Desregulação imune no autismo

O sistema imunológico consiste em um conjunto de barreiras, moléculas e células que se organizam em tecidos e órgãos, funcionando em estreita interação para gerar uma resposta protetora contra invasores. Fazem parte deste sistema as barreiras físicas (pele, intestino, pulmão, barreira hemato-encefálica), as respostas imune inata, inflamatória, adaptativa (incluindo imunidade humoral e mediada por células). Cada uma destas resposta requer uma série de nutrientes para que tudo corra bem. Se a pessoa está desnutrida, a imunidade será alterada.

A dieta monótona afeta a imunidade de qualquer pessoa (Gombart, Pierre, & Maggini, 2020).

Papel do sistema imune

O sistema imune inato primeiro reconhece padrões moleculares associados a patógenos e ativa células não especializadas (como neutrófilos e células natural killers - NK) para produzir citocinas pró-inflamatórias e reguladoras. Estas substâncias causam vasodilatação, aumento da permeabilidade vascular e maior chegada de substâncias de defesa ao “local problema”.

Com o passar do tempo o corpo vai aprendendo o que faz bem e o que não faz e memorizando como responder de forma mais eficiente a cada ataque. Os linfócitos começam a se diferenciar e a produzir anticorpos, que neutralizam toxinas, impedem a movimentação e destróem patógenos. O problema é que quanto mais uma pessoa está inflamada mais os efeitos adversos da ativação excessiva do sistema imune manifestam-se.

Sintomas comuns do exagero na produção de citocinas incluem: febre, calafrios, cansaço, náuseas, diarreia, queda da pressão sanguínea, tosse, dores, tontura, dificuldade para engolir. Estas citocinas também podem atravessar a barreira hematoencefálica e gerar dores de cabeça, confusão mental e mudanças comportamentais.

Resposta imune no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)

A resposta imune adaptativa desempenha um papel importante no desenvolvimento do autismo. As proteínas do Complexo Principal de Histocompatibilidade (MHC) estão envolvidas nas respostas imunes adaptativa e inata.

Os alelos A2 do antígeno leucocitário humano (HLA), receptor de morte (DR) 4 e DR11 estão associados a uma resposta linfocitária diminuída e estão envolvidos em uma grande suscetibilidade ao TEA. Dentro da região HLA classe III, existe um alelo nulo do complemento C4B, resultante de duplicações de C4A, que confere um risco relativo de 4,3 para o desenvolvimento de TEA.

Recetores de morte (death receptors) e proteínas que os ativam. Estes ligantes são membros da família do fator de necrose tumoral (TNF) e os receptores são da família de rceptores de TNF (Green, 2022).

Pesquisas demonstraram que há uma regulação positiva de genes envolvidos na ativação imune inata, particularmente na via de células Natural Killer (NK), em indivíduos com TEA. As células NK desempenham um papel importante na defesa imunológica, e alterações na sua atividade foram observadas em crianças com TEA, indicando uma possível influência da imunidade inata na manifestação clínica do transtorno.

Papel da Proteína MHC-I

A proteína MHC-I, que está localizada nas sinapses e regula a transmissão sináptica no cérebro, tem sido associada ao TEA. O desequilíbrio nos níveis de MHC-I nos neurônios pode afetar a conectividade sináptica, levando a alterações no desenvolvimento cerebral e contribuindo para os sintomas típicos do transtorno.

Polimorfismos e Mutações no MHC-I

Haplótipos específicos do MHC-I e mutações genéticas associadas ao MHC-I foram implicados no desenvolvimento do TEA, sugerindo que a imunidade periférica pode interagir com o sistema nervoso central, influenciando a conectividade neural e a função cerebral.

Citocinas e Respostas Imunes

A regulação de citocinas, que são proteínas que mediam as respostas imunes, também está alterada em indivíduos com TEA. Em particular, o aumento de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1, IL-6 e IL-17, foi frequentemente observado, e essas alterações podem estar relacionadas à gravidade do transtorno, afetando tanto o comportamento quanto o desenvolvimento social.

Células Th1, Th2 e Th17 no TEA

A desregulação de células T auxiliares (Th1, Th2, Th17 e Tregs) tem sido uma característica comum no TEA. Estudos indicam que a desregulação dos fatores de transcrição relacionados a essas células pode contribuir para o desequilíbrio imunológico observado no transtorno, impactando diretamente o comportamento e a função neural.

