Nutrimetabolômica e a nutrição personalizada

Você já se perguntou por que uma dieta funciona super bem para uma pessoa, mas não traz o mesmo resultado para outra? 🤔

A nutrimetabolômica é um campo da ciência que estuda justamente como o nosso corpo reage aos alimentos com base nas diferenças individuais do metabolismo e na influência do microbioma intestinal (as bactérias e outros microorganismos que vivem no nosso intestino 🦠).

Em outras palavras: a nutrimetabolômica analisa os metabólitos, que são as substâncias produzidas quando o corpo processa os nutrientes. Ao observar esses compostos, conseguimos entender como cada organismo responde a diferentes alimentos, nutrientes e padrões de dieta.

Exemplo:
- Duas pessoas comem a mesma tigela de aveia no café da manhã.
- A primeira pessoa sente saciedade por horas e mantém a glicose estável.
- A segunda, logo depois, sente fome, falta de energia e tem picos de açúcar no sangue.

👉 Mesmo alimento, reações diferentes! Isso acontece por causa da genética, metabolismo e microbiota de cada um.

Com a nutrimetabolômica, é possível observar o que está acontecendo para criarmos estratégias nutricionais personalizadas, otimizando saúde, energia e prevenção de doenças — tudo com base em como o seu corpo realmente funciona. 💪

Assim, a nutrimetabolômica une nutrição + metabolismo + microbioma para entender você por dentro, e não apenas o que está no seu prato.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Intolerância à histamina X Intoxicação por histamina

Certo dia, depois de um almoço à beira-mar, Pedro começou a sentir-se mal: o rosto ficou vermelho, o coração disparou e apareceu uma coceira pelo corpo. O médico do pronto-socorro explicou:
— “Pedro, o que você teve foi uma intoxicação por histamina, também chamada de síndrome escombroide.”

Ele explicou que, quando o peixe é mal conservado, as bactérias transformam a histidina do peixe em histamina. Se o alimento acumula muita histamina e a pessoa o ingere, o corpo recebe uma dose tóxica — muito além do que conseguiria degradar. Assim, o problema não está no corpo da pessoa, mas na quantidade de histamina no alimento.

“É como se tivesse tomado uma colher de pimenta pura”, disse o médico. “Até quem tem digestão perfeita sentiria os efeitos.”

Pedro melhorou rapidamente com tratamento e, da próxima vez, passou a escolher melhor o peixe fresco.

Algumas semanas depois, foi a vez de Inês, sua namorada, ter sintomas estranhos: vermelhidão, dor de cabeça, enjoo, barriga inchada e até um pouco de confusão mental — mas dessa vez, ela não tinha comido nada estragado.

— “Como é possível?”, pensou.

O médico explicou outro tipo de problema:
— “Inês, o seu caso parece uma intolerância à histamina.”

Diferente da intoxicação de Pedro, aqui o alimento estava bom. O problema era no organismo dela, que tinha dificuldade em degradar a histamina que existe naturalmente em vários alimentos (como queijos curados, vinho tinto, chocolate, peixe fresco, tomate e espinafre).

Essa degradação normalmente é feita por uma enzima chamada diamina oxidase (DAO), que age na mucosa intestinal. Mas, em algumas pessoas, a atividade da DAO é menor — por causas genéticas ou adquiridas (como uso de certos medicamentos, doenças intestinais ou alterações hormonais).

Assim, mesmo pequenas quantidades de histamina podem causar sintomas.
E como os recetores de histamina estão distribuídos em vários tecidos (pele, intestino, cérebro, vasos), os sintomas são muito variados — coceira, urticária, diarreia, dor de cabeça, palpitações, ansiedade... Isso torna o diagnóstico difícil, pois não há marcadores laboratoriais confiáveis.

No fim, Pedro e Inês aprenderam algo importante:

  • A intoxicação por histamina depende da dose ingerida e da conservação do alimento.

  • A intolerância à histamina depende da capacidade do corpo em degradá-la, sobretudo pela enzima DAO.

Desde então, Pedro cuida bem da conservação dos peixes, e Inês aprendeu a controlar sua alimentação e a identificar os alimentos que a fazem sentir-se melhor.

Metabolismo da histamina

A histamina é formada no corpo a partir do aminoácido L-histidina via histidina descarboxilase (tem B6 como cofator). Uma fração é exógena (vem de fora, de alimentos e da microbiota intestinal).

  • Degradação por duas vias principais:

    1. DAO (extracelular) → imidazol-acetaldeído → ácidos imidazolacéticos (excreção); exerce função “barreira” no intestino.

    2. Histamina-N-metiltransferase (HNMT) (intracelular) → Nτ-metil-histamina → metabolitos por MAO/ALDH.
      Polimorfismos (variações genéticas) de DAO/HNMT ajudam a explicar diferenças individuais.

