A seletividade alimentar é uma das alterações mais frequentes observadas em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estima-se que entre 46% e 89% das crianças autistas apresentem algum grau de dificuldade alimentar, uma prevalência muito superior à encontrada em crianças com desenvolvimento típico. Embora muitas vezes seja interpretada como "manha", "teimosia" ou falta de limites, a ciência demonstra que a seletividade alimentar é um fenômeno complexo, multifatorial e que exige uma avaliação clínica cuidadosa antes da definição de qualquer intervenção.
O que é seletividade alimentar?
A seletividade alimentar caracteriza-se pela aceitação de um número restrito de alimentos, rejeição persistente de novos alimentos (neofobia alimentar), preferência por determinadas marcas, texturas ou formas de preparo e resistência significativa às mudanças na alimentação.
Em crianças com TEA, essa restrição pode ser tão intensa que algumas aceitam apenas alimentos de uma única textura, cor ou temperatura, enquanto outras consomem exclusivamente alimentos industrializados ou líquidos.
Quando esse padrão compromete o estado nutricional, o crescimento ou o funcionamento psicossocial, deve-se considerar a possibilidade de Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder, ARFID), diagnóstico reconhecido pelo DSM-5. Entretanto, nem toda criança seletiva apresenta ARFID, tornando essencial uma avaliação individualizada.
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Por que a seletividade alimentar é tão comum no autismo?
A literatura demonstra que não existe uma única causa. A alimentação resulta da interação entre fatores neurológicos, sensoriais, gastrointestinais, motores, nutricionais e comportamentais.
Diversos mecanismos podem coexistir na mesma criança.
1. Alterações do processamento sensorial
A hipersensibilidade sensorial é provavelmente o fator mais conhecido.
Enquanto a maioria das pessoas percebe diferenças de textura ou cheiro apenas como preferências alimentares, crianças autistas podem interpretar esses estímulos como extremamente desagradáveis.
Entre as alterações mais comuns estão:
recusa de alimentos moles ou viscosos;
intolerância a alimentos crocantes;
aversão a odores intensos;
preferência por alimentos sempre na mesma temperatura;
rejeição de alimentos misturados;
sensibilidade à aparência ou à cor.
Nesses casos, o problema não está no sabor do alimento, mas na forma como o cérebro interpreta os estímulos sensoriais.
2. Problemas gastrointestinais
A revisão publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health destaca que refluxo gastroesofágico, constipação, dor abdominal, alergias alimentares e outras doenças digestivas podem tornar a alimentação dolorosa.
Se comer causa desconforto, a criança aprende rapidamente a evitar aquele alimento. Por isso, sintomas digestivos nunca devem ser ignorados durante a avaliação nutricional.
3. Alterações da motricidade oral
Algumas crianças apresentam dificuldades para mastigar alimentos mais fibrosos, coordenar a mastigação ou realizar a deglutição. Nessas situações, alimentos macios tornam-se mais seguros e confortáveis, restringindo naturalmente o repertório alimentar.
A avaliação fonoaudiológica pode ser indispensável.
4. Rigidez cognitiva
A necessidade de previsibilidade característica do TEA também influencia a alimentação. Mudanças de marca, embalagem, formato ou modo de preparo podem ser suficientes para desencadear recusa alimentar. Em alguns casos, pequenas alterações na apresentação do alimento são percebidas como se fossem alimentos completamente diferentes.
5. Fatores familiares e ambientais
A alimentação também é influenciada pelo ambiente. Pressão para comer, insistência excessiva, negociações constantes ou experiências negativas durante as refeições podem aumentar ainda mais a ansiedade da criança.
O resultado costuma ser um ciclo em que pais insistem, a criança resiste e ambos passam a vivenciar as refeições como momentos de elevado estresse.
Quais são os riscos nutricionais?
Uma dieta extremamente restrita pode reduzir a ingestão de nutrientes essenciais.
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Os estudos mostram maior risco de inadequação de:
ferro;
cálcio;
vitamina D;
vitamina B12;
vitamina A;
vitamina C;
zinco;
proteínas;
fibras.
Por outro lado, algumas crianças apresentam excesso de alimentos ultraprocessados, aumentando o consumo de açúcares, gorduras saturadas e sódio.
Curiosamente, seletividade alimentar não significa necessariamente baixo peso. Muitas crianças apresentam sobrepeso ou obesidade devido ao consumo predominante de alimentos altamente energéticos.
Como deve ser feita a avaliação?
Nenhum questionário isolado consegue explicar toda a complexidade da seletividade alimentar. A literatura recomenda uma avaliação multidimensional.
Ela deve incluir:
História clínica
início da seletividade;
evolução ao longo do desenvolvimento;
doenças associadas;
medicamentos;
histórico gastrointestinal;
alergias;
desenvolvimento neuropsicomotor.
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Avaliação nutricional
crescimento;
peso;
estatura;
composição corporal;
ingestão alimentar;
possíveis deficiências nutricionais;
exames laboratoriais quando indicados.
Avaliação sensorial
É importante identificar se a recusa ocorre devido a:
textura;
cheiro;
temperatura;
cor;
aparência;
consistência;
mistura entre alimentos.
Observação da refeição
Sempre que possível, observar a criança durante uma refeição fornece informações que dificilmente aparecem apenas na entrevista.
Aspectos importantes incluem:
postura;
utensílios utilizados;
tempo da refeição;
comportamento diante de novos alimentos;
interação com os cuidadores.
Avaliação familiar
Também devem ser investigados:
rotina das refeições;
estratégias utilizadas pelos pais;
nível de estresse familiar;
expectativas em relação ao tratamento.
Existem instrumentos validados?
Sim. Diversos instrumentos apresentam estudos de validade e confiabilidade para avaliação de dificuldades alimentares em crianças.
Entre os mais utilizados estão:
Food Preference Inventory.
Esses instrumentos auxiliam a avaliação clínica, mas não substituem o julgamento profissional nem identificam, isoladamente, a causa da seletividade.
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O tratamento deve ser multidisciplinar
A intervenção depende da origem da dificuldade alimentar.
Dependendo do caso, podem participar:
nutricionista;
terapeuta ocupacional;
fonoaudiólogo;
psicólogo;
pediatra;
gastroenterologista;
alergologista.
O objetivo não é simplesmente aumentar o número de alimentos aceitos. É construir uma relação segura com a alimentação, ampliar gradualmente o repertório alimentar, corrigir deficiências nutricionais e reduzir o estresse familiar.
O papel do nutricionista
O nutricionista possui um papel central nesse processo. Além da análise nutricional, cabe ao profissional investigar possíveis causas orgânicas, identificar padrões de seletividade, avaliar riscos nutricionais e integrar as informações provenientes dos demais profissionais da equipa.
Mais importante do que elaborar um cardápio é compreender os fatores que mantêm a recusa alimentar. Somente após essa investigação é possível desenvolver estratégias realmente individualizadas.
A seletividade alimentar no autismo não deve ser interpretada como um comportamento voluntário ou uma simples preferência alimentar. Trata-se de uma condição multifatorial, frequentemente relacionada a alterações sensoriais, gastrointestinais, motoras e comportamentais.
A evidência científica atual demonstra que uma avaliação abrangente, realizada por uma equipa multidisciplinar, aumenta significativamente a probabilidade de sucesso terapêutico. Quanto mais cedo forem identificadas as causas da seletividade, maiores são as oportunidades de melhorar o estado nutricional, a qualidade de vida da criança e o bem-estar de toda a família.
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Referências
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