Vai fazer reposição hormonal? Então comece a desinflamar!

Quando existe um processo inflamatório ativo, a reposição hormonal pode trazer riscos importantes, porque os hormônios sexuais, especialmente os estrogênios, interagem diretamente com o sistema imunológico e com mediadores inflamatórios. Essa interação pode amplificar reações metabólicas e vasculares indesejadas.

A inflamação por si só já aumenta a coagulação e reduz a fibrinólise. Quando o estrogênio é introduzido nesse contexto, o risco de trombose ou de eventos cardiovasculares cresce ainda mais. Além disso, a inflamação crônica danifica o endotélio, e o estrogênio, que normalmente teria efeito protetor, pode acabar intensificando a instabilidade das placas e a reatividade vascular.

O fígado também sofre durante estados inflamatórios. O metabolismo hepático de lipídios e hormônios se altera, o que torna a resposta à reposição imprevisível. Isso pode levar ao aumento dos triglicerídeos, resistência à insulina e sobrecarga hepática.

No sistema imune, o estrogênio pode aumentar a produção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-6 e TNF-α. Em mulheres com inflamação, essa ação pode piorar sintomas como dores articulares, fadiga e manifestações autoimunes.

Por isso, antes de iniciar qualquer reposição hormonal, é indispensável investigar e controlar marcadores inflamatórios, como PCR, ferritina e homocisteína, além de tratar a causa base do processo inflamatório. Exames multiômicos também são muito interessantes:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Por que a menopausa aumenta o risco de câncer de mama?

Quando os ovários entram em falência funcional, a produção de estradiol (E2) cai drasticamente. A partir daí, a principal fonte de estrogênio do corpo passa a ser a estrona (E1), que é produzida fora dos ovários. O tecido adiposo assume esse papel através da enzima aromatase, que converte androgênios adrenais, como a androstenediona, em estrona.

Embora seja mais fraca que o estradiol, a estrona continua metabolicamente ativa. Ela pode ser reconvertida em E2 em tecidos sensíveis, como o mamário e o endometrial, mantendo o estímulo estrogênico local.

O metabolismo da estrona ocorre por três principais vias:

  • 2-OHE1, considerada protetora, com baixa afinidade pelos receptores de estrogênio e facilmente metilada na fase 2 da detoxificação;

  • 4-OHE1, genotóxica e mutagênica, com alta afinidade pelo receptor e potencial para causar dano ao DNA se não for rapidamente conjugada;

  • 16-OHE1, de ação altamente proliferativa, também com forte ligação ao receptor estrogênico e associada a doenças estrogênio-dependentes quando em excesso.

Com o envelhecimento, obesidade, resistência à insulina e inflamação crônica, há uma tendência de o metabolismo favorecer justamente as vias de risco — 4-OHE1 e 16-OHE1. Esse desequilíbrio metabólico, somado à maior aromatização pelo excesso de tecido adiposo, aumenta a carga estrogênica circulante e local.

A partir dos 60–65 anos, o risco cresce por múltiplos fatores:

  • aumento da aromatização no tecido adiposo;

  • inflamação crônica que altera a atividade das enzimas CYP1A1, CYP1B1 e COMT, redirecionando o metabolismo para vias carcinogênicas;

  • acúmulo de exposição estrogênica ao longo da vida;

  • redução da capacidade hepática de detoxificação e presença de polimorfismos genéticos que comprometem a eliminação de metabólitos tóxicos.

Mesmo após a menopausa, o tecido mamário mantém receptores de estrogênio ativos, o que o torna sensível ao estímulo proliferativo da estrona e do estradiol local. Podemos avaliar tudo isso com exames específicos para a saúde da mulher:

Quando há predomínio dos metabólitos 4-OHE1 e 16-OHE1, o foco deve ser restaurar o equilíbrio do metabolismo estrogênico, favorecendo a via 2-OHE1 e otimizando a metilação e conjugação hepática. A estratégia envolve nutrientes cofatores de enzimas da fase 1 e 2 da detoxificação, além de compostos moduladores da aromatase e da inflamação.

1. Suporte à via 2-OHE1 (CYP1A1):

  • Indol-3-carbinol (I3C) e DIM (diindolilmetano): derivados de vegetais crucíferos que estimulam a atividade da CYP1A1, desviando o metabolismo da estrona para a via 2-hidroxilada (protetora).

  • Sulforafano: ativa a via Nrf2, aumentando enzimas de detoxificação e reduzindo a expressão de CYP1B1, que favorece o 4-OHE1.

2. Apoio à metilação (fase 2 de detox):
Essencial para neutralizar metabólitos reativos como 4-OHE1.

  • Metilfolato (5-MTHF), vitamina B12 (metilcobalamina), B6 (P-5-P): cofatores da enzima COMT, responsável pela metilação dos catecolestrogênios.

  • Betaína (trimetilglicina) e colina: doadores de grupos metil, úteis especialmente em indivíduos com polimorfismos MTHFR ou COMT lentos.

3. Redução de 16-OHE1 (ação proliferativa):

  • Resveratrol e quercetina: modulam a expressão de aromatase e reduzem o metabolismo pela via 16-hidroxilada.

  • Curcumina: anti-inflamatória e reguladora de CYPs hepáticas; reduz 16-OHE1 e melhora conjugação.

  • Ácido alfa-lipóico e N-acetilcisteína (NAC): aumentam glutationa, essencial para conjugação de metabólitos estrogênicos tóxicos.

