Azul de metileno e luz infravermelha na prevenção da neurodegeneração

A neurodegeneração é um problema central em doenças como Alzheimer, Parkinson e sequelas de trauma cerebral. Uma área de pesquisa recente aponta para dois métodos que parecem proteger neuônios ao reforçar a produção de energia celular: doses baixas de azul de metileno e luz infravermelha.

Por que olhar para mitocôndrias?

Os neurônios consomem muita energia. Essa energia vem principalmente da respiração mitocondrial, um processo bioquímico que transforma oxigênio e nutrientes em ATP, a “moeda energética” das células. Em muitas condições neurodegenerativas esse processo fica comprometido, deixando os neurônios mais vulneráveis ao stress e à morte.

Azul de metileno em baixa dose: um doador de elétrons

Quando administrado em baixa dose, o azul de metileno entra nas mitocôndrias e atua como um transportador de elétrons. Ele facilita a transferência de elétrons na cadeia respiratória mitocondrial, o que aumenta o consumo de oxigénio e a produção de ATP.

Esse efeito também pode desencadear aumentos no fluxo sanguíneo local e maior captação de glicose pelo cérebro, melhorando o suporte energético geral aos neurônios.

Luz infravermelha próxima: energia sem calor

Luz infravermelha próxima não aquece o tecido, mas fornece fotões que são absorvidos por uma enzima essencial chamada citocromo oxidase. Essa enzima é fundamental na última etapa da respiração mitocondrial. A absorção de fótons acelera sua atividade, aumenta o consumo de oxigênio e ATP, e promove adaptações que podem persistir semanas após uma única sessão (Gonzalez-Lima, & Auchter, 2015).

O que essas duas abordagens têm em comum?

Apesar de serem totalmente diferentes — uma é uma molécula química, outra é luz — ambas estimulam a respiração mitocondrial. Isso é importante porque:

  • Aumenta a capacidade dos neurônios de produzir energia.

  • Reduz dano oxidativo e ativa vias de sobrevivência celular.

  • Estimula respostas que favorecem reparo e plasticidade neuronal.

Cuidados e limites

A resposta a essas intervenções depende da dose. Tanto o azul de metileno quanto a luz infravermelha têm um efeito hormético: doses baixas são benéficas, mas doses altas podem ser ineficazes ou prejudiciais.

Outros estudos

Um estudo investigou os efeitos do azul de metileno na retenção de memória após treinamento de extinção do medo em adultos com claustrofobia. Os participantes receberam 260 mg de azul de metileno ou placebo após os testes de extinção. O estudo constatou que o azul de metileno melhorou a retenção de memória e a extinção do medo em participantes que apresentaram baixos níveis de medo após o treinamento. Isso sugere que o azul de metileno pode ter efeitos de aprimoramento cognitivo, potencialmente ligados à função mitocondrial, visto que estudos pré-clínicos indicam que o azul de metileno aumenta a atividade da citocromo oxidase mitocondrial [1].

O azul de metileno foi utilizado em pacientes com síndrome vasoplégica pós-cirurgia cardíaca. Ele reduziu o tempo de internação na UTI e os danos a órgãos-alvo, indicando melhora da função sistêmica, o que pode envolver processos mitocondriais, considerando o papel do azul de metileno como inibidor da guanilato ciclase [2].

O azul de metileno aumentou a pressão arterial média e reduziu a necessidade de catecolaminas em pacientes com choque séptico, embora seus efeitos sobre a morbidade e a mortalidade permaneçam incertos. O estudo sugere o papel do azul de metileno na melhoria dos parâmetros hemodinâmicos, que podem estar relacionados à função mitocondrial [3].

Em pacientes com peritonite por perfuração, o azul de metileno ajudou a manter a estabilidade hemodinâmica após a indução anestésica. Esse efeito pode estar relacionado à sua inibição da vasoplegia mediada por óxido nítrico, envolvendo indiretamente a atividade mitocondrial [4].

