Avaliação da dieta cetogênica

Embora a dieta cetogênica exista há décadas, somente nos últimos anos ela recebeu o reconhecimento e a popularidade que merece. Desde o tratamento de convulsões epilépticas em crianças até a estabilização de hormônios, auxílio na perda de peso, reversão do diabetes até prevenção da doença de Alzheimer.

Para estes benefícios a pessoa precisa ter alta quantidade de cetonas na corrente sanguínea. As cetonas (ou corpos cetônicos) são substâncias químicas produzidas no fígado e utilizadas como fonte de energia quando há restrição na ingestão de carboidratos e a glicose não é facilmente acessível.

Quando consumimos carboidratos produzimos insulina. A insulina impede a fabricação de cetonas. Em uma dieta com restrição de carboidratos o fígado produz corpos cetônicos, para serem utilizados como fonte alternativa de energia.

Os corpos cetônicos são produzidos no fígado a partir da oxidação de ácidos graxos, que são então transportados para os tecidos periféricos como fonte de energia. As cetonas são especialmente importantes para o cérebro, que não possui nenhuma outra fonte de energia não derivada da glicose.

A cetogênese é um processo que decompõe os ácidos graxos (gorduras) e resulta na produção de três corpos cetônicos principais:

  • Acetoacetato - primeira cetona formada. Será convertida em betahidroxibutirato e acetona. Avaliado na urina com fitas. eu uso a marca europeia Go-Keto.

  • Beta-hidroxibutirato - promove a cetoadaptação. É o principal tipo de cetona usado como fonte de energética. Avaliado em exame de sangue, a forma mais precisa e confiável de avaliar o teor de cetonas no corpo. Você está em cetose quando os níveis de beta-hidroxibutirato estão acima de 0,6 mmol/L. Contudo, a maioria das pessoas obtém os resultados mais favoráveis entre 1,5 – 3,0 mmol/L. Também tenho o aparelho da Go-Keto, que funciona muito bem. Mas quando estou com preguiça de furar o dedo, uso as tiras de urina ou o aparelho de avaliação respiratória.

  • Acetona - produto secundário do acetoacetato. É a cetona menos abundante e menos usada em seu corpo, principalmente eliminada através da respiração. É o exame menos preciso de todos, mas, se os níveis de cetona estiverem baixos, o teste respiratório pode ser uma medida precisa porque o nível deles se correlaciona com precisão com os níveis de cetona no sangue. No entanto, quando as cetonas no sangue começam a aumentar, o acetoacetato e o beta-hidroxibutirato tornam-se mais abundantes, deixando a acetona para trás. Eu uso o monitor respiratório Acetrack.

APARELHOS PARA MONITORAÇÃO DE GLICOSE E CORPOS CETÔNICOS (BETA-HIDROXIBUTIRATO) NO SANGUE:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Como manter-se na cetose com níveis mais altos de proteína e/ou carboidratos?

A dieta cetogênica é uma estratégia metabólica que facilita a entrada do corpo em cetose. Para tanto, preconiza a redução no consumo de carboidratos e proteínas e aumento da gordura. Com isso, há diminuição na secreção de insulina. Pode haver também diminuição do IGF-1, o que faz com que algumas crianças cresçam menos. Como muitas crianças com epilepsia refratária ao tratamento medicamentoso necessitam entrar em cetose para a o controle das convulsões, novas abordagens menos agressivas vêm sendo investigadas.

É importante dizer que a dieta cetogênica não é para sempre. A maior parte das crianças com epilepsia permanece no protocolo por 3 a 5 anos. Após este período o crescimento normal é retomado e a criança atinge a estatura esperada.

Outra opção é aumentar os níveis de corpos cetônicos de outras maneiras como introduzindo Triglicerídeos de Cadeia Média (TCM), sais ou cetonas exógenas na dieta. Sais de cetonas e ésteres de cetonas ainda não estão disponíveis em todos os lugares do mundo, mas o TCM sim. Além disso, o TCM é alternativa mais barata neste contexto.

Tipos de TCM

Existem quatro tipos diferentes de TCMs:

  • Ácido capróico (C6): é o mais eficiente na absorção e absorção, mas tem um cheiro e sabor bastante ruins, quando isolado. Presente naturalmente no óleo de palma e laticínios integrais.