Linfócitos T e Comportamento Aberrante

Em muitos indivíduos com TEA, observa-se um desequilíbrio nos linfócitos T, com uma proporção anormal de células T auxiliares-supressoras e um déficit de células T reguladoras. Esse desequilíbrio pode resultar na liberação desregulada de citocinas, exacerbando os sintomas comportamentais, como irritabilidade e hiperatividade.

Citocinas e Interações Cérebro-Periféricas

As interações entre o sistema imune periférico e o cérebro são fundamentais para o desenvolvimento do TEA. Citocinas derivadas de linfócitos, como IL-17A e IL-22, afetam diretamente a função cerebral e o comportamento. Além disso, as alterações no microbioma materno e intestinal têm sido identificadas como moduladores das respostas imunes e podem influenciar as respostas inflamatórias no cérebro, impactando o neurodesenvolvimento.

Autoimunidade e o TEA

A relação entre autoimunidade e o TEA é um campo de estudo crescente. Há evidências de que autoanticorpos maternos, como aqueles contra o receptor de folato (FRA), podem alterar o desenvolvimento fetal e aumentar o risco de TEA. A exposição ao ambiente imunológico materno pode influenciar o desenvolvimento do sistema nervoso central da criança, promovendo anormalidades no comportamento.

Autoanticorpos e Suscetibilidade ao TEA

Pesquisas indicam que a presença de autoanticorpos, como os dirigidos contra proteínas neuronais como o gangliosídeo M1 e a proteína glial fibrilar ácida, está associada a alterações no tecido cerebral de indivíduos com TEA. Essa ativação autoimune pode estar ligada a respostas inflamatórias e disfunções neurológicas observadas no transtorno.

Imunidade Materna e o Risco de TEA

Estudos sobre a imunidade materna durante a gestação sugerem que anticorpos específicos, como os autoanticorpos contra o receptor de folato, podem interferir no transporte de nutrientes essenciais, como o folato, para o feto. Isso pode afetar diretamente o desenvolvimento cerebral e aumentar o risco de transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo o TEA.

Imunidade Inata no TEA: O Papel das Células Natural Killer (NK)

As células NK desempenham um papel crucial na defesa do organismo, e em crianças com TEA, foi observada uma alteração na atividade dessas células. A regulação positiva de citocinas, como IL-15 e IL-12, em crianças com TEA também foi reportada, sugerindo uma possível contribuição da imunidade inata para os sintomas do transtorno.

Microglia e Conectividade Cerebral no TEA

A microglia, uma célula do sistema imunológico central, está envolvida na resposta inflamatória no cérebro e tem sido associada a anomalias na conectividade cerebral em indivíduos com TEA. A ativação excessiva da microglia pode afetar a neurogênese e a sinaptogênese, levando a alterações no comportamento e na função cognitiva.

Vários estudos sugerem que fatores imunológicos, como infecções maternas durante a gestação, podem desempenhar um papel crucial no desenvolvimento de distúrbios do espectro autista (TEA).

1. Infecção Materna e a Desregulação Imunológica Pré-Natal

Pesquisas sugerem que infecções maternas durante a gravidez podem alterar a resposta imunológica e afetar o desenvolvimento fetal. O modelo MIA (Maternal Immune Activation) mostra que desafios infecciosos, como a gripe e o herpes, podem induzir uma resposta imune exacerbada, afetando a produção de IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina) no recém-nascido. A redução deste fator pode prejudicar a mielinização neuronal, um processo essencial para a função cerebral adequada, o que pode, por sua vez, contribuir para o desenvolvimento do autismo.

2. Citocinas e seu Impacto no Fenótipo Clínico do Autismo

Estudos indicam que as citocinas desempenham um papel fundamental na gravidade do TEA. A presença de altos níveis de citocinas inflamatórias como IL-1β, IL-6, TNF-α, e IL-12p70 está associada a sintomas mais graves, como dificuldades de comunicação social e comportamento estereotipado. A disfunção na regulação de citocinas, como IL-10 e TGF-β1, também está correlacionada com distúrbios do comportamento e dificuldades cognitivas. A regulação dessas moléculas pode influenciar diretamente a conectividade neural e as funções cognitivas no TEA.

