SCA27B: a ataxia genética causada por uma expansão no gene FGF14

A SCA27B, também chamada ataxia GAA-FGF14 , é uma forma genética de ataxia cerebelar de início predominantemente adulto. Ela ganhou grande atenção científica a partir de 2022, quando dois grupos de pesquisadores, utilizando técnicas avançadas de análise genômica, identificaram uma alteração genética que explicava muitos casos de ataxia cerebelar de início tardio que permaneciam sem diagnóstico molecular.

A descoberta é particularmente importante porque demonstra que uma pessoa pode apresentar uma doença genética mesmo quando os exames genéticos convencionais não encontram uma variante responsável.

O que causa a SCA27B?

A SCA27B é causada por uma expansão de repetições GAA no gene FGF14. O FGF14 codifica o fibroblast growth factor 14, uma proteína importante para o funcionamento dos neurônios. A expansão responsável pela SCA27B está localizada em uma região intrônica do gene, ou seja, em uma região que não codifica diretamente a proteína. Essa localização ajuda a explicar por que a doença permaneceu difícil de diagnosticar durante tanto tempo.

As técnicas tradicionais de sequenciamento, especialmente aquelas baseadas em leituras curtas do DNA, podem ter dificuldade para identificar expansões repetitivas. O desenvolvimento do long-read sequencing, capaz de analisar segmentos muito maiores do DNA, foi fundamental para revelar essa alteração.

Uma doença genética que estava escondida nos exames convencionais

A descoberta da expansão em FGF14 mostrou que muitos pacientes classificados anteriormente como portadores de "ataxia cerebelar de causa desconhecida" apresentavam, na realidade, SCA27B.

No estudo de Rafehi e colaboradores, a expansão foi identificada em diferentes coortes de pacientes com ataxia de início adulto. Na coorte australiana, 4,2% dos pacientes apresentavam expansões superiores a 300 repetições GAA. Na coorte alemã de validação, 8,7% apresentavam expansões superiores a 335 repetições.

Os dois estudos que descreveram simultaneamente a alteração encontraram mais de 200 pacientes com expansões no FGF14, estabelecendo a SCA27B como uma causa importante de ataxia cerebelar de início tardio.

Isso tem uma consequência clínica importante: um resultado negativo em um painel genético convencional ou em um exoma não necessariamente exclui uma ataxia genética. Algumas doenças são causadas por expansões repetitivas que exigem métodos específicos para serem identificadas.

Como a SCA27B se manifesta?

A apresentação típica é uma ataxia cerebelar de início adulto, geralmente de progressão lenta. Entre as manifestações descritas estão:

• dificuldade de equilíbrio e coordenação
• alteração da marcha
• disartria
• nistagmo, especialmente o chamado downbeat nystagmus
• tontura e alterações vestibulares
• hiperreflexia
• rigidez muscular
• tremor
• alterações autonômicas em alguns pacientes

A apresentação, entretanto, é variável. Nem todos os indivíduos apresentam exatamente o mesmo conjunto de sintomas. Uma característica particularmente interessante é a presença de episódios de piora dos sintomas em alguns pacientes, o que pode contribuir para que a doença seja confundida inicialmente com outras formas de ataxia episódica.

O tamanho da expansão importa?

Sim, mas a interpretação não é tão simples quanto "quanto maior, pior". Os primeiros estudos demonstraram uma relação entre o tamanho da expansão e a probabilidade de doença. Expansões superiores a aproximadamente 335 repetições GAA apresentaram forte associação com a doença e alta penetrância, enquanto expansões superiores a aproximadamente 250 repetições foram consideradas provavelmente patogênicas, mas com penetrância reduzida. Estudos posteriores, entretanto, demonstraram que o número de repetições isoladamente não explica toda a variabilidade clínica.

A composição da repetição também parece ser importante. Expansões contendo apenas GAA apresentam comportamento diferente de expansões nas quais outros motivos, como GGA ou GCA, estão presentes. Isso ajuda a explicar por que indivíduos com expansões relativamente grandes podem permanecer assintomáticos.

Portanto, a interpretação de um resultado genético deve considerar: número de repetições + composição da expansão + contexto clínico + histórico familiar.

A idade de início também varia

Existe uma associação entre o tamanho da expansão e a idade de início. No estudo de Rafehi e colaboradores, expansões maiores estiveram associadas a uma idade de início mais precoce. Entretanto, essa relação não é suficientemente forte para prever individualmente quando uma pessoa desenvolverá sintomas.

Além disso, estudos mais recentes mostram que o tamanho da expansão não deve ser utilizado isoladamente para prever a gravidade ou a velocidade de progressão da doença. Essa é uma distinção importante: genótipo influencia o fenótipo, mas não determina completamente o fenótipo.

Por que o cerebelo é particularmente afetado?

Uma das descobertas mais interessantes sobre a SCA27B surgiu de estudos que analisaram diretamente o tecido cerebral. Pesquisas recentes demonstraram que a expansão GAA apresenta uma instabilidade somática particularmente acentuada no cerebelo, especialmente nos hemisférios cerebelares e no vermis. Em comparação com outras regiões cerebrais, esses locais apresentaram níveis significativamente maiores de expansão somática.

