. A neuroproteção proporcionada pela dieta pode reduzir o impacto de uma lesão e melhorar a função cerebral.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/