Não desperdice sua vida - Aceitação Radical

Não Desperdice Sua Vida é um podcast para quem deseja construir uma relação mais saudável consigo mesmo, com o corpo e com a comida. Apresentado por mim, une ciência, psicologia e reflexões práticas para fortalecer a autoestima e promover mudanças duradouras.

Os primeiros episódios acompanham a leitura do livro Aceitação Radical:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Aconselhamento genético: o que é, quando encaminhar

Se você trabalha com interpretação de painéis genômicos no consultório, provavelmente já viveu esse momento: o resultado aponta uma variante relevante, o paciente está ali, ansioso, esperando uma resposta — e existe uma linha, às vezes sutil, entre orientar com base em genética e fazer aconselhamento genético formal. Essa linha tem definição, tem história e tem implicação direta na sua prática clínica.

O que é, afinal, aconselhamento genético

A definição de referência é da National Society of Genetic Counselors (NSGC), publicada em 2006: aconselhamento genético é o processo de ajudar pessoas e famílias a compreender e se adaptar às implicações médicas, psicológicas e familiares da contribuição genética para uma doença.

Esse processo integra três eixos que acontecem simultaneamente:

  1. Interpretação de histórico familiar e médico, para estimar a chance de uma condição ocorrer ou recorrer;

  2. Educação sobre herança, testes disponíveis, manejo, prevenção e recursos de apoio;

  3. Aconselhamento propriamente dito, para promover escolhas informadas, apoiar a adaptação ao risco e facilitar a conversa com familiares que também podem estar em risco.

Ou seja: não é apenas entregar um laudo, não é apenas uma aula de genética, e — apesar da proximidade — também não é psicoterapia no sentido estrito.

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Aconselhamento genético não é psicoterapia

A relação entre conselheiro e paciente lembra a relação terapêutica uma vez que o objetivo também passa por proteger o bem-estar de quem enfrenta uma ameaça à saúde.

Ainda assim, se o paciente estiver em sofrimento psíquico será encaminhado à psicoterapia propriamente dita. Isto porque o aconselhamento genético concentra boa parte do tempo à transmissão de informação sobre genética, com menos ênfase no processamento de longo prazo do impacto emocional.

Uma origem que explica o princípio da não-diretividade

A prática de aconselhar famílias sobre traços hereditários começa no início do século 20, pouco depois de William Bateson cunhar o termo "genética". E é aqui que a história pesa: a hereditariedade foi rapidamente capturada pelo movimento eugenista. O que começou, em parte, com boas intenções teve consequências desastrosas — leis de esterilização compulsória em diversos estados americanos, restrições de imigração e, até 1939, a legalização da eutanásia de pessoas classificadas como "geneticamente defeituosas" na Alemanha.

É esse capítulo que explica por que o aconselhamento genético moderno é, por princípio, não-diretivo. O termo "genetic counseling" foi cunhado por Sheldon Reed em 1947, que publicou Counseling in Medical Genetics em 1955. O primeiro programa de mestrado da área nos Estados Unidos surgiu em 1969, no Sarah Lawrence College, e a Sociedade Norte-Americana de Conselheiros Genéticos (NSGC) foi fundada dez anos depois, em 1979.

O processo em cinco fases

O modelo clássico de sessão, proposto por Seymour Kessler em 1979, descreve cinco fases. A admissão e o acompanhamento acontecem fora do encontro presencial propriamente dito. No meio, temos:

  • Contato inicial — conselheiro e família constroem vínculo;

  • Encontro — diálogo sobre a natureza dos testes de rastreamento e diagnósticos disponíveis;

  • Resumo — apresentação de todas as opções e decisões possíveis para os próximos passos.

Se a família decide seguir com o teste, agenda-se um retorno para a entrega dos resultados — muitas vezes online, já que o processamento pode levar semanas. Existe também o modelo de engajamento recíproco, proposto por Veach, Bartels e LeRoy, que descreve princípios, metas e estratégias para conduzir o processo de forma mais colaborativa.

Quando encaminhar: os gatilhos ao longo da vida

Os momentos típicos de encaminhamento variam conforme a fase de vida:

  • Planejamento da gravidez — condição genética na família de qualquer um dos parceiros, histórico de infertilidade, abortos de repetição ou natimorto, gestação anterior afetada por malformação.

  • Durante a gestação — resultados alterados de exame de sangue, ultrassom, biópsia de vilo corial ou amniocentese, infecções maternas e exposições a medicamentos, drogas ou radiação.

  • Infância — alterações na triagem neonatal, malformações congênitas, sinais de transtorno do espectro autista ou outras deficiências de desenvolvimento, problemas de visão ou audição.