  • Aumento luminal de histamina: ingestão, descarboxilação bacteriana (alguns lactobacilos/eneterobactérias), hemorragia GI, obstrução e sépsis (discussão ainda controversa).

Papel dos recetores H1–H4

Existem 4 receptores de histamina no corpo, envolvidos na resposta inflamatória e imune. Quando ativados, geram diferentes efeitos:

  • H1: inflamação/alergia, vasodilatação, permeabilidade vascular, broncoconstrição, motilidade intestinal e ritmos circadianos.

  • H2: secreção ácida gástrica, relaxamento muscular liso, modulação imunitária (↑IL-10, ↓IL-12; efeito oposto ao H1 em respostas Th1).

  • H3: SNC (autorreceptor), modula libertação de acetilcolina/serotonina/noradrenalina; associado a sono/atenção/epilepsia.

  • H4: imunitário (menos explorado) na sensibilidade visceral e peristalse.

Relações com doenças gastrointestinais

  • Síndrome do intestino irritável (SII-D): hiperplasia/hiperatividade de mastócitos, maior expressão de H1/H2 em mucosa e correlação entre mastócitos junto às fibras nervosas e dor abdominal; aumento de triptase e ativação de NF-κB.

  • DII e outras: a histamina e mastócitos participam em vias inflamatórias; a própria microbiota produtora de histamina pode ter efeitos pró- ou anti-inflamatórios conforme o contexto (p.ex., L. reuteri produtor de histamina mostrou efeitos anticarcinogénicos em modelos).

Diagnóstico: por que é difícil?

  • Sintomas inespecíficos (cutâneos, GI, neurológicos) e variáveis.

  • Marcadores laboratoriais incertos: atividade DAO sérica e outros testes têm utilidade limitada e falta de padronização; não existe “gold standard” universalmente aceite.

  • A avaliação costuma combinar história clínica, diário alimentar/sintomas, exclusão de alergia IgE-mediada, e resposta a dieta de baixo teor de histamina/reintrodução.

Tratamento (princípios)

  • Dieta de eliminação de baixo teor de histamina como base.

    • Alimentos mais problemáticos: ricos em histamina (queijos curados, peixes oleosos e marisco, carnes fermentadas/cruas curadas, vegetais fermentados, soja fermentada, vinho/cerveja) e libertadores endógenos(espinafre, tomate, citrinos, morango, beringela, abacate, papaia, banana, kiwi, ananás, ameixas).

    • Consumir carne/peixe apenas muito frescos.

  • Fármacos e suplementos:
    • Anti-H1; estabilizadores de mastócitos; mirtazapina (com propriedades anti-H1/H2).
    • Vitamina C e flavonoides (efeitos anti-oxidantes/estabilizadores).
    • Suplementos com DAO (origem porcina, gastro-resistentes) e rebentos de leguminosas (fonte vegetal com atividade DAO elevada).
    • Probióticos: abordagem em estudo; cepas diferem (algumas produzem histamina e podem piorar sintomas; outras podem modular inflamação).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

BDNF e criatividade

Há evidências de que o BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor) pode estar associado à criatividade, embora de forma indireta e ainda não totalmente compreendida. Vou detalhar como isso pode ocorrer:

1. Papel do BDNF no cérebro

  • Neuroplasticidade: o BDNF promove crescimento, diferenciação e sobrevivência de neurônios.

  • Sinaptogênese e PLP (potenciação de longo prazo): facilita a formação e o fortalecimento de sinapses, essenciais para aprendizagem, memória e flexibilidade cognitiva.

  • Regiões relevantes: especialmente alto no hipocampo, córtex pré-frontal e estriado, áreas ligadas à memória, planejamento, flexibilidade cognitiva e recompensa — todas associadas a aspectos da criatividade.

2. Relação com processos cognitivos ligados à criatividade

  • Memória associativa: criatividade envolve combinar ideias distantes. O BDNF, ao melhorar plasticidade no hipocampo, favorece a recuperação e recombinação de memórias.

  • Flexibilidade cognitiva: níveis mais altos de BDNF estão associados a maior capacidade de mudar estratégias cognitivas, algo essencial para pensamento divergente.

  • Humor e motivação: BDNF também está relacionado à regulação do humor. Estados afetivos positivos (facilitados por bons níveis de BDNF) podem ampliar o pensamento criativo.

3. Evidências indiretas

  • Meditação e mindfulness: podem aumentar BDNF e, em paralelo, favorecer pensamento criativo.

  • Exercício físico: aumenta BDNF circulante e no cérebro; também foi associado a maior desempenho em tarefas de criatividade.

  • Transtornos do humor: baixos níveis de BDNF são encontrados em depressão, condição que frequentemente reduz a flexibilidade cognitiva e pode impactar negativamente a criatividade (embora alguns estados depressivos leves estejam historicamente ligados à produção artística).

