O que é o Efeito Warburg? Qual é a importância desta teoria na oncologia?

Não obtemos energia de pão, macarrão, carne, fruta, abacate ou pudim. Obtemos energia a partir de adenosina tri fosfato (ATP). Assim, o corpo é obrigado a transformar tudo o que come nesta molécula. As duas principais vias metabólicas que fornecem energia para as células são a glicólise e a fosforilação oxidativa (OXPHOS).

A glicólise é a forma anaeróbica (sem oxigênio) de geração de ATP. Nesta via, a glicose (de 6 carbonos) é quebrada ao meio, formando duas moléculas de 3 carbonos e liberando 2 ATP. É uma via relativamente ineficiente em comparação com a forsforilação oxidativa (OXPHOS), que consome oxigênio mas gera outros 32 a 34 ATP.

As células saudáveis usam apenas a glicólise em condições anaeróbicas, enquanto, ao contrário, as células malignas principalmente dependem da glicólise, mesmo na presença de oxigênio suficiente, levando a um estado denominado “glicólise aeróbica”. Este fenômeno, pelo qual as células cancerígenas dependem da glicólise para a produção de ATP, em vez de OXPHOS, foi relatado pela primeira vez pelo Dr. Warburg em 1955 e, portanto, é conhecido como Efeito Warburg.

Os efeitos antitumorais da dieta cetogênica emanam de sua capacidade de criar um microambiente tumoral deficiente em glicose, forçando as células saudáveis a obterem energia a partir da oxidação (queima) de ácidos graxos por meio de OXPHOS.

A estratégia reduz a proliferação de células tumorais, uma vez que estas são ineficientes no uso de ácidos graxos (gorduras) para a produção de ATP.

Mecanismos envolvidos na progressão malígna

Estudos anteriores em animais descobriram que a dieta cetogênica altera a expressão de várias proteínas envolvidas na progressão maligna. Essas moléculas incluem o receptor 2 do fator de crescimento endotelial vascular, a metaloproteinase-2 da matriz e a vimentina.

Além disso, a dieta cetogênica fortalece o efeito antiangiogênico da ciclofosfamida, que causa hipóxia nas células tumorais. Normalmente, o gene da anidrase carbônica IX (CAIX) é expresso durante a hipóxia como uma resposta ao estado ambiental de baixo oxigênio, mas a dieta cetogênica combinada com a medicação em baixa dose não leva a tal resposta, apesar de sua inibição da angiogênese.

Isso ocorre porque a dieta cetogênica reduz a expressão do fator-1 alfa induzível por hipóxia (HIF-1α) e, subsequentemente, a expressão de CAIX, levando à redução da microvasculatura do tumor.

A dieta cetogênica também reduz a expressão de serina/treonina quinase Akt (Proteína quinase B). Normalmente, Akt aumenta em células cancerígenas humanas e leva a proliferação celular aumentada, mais mutação e inibição da apoptose (morte destas células). Akt estimula a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) e seu acúmulo; no entanto, a dieta cetogênica reduz a produção de ROS ao mesmo tempo em que aumenta os antioxidantes no sangue. A redução de ROS melhora a função mitocondrial nas células saudáveis.

Menor resistência ao estresse e menor capacidade de regeneração celular e apoptose de células tumorais (Link para figura)

Os baixos níveis de glicose associados à dieta cetogênica reduzem a atividade da via das pentoses fosfato. A via das pentoses fosfatos gera NADPH para uso em reações de biossíntese redutiva e geração reduzida de glutationa (GSH). A dieta cetogênica diminui essa fonte de energia que também está associada ao aumento da geração de espécies reativas de oxigênio (ROS) e à toxicidade das células cancerígenas.

Além disso, essa depleção de energia inibe o ciclo celular por meio da ativação da via LKB1/AMPK e da inibição da via do mTOR. As células cancerígenas tentam compensar sua ineficácia mitocondrial aumentando a glicólise e ativando a via das pentoses fosfato. A glicólise produz energia a partir da glicose (2 ATPs), mas a função mais importante da glicólise é que a maioria dos intermediários dessa via é necessária para várias vias de biossíntese essenciais para a proliferação celular. Assim, a glicose é necessária para a produção de proteínas, nucleotídeos e ácidos graxos pela célula tumoral e a dieta cetogênica, ao reduzir a glicólise impede esta ocorrência.

Uma forma de reduzir o número de células cancerígenas seria matando-as de fome. Estudos experimentais mostram que, em longos períodos de jejum, as células cancerígenas são mais mais vulneráveis ao tratamento do câncer. Mas o paciente não pode ficar sem comer para sempre. Mas a dieta cetogênica imita o jejum para a célula cancerígena. A redução de carboidratos reduz a disponibilidade de insulina e fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF1) no sangue.

O IGF1 é essencial para o crescimento celular e, portanto, sua redução causa redução da proliferação tumoral. A dieta cetogênica também pode alterar a expressão de genes relacionados ao estresse oxidativo e inflamação em células tumorais.

