Alterações de ritmo circadiano no autismo

O artigo publicado na Translational Psychiatry investiga como a interação entre ritmos biológicos e metabolismo celular pode contribuir para a fisiopatologia do transtorno do espectro do autismo (TEA).

O estudo propõe um modelo integrador baseado em três eixos:

  • Desregulação dos ritmos circadianos

  • Alterações em vias de sinalização neuronal (WNT/β-catenina)

  • Reprogramação metabólica cerebral (glicólise aeróbica)

Esses sistemas interagem e amplificam alterações no neurodesenvolvimento.

Ritmo circadiano e cérebro

Os ritmos circadianos regulam:

  • expressão gênica

  • metabolismo energético

  • desenvolvimento neural

  • comportamento

Alterações de vias e genes do relógio podem desregular o ritmo circadiano:

No TEA, há evidência de:

  • distúrbios do sono frequentes

  • alteração no “relógio biológico”

  • disfunção na sincronização entre ambiente e fisiologia

O processo do relógio biológico é um ciclo estimulatório, envolvendo o heterodímero Bmal1/Clock, que ativa a transcrição dos genes Per e Cry, e o ciclo de retroalimentação inibitória com o heterodímero Per/Cry, que se transloca para o núcleo e reprime a transcrição dos genes Clock e Bmal1. Um ciclo adicional envolve os fatores ROR e Rev-Erbs, com retroalimentação positiva por RORs e retroalimentação negativa por Rev-Erbs (Vallée et al., 2020)

Essa desorganização afeta diretamente circuitos cerebrais em formação, como a WNT/β-catenina, que é fundamental para o neurodesenvolvimento. Estas vias não funcionam de forma constante, são moduladas pelo ritmo circadiano.

Via canônica WNT/β-catenina

Via canônica é a forma clássica, mais bem caracterizada e funcionalmente dominante de uma via de sinalização celular. A via WNT/β-catenina é essencial para:

  • proliferação neuronal

  • diferenciação celular

  • formação de conexões sinápticas

  • Regulação da expressão de genes

Esta via é regulada por um conjunto de proteínas, como WNT e β-catenina. Quando não há sinal da WNT, a via fica inativa e a β-catenina livre no citoplasma liga-se a um complexo de destruição, formado por:

  • APC

  • AXIN

  • GSK-3β

A β-catenina é fosforilada pela GSK-3β e degradada no proteassoma. Consequentemente, o nível citoplasmático de β-catenina é mantido baixo na ausência de ligantes WNT. Se a β-catenina não se acumula no núcleo, não estimula os genes-alvo. A consequência é o silenciamento da transcrição dos genes e redução da proliferação celular. Isso significa que alterações nessa via podem prejudicar o neurodesenvolvimento pela redução na proliferação de neurônios, diferenciação neuronal, formação de sinapses, organização de circuitos renais.

Quando WNT é ativado, a proteína DSH é estimulada e fosforilado pelo receptor FZD (frizzled). O DSH fosforilado, por sua vez, ativa a AXIN, que se dissocia do complexo de destruição da β-catenina. Assim, a β-catenina escapa da fosforilação e se acumula no citoplasma. A β-catenina citosólica acumulada se move para o núcleo, onde interage com os fatores de transcrição nucleares TCF/LEF e estimula a transcrição de genes-alvo.

O neurodesenvolvimento exige um padrão dinâmico. A via não pode ficar constantemente ligada ou desligada. No TEA, também pode ocorrer hiperativação dessa via. Se isso acontece, as ocorrências serão:

  • alterações cognitivas

  • desenvolvimento atípico do cérebro

A desregulação circadiana pode amplificar essa ativação, criando um ciclo patológico. A desorganização do padrão temporal, com muita ou pouca atividade podem gerar problemas:

  • ativação precoce excessiva → proliferação desorganizada

  • manutenção prolongada de sinal proliferativo → atraso de diferenciação

  • redução tardia inadequada → falha de maturação sináptica

A via WNT/β-catenina não regula apenas o destino celular, mas também reprograma o modo de produção de energia celular.

Reprogramação metabólica: glicólise aeróbica

O cérebro no TEA apresenta um padrão metabólico semelhante ao observado em células proliferativas:

  • aumento da glicólise aeróbica (efeito Warburg), com síntese de 2 ATPs

    • Ao contrário da glicólise anaeróbica que ocorre sem oxigênio, a partir da transformação de piruvato em lactato, a glicólise aeróbia, ocorre com oxigênio. O objetivo é mais que formar ATP, é formar intermediários para síntese de nucleotídeos, lipídeos e aminoácios (ver abaixo).