Referências

1) MJ Telch et al. Effects of post-session administration of methylene blue on fear extinction and contextual memory in adults with claustrophobia. The American journal of psychiatry (2014). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25018057/

2) M Elbayomi et al. The mystery of methylene blue and its role in managing post-cardiac surgery vasoplegic shock. Annals of medicine (2025). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39903510/

3) CA Paciullo et al. Methylene blue for the treatment of septic shock. Pharmacotherapy (2010). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20575634/

4) M Senthilnathan et al. Role of Methylene Blue in the Maintenance of Postinduction Hemodynamic Status in Patients with Perforation Peritonitis: A Pilot Study. Anesthesia, essays and researches (2017). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28928568/

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Lipedema: importância da ciência de precisão

O lipedema está dentro da categoria das doenças estrogênio-dependentes. Doenças estrogênio-dependentes são aquelas cujos processos fisiopatológicos, crescimento ou desenvolvimento são influenciados pelos níveis de estrogênio, um hormônio sexual feminino produzido principalmente pelos ovários. Esses distúrbios geralmente aparecem em órgãos sensíveis ao estrogênio, como útero, mama e ovários, mas também podem afetar outros tecidos.

Cânceres relacionados ao estrogênio

  • Câncer de mama: Muitos tumores mamários são sensíveis ao estrogênio (receptores hormonais positivos) e podem crescer em resposta a ele.

  • Câncer de endométrio: O excesso de estrogênio sem oposição da progesterona aumenta o risco de hiperplasia e câncer do endométrio.

  • Câncer de ovário: Alguns tipos, como os tumores epiteliais, podem ser influenciados por hormônios sexuais femininos.

Doenças benignas

  • Miomas uterinos (fibromiomas): Tumores benignos do útero que dependem de estrogênio para crescimento.

  • Adenomatose mamária / fibroadenomas: Alterações benignas na mama associadas ao estrogênio.

  • Endometriose: Crescimento de tecido endometrial fora do útero; é fortemente estimulada pelo estrogênio.

  • Hiperplasia endometrial: Espessamento excessivo do endométrio devido à estimulação estrogênica contínua.

  • Lipedema: distúrbio doloroso do tecido adiposo que afeta aproximadamente 11% da população feminina. É caracterizado pelo acúmulo bilateral e desproporcional de tecido adiposo subcutâneo, predominantemente na região inferior do corpo.

Fatores de risco e mecanismos

  • Exposição prolongada ao estrogênio: Menarca precoce, menopausa tardia, uso prolongado de terapia de reposição hormonal.

  • Obesidade: O tecido adiposo produz estrogênios (estrona), aumentando a exposição hormonal.

  • Síndromes genéticas: Algumas mutações podem aumentar a sensibilidade das células ao estrogênio.

  • Lipedema: resistência à progesterona no tecido adiposo, aumento da expressão local de aromatase e 17bohD1 (predominância local de estrogênio), inflamação crônica, hiperativação mastocitária, inflamação, microangiopatia, hipóxia.

O estrogênio, um regulador chave do metabolismo lpídico e glicídico dos adipócitos bem como da distribuição de gordura corporal associada ao sexo feminino, é postulado como desempenhando um papel contributivo na fisioptatologia do lipedema.

A 17b-HSD tipo 1 está associada ao desequilibrio dos estrogênios, levando a uma maior síntese de estrogênio no lipedema (na endometriose também). Aumenta a conversão de estradiol para estrona (E1). Estrona aumentada aumenta metabolitos instável da fase 1 de destoxificação. Se a 17-beta desidrogenase 7 (ver no exame metabolômico) está aumentada os estrogênios no geral aumenta, doença estrogênio-dependente. Suplementos como genisteína (50mg) e apigenina (50mg) ajudam. Crisina (500 mg) pode ser usada para inibir aromatase, ao cafe da manhã e após jantar.

Cuidar do intestino

O estroboloma é o conjunto de bactérias intestinais responsáveis por metabolizar e regular os níveis de estrogênio circulante no organismo. Em mulheres com lipedema, uma condição inflamatória e hormonal, o desequilíbrio dessas bactérias (disbiose) pode levar a um excesso de estrogênio, o que agrava o acúmulo de gordura e a sensibilidade nos membros. Basicamente, um intestino doente impede a eliminação correta do estrogênio, mantendo-o ativo no corpo e piorando os sintomas da doença.