Por fim, é relatado que a dieta cetogênica diminui os aminoácidos (AAs) no plasma e dentro do tumor, mas uma dieta normal com baixa proteína não leva a essa diminuição. Portanto, corpos cetônicos altos podem ser o motivo de um declínio nos AAs. Isto é importante pois aminoácidos essenciais e dos metabólitos do ciclo da uréia, aumentam a produção de glutamina, que o tumor também ama.

Apesar dessas vantagens potenciais, a dieta cetogênica não é uma opção de tratamento adequada para todos os tipos de câncer. Por exemplo, é relatado que a proliferação de células cancerígenas aumentou em células de melanoma com mutação BRAF V600E com dieta cetogênica. Também discute-se a viabilidade da dieta cetogênica no câncer renal (Makuku et al., 2023).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

O que significa as frações 1:1, 2:1, 3:1 e 4:1 na dieta cetogênica?

A dieta cetogênica é um padrão alimentar com alto teor de gordura, com o intuito de favorecer a cetose. A cetose é o estado metabólico definido pela elevação dos corpos cetônicos. Caracteriza-se por níveis sanguíneos do corpo cetônico primário, beta-hidroxibutirato (BHB), acima de 0,5 mmol/L. Com exceção da cetose induzida por meio de suplementos exógenos de cetona, essa mudança metabólica ocorre em níveis baixos de glicose e, portanto, baixos níveis de insulina.

Para atingir a cetose a dieta pode ser:

  • 1:1, uma parte de gordura para uma parte de carboidrato + proteína. É uma dieta menos restrita. Aqui cabem alguns tubérculos.

  • 2:1, duas partes de gordura e uma parte de carboidrato + proteína. Quanto maior é o teor de gordura da dieta, menos carboidratos esta dieta terá.

  • 3:1, três partes de gordura e uma parte de carboidrato + proteína adequada para as necessidades nutricionais do paciente.

  • 4:1 é a dieta cetogênica clássica, muito utilizada na dieta de crianças menores, com epilepsia de difícil controle. Contém 4 partes de gorduras, para uma parte de carboidrato + proteína. É uma dieta bem mais restrita, com cerca de 90% das calorias vindas das gorduras.

Existem também frações intermediárias, como 1,5:1, 2,5:1, etc. A fração escolhida dependerá do efeito esperado. Por exemplo, se a redução do número de crises convulsivas não ocorre na fração 1:1, a quantidade de gordura é aumentada. Se a redução ocorre na fração 2,8:1 é nesta fração que o paciente permanecerá durante o tratamento. Aprenda mais sobre o tema na plataforma https://t21.video.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

VEGETAIS NA DIETA CETOGÊNICA

A dieta cetogênica caracteriza-se por um baixo teor de carboidratos (em geral 20g), médio teor de proteína e alto teor de gordura. É uma dieta utilizada no tratamento de diversas condições como epilepsias de difícil controle, diabetes, obesidade, depressão, transtorno bipolar.

Os 20g a 50g de carboidratos da dieta cetogênica são principalmente provenientes de vegetais de baixo índice glicêmico. Existem alguns tipos de dietas cetogênicas, mas, em geral, as proporções são:

  • 55% a 90% da energia proveniente da gordura (60-70% na dieta Atkins modificada)

  • 6% a 30% da energia proveniente de proteínas (20-30% de proteína na dieta Atkins modificada)

  • 4% a 10% da energia proveniente de carboidratos (20-50 g/dia em uma dieta de 2.000 kcal por dia)

Alimentos na dieta cetogênica

No cardápio da dieta cetôgênica podem existir fontes de gorduras saturadas, monoinsaturadas (MUFAs) e poliinsaturadas (PUFAs). Quem possui polimorfismo do gene PPARalfa ou PLIN1 deve consumir menos gorduras saturadas para maior proteção cardiovascular.

Sem aumento de gordura na dieta, é difícil entrar em cetose. O fígado ainda tem dificuldade em digerir todas as gorduras e ainda pode ter reserva de carboidratos na forma de glicogênio. O fígado também pode não estar tão eficiente para a queima de gordura, pode estar sobrecarregado com má alimentação, álcool, medicamentos, poluição, predominância de estrogênio, etc. Para facilitar a cetose e a adaptação, é útil comer vegetais com certas qualidades desintoxicantes:

  • Crucíferos: família das couves, brócolis, couve-flor, rabanete, couve de bruxelas, repolho.

  • Aspargos e alcachofras: Contêm fibras prebióticas que são particularmente benéficas para as bactérias do intestino e para melhoria do funcionamento hepático.

  • Alho, cebola e alho poró: plantas bulbosas ricas em enxofre e selênio ajudam o fígado a livrar-se de toxinas. Também estimulam o sistema imunológico.

Atendi uma criança com epilepsia e a família pediu a recomendação de um livro bom sobre dieta cetogênica, com receitas fáceis e variadas. Aqui vai para todo mundo que tiver a mesma dúvida: https://amzn.to/46r8lSO. Precisa de ajuda? Marque aqui sua consulta de nutrição online.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/