O músculo: o órgão mais importante na prevenção da resistência à insulina

Durante muitos anos, a resistência à insulina foi atribuída principalmente ao excesso de gordura corporal. Hoje sabemos que essa visão é incompleta. O músculo esquelético desempenha um papel central no controlo da glicemia e, quando perde qualidade ou função, torna-se um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da resistência à insulina e da diabetes tipo 2 (Whytock, & Goodpster, 2025).

Mais do que um tecido responsável pelo movimento, o músculo é um órgão metabólico altamente ativo e também um órgão endócrino, capaz de comunicar com o cérebro, fígado, tecido adiposo e sistema imunitário através da libertação de mioquinas (Shero et al., 2025).

O músculo é o maior consumidor de glicose do organismo

Após uma refeição rica em hidratos de carbono, aproximadamente 80% da glicose é removida da circulação pelo músculo esquelético sob ação da insulina. Este processo mantém a glicemia dentro da normalidade e reduz a necessidade de o pâncreas produzir grandes quantidades de insulina (Merz, & Thurmond, 2021).

Quando o músculo deixa de responder adequadamente à insulina:

  • menos GLUT4 chega à membrana celular;

  • menos glicose entra na fibra muscular;

  • a glicemia permanece elevada;

  • o pâncreas aumenta a secreção de insulina;

  • instala-se a hiperinsulinemia e, progressivamente, a diabetes tipo 2.

Como surge a resistência à insulina no músculo?

O processo é multifatorial. Falo um pouco neste vídeo e explico abaixo.

Excesso de gordura dentro do músculo

Quando existe excesso de ingestão energética e baixa atividade física, ocorre acumulação de lípidos intramusculares, especialmente diacilgliceróis (DAG) e ceramidas.

Estas moléculas ativam proteínas como a PKC, que bloqueiam etapas fundamentais da sinalização da insulina, reduzindo a ativação do IRS-1, PI3K e Akt. Como consequência, o transportador GLUT4 deixa de migrar eficientemente para a membrana celular.

Disfunção mitocondrial

As mitocôndrias são responsáveis pela oxidação dos ácidos gordos.

Quando a sua capacidade diminui:

  • reduz-se a produção de ATP;

  • aumenta o acúmulo de gordura intramuscular;

  • cresce a produção de espécies reativas de oxigénio;

  • agrava-se a resistência à insulina.

A redução da biogénese mitocondrial e da atividade do PGC-1α é uma característica frequente em indivíduos com diabetes tipo 2.

Inflamação crónica

Macrófagos infiltrados no músculo produzem citocinas inflamatórias como TNF-α e IL-6 em excesso.

Estas moléculas ativam vias inflamatórias (NF-κB e JNK) que inibem diretamente a sinalização da insulina.

O resultado é uma menor captação de glicose e uma redução da flexibilidade metabólica.

Sedentarismo

A ausência de contrações musculares reduz rapidamente:

  • a expressão de GLUT4;

  • a atividade da AMPK;

  • a sensibilidade à insulina.

Poucos dias de imobilização já são suficientes para provocar alterações mensuráveis no metabolismo da glicose.

O envelhecimento acelera este processo

Após os 40 anos ocorre perda progressiva de massa muscular, fenómeno conhecido como sarcopenia.

Menos músculo significa:

  • menor reserva para armazenar glicose;

  • menor gasto energético;

  • menor produção de mioquinas benéficas;

  • maior risco de resistência à insulina.

A sarcopenia e a obesidade visceral frequentemente coexistem, formando a chamada obesidade sarcopénica, uma das condições metabólicas de maior risco para diabetes e doença cardiovascular.

Exercício: o tratamento mais poderoso para o músculo

O exercício atua praticamente em todos os mecanismos responsáveis pela resistência à insulina.

Exercício aeróbio

Promove:

  • aumento da biogénese mitocondrial;

  • maior oxidação de gordura;

  • redução da gordura intramuscular;

  • aumento da captação de glicose.

Mesmo sem perda de peso significativa, a sensibilidade à insulina melhora.

Exercício de força

A musculação aumenta a massa muscular, ampliando o principal reservatório corporal de glicose.

Além disso:

  • aumenta a expressão de GLUT4;

  • melhora a sinalização da insulina;

  • reduz a gordura intramuscular;

  • protege contra a sarcopenia.

O exercício melhora a glicemia mesmo sem insulina

Durante a contração muscular ocorre ativação da AMPK, permitindo que o GLUT4 seja deslocado para a membrana celular independentemente da ação da insulina.

Na prática, o músculo continua a captar glicose mesmo quando existe resistência insulínica.

Este é um dos mecanismos que explicam por que uma caminhada após as refeições reduz os picos de glicemia.

O músculo também produz hormonas

Durante o exercício, o músculo liberta centenas de mioquinas.

Entre as mais estudadas estão:

  • IL-6 (na sua forma induzida pelo exercício, com efeito anti-inflamatório);

  • irisina;

  • BDNF;

  • IL-15;

  • miostatina (cuja redução favorece hipertrofia);

  • FGF21.

Estas substâncias comunicam com diversos órgãos e contribuem para:

  • maior sensibilidade à insulina;

  • aumento da oxidação de gordura;

  • redução da inflamação;

  • melhoria da função cerebral;

  • proteção cardiovascular.

O que realmente protege contra a resistência à insulina?

A evidência científica atual mostra que preservar a qualidade do músculo é tão importante quanto reduzir a gordura corporal.

As principais estratégias incluem:

  • treino de força pelo menos duas a três vezes por semana;

  • atividade física diária;

  • ingestão adequada de proteínas ao longo do dia;

  • sono adequado;

  • controlo da inflamação;

  • alimentação rica em alimentos naturais e pouco processados;

  • dieta de baixo índice glicêmico;

  • prevenção da perda de massa muscular com o envelhecimento.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/