Testes genéticos e doença celíaca

Você já fez um teste genético para doença celíaca? Então vale uma pergunta: ele analisou os genes HLA ou apenas alguns SNPs? Essa diferença muda a confiabilidade da resposta.

A doença celíaca é uma doença autoimune desencadeada pelo glúten em pessoas geneticamente predispostas. O diagnóstico é baseado na combinação de sintomas, exames de sangue, testes genéticos e, quando indicada, biópsia do intestino delgado.

Hoje existem testes que analisam apenas alguns SNPs (polimorfismos) e outros que fazem a tipagem completa dos genes HLA, considerada o padrão ouro para avaliar a predisposição genética à doença celíaca.

À primeira vista, os resultados podem parecer semelhantes. Mas eles são obtidos por métodos diferentes e têm níveis de precisão diferentes. Entender essa diferença é fundamental para interpretar corretamente o seu exame e evitar conclusões equivocadas.

Neste post, vou explicar quais são os principais tipos de testes genéticos para doença celíaca, quando cada um é indicado e por que um resultado baseado em SNPs não é a mesma coisa que uma tipagem HLA.

O padrão ouro da avaliação genética é a tipagem HLA-DQA1 e HLA-DQB1. Esse exame identifica diretamente os alelos HLA e determina se a pessoa possui os haplótipos HLA-DQ2.5, HLA-DQ2.2 ou HLA-DQ8, responsáveis pela predisposição genética.

Mas muitos testes de nutrigenética fazem algo diferente. Eles analisam apenas alguns SNPs (polimorfismos), como rs2187668 ou rs7454108.

Imagine que você quer saber se está na cidade chamada DQ2. Com a tipagem HLA, você entra na cidade e lê a placa da prefeitura: "Bem-vindo à cidade DQ2."

Com os SNPs, você permanece na estrada e encontra apenas uma placa dizendo:

➡️ "DQ2 a 5 km."

Essa placa indica que a cidade provavelmente está próxima, mas ela não é a cidade.

Os SNPs são marcadores que costumam acompanhar determinados haplótipos HLA. Eles permitem estimar qual haplótipo a pessoa provavelmente possui, mas não fazem a leitura direta dos genes.

Solicitação de exames genéticos

Cada tecnologia responde a perguntas diferentes. Por isso, dois exames genéticos podem apresentar resultados completamente distintos, mesmo analisando a mesma pessoa.

Vimos que na investigação da doença celíaca, entender qual tecnologia foi utilizada é fundamental. Um teste baseado em SNPs pode apenas estimar a presença dos haplótipos HLA, enquanto a tipagem HLA identifica diretamente os alelos HLA-DQA1 e HLA-DQB1, sendo o método de referência para avaliar a predisposição genética à doença.

Na prática

Se o laudo traz apenas resultados como:

  • rs2187668

  • rs2395182

  • rs7454108

  • rs7775228

➡️ foi feito um teste de SNPs, e os haplótipos foram inferidos.

Se o laudo informa:

  • HLA-DQ2 positivo

  • HLA-DQ8 negativo

ou

  • HLA-DQA1*05:01

  • HLA-DQB1*02:01

➡️ foi realizada uma tipagem HLA, que identifica diretamente os alelos.

Uma observação importante

Mesmo um WGS de alta qualidade pode identificar os alelos HLA, mas isso só acontece se o laboratório utilizar um algoritmo específico para tipagem HLA (como HLA-HD, xHLA, HLA*LA, entre outros) e incluir esse resultado no laudo. Portanto, fazer um WGS não significa automaticamente que a tipagem HLA foi realizada.

Para investigação da doença celíaca, as diretrizes recomendam solicitar especificamente a tipagem molecular dos genes HLA-DQA1 e HLA-DQB1, e não apenas um exame genômico amplo.

⚠️ Atenção: ter HLA-DQ2 ou HLA-DQ8 não significa ter doença celíaca. Cerca de 30 a 40% da população possui esses haplótipos, mas apenas cerca de 1% desenvolve a doença. Em compensação, a ausência de DQ2 e DQ8 praticamente exclui o diagnóstico.

Além disso, nenhum teste genético substitui a avaliação clínica. O diagnóstico depende da combinação de predisposição genética, sorologia (anti-transglutaminase tecidual IgA e IgA total, ou testes baseados em IgG quando há deficiência de IgA), e, quando necessário, biópsia intestinal.

⚠️ E um detalhe essencial: durante a investigação, o paciente deve estar consumindo glúten. Retirar o glúten antes dos exames pode levar a resultados falso-negativos e dificultar o diagnóstico.

Modelo de resultado de tipagem HLA

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/