Você come por fome ou hábito?

A Default Mode Network (DMN), ou Rede em Modo Padrão, é um conjunto de regiões do cérebro que ficam ativamente conectadas quando a pessoa está em repouso — isto é, sem realizar tarefas externas específicas, como resolver problemas ou prestar atenção ativa ao ambiente. Essa rede está associada a processos internos, como:

- Devaneios (mind-wandering)
- Planejamento automático (vulgo, viajando na maionese)
- Recordações autobiográficas
- Processamento do self (autorreferência)
- Regulação emocional

Principais regiões da DMN:

1) Córtex pré-frontal medial
2) Cingulado posterior
3) Precuneus
4) Córtex parietal lateral
5) Hipocampo

Como a DMN influencia o comportamento alimentar?

A DMN afeta o comportamento alimentar principalmente de maneira indireta, através de processos mentais automáticos e introspectivos, como:

1. Desejo e antecipação de comida (food craving) - A DMN é ativada quando pensamos em comida, especialmente em contextos de jejum ou restrição. Essa rede pode sustentar pensamentos repetitivos sobre comida, mesmo quando não há fome fisiológica.

2. Tomada de decisão baseada no self - Como a DMN está envolvida na autorreferência, ela pode influenciar como nos vemos em relação à alimentação:

"Eu mereço essa sobremesa."

"Eu não consigo resistir a doces."

3. Comer emocional ou automático - A ativação da DMN durante estados emocionais negativos pode levar a um comportamento alimentar impulsivo como forma de compensação. Também está relacionada ao "mindless eating" (comer sem atenção plena), já que o cérebro está envolvido em devaneios.

4. Obesidade e desregulação da DMN - Estudos de neuroimagem mostram que pessoas com obesidade frequentemente têm uma hiperconectividade na DMN, o que pode reforçar padrões automáticos de comer por prazer ou hábito, não por necessidade.

Aplicações práticas:

Mindfulness, yoga e práticas contemplativas ajudam a desativar a DMN e promovem atenção plena, reduzindo o comer automático. A psicoterapia pode ajudar a reestruturar os pensamentos autorreferenciais negativos mediados pela DMN.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Dieta cetogênica, microbiota e humor

O artigo intitulado "Ketogenic Diet and Gut Microbiota: Exploring New Perspectives on Cognition and Mood" é uma revisão abrangente publicada na revista Foods em março de 2025. Este estudo explora a inter-relação entre a dieta cetogênica (DC), o microbioma intestinal e a saúde neurológica, com ênfase nos efeitos sobre a cognição e o humor.

Pirâmide cetogênica simplificada (Jiang et al., 2025)

A DC é um regime alimentar caracterizado por baixo teor de hidratos de carbono (carboidratos) e ingestão moderada de proteínas, com o objetivo de induzir cetose — um estado metabólico em que o corpo utiliza corpos cetónicos, como o beta-hidroxibutirato (β-HB), como principal fonte de energia. Originalmente desenvolvida na década de 1920 para tratar epilepsia refratária, a DC tem sido recentemente investigada pelos seus potenciais benefícios na função cognitiva e na regulação do humor.

Microbiota Intestinal e Eixo Intestino-Cérebro

A microbiota intestinal, frequentemente referida como um "órgão oculto", desempenha um papel crucial na comunicação bidirecional entre o intestino e o cérebro, conhecida como eixo intestino-cérebro (EIC). Este eixo envolve sistemas nervoso, endócrino e imunitário, permitindo que a microbiota influencie funções cerebrais, produção de neurotransmissores e respostas emocionais.

O eixo microbiota-intestino-cérebro comunicando-se (Jiang et al., 2025)

Interação entre DC e Microbiota Intestinal

A DC altera significativamente a composição da microbiota intestinal. Estudos indicam um aumento de bactérias benéficas como Bacteroides e Prevotella, produtoras de ácidos gordos de cadeia curta (AGCC), e uma redução de bactérias potencialmente patogénicas como Cronobacter e Proteobacteria. Estas alterações podem promover um ambiente intestinal mais saudável e equilibrado.

