Inflamação materna e risco de TEA e TDAH

Infecção materna, obesidade, autoimunidade, disbiose ou inflamação sistêmica durante a gestação induzem “maternal immune activation” (MIA). Isso aumenta IL1b, IL-6, IL-17A, TNF-α e ativa microglia fetal (Han et al., 2021, Yin et al., 2024; Croen et al., 2023; Gardner et al., 2025).

A microglia ativada passa a expressar mais proteínas do complemento, especialmente C1q e C3. O sistema complemento, tradicionalmente associado à imunidade inata, também atua no cérebro regulando poda sináptica, plasticidade e homeostase neuronal. O cérebro em desenvolvimento usa esse sistema fisiologicamente para selecionar quais sinapses devem permanecer e quais serão eliminadas (Stevens, & Johnson, 2021) Marca sinapses fracas ou desnecessárias para eliminação por micróglias. Esse processo é fisiológico e essencial para a maturação dos circuitos neurais.

O C1q liberado favorece ativação da micróglia e pode aumentar a inflamação via NF-kB, elevando expressão de pro-IL e NLRP3. Isso desloca o metabolismo neural e glial para um estado glicolítico inflamatório, com aumento de lactato, disfunção mitocondrial e redução da eficiência oxidativa. O resultado é um eixo pro-apoptótico mediado pela neuroinflamação sustentada.

  • C1q “marca” sinapses imaturas ou pouco ativas.

  • C3b/iC3b opsoniza essas sinapses.

  • A microglia reconhece via CR3 e fagocita.

Isso é essencial para o neurodesenvolvimento normal. O problema surge quando há hiperativação crônica ou timing inadequado. Em modelos animais, excesso de C1q/C3 está associado a poda excessiva, perda sináptica excessiva e alteração de circuitos corticais (Gomez-Arboledas, Acharya, & Tenner, 2021).

A ativação aberrante do complemento está associada a múltiplas doenças neurodegenerativas e neuroinflamatórias:

  • Alzheimer

  • Esclerose múltipla

  • Traumatismo craniano

  • AVC

  • Infecção por Zika

  • Lesão por radioterapia cerebral

Os interneurônios GABAérgicos parecem particularmente vulneráveis porque amadurecem tardiamente e dependem muito de refinamento sináptico adequado. Modelos de ativação imune materna mostram (Gillespie et al., 2023):

• redução de parvalbumina, proteína ligadora de cálcio, altamente expressa em alguns interneurônios GABAérgicos rápidos do córtex e hipocampo. O resultado é a pior integração temporal de informação sensorial e cognitiva.
• alteração de GAD65/GAD67, enzimas de síntese de GABA a partir de glutamato.

  • GAD65 (GAD2): associado a terminais sinápticos e liberação rápida

  • GAD67 (GAD1): manutenção basal de GABA intracelular

Redução funcional de GAD implica em menor disponibilidade de GABA sináptico, redução de inibição tônica e fásica, maior excitabilidade de redes piramidais.
• defeito em interneurônios corticais, leva a redução de arborização dendrítica, falha de migração ou posicionamento cortical, redução da conectividade inibitória local.
• desequilíbrio excitação/inibição. Quando E/I aumenta há maior excitabilidade cortical, menor limiar de ativação sensorial, com vários efeitos sistêmicos possíveis:

  • déficit de atenção e menor controle inibitório

  • impulsividade

  • hipersensibilidade sensorial

  • labilidade emocional

  • maior carga de esforço cognitivo

  • pior consolidação de memória de trabalho

  • maior vulnerabilidade a estresse e privação de sono

Assim, a inflamação materna leva a uma microglia hiperreativa, com complemento aumentado, poda aberrante e circuitos GABAérgicos disfuncionais.

Sobre C4

C4 refere-se ao componente 4 do sistema complemento.

Via clássica do complemento

C4 liga-se a superfícies e facilita reconhecimento por fagócitos, forma o complexo C3, amplificando a cascata, participa da remoção de complexos antígeno-anticorpo na circulação.

A deficiência de C4 aumenta a autoimunidade, como no lúpus, leva a falha da depuração de imunocomplexos. Já o aumento da atividade de C4, especialmente no cérebro, está associado a aumento da poda sináptica, com implicações na esquizofrenia (Hogenaar, Bokhoven, 2021).

Os cuidados maternos para redução da inflamação são fundamentais na gestação. Além disso, o tratamento de carências nutricionais é imprescindível, uma vez que:

• deficiência de folato/B12 → metilação alterada
• aumento de homocisteína
• estresse oxidativo
• ativação microglial
• disfunção endotelial
• pior regulação imune

A deficiência de metilação também altera expressão gênica de proteínas regulatórias imunes. Portanto, o vínculo é mais epigenético/imunometabólico do que um bloqueio direto de “inibidores do complemento”.

Patógenos conseguem modular complemento e escapar da imunidade. Vários microrganismos:
• recrutam fator H
• degradam C3/C5
• reduzem opsonização
• alteram regulação imune

Isso pode perpetuar inflamação crônica de baixo grau e ativação microglial persistente.