  • menor dependência da fosforilação oxidativa. Isso é problemático, pois a energia será rápida, mas insuficiente.

Consequências do efeito Warburg

  • produção rápida de energia (2 ATP), para células em alta demanda

  • suporte à proliferação celular anormal

    • A proliferação celular não depende apenas de ATP, mas também de nucleotídeos (DNA, RNA), aminoácidos e lipídios de membrana

    • A glicólise anaeróbia fornece intermediários metabólicos (glicose-6-fosfato, piruvato, ribose-5-fosfato, NADPH) e matéria prima para biossíntese de nucleotídeos, membranas, etc

  • possível impacto na maturação neuronal

    • Neurônios imaturos são mais dependentes de glicólise aeróbia

    • Neurônios maduros são mais dependentes de fosforilação oxidativa mitocondrial

Essa mudança metabólica é induzida pela ativação da via WNT/β-catenina. A glicólise aeróbica elevada durante fases tardias do desenvolvimento pode manter neurônios em estado metabólico imaturo, interferindo na transição para um fenótipo neuronal maduro e funcionalmente estável.

Integração dos mecanismos

O modelo proposto sugere:

  1. Disfunção circadiana

  2. → desregulação da via WNT/β-catenina

  3. → reprogramação metabólica cerebral

  4. → alterações no neurodesenvolvimento e comportamento

Trata-se de um sistema interdependente. O estudo redefine o TEA como resultado da interação entre tempo biológico, sinalização celular e metabolismo. A desorganização do ritmo circadiano não é apenas um sintoma, mas um possível fator causal que altera profundamente o desenvolvimento cerebral.

Implicações clínicas e científicas

  • O TEA pode ser parcialmente compreendido como um distúrbio cronobiológico-metabólico

  • Intervenções futuras podem focar em:

    • regulação do sono e luz

    • modulação metabólica

    • alvos moleculares da via WNT

É importante lembrar que tudo já começa no ambiente intra-uterino (na barriga da mãe). O metabolismo fetal é altamente dependente do ambiente materno:

  • glicemia e níveis de insulina modulam indiretamente sinalização WNT, estado redox, preferência metabólica celular.

  • inflamação (IL-6, TNF-α), muda atividade de vias de crescimento e sinalização do desenvolvimento neural. Ambiente inflamatório desorganiza timing de diferenciação, equilíbrio proliferação vs maturação.

  • disponibilidade de nutrientes, como B6, B9, B12 para adequada programação fetal, metilação de DNA, acetilação de histonas. Esses sistemas regulam a sensibilidade a WNT, expressão dos genes do relógio, metabolismo celular.

Assim, gestante precisa dormir, comer bem, receber suplementação adequada, cuidar da saúde. Após o nascimento continuam as intervenções neurofuncionais, comportamentais e de estilo de vida (incluindo higiene do sono) para apoiar plasticidade cerebral, com impacto em redes neurais, linguagem, cognição e autorregulação.

O cérebro pós-natal é plástico. Sinapses são remodeláveis, redes neurais são ajustáveis por experiência, função pode ser otimizada mesmo com organização atípica inicial.

O sono estabiliza ritmos circadianos, melhora consolidação sináptica. Sono adequado + nutrição + atividade física + terapias não revertem o TEA, mas propiciam ganhos. O que queremos é a reorganização funcional de circuitos neurais por plasticidade.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Por que tantas pessoas com TDAH têm dor crônica?

O estudo Genetic Interplay Between Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Pain demonstra sobreposição genética entre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), enxaqueca e dor crônica multissistêmica, sugerindo que variantes que afetam neurodesenvolvimento também modulam vias nociceptivas.

Do ponto de vista neurobiológico, três eixos explicam essa comorbidade:

- Disfunção catecolaminérgica: TDAH envolve hipoatividade dopaminérgica e noradrenérgica. Esses mesmos neurotransmissores regulam a modulação descendente da dor. Redução dessa inibição aumenta a sensibilidade nociceptiva, fenômeno semelhante à sensibilização central.

- Convergência neural entre atenção e dor: áreas como córtex cingulado anterior, tálamo e ínsula participam tanto da atenção quanto da dor. A competição por recursos neurais leva a amplificação da dor e pior controle atencional.

- Disregulação muscular e autonômica: indivíduos com TDAH apresentam maior tônus muscular basal e pior recuperação durante o sono, favorecendo dor miofascial difusa, especialmente axial.

Além disso, há componente inflamatório e possível ativação microglial, especialmente em mulheres, o que contribui para hiperalgesia persistente.

