Eixo imune materno-fetal e neurodesenvolvimento

O eixo imune materno fetal é um dos mecanismos mais estudados para explicar como fatores ambientais durante a gestação podem influenciar o risco de transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo o transtorno do espectro autista (TEA). A hipótese da ativação imune materna (Maternal Immune Activation, MIA) propõe que não é necessariamente o agente infeccioso que causa alterações no cérebro fetal, mas sim a resposta inflamatória da mãe.

Durante uma infecção viral, bacteriana ou mesmo em processos inflamatórios não infecciosos, o sistema imunológico materno libera citocinas pró inflamatórias, como IL 6, IL 17A, IL 1β e TNF α. Essas moléculas podem atravessar a placenta ou modificar sua função, alterando o ambiente intrauterino e interferindo em etapas críticas do desenvolvimento cerebral fetal.

Como ocorre a ativação imune materna?

A resposta imune inicia-se quando receptores da imunidade inata, como os Toll-like receptors (TLRs), reconhecem componentes de vírus ou bactérias. Isso desencadeia a produção de citocinas inflamatórias.

A placenta, que normalmente atua como uma barreira imunológica e metabólica, também responde à inflamação. Ela passa a produzir mediadores inflamatórios e pode alterar o transporte de nutrientes, hormônios e fatores de crescimento para o feto.

Além disso, a inflamação favorece a diferenciação de linfócitos Th17 maternos, responsáveis pela produção de IL 17A, considerada atualmente uma das principais citocinas envolvidas na alteração do neurodesenvolvimento.

O papel da IL 6

A IL 6 é uma das primeiras citocinas produzidas após um estímulo inflamatório. Estudos em modelos animais demonstram que o aumento materno de IL 6 é suficiente para induzir alterações comportamentais na prole semelhantes às observadas no TEA. Entre seus efeitos estão:

  • alteração da neurogênese;

  • redução da diferenciação neuronal;

  • alteração da formação de sinapses;

  • ativação persistente da microglia fetal;

  • mudanças na expressão gênica durante o desenvolvimento cerebral.

A IL 6 também estimula a expansão de células Th17, aumentando a produção de IL 17A.

O papel central da IL 17A

Nos últimos anos, a IL 17A tornou-se uma das principais candidatas para explicar a ligação entre inflamação gestacional e alterações cerebrais.

Modelos experimentais mostram que:

  • IL 17A atravessa ou sinaliza através da placenta;

  • seus receptores estão presentes no cérebro fetal;

  • sua ativação altera diretamente a organização do córtex cerebral;

  • produz desorganização laminar ("patches corticais"), alteração observada em alguns estudos neuropatológicos de indivíduos com TEA;

  • promove alterações permanentes na conectividade neuronal.

Em camundongos, o bloqueio da IL 17A durante a gestação praticamente elimina as alterações comportamentais induzidas pela ativação imune materna.

Microglia: a imunidade residente do cérebro

A microglia é a principal célula imune do sistema nervoso central. Durante o desenvolvimento fetal ela participa de funções fundamentais:

  • poda sináptica;

  • eliminação de neurônios excedentes;

  • formação das conexões neurais;

  • maturação dos circuitos cerebrais.

Quando exposta ao ambiente inflamatório intrauterino, a microglia pode permanecer em estado de ativação prolongado, produzindo espécies reativas de oxigênio, citocinas e alterações na remodelação das sinapses.

Essa ativação persistente pode contribuir para desequilíbrios entre excitação e inibição neuronal, uma característica frequentemente observada no TEA.

Alterações na placenta

A placenta não é apenas uma barreira física. Durante a inflamação materna ocorrem alterações importantes:

  • aumento da produção de IL 6 e TNF α;

  • alteração da vascularização placentária;

  • aumento do estresse oxidativo;

  • alterações epigenéticas;

  • redução da eficiência do transporte de nutrientes.

Essas mudanças modificam diretamente o ambiente de desenvolvimento do cérebro fetal.

Anticorpos maternos contra proteínas cerebrais

Outro mecanismo descrito é a presença de autoanticorpos maternos dirigidos contra proteínas do cérebro fetal. Algumas mães produzem anticorpos que reconhecem proteínas envolvidas na migração neuronal e formação de sinapses.

Esses anticorpos conseguem atravessar a placenta durante a gestação e podem interferir diretamente no desenvolvimento cerebral. Esse mecanismo é conhecido como MAR ASD (Maternal Autoantibody Related Autism) e parece representar um subtipo específico de autismo.

Outros fatores que podem ativar o eixo imune materno

A ativação imune não ocorre apenas por infecções. Também pode ser desencadeada por:

  • obesidade materna;

  • diabetes gestacional;

  • doenças autoimunes;

  • asma;

  • periodontite;

  • estresse crônico;

  • disbiose intestinal;

  • dieta pró inflamatória;

  • exposição à poluição atmosférica.

Todos esses fatores podem aumentar a produção de citocinas inflamatórias durante a gestação.

Janelas críticas

O cérebro fetal é especialmente sensível durante períodos específicos da gestação. A ativação imune parece exercer maior impacto quando ocorre durante:

  • formação do tubo neural;

  • neurogênese;

  • migração neuronal;

  • formação das sinapses;

  • mielinização inicial.

O momento da exposição pode determinar quais circuitos serão mais afetados.

A interação entre genes e ambiente

A ativação imune materna, isoladamente, raramente explica o desenvolvimento do TEA. O modelo atualmente mais aceito é o de interação entre predisposição genética e fatores ambientais.

Fetos portadores de variantes em genes relacionados à função sináptica, imunidade, metabolismo mitocondrial ou regulação epigenética parecem apresentar maior vulnerabilidade aos efeitos da inflamação gestacional. Assim, a MIA funciona como um fator ambiental capaz de modular a expressão de susceptibilidades genéticas pré-existentes.

Implicações clínicas

O conhecimento sobre o eixo imune materno fetal amplia a compreensão da prevenção em medicina de precisão. Estratégias como controle de doenças inflamatórias maternas, vacinação adequada, tratamento precoce de infecções, alimentação anti-inflamatória, manutenção de um microbioma saudável e acompanhamento de gestantes com doenças autoimunes podem contribuir para reduzir a exposição fetal à inflamação excessiva.

Embora esse mecanismo esteja fortemente apoiado por estudos experimentais e epidemiológicos, ele representa apenas uma das diversas vias envolvidas no neurodesenvolvimento. O TEA continua sendo uma condição multifatorial, resultante da interação complexa entre fatores genéticos, imunológicos, metabólicos e ambientais.

Principais referências

  • Liu K, et al. The role of maternal immune activation in immunological and neurological pathogenesis of autism. Journal of Neurorestoratology. 2023;11(1):100030.

  • Zawadzka A, et al. The Role of Maternal Immune Activation in the Pathogenesis of Autism: A Review of the Evidence, Proposed Mechanisms and Implications for Treatment. International Journal of Molecular Sciences. 2021;22(21):11516.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/