Além disso, disbiose intestinal altera:
• permeabilidade intestinal
• LPS circulante
• IL-6/IL-17
• eixo microglia-intestino

e isso conversa diretamente com MIA e neuroinflamação (Han et al., 2021). Nos trantornos do desenvolvimento a imunidade pode estar alterado. Há suporte epidemiológico consistente para associação entre TDAH e doenças atópicas, inflamatórias e autoimunes. Não é causalidade única, mas correlação replicada em coortes grandes, meta-análises e estudos de registro.
Meta-análises e coortes populacionais mostram aumento de risco de TDAH em crianças com doenças atópicas.

Achados típicos:
• maior prevalência de TDAH em asma e rinite alérgica
• associação com dermatite atópica (eczema)
• relação dose-resposta em algumas coortes (mais doenças atópicas → maior risco de sintomas atencionais)

Estudos-chave:
Miyazaki et al. (2017), meta-análise: associação entre asma e TDAH
Schmitt et al. (2013), dermatite atópica e TDAH em coortes pediátricas
Nielsen et al. (2021), JAMA Psychiatry: doenças autoimunes maternas aumentam risco de TDAH
Walle et al. (2025), BMC Med: doenças autoimunes e inflamatórias maternas são associadas a maior risco de TDAH nos filhos

Os mecanismos propostos incluem:

• ativação mastocitária
• histamina cerebral
• citocinas pró-inflamatórias
• microglia ativada
• alteração dopaminérgica
• alteração GABAérgica
• permeabilidade intestinal (Aarts et al., 2017) e hematoencefálica (Sayed et al., 2024)

A microglia cronicamente ativada pode manter circuitos em estado “imaturo”. Isso ajuda a explicar hipersensibilidade sensorial, fadiga cognitiva, disfunção autonômica e maior vulnerabilidade ao estresse inflamatório.

Células do sistema imune possuem receptores GABA para conter a inflamação no sistema nervoso central (Tian, & Kaufman, 2023). A disfunção GABAérgica crônica associa-se a:
• maior excitotoxicidade
• menor sincronização cortical
• pior sono profundo
• aumento de neuroinflamação
• redução de plasticidade

Este artigo propõe que disfunção GABAérgica é um mecanismo central que liga envelhecimento, hiperatividade de redes neurais e declínio de memória episódica na doença de Alzheimer. Ou seja, a disfunção pode acelerar fenótipos de envelhecimento cerebral. Mais nos cursos de saúde de precisão.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Intestino e Saúde Mental: A Ciência por Trás da Relação entre a Microbiota e o Risco de Suicídio

A compreensão do comportamento suicida tem evoluído de uma visão puramente psicológica para um modelo multifatorial complexo, onde a biologia desempenha um papel determinante. Recentemente, a ciência começou a olhar para além do cérebro, encontrando no eixo intestino-microbiota-cérebro uma peça fundamental para entender a neuroinflamação e a saúde mental.

O Papel da Neuroinflamação

Estudos sugerem que a neuroinflamação central, caracterizada pela ativação excessiva das microglias (as células imunitárias do cérebro), está ligada a estados graves de depressão e comportamentos suicidas. Evidências de neuroimagem mostram um aumento do sinal de TSPO (um marcador de ativação microglial) em indivíduos com ideação suicida severa. Além disso, em pacientes com transtorno bipolar que morreram por suicídio, observou-se uma falha nos mecanismos de controlo desta inflamação, como a redução do marcador LAG3.

  • TSPO (Proteína Translocadora): Um marcador de ativação microglial detectado em exames de imagem (PET). O aumento do sinal de TSPO correlaciona-se com ideação suicida severa e afeto negativo.

  • LAG3: A redução da expressão deste marcador em microglias sugere uma falha nos mecanismos de controlo da ativação inflamatória cerebral em pacientes com transtorno bipolar que morreram por suicídio.

O Intestino como Fonte de Inflamação: O "Leaky Gut"

A origem desta inflamação cerebral pode estar, muitas vezes, no sistema digestivo. Quando ocorre um desequilíbrio na microbiota (disbiose), a integridade da barreira intestinal pode ser comprometida, resultando no que a ciência chama de permeabilidade intestinal ou "leaky gut".

Neste estado, substâncias que deveriam permanecer no intestino, como os lipopolissacarídeos (LPS) (componentes de bactérias), atravessam para a circulação sanguínea. A presença de LPS no sangue ativa o sistema imunológico e pode translocar-se para o sistema nervoso central, promovendo a produção de citocinas pró-inflamatórias (como a IL-6) e desencadeando a neuroinflamação.

  • Butirato (SCFA): Produzido pela fermentação de fibras, tem propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras. Baixos níveis de butirato são observados em pacientes depressivos e o seu desequilíbrio pode promover a neuroinflamação.

  • TMAO, p-cresol e Indoxil Sulfato: São metabolitos derivados da microbiota que podem atravessar a barreira hematoencefálica, causando neurotoxicidade, stresse oxidativo e ativação de microglias, o que está ligado a sintomas depressivos recorrentes.

