O que é café cetogênico (Bulletproof coffee)?

Em uma dieta cetônica, beber um café à prova de balas é uma das melhores maneiras de começar o dia. É quente, saudável, cremoso e saboroso. Faz parte da dieta cetogênica, aquela rica em gorduras e que promove a cetose.

O objetivo desta dieta é acabar com os estoques de carboidratos, reduzir a insulina e aumentar a queima de gordura, seja para o emagrecimento, seja para o tratamento do diabetes tipo 2, câncer ou Alzheimer.

Nos intervalos a pessoa pode beber chás e cafés sem açúcar puros ou adicionados de triglicerídeos de cadeia média. Este tipo de gordura é facilmente absorvido e chega rapidamente ao fígado para ser transformada em corpos cetônicos ou cetonas. Estas, possuem efeito antiinflamatório e neuroprotetor.

Outras pessoas combinam o café com manteiga, chantilly sem açúcar ou creme de leite. Contudo, estes alimentos são pobres em TCM e a produção de corpos cetônicos será mais lenta.

O TCM é um tipo de ácido graxo que é facilmente convertido em energia, aumentando a resistência e melhorando o metabolismo. Tenho vários artigos sobre o tema aqui no blog.

Se você procura sabor adicional e benefícios para a saúde, pode adicionar açafrão (antiinflamatório), cacau em pó (antioxidantes), colágeno (saúde dos ossos, articulações e pele) ou Maca (aumentador da libido e energia), no seu café. Você também pode realçar o sabor usando canela, gengibre ou noz-moscada.

Benefícios do café com TCM

O café é a bebida preferida de muitas culturas porque sua cafeína natural dá um impulso de energia que ajuda você a começar o dia. O problema de usar o café como um estimulante rápido é que ele é inevitavelmente seguido por um “crash”, uma queda, que ocorre quando os efeitos da cafeína desaparecem.

É por isso que muitas pessoas tomam tanto café ao longo do dia, o que não é ideal. Em uma dieta cetogênica, o café à prova de balas é preferido porque fornece mais do que um breve aumento de cafeína; ele fornece um nível de energia sustentado pelo TCM.

Outro benefício do café bulletproof é a saciedade. O TCM fornece uma boa dose de combustível, facilitando a espera até a hora do almoço ou um lanche no meio da manhã sem nenhuma repercussão. Com isso, você consegue reduzir mais facilmente pãezinhos e outros alimentos que elevam insulina.

Riscos da dieta cetogênica

Lembre-se de que com a dieta cetogênica você precisa se manter muito bem hidratado. O risco de pedras nos rins aumenta em até 5 vezes com a dieta cetogênica, nos pacientes que não hidratam-se bem. Desta forma, não devemos restringir fluidos e devemos suplementar também com eletrólitos para a prevenção da litíase renal. A correção da acidose também é fundamental para a diminuição do risco de cálculos de ácido úrico e cálcio. Suplementos contendo citrato neutralizam a urina e previne doenças nos rins.

Na dieta cetogênica o corpo joga fora um monte de sódio, o que pode reduzir a pressão arterial, gerar tontura, náuseas e mau estar. Não restrinja o sódio nesta dieta. O mesmo também ajuda a prevenir a gripe cetogênica.

Um excesso de gordura na dieta pode ser acompanhado de vômito, náusea, diarreia. A queda no consumo de carboidratos e fibras pode levar à constipação intestinal. Comece devagar e vá aumentando a dose de gordura e TCM mais lentamente. Se precisar, suplemente fibra em pó. Estes sintomas costumam ser resolvidos após 1 a 2 semanas com a cetoadaptação.

O LDL pode aumentar com o maior consumo de gordura. Por isso, é importante o corte de carboidratos para que os triglicerídeos desçam. LDL alto com triglicerídeo alto é uma bomba relógio. Quando os triglicerídeos diminuem, balanceiam o efeito do aumento do LDL. Falo sobre isto no artigo sobre os biomarcadores de risco cardiovascular.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Vitamina D e sua saúde

O cálcio e a vitamina D são nutrientes essenciais para a saúde óssea, cuja depleção ou déficit resulta em complicações esqueléticas adversas. Esses nutrientes têm sido considerados críticos, a ponto de ensaios clínicos destinados a mostrar a eficácia dos medicamentos para osteoporose sistematicamente incluem vitamina D e cálcio como parte do regime de tratamento.