3. Desregulação Imunológica e Comorbidades Associadas ao Autismo

Além dos aspectos neurológicos, as crianças com TEA frequentemente apresentam comorbidades imunomediadas. Entre as mais comuns estão:

  • Alergias e Asma: Crianças com autismo têm uma taxa mais alta de alergias, incluindo rinite alérgica e asma, que podem exacerbar os sintomas comportamentais do TEA.

  • Distúrbios Gastrointestinais (GI): Aproximadamente 50% das crianças com autismo sofrem de disfunções gastrointestinais, caracterizadas por inflamação intestinal, aumento da permeabilidade intestinal e uma produção exacerbada de citocinas inflamatórias.

  • Epilepsia e Distúrbios do Sono: A epilepsia é uma condição comórbida frequente no autismo, e a regulação de citocinas como IL-12 p40 e IL-6 pode ser um marcador de distúrbios epilépticos em pacientes com TEA.

4. O Papel do Microbioma Intestinal e o Eixo Intestino-Cérebro

A relação entre o microbioma intestinal e o cérebro, conhecida como eixo microbiota-intestino-cérebro, também está sendo explorada como um fator potencial no desenvolvimento do TEA. Alterações na composição da microbiota e nos metabólitos bacterianos podem influenciar a função cerebral e comportamentos, particularmente devido à sua capacidade de afetar a barreira hematoencefálica e a resposta imunológica.

5. Obesidade materna

A obesidade materna tem sido associada ao desenvolvimento de diversos distúrbios neuropsiquiátricos, incluindo o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Durante a gravidez, o sistema imunológico da mãe desempenha um papel crucial, protegendo contra patógenos externos e prevenindo a rejeição do feto. Quando o blastocisto se implanta no útero, ocorre uma reação inflamatória que é regulada positivamente por citocinas como IL-6 e TNF, que são fundamentais para a reparação do epitélio uterino e para a progressão do parto. No entanto, a obesidade materna leva a uma inflamação crônica de baixo grau, que aumenta durante a gestação e pode predispor o feto ao desenvolvimento de distúrbios neuropsiquiátricos.

Embora o vínculo entre a obesidade materna e a patologia do autismo não seja completamente compreendido, pesquisas indicam que a obesidade pode afetar o neurodesenvolvimento fetal, alterando o comportamento microglial e provocando modificações epigenéticas no cérebro. A meta-inflamação gerada pela obesidade, caracterizada pela presença de inflamação de baixo grau nos tecidos adiposos, pode prejudicar o desenvolvimento do cérebro fetal. A placenta também desempenha um papel importante nesse processo, já que produz citocinas que podem ser transmitidas ao feto e afetar o desenvolvimento neuronal.

Além disso, hormônios derivados do tecido adiposo, como a leptina, têm sido associados à ativação de células microgliais e à produção de citocinas inflamatórias, o que pode agravar a neuropatologia em distúrbios neuropsiquiátricos, incluindo o TEA. Os ácidos graxos saturados e poli-insaturados (SFAs/PUFAs) também desempenham um papel importante nesse processo, pois foram identificados como moduladores imunológicos que influenciam a inflamação no sistema nervoso central e a ativação de macrófagos, podendo contribuir para alterações no desenvolvimento neuronal e na função cerebral.

Estudos em modelos animais demonstraram que uma dieta materna rica em gorduras pode provocar alterações comportamentais nas mães e impactos negativos no cuidado materno, além de reduzir a produção placentária de fatores de crescimento essenciais, como o IGF-1, que afeta a transferência de nutrientes para o feto. Esses fatores são cruciais para o desenvolvimento saudável da prole, e qualquer desequilíbrio durante a gestação pode aumentar o risco de distúrbios neuropsiquiátricos.

6. Desregulação imune e risco de doenças neurodegenerativas

Distúrbios neuropsiquiátricos e neurodegenerativos, como o TEA e a Doença de Parkinson (DP), compartilham mecanismos imunopatológicos comuns, apesar de suas diferenças clínicas. Ambos estão relacionados à disfunção cerebral e à ativação da resposta imune, em especial das células gliais, que desempenham um papel crucial na inflamação do cérebro. Essas células, como a microglia e os astrócitos, produzem citocinas e outras moléculas inflamatórias que recrutam células imunes locais e periféricas para os tecidos afetados, promovendo a neuroinflamação.