Bactérias produzem AGCC (ou SCFAs, em inglês) pela fermentação de fibras dietéticas. Estes metabólitos não só fornecem energia às células epiteliais intestinais, mas também possuem propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras. O ácido butírico, por exemplo, pode atravessar a barreira hematoencefálica e exercer efeitos positivos no sistema nervoso central.

A dieta cetogênica modula a microbiota, aumenta a produção de corpos cetônicos e AGCC (SCFAs). Estes metabólitos alteram o cérebro, regulam o metabolismo energético e os níveis de neurotransmissores, aumentam a neurotranmissão GABAérgica e contribuem para a melhoria do humor (Jiang et al., 2025).

A DC também demonstrou reduzir a inflamação intestinal e sistêmica, modulando a produção de citocinas e promovendo um perfil imunitário anti-inflamatório. Estas alterações podem contribuir para a melhoria da função cognitiva e estabilização do humor.

Através da modulação da microbiota intestinal e da produção de metabólitos benéficos, a DC pode influenciar positivamente a saúde cerebral. Observa-se uma melhoria na memória, concentração e estabilidade emocional, bem como uma redução de sintomas depressivos. Estes efeitos são atribuídos à interação entre os corpos cetónicos, AGCC e neurotransmissores como o GABA e a serotonina.

Considerações e Limitações

Apesar dos benefícios potenciais, a implementação da DC apresenta desafios:

  • Adesão a longo prazo: A restrição severa de hidratos de carbono pode ser difícil de manter.

  • Deficiências nutricionais: A ingestão limitada de fibras, vitaminas e minerais pode levar a carências nutricionais.

  • Variabilidade individual: As respostas à DC podem variar significativamente entre indivíduos.

  • Evidência clínica limitada: São necessários mais estudos clínicos de longo prazo para confirmar os benefícios e segurança da DC.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Disfunção no metabolismo da glicose e redução no volume cerebral em mulheres idosas

O estudo intitulado "Sex differences between mid-life glycaemic traits and brain volume at age 70: a population-based study" investigou como as características glicêmicas na meia-idade influenciam o volume cerebral aos 70 anos, com foco nas diferenças entre os sexos.

O principal objetivo foi analisar se os níveis de glicose e outros marcadores metabólicos durante a meia-idade estão associados a alterações no volume cerebral na velhice e se essas associações diferem entre homens e mulheres.

Os pesquisadores utilizaram dados de uma coorte populacional, onde participantes tiveram suas características glicêmicas avaliadas na meia-idade e, posteriormente, realizaram exames de imagem cerebral aos 70 anos para medir o volume cerebral.

Foram analisados dados de 453 participantes (51% homens) da coorte britânica de nascimento de 1946. As medidas glicêmicas foram obtidas entre os 60 e 64 anos, incluindo glicose em jejum, HbA1c, resistência à insulina (HOMA2-IR) e função das células beta (HOMA-%B). Aos 69-71 anos, os participantes realizaram ressonâncias magnéticas para avaliar o volume cerebral total.

Principais Descobertas:

  • Mulheres: Níveis mais elevados de HbA1c, glicose em jejum e resistência à insulina na meia-idade foram associados a volumes cerebrais totais menores aos 70 anos. Por exemplo, a glicose em jejum apresentou uma associação significativa com a redução do volume cerebral (β* = -0.07; IC 95%: -0.13 a -0.01; P = 0.02).

  • Homens: Não foram encontradas associações significativas entre os marcadores glicêmicos e o volume cerebral.

  • Função das Células Beta: O HOMA-%B não apresentou associação com o volume cerebral em nenhum dos sexos.

O estudo conclui que mulheres podem ser mais vulneráveis aos efeitos adversos da hiperglicemia na saúde cerebral na velhice. Esses achados destacam a importância de monitorar e controlar os níveis de glicose na meia-idade, especialmente em mulheres, para prevenir a perda de volume cerebral e possíveis declínios cognitivos na velhice. Aprenda a cuidar do cérebro em https://t21.video

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/