Antimetabólitos, metabolismo do folato e nutrição no câncer

Os antimetabólitos são medicamentos que interferem em processos metabólicos essenciais para o funcionamento e a multiplicação das células. Na oncologia, são utilizados principalmente porque muitas células tumorais apresentam elevada atividade proliferativa e dependem intensamente da síntese de DNA e RNA para se multiplicarem.

Esses fármacos atuam, em geral, imitando moléculas naturalmente utilizadas pelas células ou bloqueando enzimas necessárias à produção dos componentes do material genético. Dessa forma, dificultam a replicação do DNA e podem impedir a divisão celular, contribuindo para controlar o crescimento tumoral.

Apesar de alguns desses medicamentos terem sido desenvolvidos há várias décadas, continuam a desempenhar um papel importante no tratamento de diferentes neoplasias, incluindo leucemias e cânceres de mama e colorretal.

Os antimetabólitos podem ser classificados em três grupos principais:

  • Análogos de purinas: incluem a 6-mercaptopurina, a 6-tioguanina e a azatioprina. Interferem no metabolismo das purinas, componentes fundamentais dos ácidos nucleicos.

  • Análogos de pirimidinas: incluem o 5-fluorouracil, o tegafur e a capecitabina. Interferem na síntese e na utilização de nucleotídeos, comprometendo a produção de DNA e RNA.

  • Antifolatos: incluem o metotrexato, o pemetrexede e o raltitrexede. Inibem etapas do metabolismo do folato, reduzindo a disponibilidade de moléculas necessárias à síntese de nucleotídeos.

Fonte da imagem: clinpgx

Alguns desses fármacos também são utilizados fora da oncologia. O metotrexato e a azatioprina, por exemplo, são empregados no tratamento de determinadas doenças inflamatórias e autoimunes, embora apresentem mecanismos de ação e perfis de segurança que exigem acompanhamento clínico.

O papel do folato no metabolismo celular

O folato, também conhecido como vitamina B9, é indispensável para diversas reações bioquímicas. Uma das suas funções mais importantes consiste em participar do chamado metabolismo de um carbono, uma rede de reações que transfere pequenas unidades de carbono entre moléculas e permite a síntese de compostos essenciais ao organismo.

O folato participa de processos fundamentais, como:

  • Síntese de purinas e timidilato, necessários à formação do DNA.

  • Replicação do material genético e divisão celular.

  • Remetilação da homocisteína em metionina.

  • Produção de S-adenosilmetionina (SAM), principal doador de grupos metil em numerosas reações celulares.

  • Regulação epigenética, incluindo a metilação do DNA e de proteínas associadas à cromatina.

Essas funções demonstram que o metabolismo do folato não está relacionado apenas à nutrição ou à prevenção de deficiências vitamínicas. Trata-se de uma rede bioquímica central para a manutenção e a renovação dos tecidos.

O organismo obtém folato principalmente por meio da alimentação, especialmente de hortaliças de folhas verdes, leguminosas e outros alimentos que contribuem para a ingestão de vitamina B9. O ácido fólico é a forma sintética utilizada em suplementos e em alimentos fortificados.

Após a absorção, essas formas participam de processos metabólicos que originam diferentes derivados ativos do folato. Essas reações ocorrem em compartimentos celulares como o citoplasma e as mitocôndrias, envolvendo enzimas que atuam de maneira coordenada.

Por que o metabolismo do folato é um alvo dos antimetabólitos?

As células necessitam produzir continuamente os componentes do DNA para se multiplicarem. Como o metabolismo do folato fornece unidades de carbono necessárias à síntese de purinas e timidilato, a interrupção dessa via pode comprometer a replicação do material genético.

É precisamente essa dependência que torna o metabolismo do folato um alvo terapêutico relevante.

O metotrexato, por exemplo, inibe principalmente a di-hidrofolato redutase (DHFR), uma enzima envolvida na regeneração do tetraidrofolato, forma necessária para diversas reações biossintéticas. O 5-fluorouracil, por sua vez, origina metabólitos que inibem a timidilato sintase (TYMS), reduzindo a produção de timidilato, indispensável à síntese do DNA.