Implicações em nutrição e modulação:

• Dopamina - Aporte adequado de tirosina, ferro, zinco e vitamina B6 para síntese catecolaminérgica.

• Inflamação - Redução de alimentos ultraprocessados e aumento de ômega-3 (EPA/DHA), polifenóis e magnésio.

• Eixo intestino-cérebro - Disbiose amplifica inflamação sistêmica e dor. Fibras fermentáveis e probióticos podem modular citocinas.

• Sono - Correção de deficiência de magnésio e exposição à luz, pois sono profundo é crítico para relaxamento muscular.

• Sistema nervoso - Exercício resistido e técnicas vagais reduzem sensibilização central.

TDAH e dor compartilham arquitetura biológica. A dor não é secundária, mas parte do fenótipo neurobiológico. Intervenções eficazes exigem abordagem integrada entre neurotransmissores, inflamação e metabolismo energético.

Aprenda mais nos cursos de genômica e metabolômica.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Como a inflamação crônica gera resistência à insulina e aumenta o risco de diabetes?

A resistência insulínica não surge de forma súbita. Ela é resultado de uma cascata inflamatória dentro da célula, como mostra a figura.

Tudo começa com estímulos inflamatórios comuns no dia a dia:

  • excesso de gordura visceral

  • consumo frequente de alimentos ultraprocessados

  • privação de sono

  • estresse crônico

  • disfunção intestinal

  • sedentarismo

Esses estímulos aumentam a produção de citocinas inflamatórias e de ácidos graxos circulantes. A partir daí, ocorre a ativação de proteínas inflamatórias dentro da célula, principalmente JNK e IKK.

Essas proteínas funcionam como interruptores da inflamação. Quando são ativadas, elas bloqueiam uma estrutura central da ação da insulina chamada IRS-1 e IRS-2, que são responsáveis por transmitir o sinal da insulina para dentro da célula. O resultado é direto: a insulina está presente, mas o sinal não chega.

Ao mesmo tempo, essas mesmas vias inflamatórias ativam fatores como NF-κB e AP-1, que estimulam a produção de mais genes inflamatórios. Isso cria um ciclo de amplificação:

  • inflamação gera resistência insulínica

  • resistência insulínica gera mais inflamação

Esse processo pode começar anos antes de qualquer alteração na glicose aparecer.

ONDE A GENÉTICA ENTRA NESSA HISTÓRIA?

Algumas pessoas possuem variantes genéticas que tornam essa cascata inflamatória mais sensível ou mais intensa. Não é uma doença genética. É uma resposta inflamatória mais reativa.

Entre as variantes mais estudadas estão genes relacionados a:

Produção de inflamação

  • IL6

  • TNFA

  • IL1B

  • CCL2

Essas variantes podem aumentar a produção de citocinas inflamatórias e prolongar a resposta inflamatória.

Sinalização da insulina

  • IRS1

  • PPARG

  • ADIPOQ

Essas variantes podem reduzir a eficiência da comunicação da insulina com a célula.

Resposta imune e inflamatória

  • TLR4

  • NFKB1

Esses genes regulam o quanto o organismo reage a estímulos como gordura saturada, endotoxinas intestinais e hiperglicemia.

Na prática, isso significa:

  • Algumas pessoas inflamam mais rápido.

  • Outras demoram mais para recuperar.

  • E algumas desenvolvem resistência insulínica mesmo com hábitos aparentemente adequados.

Isso explica por que duas pessoas com o mesmo peso e a mesma alimentação podem ter respostas metabólicas completamente diferentes.

POR ISSO O AMBIENTE IMPORTA AINDA MAIS EM QUEM TEM PREDISPOSIÇÃO GENÉTICA

A genética não é destino. Mas ela reduz a margem de tolerância metabólica. Quando existe predisposição inflamatória, o organismo precisa de um ambiente mais favorável para manter o equilíbrio metabólico.

Os pilares que mais modulam essa cascata são:

Atividade física - Reduz inflamação, melhora a sensibilidade à insulina e diminui a ativação dessas vias inflamatórias.

Sono adequado - Privação de sono aumenta citocinas inflamatórias e resistência insulínica em poucos dias.

Alimentação - Excesso calórico, ultraprocessados e gorduras inflamatórias ativam diretamente essas vias intracelulares.

Saúde intestinal - Disbiose e aumento da permeabilidade intestinal facilitam a entrada de endotoxinas inflamatórias na circulação.

Em pessoas com maior predisposição genética, o cuidado com estilo de vida não é opcional. É fisiologia aplicada.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/