4. Modulação da aromatase e inflamação:

  • Ômega-3 (EPA/DHA): reduz inflamação e expressão de aromatase no tecido adiposo.

  • Extrato de sementes de uva e chá verde (EGCG): inibem aromatase e reduzem estrogênios circulantes.

5. Suporte hepático:

  • Silimarina, taurina e magnésio: favorecem conjugação e excreção biliar adequada dos metabólitos.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Deficiência de Transportador de Creatina e autismo

A creatina tem ganhado atenção na pesquisa sobre autismo por causa do seu papel central no metabolismo energético cerebral. Ela participa da regeneração de ATP, a principal fonte de energia das células, especialmente importante para o funcionamento de neurônios e sinapses.

Roschel et al., 2021

Em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), há evidências de alterações no metabolismo energético e no estresse oxidativo. A hipótese é que a suplementação com creatina possa ajudar a melhorar a disponibilidade de energia no cérebro, reduzir disfunções mitocondriais e, possivelmente, modular a neurotransmissão.

Estudos em modelos animais e alguns poucos estudos clínicos sugerem que a creatina pode ter efeitos positivos sobre:

  • desempenho cognitivo e atenção;

  • comportamento social;

  • redução de sintomas relacionados à fadiga e à irritabilidade.

Existem algumas mutações que levam a deficiência de creatina cerebral.

Deficiência do transportador de creatina e autismo

A Deficiência do Transportador de Creatina (DTC), causada por mutações no gene SLC6A8, é uma doença ligada ao cromossomo X associada ao transtorno do espectro autista (TEA), que se manifesta com sintomas como deficiência intelectual, epilepsia e atraso grave na fala [1] [2] [3].

O diagnóstico de DTC pode ser auxiliado pela espectroscopia de ressonância magnética (ERM) cerebral, que demonstra um pico de creatina anormalmente pequeno e uma relação creatina/creatinina urinária elevada [4] [5] [6].

Mutações no gene SLC6A8, ligado ao cromossomo X, que codifica o transportador de creatina (CRT1), são uma causa conhecida da síndrome de deficiência de creatina cerebral (CCDS) e estão associadas a deficiência intelectual, epilepsia, atraso grave na fala e na linguagem e comportamento autista [2][3]. Por exemplo, dois pacientes espanhóis com retardo mental grave e autismo apresentaram mutações hemizigóticas no SLC6A8: uma nova deleção c.878-879delTC e uma deleção conhecida 1222-1224delTTC [1]. Da mesma forma, dois irmãos com TEA foram diagnosticados com DTC, ambos portadores de uma mutação de deleção p.408delF (c.1216_1218delTTC) [6].

O gene paralogo SLC6A8 em 16p11.2, também chamado SLC6A10 ou CT2, é expresso no cérebro e nos testículos humanos, e sua disfunção foi associada ao autismo idiopático em um menino com uma translocação de novo t(7;16)(p22.1;p11.2) [8]. O transportador de creatina é crucial para a função cerebral, e sua deficiência leva a uma ausência quase completa de creatina no cérebro [2].

O diagnóstico de distúrbios do transporte de creatina (DTC) em pacientes com atraso global do desenvolvimento, autismo e epilepsia frequentemente envolve espectroscopia de ressonância magnética (ERM) cerebral, que mostra um pequeno pico de creatina e uma alta relação creatina/creatinina na urina, achados que são então confirmados por testes genéticos para mutações no gene SLC6A8 [4] [5].

A suplementação de creatina, juntamente com L-arginina e L-glicina, demonstrou melhora clínica modesta em alguns casos, como em um menino de 3 anos com atraso global no desenvolvimento, autismo e epilepsia, que apresentou melhora após 12 meses de tratamento [4] [6]. Contudo, são necessários mais estudos, pois embora os DTC sejam claramente associados ao autismo, não parecem ser o fator primário na patogênese do transtorno [7].

Referências

1) P Póo-Argüelles et al. X-Linked creatine transporter deficiency in two patients with severe mental retardation and autism. Journal of inherited metabolic disease (2006). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16601898/

2) DL Christie et al. Functional insights into the creatine transporter. Sub-cellular biochemistry (2008). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18652074/

3) CV Farr et al. The Creatine Transporter Unfolded: A Knotty Premise in the Cerebral Creatine Deficiency Syndrome. Frontiers in synaptic neuroscience (2020). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33192443/

4) N Jangid et al. Creatine transporter deficiency, an underdiagnosed cause of male intellectual disability. BMJ case reports (2020). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33334757/

5) F Nozaki et al. [A family with creatine transporter deficiency diagnosed with urinary creatine/creatinine ratio and the family history: the third Japanese familial case]. No to hattatsu = Brain and development (2015). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25803912/

6) HI Aydin et al. Creatine Transporter Deficiency in Two Brothers with Autism Spectrum Disorder. Indian pediatrics (2018). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29396939/

7) JM Cameron et al. Variability of Creatine Metabolism Genes in Children with Autism Spectrum Disorder. International journal of molecular sciences (2017). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28758966/

8) N Bayou et al. The creatine transporter gene paralogous at 16p11.2 is expressed in human brain. Comparative and functional genomics (2008). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18509488/

9) Hİ Aydın et al. A novel mutation in two cousins with guanidinoacetate methyltransferase (GAMT) deficiency presented with autism. The Turkish journal of pediatrics (2019). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31559727/

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/