  • Genética: o polimorfismo Val66Met do gene BDNF influencia secreção de BDNF. Alguns estudos sugerem que portadores da variante Met têm diferenças em memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, o que pode afetar certos estilos de criatividade.

Mais BDNF → maior plasticidade neural → melhor memória associativa + flexibilidade cognitiva + regulação emocional → maior potencial criativo.

Mas: criatividade é multifatorial — inclui personalidade, ambiente, motivação, experiências culturais — então o BDNF seria apenas um modulador biológico entre muitos.

Por outro lado, uma pessoa pode ser ao mesmo tempo criativa e ansiosa. Na verdade, há bastante pesquisa mostrando que esses dois aspectos podem se sobrepor em alguns contextos. Pessoas criativas tendem a ter alta sensibilidade cognitiva e emocional — notam detalhes, nuances e conexões que outros não percebem. Essa mesma sensibilidade pode facilitar preocupação, ruminação e ansiedade.

Ansiedade como “hiperatenção”

Ansiedade envolve um sistema de hipervigilância (atenção ampliada para riscos). Esse mesmo estado de alerta pode também gerar associações inesperadas ou pensar em múltiplas possibilidades, algo útil em criatividade. Ou seja: a mesma mente que “vê perigos em todo lugar” pode também “ver conexões em todo lugar”.

  • Ansiedade leve ou moderada pode impulsionar a produtividade criativa (ex.: pressão de prazos, excitação antes de performar).

    • Há até estudos mostrando que pessoas criativas apresentam maior prevalência de transtornos de humor e ansiedade, mas também maior resiliência em transformar experiências difíceis em produção criativa.

  • Ansiedade crônica e intensa tende a inibir criatividade, porque reduz a flexibilidade cognitiva e consome energia mental.

    • Neurobiologia compartilhada: criatividade e ansiedade envolvem a rede default mode (imaginação, simulação mental) e o córtex pré-frontal (controle, planejamento). Dependendo de como essas redes se equilibram, a mesma base neural pode produzir ideias criativas ou preocupações ansiosas.

Fitoterápicos que modulam BDNF

O artigo “Botanicals as Modulators of Neuroplasticity: Focus on BDNF” revisa diversas plantas cujos extratos ou princípios ativos demonstraram aumentar expressão de BDNF (mRNA ou proteína) em modelos animais ou culturais celulares (Sangiovanni et al., 2017).

Óleos essenciais e compostos voláteis

Menos numerosos, mas há alguns estudos interessantes:

  • Óleos de coníferas: Pinus halepensis e Tetraclinis articulata. Em modelo de Alzheimer em ratos, a inalação desses óleos por 21 dias aumentou expressão de BDNF (especialmente com T. articulata) no hipocampo, junto com melhora de memória e diminuição de marcadores inflamatórios (Postu et al., 2022).

  • Lavanda (óleo de lavanda): em modelo com corticosterona, uso crônico de óleo de lavanda (“Lavender Essential Oil”, LEO) aumentou níveis de BDNF e melhorou neurogênese e complexidade dendrítica, prevenindo efeitos negativos do corticosterona no comportamento de depressão/ansiedade (Sánchez-Vidaña et al., 2019).

  • α-pinene, um composto presente em alguns óleos de coníferas/pinheiro: administração por inalação aumentou expressão de BDNF mRNA no cérebro de camundongos, associado a efeitos ansiolíticos-como nos comportamentos em labirinto elevado (Kasuia et al., 2015).

  • Misturas aromáticas: mistura de óleos de limão e alecrim, lavanda e laranja em modelo de Alzheimer em camundongos também demonstrou aumento de BDNF, além de redução de tau e β-amilóide (Okuda et al., 2020).

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Mecanismos comuns

Os estudos apontam alguns caminhos pelos quais esses fitoterápicos / óleos parecem aumentar o BDNF:

  1. Vias de transcrição via CREB: Muitos compostos ativam a via cAMP/PKA → CREB (cAMP response element-binding protein), que por sua vez induz a expressão de BDNF (Zhang et al., 2019).

  2. Redução de estresse oxidativo e inflamação: menos dano oxidativo/inflamatório permite melhor expressão de fatores neurotróficos como BDNF (Macedo et al., 2025).

  3. Modulação de vias de sinalização downstream de receptor TrkB: ou seja, BDNF ativando seu receptor TrkB, que leva à ativação de via ERK, AKT, mTOR etc., favorecendo sinaptogênese, plasticidade sináptica (Sangiovanni et al., 2017).

  4. Neurogênese / suporte estrutural: aumento de sobrevivência de neurônios, aumento de densidade dendrítica, crescimento de espinhas sinápticas (Sánchez-Vidaña et al., 2019).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/