Quando começa o autismo?

Os resultados do projeto GEMMA (Genome, Environment, Microbiome and Metabolome in Autism) representam um dos maiores avanços na investigação do autismo porque acompanharam crianças antes do aparecimento dos sintomas, permitindo estudar o que acontece nos primeiros meses de vida. No entanto, é importante interpretar os resultados com cautela.

Principais resultados

1. Alterações biológicas precedem os sintomas clínicos

O estudo acompanhou cerca de 350 recém-nascidos com alto risco familiar para TEA (irmãos de crianças com autismo), desde o nascimento até os 36 meses.

Os investigadores observaram que alterações no:

  • microbioma intestinal;

  • metabolismo;

  • resposta imune;

  • permeabilidade intestinal;

  • epigenoma;

podem surgir meses antes de os primeiros sinais comportamentais serem identificados.

Esse é um dos achados mais importantes do estudo.

2. O microbioma muda antes do diagnóstico

Os investigadores identificaram alterações na composição e na função do microbioma intestinal antes do aparecimento dos sintomas.

Além da composição bacteriana, observaram alterações funcionais relacionadas com:

  • metabolismo bacteriano;

  • produção de metabólitos;

  • interação com o sistema imunitário.

Isso reforça a hipótese de que o microbioma não é apenas uma consequência do autismo, podendo participar dos mecanismos iniciais do desenvolvimento.

3. Zonulina elevada

Outro achado importante foi a associação entre:

  • aumento da zonulina;

  • alterações do microbioma;

  • maior risco de TEA.

A zonulina é um regulador fisiológico das junções apertadas do intestino. Valores elevados sugerem aumento da permeabilidade intestinal, embora seu uso como biomarcador clínico ainda seja controverso devido a limitações analíticas dos testes disponíveis.

Mesmo assim, os resultados apoiam a hipótese de que alterações da barreira intestinal possam contribuir para processos inflamatórios sistémicos durante o neurodesenvolvimento.

4. Integração multiômica

O GEMMA não analisou apenas o microbioma.

Foram integrados:

  • genómica;

  • epigenómica;

  • metabolómica;

  • microbioma;

  • marcadores imunológicos;

  • dados clínicos.

Em seguida, algoritmos de machine learning identificaram combinações de marcadores capazes de prever quais crianças desenvolveriam TEA.

Esse é provavelmente o maior diferencial do estudo: nenhum marcador isolado explica o autismo, mas a combinação de vários aumenta o poder preditivo.

5. Comportamento aos 9 meses

O estudo também mostrou que alguns sinais muito precoces podem aparecer por volta dos 9 meses, incluindo:

  • dificuldade para acalmar;

  • irritabilidade;

  • maior agitação;

  • alterações do sono.

Esses bebés apresentaram maior probabilidade de manifestar sinais de autismo aos 12 meses.

Esses comportamentos, isoladamente, não permitem diagnóstico, mas podem contribuir para modelos de risco quando combinados com biomarcadores biológicos.

6. Probióticos e prebióticos

Foi realizado um estudo aberto (sem grupo placebo) utilizando probióticos e prebióticos durante seis meses.

Os participantes apresentaram:

  • melhora dos sintomas gastrointestinais;

  • redução de algumas dificuldades comportamentais.

É importante destacar que esse desenho de estudo não permite concluir definitivamente que os probióticos causaram essas melhorias. São necessários ensaios clínicos randomizados para confirmar esses resultados.

7. Evidências de causalidade

Uma parte muito interessante do projeto utilizou transplante de microbiota fecal para modelos animais humanizados.

Os investigadores observaram que a microbiota proveniente de crianças com maior risco podia induzir alterações biológicas nos animais, fortalecendo a hipótese de que a disbiose intestinal possa desempenhar um papel causal em pelo menos um subgrupo de indivíduos com TEA.

Isso não significa que o microbioma seja a causa única do autismo, mas sugere que ele pode ser um componente importante da sua fisiopatologia.

O que muda na prática?

O GEMMA reforça uma mudança de paradigma:

Antes:

  • diagnóstico baseado apenas em comportamento.

Agora:

  • integração de genética;

  • microbioma;

  • metabolómica;

  • imunologia;

  • comportamento;

  • inteligência artificial.

A longo prazo, isso poderá permitir identificar bebés com maior risco antes dos sintomas completos e implementar estratégias precoces e personalizadas.

Limitações

Apesar do enorme impacto, alguns pontos merecem cautela:

  • o estudo foi realizado apenas em crianças com alto risco familiar, portanto os resultados podem não ser generalizáveis para toda a população;

  • os algoritmos preditivos ainda precisam de validação em outras coortes independentes;

  • ainda não existe um teste clínico aprovado baseado nesses biomarcadores;

  • as intervenções com probióticos ainda carecem de ensaios controlados maiores.

Relevância científica

O GEMMA fornece uma das evidências mais robustas até o momento de que o risco para TEA emerge da interação entre:

  • predisposição genética;

  • microbioma intestinal;

  • sistema imunitário;

  • metabolismo;

  • fatores ambientais.

Em vez de procurar um único "gene do autismo" ou uma única bactéria responsável, o projeto demonstra que o autismo é resultado de uma rede complexa de interações biológicas. Essa visão integrada aproxima a investigação do conceito de medicina de precisão, em que o risco e as intervenções poderão ser individualizados com base em perfis multiômicos e clínicos.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/