Durante o desenvolvimento esquelético, o cálcio e a vitamina D exercem papéis críticos. A deficiência de vitamina D na infância é considerada um importante problema de saúde pública em todo o mundo.

A vitamina D pode ser sintetizada na epiderme pela ação da radiação ultravioleta B ou obtida exogenamente, via alimentação ou suplementos. Após chegar ao fígado, a vitamina D sofrerá, nos hepatócitos, por meio de uma reação catalisada pela enzima 25-hidroxilase, uma hidroxilação no carbono 25, convertendo-se em 25-dihidroxivitamina D (25-OHD).

O 25-OHD é convertido em várias células, pela ação da enzima 25-hidroxivitamina D ou 1-α-hidroxilase (CYP27B1) em 1α,25-dihidroxi-vitamina D (1α,25(OH)2D), que regula muitas funções não só nas células de origem, mas também em células vizinhas ou outros tecidos. Tanto 25-OHD quanto 1α,25(OH)2D são oxidados por hidroxilases (primeiro para CYP24A1 e depois para CYP3A4) e os metabólitos resultantes podem ser excretados.

Isso significa que qualquer coisa que aumente a expressão dessas enzimas pode contribuir para a deficiência de vitamina D. Alguns medicamentos e extratos vegetais podem levar à deficiência de vitamina D, pois estimulam aumento da CYP24A1.

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A falta de vitamina D interfere na absorção de cálcio. Além do efeito no intestino e ossos, a vitamina D regula a homeostase da mucosa intestinal, mantendo a integridade da barreira epitelial e, portanto, a translocação de metabólitos microbianos para o hospedeiro. Essa regulação também influencia a maturação do sistema imunológico e as respostas inflamatórias.

Pessoas com câncer não devem ir para quimioterapia ou cirurgia com vitamina D baixa pois o resultado será pior. A suplementação ajuda também neste caso. Fora isso, também melhora a composição intestinal. Um estudo mostrou que a suplementação de vitamina D em meninas adolescentes (ou seja, 9 doses semanais de 50.000 UI) resultou em um aumento de Firmicutes, Bifidobacterium e Enterococcus e uma diminuição de Bacteroidetes e Lactobacilos.

Indiretamente, melhorar a microbiota, melhora a saúde óssea. Quando a microbiota é mais estável e saudável há maior produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC). Estes ácidos graxos, produzidos pelas bactérias intestinais, ajudam a melhorar a absorção de cálcio em humanos.

O livro de Michael F. Holick, "Vitamina D", é considerado uma referência essencial sobre o tema. Ele oferece informações detalhadas sobre a importância da vitamina D, como obtê-la e como ela pode melhorar a saúde.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Microbiota intestinal e saúde óssea

Nos últimos anos, a ciência tem revelado algo fascinante: nossos ossos não são apenas sustentação estrutural, mas também protagonistas em uma complexa rede de interações metabólicas, hormonais e imunológicas — muitas das quais passam diretamente pelo intestino.

Cálcio, fósforo e diversidade microbiana

Estudos em modelos animais têm demonstrado que a suplementação de cálcio pode promover um aumento significativo na diversidade da microbiota intestinal, estimulando especialmente o crescimento de bactérias benéficas como Bifidobacterium sp., Ruminococcaceae e Akkermansia. Em humanos, a combinação de 1000 mg de cálcio e fósforo por dia, durante 8 semanas, levou ao aumento da fração Clostridium XVIII nas fezes — um indicativo de uma microbiota mais ativa e possivelmente mais saudável.

Vitamina K: mais que um coadjuvante na saúde óssea

Além de seu papel tradicional na regulação da osteocalcina e na diferenciação celular óssea, a vitamina K também parece influenciar a estrutura mineral e orgânica do osso. Um estudo recente detectou uma queda nas formas microbianas da vitamina K em camundongos com resistência óssea comprometida — apontando uma conexão direta entre a microbiota, a produção desta vitamina e a robustez óssea.

