Dieta cetogênica e emagrecimento

A dieta cetogênica tem sido usada para promover a cetose, um estado metabólico no qual o corpo queima gordura para produzir cetonas. Para induzir a cetose nutricional, a redução significativa na ingestão de carboidratos é necessária. Os triglicerídeos de cadeia média (MCTs), que são metabolizados mais rapidamente do que os triglicerídeos de cadeia longa, são frequentemente utilizados para facilitar esse processo. Um estudo de 2018 teve como objetivo investigar os efeitos dos MCTs no tempo necessário para atingir a cetose nutricional e os sintomas associados à indução da dieta cetogênica.

O estudo foi realizado como um ensaio clínico randomizado controlado com adultos saudáveis. Participantes foram divididos em dois grupos: um grupo recebeu MCTs como suplemento, enquanto o outro recebeu uma substância placebo. O tempo necessário para atingir a cetose nutricional foi monitorado, juntamente com a intensidade dos sintomas comuns da indução à dieta cetogênica, como fadiga, dor de cabeça, náusea e tontura.

Os principais resultados observados foram:

  • Tempo para atingir a cetose nutricional: O grupo que consumiu MCTs alcançou a cetose nutricional mais rapidamente do que o grupo placebo. Isso sugere que os MCTs podem acelerar o processo de adaptação à dieta cetogênica.

  • Sintomas de indução à cetose: O grupo que recebeu MCTs relatou uma menor intensidade de sintomas associados à indução ao estado de cetose, como fadiga e dor de cabeça, quando comparado ao grupo placebo.

Os resultados indicam que a suplementação com MCTs pode facilitar o início da cetose nutricional e reduzir os sintomas negativos típicos da indução da dieta cetogênica. Isso pode ser particularmente benéfico para pessoas que estão começando a seguir uma dieta cetogênica e desejam minimizar os desconfortos associados à adaptação.

Menos dias em cetose podem limitar o progresso em direção às metas de perda de gordura. A extensão em que isso acontece dependerá do seu metabolismo.

Quando um indivíduo entra em cetose, o apetite diminui e o consumo calórico também. Quando fora da cetose, você pode sentir níveis mais altos de fome e comer demais. Isso pode levar à perda de gordura ou ao ganho de gordura.

Sair de cetose, consumindo alimentos ricos em carboidratos pode levar a picos maiores de glicose no sangue. Isso aumenta o risco de danos vasculares pelo consumo de carboidratos.

Ao sair da dieta cetogênica também há recuperação do peso da água. Então, leva tempo para você perdê-lo novamente. Para melhores resultados, recomenda-se:

1) Monitore cetonas e glicose no sangue:

  • monitore cetonas diariamente para confirmar que você está em cetose de redução de apetite no mínimo 5 dias por semana (idealmente no sangue, mas pode também ser feito na urina).

    • 0,5 - 1,5 mmol/L de corpos cetônicos (BHB) no sangue é um valor comum de quem está em um estado de cetose leve a moderada.

    • 1,5 - 3,0 mmol/L de corpos cetônicos é considerado ótimo para perda de peso e otimização da queima de gordura. Valores acima de 3,0 devem ser evitados.

  • Monitore a glicose (pode ser usado o mesmo monitor, a fita é que é diferente) para verificar picos elevados de glicose no sangue em seus dias de carboidratos. Também pode ser usado um monitor contínuo de glicose (dura 14 dias no braço).

    • Valores ideais de glicose no sangue para perda de peso: 70 a 85 mg/dL em jejum. Valores elevados de glicose (>100 mg/dL) podem indicar resistência à insulina, um fator que dificulta a perda de peso. Valores acima de 125 mg/dL em jejum podem sugerir diabetes ou pré-diabetes.

  • Relação glicose/corpos cetônicos: uma boa maneira de avaliar o equilíbrio entre glicose e cetonas, e como o corpo está utilizando suas fontes de energia. Uma relação mais baixa indica que o corpo está mais focado na queima de gordura (e, portanto, na produção de cetonas) em vez de glicose.