O lipedema é uma patologia estrogênio-dependente, o que significa que níveis hormonais desregulados aumentam sua severidade. Quase todas as mulheres com lipedema apresentam algum grau de alteração no estroboloma.

A enzima beta-glucuronidase, produzida por certas bactérias, é a chave para a reabsorção de estrogênio no sangue. Quando há um excesso de bactérias que produzem a enzima beta-glucuronidase, o estrogênio que deveria ser eliminado pelas fezes é desconjugado. Isso permite que ele retorne à corrente sanguínea, um processo que contribui para a dominância estrogênica, fator crítico no desenvolvimento e progressão do lipedema. Probióticos, fibras, enzimas digestivas, e o suplemento D-glucarato de cálcio ajudam a regular a bagunça.

Reduzir histamina

Estrogênio estimula a degranulação de mastócitos, enquanto a progesterona tem efeito estabilizador. Em pacientes com lipedema, a histamina aumenta a permeabilidade dos vasos sanguíneos, o que agrava o inchaço (edema) e a inflamação, além de intensificar a dor característica da condição. Além disso, existe um ciclo vicioso onde o estrogênio estimula a liberação de histamina, e a própria histamina sinaliza ao corpo para produzir mais estrogênio, piorando o quadro clínico.

Os mastócitos são "sentinelas" do sistema imunológico. No lipedema, essas células parecem estar em estado de alerta constante, liberando não apenas histamina, mas também citocinas pró-inflamatórias. Essa liberação contínua contribui para a fibrose (endurecimento) do tecido gorduroso e para a hipersensibilidade ao toque, sintoma muito comum no lipedema.

A nutrição desempenha um papel crucial no controle da carga de histamina. Estratégias que visam reduzir a ingestão de alimentos "liberadores" de histamina ou ricos nela podem trazer alívio rápido.

  • Quercetina: Um suplemento natural frequentemente recomendado para estabilizar os mastócitos e reduzir a liberação de histamina.

  • Enzima DAO: Em alguns casos, a suplementação da enzima Diamina Oxidase (DAO) ajuda a processar a histamina vinda da alimentação.

Ciências ômicas e lipedema

Como o lipedema é uma doença complexa e frequentemente mal compreendida, a abordagem "tamanho único" falha. Não há terapia medicamentosa específica comprovada. Dieta, exercício, compressão e cirurgia têm indicações claras e limitações bem definidas.

Enquanto a genômica olha para o que pode acontecer, a metabolômica olha para o que está acontecendo agora. Ela estuda os metabólitos (pequenas moléculas como açúcares, lipídios e aminoácidos) no sangue ou no tecido.

A ciência de precisão utiliza a genômica e a metabolômica para entender por que o tecido adiposo de pacientes com lipedema se comporta de forma diferente da gordura comum. Dentro desse cenário, surge um dado relevante para a prática clínica. Alexandre et al., 2023, demonstraram que aproximadamente 61% das pacientes com lipedema apresentam os haplótipos HLA-DQ2 e ou HLA-DQ8, os mesmos associados à Doença Celíaca. O sistema HLA é central na regulação imunológica e esses polimorfismos estão associados a maior ativação inflamatória.

O estudo identificou prevalência significativamente maior desses haplótipos em pacientes com lipedema quando comparadas à população geral, sugerindo uma possível interface entre genética imunológica, inflamação crônica e expressão clínica do lipedema.

O artigo não afirma causalidade, mas a pesquisa sugere um potencial benefício da retirada do glúten em pacientes HLA-DQ2 ou DQ8 positivos, como estratégia para redução de carga inflamatória e alívio sintomático. A individualização clínica e interpretação genética adequada é muito importante. Tenho um vídeo no YouTube chamado "A genética do lipedema". Muitos outros genes também estão envolvidos.

Esse é o ponto onde muitos profissionais erram. Aplicam protocolos únicos ignorando completamente a genética por não saberem interpretá-la. Para profissionais da estética, saúde e reabilitação, o lipedema exige um novo nível de raciocínio clínico. Genética não é diagnóstico, mas é ferramenta de decisão É exatamente isso que o Curso de Genômica Visual entrega. Capacitação para interpretar polimorfismos, entender risco inflamatório, modular intervenções nutricionais e estéticas com base biológica, não em achismo.

