Imagine uma criança que, de um dia para o outro, passa a apresentar ansiedade intensa, comportamentos obsessivo-compulsivos, tiques, crises de irritabilidade ou uma queda brusca no desempenho escolar. Em muitos casos, esses sintomas são interpretados inicialmente como um transtorno exclusivamente psiquiátrico. No entanto, para um grupo de crianças, eles podem representar uma resposta inflamatória do sistema imunológico ao invés de um transtorno primário da saúde mental.
É nesse contexto que surgem os conceitos de PANS (Pediatric Acute-onset Neuropsychiatric Syndrome) e PANDAS (Pediatric Autoimmune Neuropsychiatric Disorders Associated with Streptococcal Infections).
Primeiro, vamos aos conceitos:
• PANS: Pediatric Acute-onset Neuropsychiatric Syndrome (Síndrome Neuropsiquiátrica de Início Agudo Pediátrica) - síndrome neuroimunológica caracterizada por início abrupto de sintomas obsessivo-compulsivos e ou restrição alimentar grave, acompanhados de múltiplos sintomas neuropsiquiátricos. O curso costuma ser flutuante, com remissões e recidivas, refletindo ativação e desativação do processo inflamatório cerebral.
• PANDAS: Pediatric Autoimmune Neuropsychiatric Disorders Associated with Streptococcal Infections (Desordem Neuropsiquiátrica Autoimune Associada a Infecções Estreptocócicas) - é considerado um subtipo de PANS, no qual o gatilho principal é a infecção estreptocócica. Nesses casos, alterações imunológicas como IgM reduzida e linfócitos CD8+ elevados têm sido associadas a maior risco de manifestações neuropsiquiátricas autoimunes.
Como a inflamação pode afetar o cérebro?
Uma das hipóteses mais estudadas envolve a perda temporária da integridade da barreira hematoencefálica (BBB). Essa estrutura protege o cérebro da entrada de moléculas inflamatórias e células do sistema imune.
Durante processos inflamatórios importantes, podem ocorrer:
aumento de citocinas inflamatórias (IL-1β, IL-6, TNF-α);
ativação da enzima MMP-9, que favorece a degradação da matriz extracelular;
alteração das proteínas das tight junctions (claudina-5, ocludina e ZO-1);
ativação da microglia, as células imunológicas residentes do sistema nervoso central.
Esse ambiente favorece a disfunção neuronal e pode contribuir para o aparecimento dos sintomas neuropsiquiátricos.
Vale ressaltar que esses mecanismos fazem parte das hipóteses fisiopatológicas mais aceitas, mas ainda estão em investigação contínua.
Quais infecções podem atuar como gatilho?
Embora o estreptococo seja o gatilho clássico do PANDAS, em PANS outros agentes também têm sido associados ao início ou agravamento dos sintomas, incluindo:
Streptococcus pneumoniae;
Mycoplasma pneumoniae;
Influenza ;
SARS-CoV-2;
Vírus Epstein-Barr;
Outras infecções respiratórias.
Em algumas crianças, fatores não infecciosos, como estresse fisiológico importante ou processos inflamatórios, também podem atuar como desencadeantes.
Como é o tratamento?
O tratamento depende da gravidade do quadro e dos fatores desencadeantes identificados.
Pode incluir:
tratamento da infecção quando presente;
anti-inflamatórios em situações selecionadas;
imunomodulação em casos específicos;
terapia cognitivo-comportamental;
acompanhamento psiquiátrico quando necessário;
suporte nutricional para corrigir deficiências documentadas.
Em situações moderadas ou graves, alguns pacientes podem se beneficiar de terapias imunológicas, como corticosteroides ou imunoglobulina intravenosa (IVIG), sempre sob avaliação de equipes experientes.
O diagnóstico precoce faz diferença
Reconhecer o padrão de início abrupto dos sintomas pode reduzir atrasos diagnósticos e permitir uma investigação mais direcionada.
Nem toda criança com TOC, ansiedade ou tiques apresenta PANS ou PANDAS. Da mesma forma, nem toda criança com infecção desenvolverá essas síndromes.
Por isso, uma avaliação multidisciplinar é fundamental para diferenciar essas condições de outros transtornos neurológicos, psiquiátricos e metabólicos.