  • Vida adulta — e aqui está o que mais interessa a quem atua com nutrigenômica: síndrome hereditária de câncer de mama e ovário, síndrome de Lynch, hipercolesterolemia familiar, distrofias musculares, doença de Huntington e doenças hemolíticas hereditárias como a anemia falciforme.

O que cabe ao nutricionista atuando em nutrigenômica?

  • Explicar o mecanismo de herança de uma condição;

  • Desfazer medos desnecessários em quem não tem risco aumentado;

  • Orientar mudança de estilo de vida para quem herdou uma suscetibilidade — a hipercolesterolemia familiar é um exemplo direto.

Um detalhe de linguagem que muda a qualidade da consulta: trocar "risco" por "chance", "mutante" por "variante", e evitar a palavra "portador" — frequentemente confundida com "contagioso".

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Por que utilizar a metabolômica nos transtornos do neurodesenvolvimento?

Os transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), são condições complexas que resultam da interação entre fatores genéticos, epigenéticos e ambientais. Embora a genética ajude a identificar predisposição, ela não explica sozinha as alterações funcionais presentes em cada indivíduo.

É nesse contexto que a metabolômica ganha destaque. Essa ciência analisa centenas de metabólitos presentes em amostras biológicas, como urina, sangue, saliva e fezes, fornecendo um retrato do metabolismo em tempo real. Em outras palavras, mostra como genes, alimentação, microbiota, mitocôndrias, sistema imunológico e ambiente estão interagindo naquele momento.

Nos últimos anos, dezenas de estudos demonstraram que pessoas com TEA e TDAH apresentam perfis metabólicos distintos dos indivíduos neurotípicos, abrindo novas possibilidades para compreensão da fisiopatologia, estratificação de pacientes e desenvolvimento de abordagens mais personalizadas.

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Metabolômica no Transtorno do Espectro Autista

O TEA é o transtorno do neurodesenvolvimento com maior número de estudos metabolômicos publicados. Apesar da heterogeneidade clínica, diversos trabalhos identificam alterações recorrentes em vias metabólicas semelhantes.

Entre as alterações mais frequentemente encontradas estão:

  • metabolismo dos aminoácidos;

  • produção de energia mitocondrial;

  • metabolismo de ácidos graxos;

  • metabolismo das purinas;

  • estresse oxidativo;

  • metabolismo relacionado à microbiota intestinal.

Essas alterações sugerem que diferentes mecanismos biológicos podem contribuir para manifestações semelhantes do autismo.

Biomarcadores promissores

Um dos maiores avanços veio do projeto Children's Autism Metabolome Project (CAMP), que identificou diferentes metabotipos (subgrupos metabólicos) em crianças com autismo.

Foram utilizados metabólitos como:

  • lactato;

  • piruvato;

  • succinato;

  • glicina;

  • ornitina;

  • 4-hidroxiprolina;

  • relações envolvendo α-cetoglutarato.

Quando combinados em painéis, esses biomarcadores alcançaram aproximadamente 53% de sensibilidade e 91% de especificidade para triagem do TEA (Smith et al., 2020).

Diversos outros estudos também identificaram alterações consistentes envolvendo:

  • triptofano;

  • via das purinas;

  • metabolismo da glutationa;

  • função mitocondrial.

Mais recentemente, novos candidatos vêm sendo investigados, incluindo:

  • FAHFA (Fatty Acid Esters of Hydroxy Fatty Acids);

  • ácido DL-2-hidroxiestárico;

  • ácido docosapentaenoico;

  • adenosina;

  • octenoilcarnitina (C8:1).

Dependendo do biomarcador estudado, alguns apresentaram áreas sob a curva (AUC) variando entre 0,67 e 0,96, indicando potencial para futura aplicação clínica, embora ainda necessitem de validação.

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Metabolômica no TDAH

A literatura sobre metabolômica no TDAH é menor quando comparada ao autismo, mas cresce rapidamente.

Os estudos apontam alterações principalmente em:

  • aminoácidos;

  • catecolaminas;

  • metabolismo dos ácidos graxos;

  • melatonina;

  • via do triptofano-cinurenina.

Essas alterações são biologicamente coerentes com mecanismos envolvidos na atenção, impulsividade, comportamento e função executiva.

Biomarcadores em investigação

Um dos estudos mais promissores identificou um painel urinário composto por apenas três metabólitos:

  • FAPy-adenina;

  • ácido 3-metilazelaico;

  • fenilacetilglutamina.

Esse painel apresentou AUC de 0,918 para discriminar indivíduos com TDAH (Tian et al., 2022), resultado bastante promissor, embora ainda necessite de replicação em populações independentes.

AUC significa Área Sob a Curva (Area Under the Curve), geralmente referindo-se à curva ROC (Receiver Operating Characteristic).