Embora atuem por mecanismos distintos, esses medicamentos podem convergir para um resultado semelhante: a redução da capacidade celular de produzir DNA funcional e de se multiplicar.

A relação entre os antimetabólitos e o metabolismo do folato, contudo, não é idêntica para todos os fármacos. Alguns interferem diretamente nas enzimas dessa via, enquanto outros afetam etapas relacionadas à utilização dos nucleotídeos ou dependem do metabolismo celular para serem convertidos em formas farmacologicamente ativas.

A relação entre nutrição e tratamento farmacológico

Do ponto de vista nutricional, compreender o metabolismo do folato é especialmente importante porque a disponibilidade de vitamina B9 influencia processos relacionados à síntese do DNA, à divisão celular e à metilação.

Entretanto, é fundamental distinguir duas situações: a manutenção de um estado nutricional adequado e a tentativa de modificar a ação de um medicamento por meio da alimentação ou da suplementação.

Uma ingestão insuficiente de folato pode comprometer funções fisiológicas, sobretudo em tecidos com elevada renovação celular. Por outro lado, não é correto concluir que aumentar o consumo de folato irá melhorar a eficácia dos antineoplásicos ou reduzir seus efeitos adversos.

A relação depende do medicamento utilizado, do mecanismo farmacológico, do estado nutricional do paciente e do contexto clínico.

No caso do metotrexato, por exemplo, a suplementação de ácido fólico ou de outras formas de folato pode ser indicada em determinados protocolos, especialmente no tratamento de doenças inflamatórias, para reduzir alguns efeitos adversos. Na oncologia, entretanto, a utilização de folatos depende do esquema terapêutico. A leucovorina, também denominada ácido folínico, é empregada em contextos específicos para modular a ação de determinados medicamentos, podendo tanto resgatar células dos efeitos tóxicos do metotrexato como potencializar a atividade do 5-fluorouracil.

Esses efeitos aparentemente opostos demonstram que a interação entre nutrientes, vias metabólicas e medicamentos não pode ser interpretada de forma simplista.

Por isso, pessoas em tratamento com antimetabólitos não devem iniciar, suspender ou modificar a suplementação de ácido fólico sem orientação da equipa médica responsável.

Suplementar ou não suplementar?

Existem três situações importantes:

Ácido fólico + metotrexato em doenças inflamatórias

O ácido fólico pode reduzir efeitos adversos, como alterações gastrointestinais e elevação de enzimas hepáticas, sem comprometer significativamente o controlo da doença em muitos pacientes.

Leucovorina + metotrexato em altas doses

A leucovorina, ou ácido folínico, fornece folatos reduzidos que contornam o bloqueio da DHFR. É utilizada como resgate para proteger células saudáveis após determinados esquemas de metotrexato, sem eliminar necessariamente o efeito antitumoral.

Leucovorina + 5-fluorouracil

Aqui acontece algo diferente: a leucovorina estabiliza o complexo entre o metabólito ativo do 5-fluorouracil e a timidilato sintase, intensificando a inibição dessa enzima e, consequentemente, o efeito antitumoral.

Combinações farmacológicas e sobreposição de efeitos adversos

A combinação de antimetabólitos com outros agentes antineoplásicos é uma estratégia frequente na oncologia. A utilização de medicamentos com mecanismos complementares pode aumentar a eficácia terapêutica e reduzir a probabilidade de resistência tumoral.

Um exemplo é a associação de metotrexato e 6-mercaptopurina em determinados protocolos de tratamento da leucemia linfoblástica aguda.

Entretanto, a combinação de medicamentos exige atenção à toxicidade. A interferência em processos essenciais à proliferação celular pode afetar não apenas as células tumorais, mas também tecidos saudáveis com elevada renovação, como a medula óssea e a mucosa gastrointestinal.

Entre os efeitos adversos que podem ocorrer, dependendo do fármaco e do esquema terapêutico, encontram-se alterações hematológicas, mucosite, náuseas, diarreia e comprometimento da função hepática.