No exame de metabolômica é comum alteração da via de piruvato - piruvato alto, acido acetico baixo no lipedema (disfunção mitocondrial). É o que mostrou o estudo de Kempa et al., (2023). O grupo de estudo (n = 25) foi composto por mulheres diagnosticadas com lipedema. O grupo controle foi formado por 25 mulheres magras e 25 mulheres obesas, ambas pareadas por idade. Nas pacientes com lipedema, observaram-se alterações significativas nos parâmetros metabólicos.

📊 Principais achados

  1. Histidina e fenilalanina: níveis mais baixos em pessoas com lipedema comparado aos grupos controle.

  2. Ácido pirúvico: mais elevado no grupo com lipedema.

  3. Outros metabólitos: leucina diminuiu (em comparação com obesos), glicina, glutamina, ácido acético, lactato diminutos; glicose maior em lipedema vs grupo magro.

  4. Perfis lipídicos

    • Parâmetros clássicos (colesterol total, LDL “geral”, etc.): sem diferença significativa entre lipedema vs controles.

    • Alterações em subfrações específicas: aumento do triglicerídeos no LDL-6, redução de lipídios no LDL-2 (colesterol, fosfolipídeos, triglicerídeos livres) comparado ao grupo magro.

O estudo mostra que há perfis metabólicos e lipídicos distintos no lipedema, além dos efeitos do peso corporal. Ainda assim, mais estudos são necessários: amostras maiores, protocolos padronizados, verificação se essas alterações são consistentes em diferentes populações/geografias. Aprenda a interpretar exames metabolômicos.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Síndrome MOSH

A Síndrome MOSH (Hipogonadismo Masculino Associado à Obesidade) é descrita como a redução dos níveis de testosterona em homens com sobrepeso e obesidade, causada em parte pelo aumento da enzima aromatase no tecido adiposo, que converte testosterona em estrogênio (hormônio feminino), e por um estado inflamatório crónico. A ginecomastia, ou seja, o aumento do volume das mamas, em homens com excesso de peso, pode não ser ginecomastia verdadeira (tecido glandular) mas sim pseudo-ginecomastia ou lipomastia (aumento de gordura). As estratégias de tratamento incluem perda de peso, prática regular de exercícios físicos, alimentação equilibrada e, em casos mais complexos, medicamentos ou cirurgia bariátrica. 

Como a obesidade afeta os níveis de testosterona (MOSH)

  • Ação da aromatase: O excesso de gordura corporal, especialmente na região abdominal, aumenta a produção da enzima aromatase. A aromatase converte a testosterona em estrogênio, o hormônio feminino, o que diminui os níveis de testosterona no organismo. 

  • Inflamação crônica: A obesidade está ligada a um estado de inflamação constante, que pode inibir a produção de hormônios sexuais e afetar a função do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. 

  • Resistência à leptina: Apesar do aumento dos níveis de leptina (hormônio que regula a saciedade) na obesidade, a ação da leptina pode ser reduzida, diminuindo o estímulo para a produção de testosterona. 

Pseudo-ginecomastia ou lipomastia 

Nos homens com obesidade, o excesso de volume nas mamas pode ser devido ao aumento do tecido adiposo (gordura), e não ao aumento do tecido glandular. Essa condição é chamada de pseudo-ginecomastia ou lipomastia, e é diferente da ginecomastia verdadeira.

Tratamento e outras informações

  • Perda de peso: A principal medida para reverter a Síndrome MOSH é a perda de peso, que pode normalizar os níveis hormonais. 

  • Estilo de vida: A prática regular de exercícios físicos e uma alimentação equilibrada, com prioridade para alimentos naturais e redução de açúcares e gorduras, também são cruciais para o tratamento. 

  • Tratamento médico: Em casos mais severos, um médico endocrinologista pode indicar tratamentos farmacológicos para a obesidade ou mesmo cirurgia bariátrica. 

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/