Em relação ao TEA, que é caracterizado por deficiências na interação social, padrões comportamentais restritos e repetitivos, e possíveis comorbidades como epilepsia e distúrbios gastrointestinais, as vias de sinalização imunológicas parecem estar diretamente envolvidas no desenvolvimento da doença. Semelhante à DP, onde a doença é marcada pela perda de neurônios dopaminérgicos e a acumulação de proteínas mal dobradas, o TEA apresenta alterações nos circuitos sinápticos que afetam a cognição e a função motora.

A ativação microglial, muitas vezes induzida por insultos específicos, leva à neurotoxicidade, um mecanismo imunopatológico central tanto no TEA quanto na DP. A resposta inflamatória glial, mediada por citocinas como IL-1β, IL-6, TNF-α e outros mediadores, contribui para a neurodegeneração e os sintomas observados em ambas as doenças. No TEA, essa ativação pode afetar regiões cerebrais como o córtex frontal, o cerebelo e os gânglios da base, enquanto na DP, ela afeta principalmente a substância negra, responsável pela produção de dopamina.

Em modelos experimentais, a inflamação crônica associada à microglia reativa tem sido identificada como um fator que acelera a progressão da doença. Em ambas as condições, a conversão de astrócitos protetores em uma forma neurotóxica (A1) é um fator crítico, mediado por interações com a microglia e mediadores inflamatórios. Isso sugere que a disfunção imunológica compartilhada pode ser um elo entre o TEA e a DP, com a inflamação desempenhando um papel crucial na patogênese dessas condições.

Esses insights destacam a importância de investigar os mecanismos imunológicos que se sobrepõem entre essas condições e como a inflamação, tanto na gestação quanto ao longo da vida, pode influenciar o risco e a progressão de distúrbios neuropsiquiátricos e neurodegenerativos. O entendimento desses processos pode abrir novas abordagens terapêuticas para prevenir ou mitigar os impactos desses distúrbios no cérebro humano.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Dietas Cetogênicas: Benefícios, Mecanismos e Evidências Clínicas

As dietas cetogênicas (DC) têm ganhado popularidade principalmente por sua capacidade de promover uma rápida perda de peso no curto prazo. O padrão alimentar da DC é caracterizado por uma ingestão muito restrita de carboidratos, com menos de 50 g por dia, enquanto há um aumento significativo na ingestão de proteínas e gorduras. Esta restrição de carboidratos leva a um aumento na produção de corpos cetônicos, que são gerados a partir da quebra dos ácidos graxos e aminoácidos cetogênicos.

As cetonas, por sua vez, são uma fonte alternativa de energia em comparação com os carboidratos, o que induz várias adaptações fisiológicas no corpo. Essas adaptações têm mostrado efeitos benéficos à saúde, incluindo a melhoria dos perfis glicêmico e lipídico, além da promoção da perda de peso. Por esses motivos, a dieta cetogênica também tem sido recomendada como tratamento não farmacológico para a epilepsia refratária a medicamentos, tanto em crianças quanto em adultos. Diversos estudos indicam que a DC pode reduzir a frequência de convulsões em pacientes com epilepsia resistente a medicamentos, com alguns pacientes alcançando remissão completa e sustentada. No entanto, o mecanismo exato que confere a propriedade anticonvulsivante à dieta cetogênica ainda não está totalmente esclarecido.

Evidências Clínicas sobre a Dieta Cetogênica

Várias revisões sistemáticas e metanálises de ensaios clínicos randomizados (RCTs) têm explorado os efeitos da dieta cetogênica em diferentes condições de saúde. Esses estudos demonstraram os benefícios da DC para controlar o peso e melhorar os parâmetros cardiometabólicos em pacientes com obesidade ou diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Além disso, a dieta tem sido utilizada em pacientes com epilepsia refratária para reduzir a frequência de convulsões, e também por atletas, visando a melhoria do desempenho e o controle de peso.

Embora os resultados positivos sejam frequentemente observados, a literatura existente sobre a dieta cetogênica ainda carece de uma síntese robusta da qualidade e força das evidências. A maioria das pesquisas sobre a DC tem sido focada em estudos com amostras relativamente pequenas e com diferentes protocolos de dieta, o que pode dificultar a comparação dos resultados e a generalização dos achados.

