Razão ácido quinurênico / ácido quinolínico

A via da quinurenina é a principal rota no catabolismo do triptofano, um aminoácido essencial usado na síntese de proteínas e de moléculas bioativas como serotonina e melatonina. Cerca de 90% do triptofano é convertido em quinurenina. A enzima IDO (indoleamina dioxigenase) é a responsável por esta degradação no sistema nervoso e é ativada por estímulos inflamatórios.

A quinurenina pode ser convertida em ácido quinurênico (especialmente nos astrócitos), com ação neuroproteotra, ou ácido quinolínico (principalmente na micróglia) que, em excesso, é neurotóxico.

A razão entre o ácido quinurênico (KYNA) e o ácido quinolínico (QUIN) tem bastante relevância em contextos clínicos e neurobiológicos, especialmente por estar ligada ao metabolismo do triptofano pela via da quinurenina.

Ácido Quinurênico (KYNA) - também conhecido por quinurenina:

  • Derivado neuroprotetor.

  • Antagonista dos receptores NMDA e α7-nicotínicos.

  • Atua reduzindo excitação neural excessiva.

Ácido Quinolínico (QUIN):

  • Derivado neurotóxico.

  • Agonista dos receptores NMDA.

  • Induz estresse oxidativo, inflamação e morte celular.

Relevância da Razão KYNA/QUIN

  • Alta razão KYNA/QUIN → Mais neuroproteção.

  • Baixa razão KYNA/QUIN → Mais neurotoxicidade, associada a doenças neurodegenerativas e psiquiátricas.

Implicações clínicas

Algumas doenças e transtornos estão associadas à alterações na razão KYNA/QUIN:

  • Depressão maior: frequentemente há aumento de QUIN e redução de KYNA.

  • Esquizofrenia: KYNA pode estar aumentado, alterando cognição.

  • Doença de Alzheimer / Parkinson: envolvimento de QUIN na neurodegeneração.

  • Esclerose múltipla, HIV, epilepsia: desbalanço dessa razão contribui para inflamação e dano neuronal.

Interpretação

A razão KYNA/QUIN ainda não tem pontos de corte universais amplamente aceitos. No caso dos exames de urina o que se avalia são processos inflamatórios e oxidativos sistêmicos crônicos. Coletas no líquido cefalorraquidiano seriam mais específicos para análise do metabolismo do triptofano no cérebro.

Exemplos de exames urinários de 3 pacientes e cuidados na interpretação

Caso 1: KYNA = 9.3 QUIN = 234.1 👉 Razão = 9.3 / 234.1 ≈ 0.040 (razão muito baixa) - indica forte tendência neurotóxica/pró-inflamatória (exemplo: infecção crônica, inflamação sistêmica, estresse oxidativo elevado).

Caso 2: KYNA = 21.5 QUIN = 74.9 👉 Razão = 21.5 / 74.9 ≈ 0.287 - apesar da razão não ser perfeita e precisarmos investigar se há leve ativação inflamatória, os dois metabólitos encontram-se dentro da faixa esperada. Além dos metabólitos do triptofano podemos observar nos exames metabolômicos, outros indicadores como 8-OHdG, homocisteína e, se o paciente também tiver um painel de fezes, a calprotectina.

Caso 3: KYNA = 49.1 QUIN = 140.2 👉 Razão = 49.1 / 140.2 ≈ 0.350 - apesar desta razão parecer adequada, precisamos lembrar que ácido quinulínico e quinurênico estão bastante acima do esperado. Talvez reflita um mecanismo compensatório de aumento de quinurinato e de maior necessidade de ácido quinolínico para produção de NAD+ (coenzima essencial para o metabolismo e produção de energia. Os exames de metabólitos devem ser analisados em conjunto. Este texto descreve apenas dois metabólitos da via das quinureninas.

Se o paciente estiver relatando baixa energia poderíamos até suplementar NAD+ . Contudo, esta suplementação não corrige a via. A redução da inflamação é fundamental e devemos investigar sempre as possíveis causas. Além disso, estas vias são dependentes de vitaminas B2 e B6, que muitas vezes precisarão ser ajustadas.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/