O elo entre dieta e ossos mais fortes

Fibras fermentáveis, como galacto-oligossacarídeos e fruto-oligossacarídeos, alimentam bactérias intestinais que produzem ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) — como o butirato e o propionato. Esses compostos não só reduzem a inflamação como também reprogramam o metabolismo dos osteoclastos (células que reabsorvem o osso), favorecendo a formação óssea. Em modelos animais, a administração de AGCC protegeu contra perda óssea induzida por inflamação e deficiência de estrogênio, além de estimular a produção de proteínas osteoprotetoras como OPG e sialoproteína óssea.

Mecanismos de regulação do metabolismo ósseo pela microbiota intestinal (Lyu et al., 2023).

Além dos AGCC outras substâncias também são importantes:

  • Poliaminas, sintetizadas por várias espécies bacterianas do intestino a partir de aminoácidos (como arginina e lisina), podem influenciar a proliferação de osteoblastos. Atuam como sinalizadores celulares, regulando crescimento e regeneração óssea.

  • H₂S (gás sulfídrico), produzido por algumas bactérias intestinais (como Desulfovibrio spp.), por meio da fermentação de aminoácidos sulfurados (como cisteína), tem efeito regulatório na remodelação óssea.

  • Ácidos biliares, produzidos no fígado, são modificados por bactérias (como Bacteroides, Clostridium, Lactobacillus e Bifidobacterium), que contém enzimas como BSH. Produzem ácidos biliares secundários que atuam como sinalizadores metabólicos que interagem com receptores como FXR e TGR5, influenciando:

    • Inflamação sistêmica,

    • Metabolismo ósseo,

    • Regulação hormonal.

Hormônios e microbiota

O eixo intestino-osso é altamente influenciado por hormônios:

  • IGF-1: Essencial para o crescimento ósseo, seus níveis são maiores em animais com microbiota intacta. AGCC são capazes de aumentar o IGF-1 circulante, sugerindo que bactérias intestinais modulam esse hormônio anabólico.

  • Estrogênio: O microbioma regula sua ativação via enzimas como a β-glicuronidase. Uma microbiota desequilibrada reduz os níveis circulantes de estrogênio, contribuindo para a osteoporose. Probioticos como Lactobacillus e Bifidobacterium longum demonstraram efeitos protetores em modelos de osteopenia.

  • Andrógenos: Ainda em investigação, mas estudos sugerem que o microbioma pode influenciar os níveis de DHT, um andrógeno importante na manutenção da massa óssea.

  • Paratormônio (PTH): também conhecido como hormônio da paratireoide, é um regulador central do metabolismo do cálcio e da remodelação óssea. Sua função mais clássica é o aumento da concentração de cálcio no sangue. Mas, estudos mostram que o efeito anabólico do PTH depende da presença de AGCC, produzidos pela microbiota.

Microbiota, inflamação e perda óssea

A perda óssea associada à inflamação — típica da menopausa e do envelhecimento — é fortemente influenciada pelo microbioma. Em estados de disbiose (desequilíbrio microbiano), ocorre um aumento da ativação de células T pró-inflamatórias (como Th17), que produzem citocinas osteoclastogênicas como IL-17, TNF-α e RANKL, favorecendo a perda óssea. A ativação de receptores imunes como NOD1/NOD2 e TLR5 por componentes bacterianos estimula citocinas pró-osteoclastogênicas (como TNF-α e RANKL), promovendo a perda de densidade mineral óssea (DMO). Intervenções probióticas ou dietéticas que modulam essa resposta podem oferecer estratégias terapêuticas inovadoras.

Exercício físico: benefícios além da musculatura

A prática regular de atividade física melhora a DMO e reduz inflamação — e parte desse efeito pode ser mediado por alterações na microbiota intestinal. Camundongos mais ativos mostraram aumento de Bifidobacteriaceae, bactérias associadas à proteção contra perda óssea.

Embora menos estudado que o eixo intestino-osso, o eixo intestino-músculo também é promissor. Camundongos livres de germes ou tratados com antibióticos apresentam menor massa muscular e pior desempenho físico. A inoculação com cepas probióticas específicas ou o transplante de microbiota de humanos fisicamente ativos restaurou parcialmente a função muscular nesses animais. Estudos clínicos, como os que investigam o Bacillus coagulans, podem abrir portas para novas intervenções no envelhecimento saudável.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/