Uma revisão sistemática incluiu 17 meta-análises, com 68 RCTs únicos, com um tamanho de amostra mediano de 42 participantes (variação de 20 a 104) e um período de acompanhamento mediano de 13 semanas. A qualidade das meta-análises, conforme avaliada pelo AMSTAR-2, revelou que nenhuma foi classificada como de alta confiança, 2 (12%) como confiança moderada, 2 (12%) como confiança baixa e 13 (76%) como confiança criticamente baixa (Patikorn et al., 2023).

Foram identificados quatro tipos de dietas cetogênicas na revisão:

  1. DC tradicional com ingestão de carboidratos <50 g/dia ou <10% da ingestão total de energia (TEI).

  2. DC clássica (baixo carboidrato, dieta rica em gordura) com ingestão de carboidratos <50 g/dia ou <10% de TEI e alta ingestão de gordura (60-80% de TEI).

  3. DC de baixa caloria com ingestão de carboidratos <30–50 g/dia ou 13–25% de TEI e TEI <700–800 kcal/dia.

  4. MAD (dieta Atkins modificada), com ingestão de carboidratos <10 g/dia, incentivando alimentos ricos em gordura.

Principais Achados

As principais associações estatisticamente significativas encontradas foram:

  • Epilepsia refratária: DC ou MAD, por 3 a 16 meses, foi associada a uma redução significativa na frequência de crises em crianças e adolescentes com epilepsia refratária.

  • Diabetes tipo 2: DC por 3 meses reduziu significativamente os triglicerídeos e HbA1c em adultos com diabetes tipo 2.

  • Peso corporal: DC clássica por 4-6 semanas foi associada a uma perda de peso clinicamente significativa em adultos com diabetes tipo 2 com sobrepeso ou obesidade.

Em termos de segurança, não houve aumento significativo nos eventos adversos (como constipação, dor abdominal e náusea) com a dieta cetogênica.

Benefícios da Dieta Cetogênica discutidos

Controle de Crises em Epilepsia
Em crianças e adolescentes com epilepsia refratária a medicamentos, a DC tem mostrado melhorar o controle das crises. Aproximadamente um terço dos casos experimentaram uma redução significativa das crises ao longo de até 16 meses. Mecanismos possíveis incluem: aumento do metabolismo mitocondrial, produção de corpos cetônicos e redução dos níveis de glicose no cérebro. Além disso, a dieta pode ter efeitos no aumento do GABA (ácido gama-aminobutírico), redução de marcadores inflamatórios e modificações epigenéticas benéficas.

Efeitos em Adultos
Para adultos, a DC tem sido associada a melhorias em medidas antropométricas, como perda de peso, além de benefícios em parâmetros cardiometabólicos e desempenho físico. No entanto, há diferenças significativas dependendo do tipo de dieta cetogênica seguida. A VLCKD (dieta cetogênica de ingestão muito baixa de carboidratos) tem mostrado ser muito eficaz na perda de peso, preservando a massa muscular, enquanto dietas como o K-LCHF (low-carb high-fat) podem resultar em perda de massa muscular.

A DC é eficaz na redução dos níveis de triglicerídeos após três meses de ingestão reduzida de carboidratos, com reduções adicionais após 12 meses. Isso pode ser atribuído à diminuição da insulina e ao aumento da lipólise (quebra de gordura). Além disso, a cetose (produzida pela dieta) pode ter um efeito direto na redução de triglicerídeos, independentemente da perda de peso.

Desafios e Limitações

Redução da Massa Muscular e Aumento do LDL-C: Uma limitação importante da KD é a perda de massa muscular, especialmente nas fases iniciais da dieta. Isso é frequentemente acompanhado por um aumento do LDL-C (colesterol de lipoproteína de baixa densidade), o que pode gerar preocupações sobre a saúde cardiovascular a longo prazo. No entanto, o aumento do LDL-C não implica necessariamente em um risco cardiovascular elevado, já que as partículas de LDL variam em tamanho e composição, com as partículas menores sendo mais aterogênicas.
A DC também tem mostrado promover uma perda de peso rápida e significativa nas fases iniciais, mas a sustentabilidade dessa perda ao longo do tempo ainda é um desafio. Os resultados indicam que a perda de peso com a DC é modesta, comparável a outras intervenções dietéticas como o jejum intermitente ou a dieta mediterrânea.