    • Relação G/K de 1 a 2: Indica que o corpo está na faixa de cetose, utilizando predominantemente gordura como fonte de energia.

    • Relação G/K superior a 2: Indica que o corpo está utilizando mais glicose do que gordura como fonte de energia. Isso não é ideal para a perda de peso, já que o corpo está mais dependente de carboidratos.

    • Relação G/K de 0,5 ou menos: Este é um estado de cetose profunda, o que é desejável para otimizar a queima de gordura e promover a perda de peso.

Calculadora gratuita - glicose/corpos cetônicos

2) Prefira carboidratos de baixo índice glicêmico, como abobrinha, folhosos (aflace, espinafre, couve, acelga, rúcula, mostarda), couve-flor, brócolis, berinjela, cogumelos, aspargos, pimentões, tomate, morangos, framboesas, amoras, mirtilos,

3) Acompanhe o progresso da perda de gordura usando um aparelho de bioimpedância.

4) O jejum intermitente é uma boa ideia para apoiar sua perda de peso.

Para individualização do seu plano alimentar e suplementação marque uma consulta online.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Efeito prebiótico do ômega-3

O artigo The prebiotic effects of omega-3 fatty acid supplementation: A six-week randomised intervention trial teve como objetivo investigar os efeitos prebióticos da suplementação com ácidos graxos ômega-3 em humanos. O estudo buscou explorar como a suplementação com ômega-3 pode influenciar a composição e a atividade da microbiota intestinal, uma área de crescente interesse devido à sua relação com a saúde metabólica e imunológica.

A elegibilidade dos participantes incluiu aqueles com idade >18 anos que tinham um índice de massa corporal (IMC) entre 20 e 39,9 kg/m2 e tinham um baixo consumo habitual de fibras de menos de 15 g/d e não usavam óleo de peixe ou medicamentos antiinflamatórios.

Os participantes foram divididos para tomar 20 g de fibra de inulina ou 1 cápsula de ômega-3 diariamente (165 mg de EPA, 110 mg de DHA, em cápsulas de gelatina) por um período de 6 semanas. Durante o período da intervenção, amostras de fezes foram coletadas para analisar mudanças na microbiota intestinal e seus metabólitos, como ácidos graxos de cadeia curta, que são indicadores de atividade prebiótica.

Os resultados indicaram que a suplementação com ômega-3 teve um efeito positivo sobre a microbiota intestinal. Especificamente, observou-se um aumento nas populações de bactérias benéficas associadas a efeitos prebióticos, como Bifidobacterium e Lactobacillus. Além disso, houve um aumento nos níveis de ácidos graxos de cadeia curta, que são importantes para a saúde intestinal e geral.

Em resumo, o estudo concluiu que a suplementação com ácidos graxos ômega-3 pode promover um efeito prebiótico, melhorando a composição e a função da microbiota intestinal. Isso sugere que os ômega-3 não só possuem benefícios diretos para a saúde cardiovascular e inflamatória, mas também podem modular positivamente o microbioma intestinal.

Enquanto gordura saturada reduz bacteroidetes e aumenta proteobacterias, o omega-3 tem ação positiva ajudando a restaurar a composição da microbiota saudavel, aumenta a produção de compostos antiinflamatórios, restaura a proporção de firmicutes/bacteroidetes e aumenta a taxa de Lachnospiraceae - associados a aumento de ácidos graxos de cadeia curta antiinflamatórios, especialmente butirato.

CURSO ONLINE - MODULAÇÃO INTESTINAL

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Doenças de armazenamento de glicogênio

As doenças de armazenamento de glicogênio (GSDs em inglês) são um grupo de distúrbios metabólicos hereditários que afetam a capacidade do corpo de armazenar ou quebrar o glicogênio. O tratamento das GSDs depende do tipo específico de GSDs, das enzimas envolvidas e dos sintomas do indivíduo.