Isso é relevante porque pode ajudar a explicar uma característica da doença: apesar de a alteração genética estar presente em todo o organismo, a neurodegeneração é predominantemente cerebelar. Ou seja, não basta saber que existe uma mutação. É necessário compreender por que determinado tecido é mais vulnerável àquela alteração genética.

Uma mesma proteína, duas ataxias diferentes

O gene FGF14 já era conhecido antes da descoberta da SCA27B. Variantes diferentes no mesmo gene podem causar SCA27A, uma outra forma de ataxia autossômica dominante.

Na SCA27A, o mecanismo envolve variantes que alteram diretamente a proteína FGF14. Na SCA27B, o mecanismo envolve uma expansão repetitiva intrônica GAA.

Isso é um excelente exemplo de como um mesmo gene pode estar associado a diferentes doenças dependendo do tipo de variante genética.

A SCA27B é hereditária?

Sim. A SCA27B apresenta herança autossômica dominante. Portanto, uma pessoa afetada pode transmitir a alteração genética aos filhos. Entretanto, a história familiar pode não ser evidente.

Isso pode acontecer porque:

• os sintomas podem surgir apenas na idade adulta
• alguns portadores podem permanecer assintomáticos devido à penetrância reduzida
• a expansão pode apresentar instabilidade durante a transmissão
• alguns casos podem surgir por eventos de novo

O estudo original também encontrou evidências de que a expansão pode ser herdada ou, em uma minoria dos casos, surgir de novo durante a formação das células germinativas.

Como diagnosticar?

A identificação da SCA27B exige um teste capaz de detectar especificamente a expansão GAA no FGF14. Isso é diferente de simplesmente sequenciar o gene.

Podem ser utilizadas técnicas como repeat-primed PCR (RP-PCR), long-range PCR, sequenciamento de leitura longa. O sequenciamento de leitura longa apresenta uma vantagem adicional porque permite caracterizar melhor a estrutura completa da expansão e identificar motivos repetitivos que podem interferir na interpretação do resultado.

Por isso, diante de uma ataxia cerebelar de início adulto sem diagnóstico molecular, a investigação da expansão GAA no FGF14 tornou-se uma importante consideração diagnóstica.

Existe tratamento?

Atualmente, a SCA27B é considerada uma doença genética crônica e não existe tratamento capaz de eliminar a expansão GAA responsável pela doença. Isso, entretanto, não significa que não exista possibilidade de intervenção.

A identificação da SCA27B é importante porque permite:

• estabelecer um diagnóstico molecular
• orientar o aconselhamento genético
• identificar familiares em risco
• realizar acompanhamento neurológico adequado
• direcionar reabilitação
• monitorizar sintomas e progressão
• possibilitar participação em estudos clínicos

Além disso, estudos iniciais observaram resposta parcial de alguns pacientes à 4-aminopiridina, um bloqueador de canais de potássio utilizado clinicamente, particularmente em manifestações como downbeat nystagmus. Esse achado é interessante, mas não significa que o medicamento seja uma cura ou que funcione da mesma maneira para todos os pacientes.

O que essa descoberta nos ensina sobre genética?

Talvez uma das maiores lições da SCA27B seja que a genética das doenças neurológicas é muito mais complexa do que simplesmente procurar mutações dentro das regiões codificadoras dos genes.

Durante muitos anos, pacientes com ataxia de início tardio permaneceram sem diagnóstico porque a alteração responsável estava escondida em uma região repetitiva do genoma. O desenvolvimento do sequenciamento de leitura longa permitiu acessar essas regiões anteriormente difíceis de estudar.

E o que isso significa para o futuro?

A SCA27B representa um exemplo importante da nova geração da medicina genômica. A descoberta da expansão GAA no FGF14 transformou casos anteriormente classificados como "ataxia de causa desconhecida" em uma condição genética molecularmente definida. Ao mesmo tempo, abriu novas perguntas sobre por que o cerebelo é particularmente vulnerável, como a expansão se comporta ao longo da vida e quais fatores modificam a expressão clínica.

Estudos recentes já demonstram que a expansão apresenta características específicas de instabilidade no cerebelo, sugerindo que a interação entre genética, estrutura da repetição e vulnerabilidade celular pode ser fundamental para compreender a doença.

A SCA27B também reforça um princípio importante da medicina de precisão: identificar a causa genética não significa que o fenótipo seja completamente determinado. A mutação permanece, mas idade de início, manifestações clínicas, funcionalidade e resposta a intervenções podem apresentar variabilidade.

Por isso, o futuro provavelmente não estará apenas em identificar a expansão genética, mas também em compreender quais mecanismos podem ser modulados para preservar a função cerebelar e a qualidade de vida.

Referências principais

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  6. ONLINE MENDELIAN INHERITANCE IN MAN. FGF14; fibroblast growth factor 14 / SCA27B. OMIM, Johns Hopkins University. Disponível em: OMIM. Acesso em: 31 ago. 2026.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/