A Importância dos Marcadores Biológicos

A identificação de marcadores específicos tem sido crucial para validar esta ligação. Estudos demonstraram que pacientes que tentaram suicídio recentemente apresentam:

  • Níveis elevados de I-FABP: Um marcador de dano nas células intestinais (enterócitos) que se correlaciona com a gravidade da ideação suicida.

  • Redução da Zonulina: Uma proteína essencial para manter a barreira intestinal "fechada".

  • Alterações nos Metabolitos: Baixos níveis de butirato (um ácido gordo de cadeia curta com propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras) e níveis elevados de substâncias neurotóxicas como o TMAO, p-cresol e indoxil sulfato.

A Via da Quinurenina: Onde o Stress se Torna Tóxico

Outro mecanismo biológico chave é a via da quinurenina. Em situações de inflamação e stress crónico, o corpo desvia o triptofano (necessário para produzir serotonina, a hormona do "bem-estar") para produzir metabolitos como o ácido quinulínico. Este ácido é um marcador de excitotoxicidade neuronal, estando elevado em indivíduos com comportamentos suicidas e contribuindo para o desequilíbrio químico no cérebro.

  • Ácido Quinulínico: Um marcador de excitotoxicidade neuronal que se encontra elevado em indivíduos com comportamentos suicidas,.

  • Ácido Quinurénico: Um metabolito neuroprotetor que se encontra tipicamente reduzido nestes pacientes

A identificação destes marcadores é fundamental porque reforça o modelo de que o comportamento suicida tem uma etiologia multifatorial com uma base neurobiológica plausível. Aprenda a avaliar marcadores genéticos e metabolômicos aqui.

Estilo de Vida: A Nossa Ferramenta de Prevenção

A boa notícia é que o eixo intestino-microbiota-cérebro é altamente influenciável pelo nosso estilo de vida. Fatores como a dieta e o exercício físico são moduladores primários da nossa microbiota:

  • Dieta "Prudente": O consumo elevado de vegetais, frutas, peixe e fibras (estilo Dieta Mediterrânica) favorece bactérias que produzem butirato, reduzindo a neuroinflamação e protegendo o cérebro.

  • Exercício Físico: O treino a longo prazo aumenta a diversidade microbiana e pode reduzir em 40% a 50% a translocação de endotoxinas para o sangue.

  • Sono e Stress: A privação de sono e o stress crónico rompem o equilíbrio da microbiota, alimentando o ciclo de inflamação sistémica.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Por que histamina tira o sono?

A histamina é uma molécula essencial para o organismo. Ela participa da resposta imune, da comunicação entre neurônios e de diversos processos fisiológicos.

O problema surge quando a produção ou a liberação de histamina ultrapassa a capacidade do corpo de metabolizá-la.Medicamentos anti-histamínicos causam sono. E a histamina tira o sono, pois atua em circuitos cerebrais relacionados ao estado de alerta, atenção e ativação do eixo HPA.

Em pacientes com hipervigilância, algo comum em muitas neurodivergências, pode ocorrer aumento da sinalização histaminérgica, mantendo o cérebro em estado de alerta e dificultando o início do sono.
Nem sempre seja falta de melatonina. Às vezes, o problema é excesso de vigília biológica.

Alguns genes envolvidos no metabolismo e na sinalização da histamina que podem ser analisados incluem:

• DAO (AOC1) — A diamina oxidase é responsável por degradar a histamina no meio extracelular, especialmente no trato gastrointestinal, atuando principalmente sobre a histamina proveniente da alimentação.

• HRH1 / HRH3 — receptores de histamina ligados à vigília e atenção

• MAOA — participa do metabolismo de monoaminas e pode influenciar vias relacionadas ao estresse e neurotransmissores.

• COMT regula catecolaminas e pode afetar a resposta ao estresse.

• Genes GST atuam em vias antioxidantes e de detoxificação.

• HNMT — Histamina N-metiltransferase é responsável por inativar a histamina dentro das células, com papel particularmente relevante no sistema nervoso central. Esse processo depende da disponibilidade de SAM-e (S-adenosilmetionina) como doador de metil.

Alterações em genes envolvidos em metilação, metabolismo do enxofre, detoxificação e regulação de neurotransmissores podem impactar indiretamente os níveis de histamina no organismo, incluindo.

• MTHFR — indiretamente relacionado ao metabolismo de metilação que impacta a via da histamina

• CBS participa da via de transulfuração e do metabolismo do enxofre.

Aprenda analisar exames genéticos e metabolômicos aqui.

Em alguns pacientes com dificuldade de iniciar o sono, investigar:
• hipervigilância
• dieta histaminérgica
• metabolismo da histamina
• ativação do eixo HPA

Por isso, em alguns pacientes, sintomas relacionados à histamina podem ter origem não apenas na alimentação, mas também em características metabólicas individuais.

A genética não determina doença, mas pode ajudar a compreender por que algumas pessoas são mais sensíveis a determinados gatilhos biológicos e ambientais.

doi: 10.1093/ajcn/86.3.775
doi: 10.3390/pharmaceutics12090865
doi: 10.3390/molecules24030447

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/