A dieta cetogênica, que é rica em gorduras e pobre em carboidratos, pode ser benéfica para certos tipos de GSDs, especialmente a tipo III e a tipo IX quando há necessidade de minimizar o uso de glicose e depender de fontes alternativas de energia, como os corpos cetônicos. No entanto, ela não é aplicável a todos os tipos de GSDs. Veja como ela se aplica a alguns tipos comuns de GSDs:

  1. GSD Tipo I (Doença de Von Gierke): Esta condição envolve uma deficiência na enzima glicose-6-fosfatase, o que prejudica a capacidade do fígado de liberar glicose na corrente sanguínea. Há dificuldade na oxidação lipídica. Por isto, o tratamento principal é a alimentação frequente com carboidratos complexos (como amido de milho) para manter os níveis de glicose no sangue, em vez de uma dieta cetogênica.

  2. GSD Tipo III (Doença de Cori ou Forbes): Esta condição envolve uma deficiência na enzima desramificante, que leva à incapacidade de quebrar completamente o glicogênio. Como no Tipo I, muitos nutricionistas recomendam refeições frequentes e amido de milho para manter os níveis de glicose no sangue. Contudo, muitos pacientes desenvolvem hipertrigliceridemia, miopatia, esteatose e cardiopatia nesta dieta. A prevenção de complicações é importante e dietas mais ricas em proteína ou gordura tem sido recomendadas. A oxidação lipídica não está inibida e a dieta cetogênica, em particular, pode ajudar no equilíbrio energético durante períodos de doença ou estresse.

  3. GSD Tipo V (Doença de McArdle): Este tipo é causado por uma deficiência na glicogênio fosforilase muscular, levando à intolerância ao exercício e fraqueza muscular. A dieta cetogênica às vezes é recomendada para ajudar a fornecer uma fonte alternativa de combustível para os músculos, uma vez que o corpo não pode usar eficientemente o glicogênio muscular.

  4. GSD Tipo VI: causada pela deficiência da fosforilase a. Sua fisiopatologia é diferente da tipo I. As GSDs III, VI e IX podem ser referidas como cetogênicas pois existe a possibilidade de geração de corpos cetônicos. Tem um curso mais benígno do que a tipo I.

  5. GSD Tipo IX: Esta condição é causada por uma deficiência na enzima fosforilase quinase. O manejo geralmente se concentra em prevenir a hipoglicemia e fornecer glicose, e a dieta cetogênica pode não ser o tratamento principal, mas pode ser considerada em alguns casos para ajudar no metabolismo energético. O ideal é fazer adaptação caso a caso. Assim como algumas pessoas vão bem com dieta contendo carboidratos, para outras o excesso de carboidratos gera hepatomegalia e disfunção hepática com alteração de todas as enzimas do fígado.

Em resumo, embora a dieta cetogênica possa ser um complemento útil no manejo de certos tipos de GSDs, ela não é o tratamento principal para todas as formas da doença. A abordagem do tratamento deve ser individualizada com base no tipo de GSD e nas necessidades específicas do paciente, muitas vezes envolvendo uma combinação de manejo dietético, medicamentos e outras terapias. É importante que indivíduos com GSD trabalhem com um especialista em metabolismo ou nutricionista para ajustar o tratamento à sua condição.

Uma abordagem prudente para as doenças de armazenamento de glicogênio seria utilizar uma dieta com baixo IG, reduzindo o uso de açúcar simples o máximo possível. A ingestão de proteína de alto valor biológico da ordem de 30% dos requisitos energéticos totais são uma meta pragmática pois muitos aminoácidos são glicogênicos. Aumento adicional de proteína, uso de gordura, TCM com redução concomitante de carboidratos ou cetonas exógenas podem ser utilizados em muitos casos (Bhattacharya, Pontin, & Tompson, 2016).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/