A depressão maior é uma doença multifatorial que envolve alterações na neurotransmissão, inflamação, metabolismo energético e funcionamento cerebral. Nos últimos anos, um novo conceito tem ganhado força: a comunicação entre a microbiota intestinal e as mitocôndrias pode ser um dos principais mecanismos que conecta o intestino ao cérebro. Essa é a hipótese central da revisão publicada em 2026 na Exploration of Neuroscience.
As mitocôndrias são responsáveis pela produção de ATP, a principal fonte de energia das células. No cérebro, onde a demanda energética é extremamente elevada, pequenas alterações na função mitocondrial podem comprometer a plasticidade sináptica, a produção de neurotransmissores e a sobrevivência neuronal. Pacientes com depressão frequentemente apresentam sinais de redução da fosforilação oxidativa, aumento do estresse oxidativo, alterações na dinâmica mitocondrial e redução da biogênese dessas organelas.
O artigo propõe que a microbiota intestinal influencia diretamente essas funções mitocondriais. Bactérias benéficas produzem metabólitos, como os ácidos graxos de cadeia curta (butirato, propionato e acetato), que estimulam a produção de energia, reduzem o estresse oxidativo, favorecem a biogênese mitocondrial e exercem efeitos anti-inflamatórios. Em contrapartida, a disbiose aumenta a produção de lipopolissacarídeos (LPS) e outras moléculas pró inflamatórias que prejudicam a função mitocondrial e favorecem a neuroinflamação.
A comunicação entre intestino e cérebro ocorre por diferentes vias. Os metabólitos produzidos pela microbiota podem alcançar o cérebro pela circulação, modular a atividade do nervo vago, influenciar o sistema imunológico e alterar o metabolismo do triptofano, interferindo na síntese de serotonina e outros neurotransmissores importantes para o humor. Paralelamente, a inflamação sistêmica aumenta a ativação da micróglia, comprometendo ainda mais a função mitocondrial dos neurônios.
Outro ponto importante discutido pelos autores é que as mitocôndrias e as bactérias compartilham uma origem evolutiva comum. Essa ancestralidade explica por que muitos metabólitos bacterianos conseguem modular diretamente processos mitocondriais, incluindo a produção de ATP, o equilíbrio redox e os mecanismos de apoptose.
Do ponto de vista clínico, essa interação abre novas possibilidades terapêuticas. Estratégias como dieta rica em fibras, alimentos fermentados, prebióticos, probióticos, atividade física e outros hábitos capazes de melhorar a composição da microbiota podem, teoricamente, beneficiar também a função mitocondrial. Entretanto, os autores destacam que a maior parte das evidências mecanísticas ainda provém de estudos experimentais e modelos animais. Os ensaios clínicos em humanos ainda apresentam resultados heterogêneos, impedindo que essa abordagem seja considerada um tratamento estabelecido para depressão.