  • Ácido caprílico (C8) ou ácido octanóico: ajuda a manter o intestino saudável. Rapidamente absorvido. Aumenta corpos cetônicos na corrente sanguínea 3 vezes mais rápido que C10 e 6 vezes mais rápido que C12. Cheiro e sabor melhores do que C6. Presente naturalmente em marcas de TCM e no óleo de coco.

  • Ácido cáprico (C10): ajuda a manter o intestino saudável. Rapidamente absorvido, contudo 3 vezes mais lentamente que C8. Mas, a mistura nos produtos é interessante para manter os níveis de corpos cetônicos mais constantes no plasma. Presente naturalmente em marcas de TCM e no óleo de coco.

  • Ácido láurico (C12): ajuda a manter a microbiota saudável. Tem ação antifúngica. Leva mais tempo para ser absorvido e pode elevar mais os níveis de colesterol plasmáticos do que C8 e C10. Disponível naturalmente no óleo de coco e nos laticínios integrais.

Destes, C8 e C10 são os mais associados à perda de peso e encontrados em marcas como:

Falei estudo com whey e TCM aqui. Discussão e passo a passo da dieta cetogênica terapêutica na plataforma t21.video.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Efeitos da obesidade no cérebro

A obesidade, a microbiota e a dieta podem afetar a memória. Por exemplo, a superalimentação no período neonatal pode levar a danos no hipocampo (principal estrutura envolvida nas tarefas de memória), causando microgliose nessa área após apenas 14 dias de superalimentação, que pode persistir na idade adulta. Por isso, gestantes devem passar por acompanhamento nutricional.

Em adolescentes, foram descritos prejuízos de memória após 4 semanas de dieta hipercalórica e cheia de açúcar e gorduras saturadas. Estas dietas interferem na microbiota saudável, no gasto de energia e são mais propensas a causar neuroinflamação. Adultos acima do peso, com um IMC maior que 25 kg/m2 apresentam pior desempenho em testes de função executiva do que adultos com IMC normal (18,5–24,9 kg/m2).

Já quando a dieta possui calorias adequadas (nem sobrando, nem faltando), fontes de gorduras saudáveis, fibras e probióticos, a cognição melhora. Um coquetel de diferentes probióticos (Bifidobacterium bifidum W23, Bifidobacterium lactis W52, Lactobacillus acidophilus W37, Lactobacillus brevis W63, Lactobacillus casei W56, Lactobacillus salivarius W24 e L. lactis W19 e W58) melhora cognição e o humor, reduz a ansiedade e depressão.

Ansiedade e Depressão na Obesidade

A ansiedade e a depressão são os transtornos mentais mais prevalentes nas sociedades desenvolvidas. Podem surgir como consequência de experiências adversas e má adaptação ao estresse. Além disso, existem associações bidirecionais com obesidade e distúrbios metabólicos (resistência insulínica, diabetes tipo 2, doença cardiovascular).

O estresse crônico também pode aumentar o consumo de alimentos contendo açúcar e ingredientes gordurosos como um mecanismo compensatório (comfort food) para reduzir a ansiedade relacionada ao estresse, o que pode levar a excessos alimentares e obesidade a longo prazo

Estudos de pesquisas epidemiológicas e clínicas em humanos também apóiam associações bidirecionais entre obesidade, padrões alimentares e distúrbios relacionados ao humor. A obesidade aumenta a neuroinflamação e o risco de aparecimento de depressão em 55%. Por sua vez, a depressão aumenta o risco de aparecimento de obesidade em 58%.

Comportamento Social e Obesidade

A ocitocina, um hormônio hipotalâmico que é secretado diretamente no cérebro e entra na circulação periférica através da hipófise posterior, regula uma série de processos fisiológicos, incluindo comportamento alimentar e metabolismo. Em roedores e primatas não humanos, a administração crônica de ocitocina leva à redução sustentada do peso, reduzindo a ingestão de alimentos, aumentando o gasto de energia e induzindo a lipólise. A ocitocina pode melhorar a homeostase da glicose, independentemente de seus efeitos sobre o peso (Lawson, 2017).

Quanto mais ocitocina, menos compulsão alimentar. Para aumentar naturalmente ocitocina, abrace, faça massagem, beije, passe tempo com os amigos, diga às pessoas o quanto gosta delas, faça yoga, ouça música, medite, brinque com o cachorro.

A produção de ocitocina e controle da compulsão também depende de uma série de nutrientes como aminoácidos, B6, zinco e ômega-3 na alimentação.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/