É uma medida estatística utilizada para avaliar a capacidade de um biomarcador ou teste em diferenciar corretamente indivíduos com e sem uma determinada condição.

As vias metabólicas mais frequentemente alteradas incluem:

  • tirosina;

  • leucina;

  • metabolismo lipídico;

  • dopamina;

  • serotonina;

  • via da cinurenina.

Alterações compartilhadas entre TEA e TDAH

Apesar das diferenças clínicas, os estudos mostram que TEA e TDAH compartilham diversas alterações metabólicas.

Entre elas destacam-se:

  • aumento do estresse oxidativo;

  • disfunção mitocondrial;

  • alterações no metabolismo energético;

  • desequilíbrios de neurotransmissores;

  • alterações no metabolismo dos ácidos graxos;

  • alterações no metabolismo dos aminoácidos;

  • disfunções na via do triptofano-cinurenina.

Esses achados sugerem que parte dos mecanismos biológicos envolvidos nos dois transtornos pode ser comum, refletindo processos de neuroinflamação, alterações mitocondriais e resposta ao ambiente.

No entanto, o TEA apresenta uma base de evidências muito mais ampla, incluindo estudos em plasma, urina, saliva e fezes, além de metabólitos relacionados à microbiota, como ácido hipúrico e ácido salicilúrico.

A metabolômica já pode diagnosticar autismo ou TDAH?

A resposta é não. Apesar dos avanços, não existe atualmente nenhum teste metabolômico validado para diagnóstico clínico isolado do TEA ou do TDAH.

Os estudos mostram excelente potencial para:

  • identificar subgrupos biológicos (metabotipos);

  • compreender mecanismos fisiopatológicos;

  • auxiliar na estratificação de risco;

  • monitorar alterações metabólicas;

  • apoiar estratégias de medicina de precisão;

  • direcionar intervenções nutricionais e metabólicas individualizadas.

Entretanto, fatores como idade, sexo, genética, microbiota, alimentação, uso de medicamentos e comorbidades influenciam fortemente o metaboloma. Por isso, ainda são necessários estudos multicêntricos e protocolos padronizados antes que esses biomarcadores possam ser incorporados à prática clínica.

O futuro da metabolômica na medicina personalizada

A metabolômica representa uma das ferramentas mais promissoras da medicina de precisão aplicada aos transtornos do neurodesenvolvimento. Em vez de considerar todos os indivíduos com TEA ou TDAH como um grupo homogêneo, ela permite identificar diferentes perfis metabólicos, que podem responder de maneira distinta às intervenções nutricionais, farmacológicas e comportamentais.

Quando integrada à genômica, epigenômica, microbiômica e proteômica, a metabolômica amplia significativamente nossa compreensão sobre a biologia desses transtornos e aproxima a prática clínica de uma abordagem verdadeiramente personalizada.

Embora ainda não seja um exame diagnóstico, seu valor como ferramenta de investigação funcional cresce rapidamente e deverá ocupar um papel cada vez mais importante na pesquisa e no acompanhamento clínico dos transtornos do neurodesenvolvimento.

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Referências

  • Bradstreet JJ et al. (2010). A case-control study of urinary biomarkers in autism spectrum disorders.

  • Brister D et al. (2022). Plasma metabolomics in autism spectrum disorder.

  • Che X et al. (2023). Multi-biofluid metabolomics in autism.

  • Gevi F et al. (2016). Urinary metabolomics of autism spectrum disorder.

  • Jensen LK et al. (2022). Metabolomics in neurodevelopmental disorders.

  • Likhitweerawong N et al. (2021). Metabolic alterations in autism.

  • Liu Y et al. (2024). Novel plasma biomarkers for autism spectrum disorder.

  • Mohammedsaeed W et al. (2025). Oxidative stress and mitochondrial dysfunction in neurodevelopmental disorders.

  • Predescu DV et al. (2024). Metabolomics in ADHD: current evidence and future directions.

  • Priyanka P et al. (2025). Lipid biomarkers in autism spectrum disorder.

  • Ristori MV et al. (2020). Metabolomic signatures in autism spectrum disorder.

  • Smith AM et al. (2020). Children's Autism Metabolome Project (CAMP): metabolic subtyping of autism.

  • Smith AM et al. (2023). Autism metabolomics biomarkers: advances and limitations.

  • Tian R et al. (2022). Urinary metabolomic biomarkers for attention-deficit/hyperactivity disorder.

  • Xie G et al. (2024). Advances in metabolomics biomarkers for autism spectrum disorder.

  • Zhou Y et al. (2026). Emerging metabolomic biomarkers in autism spectrum disorder.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/