Importância da Consulta Profissional
É fundamental que qualquer intervenção dietética, incluindo a KD, seja supervisionada por profissionais de saúde. Para garantir o sucesso e a sustentabilidade, é necessário que os pacientes recebam orientação adequada e educação sobre a dieta e seus potenciais efeitos colaterais.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Dieta cetogênica no autismo

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é frequentemente associado a comportamentos alimentares desafiadores, como seletividade alimentar e padrões alimentares repetitivos, que não só podem afetar o crescimento e a nutrição dos pacientes, mas também influenciam a composição do microbioma intestinal. A dieta pode desempenhar um papel importante na modulação da saúde intestinal, e alguns estudos sugerem que intervenções dietéticas podem impactar positivamente os sintomas do TEA, especialmente através de modificações no microbioma intestinal.

A Dieta Cetogênica e seus Efeitos no Microbioma Intestinal

A dieta cetogênica (KD), que é rica em gorduras, pobre em carboidratos e com proteínas adequadas, é bem estabelecida no tratamento da epilepsia infantil farmacologicamente resistente e tem mostrado potencial para benefícios neuroprotetores em indivíduos com TEA. Pesquisas com camundongos BTBR, um modelo de TEA, indicaram que a dieta cetogênica pode modificar o microbioma intestinal, levando a uma redução na abundância de bactérias, especialmente aquelas que metabolizam carboidratos não digeridos. Os resultados sugerem que a dieta cetogênica pode melhorar os sintomas do TEA ao promover um equilíbrio bacteriano mais favorável, com o aumento de produtores de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como C. coccoides e C. leptum.

Suplementos Nutricionais e o Microbioma no TEA

Além da dieta cetogênica, suplementos nutricionais também têm sido investigados para seus efeitos no microbioma e no comportamento de indivíduos com TEA. Um estudo sobre a suplementação com galacto-oligossacarídeos prebióticos (B-GOS®) mostrou melhorias na composição do microbioma intestinal e no comportamento de crianças com autismo. A suplementação aumentou a abundância de Bifidobacteria, especialmente B. longum, e membros da família Lachnospiraceae, conhecidos por produzir butirato, um ácido graxo benéfico para a saúde intestinal. Além disso, os níveis fecais de aminoácidos, que podem indicar problemas na barreira intestinal, diminuíram, sugerindo que a suplementação com B-GOS® também pode melhorar a saúde intestinal.

Outros estudos investigaram a administração de suplementos de vitamina A em crianças autistas, mas não observaram alterações significativas nos sintomas do TEA, apesar das mudanças na composição do microbioma intestinal. Outro estudo piloto indicou que o colostro bovino (BCP), um produto rico em fatores imunológicos e prebióticos, melhorou os sintomas gastrointestinais e comportamentais em crianças autistas. No entanto, não foram encontradas mudanças significativas na composição microbiana intestinal após o tratamento com BCP.

Desafios e Perspectivas Futuras

Embora os dados sugiram que intervenções dietéticas e suplementos possam ter efeitos benéficos no TEA, os resultados dos estudos são, em sua maioria, inconclusivos. A variabilidade entre os indivíduos, tanto no microbioma intestinal quanto nos resultados do tratamento, pode ser um fator importante. Além disso, a falta de padronização na análise do microbioma e a pequena amostra de participantes nos estudos dificultam a generalização dos resultados.

Para avançar nesse campo, é crucial adotar métodos mais rigorosos, como estudos com amostras maiores, e incorporar abordagens multiômicas que permitam avaliar as alterações metabólicas e a composição microbiana de maneira mais detalhada. Além disso, mais pesquisas são necessárias para entender os efeitos a longo prazo das modificações dietéticas no microbioma intestinal e identificar quais intervenções podem trazer os maiores benefícios para os indivíduos com TEA.

Em resumo, enquanto as intervenções dietéticas, como a dieta cetogênica, suplementos prebióticos e vitamínicos, mostram potencial para melhorar o microbioma intestinal e os sintomas do TEA, é necessário realizar mais pesquisas para confirmar esses efeitos e desenvolver estratégias de tratamento mais eficazes e personalizadas.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/