A avaliação nutricional é relevante nesse contexto porque alterações gastrointestinais, redução do apetite, inflamação e alterações metabólicas podem comprometer a ingestão alimentar e o estado nutricional. O acompanhamento deve considerar a tolerância alimentar, a adequação energética e proteica, a hidratação e as necessidades específicas de cada paciente.

Farmacogenômica: por que pessoas diferentes podem responder de forma diferente ao mesmo medicamento?

A farmacogenômica estuda como as variações genéticas influenciam a resposta aos medicamentos, incluindo a sua eficácia, o metabolismo e o risco de efeitos adversos.

Diversos genes participam do metabolismo do folato e de vias bioquímicas relacionadas aos antimetabólitos. Entre eles, destacam-se:

  • MTHFR: codifica uma enzima envolvida na conversão de derivados do folato e na regulação da disponibilidade de unidades de carbono para reações de metilação.

  • TYMS: codifica a timidilato sintase, uma enzima fundamental para a síntese de timidilato e, consequentemente, para a produção de DNA.

  • DHFR: codifica a di-hidrofolato redutase, alvo farmacológico do metotrexato.

  • MTR e MTRR: participam de processos relacionados à remetilação da homocisteína e à regeneração funcional da vitamina B12 utilizada pela metionina sintase.

  • CBS: codifica a cistationina beta-sintase, envolvida no metabolismo da homocisteína pela via de transulfuração.

Variantes genéticas nesses genes podem modificar a atividade enzimática ou a regulação de determinadas vias metabólicas. Contudo, a existência de uma variante não significa, por si só, que haverá alteração clinicamente relevante na resposta a um medicamento.

É igualmente importante destacar que a associação entre um polimorfismo genético e um desfecho clínico não demonstra automaticamente que um teste genético seja útil para orientar a prescrição, mas as recomendações podem evoluir com o surgimento de novas evidências (Whirl-Carrillo, 2021).

Uma distinção importante diz respeito às tiopurinas. A atividade da tiopurina metiltransferase (TPMT), juntamente com outros fatores genéticos relevantes, pode influenciar a segurança da utilização desses medicamentos. A TPMT, contudo, não é uma enzima diretamente pertencente ao ciclo do folato.

O que o nutricionista deve considerar na prática clínica?

A compreensão do metabolismo do folato permite ao nutricionista integrar o estado nutricional, a fisiologia celular e o tratamento farmacológico sem extrapolar o papel da alimentação na resposta terapêutica.

Na prática clínica, é importante:

  1. Avaliar a ingestão alimentar e identificar possíveis inadequações nutricionais.

  2. Considerar o risco de deficiências de folato e de outras vitaminas, de acordo com o contexto clínico e os resultados laboratoriais disponíveis.

  3. Identificar sinais de comprometimento nutricional associados a náuseas, diarreia, mucosite, perda de apetite ou redução da ingestão alimentar.

  4. Rever a utilização de suplementos e produtos nutricionais em articulação com a equipa responsável pelo tratamento.

  5. Evitar recomendações indiscriminadas de ácido fólico, sobretudo em pacientes que utilizam medicamentos cuja ação pode ser influenciada pela modulação do metabolismo do folato.

  6. Reconhecer os limites da evidência farmacogenômica, evitando interpretar variantes genéticas isoladas como determinantes absolutos da resposta clínica.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Microbiota intestinal e câncer

O intestino humano abriga trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e arqueias. Esse ecossistema participa do metabolismo de nutrientes, da produção de metabólitos, da integridade da barreira intestinal e da regulação das respostas imunes.

Por isso, o microbioma intestinal deixou de ser estudado apenas como parte da digestão. Hoje, ele é investigado como um componente importante da fisiologia humana e como um possível modulador de diferentes doenças, incluindo alguns tipos de câncer. [1,2]

Mas existe uma diferença importante entre associação e causalidade. A presença de determinadas alterações na microbiota em pessoas com câncer não significa necessariamente que essas alterações tenham causado o tumor. O próprio câncer, a alimentação, medicamentos, quimioterapia, inflamação, trânsito intestinal e outros fatores podem modificar o microbioma.

A relação mais bem estabelecida atualmente é observada no câncer colorretal, embora também existam evidências crescentes envolvendo outros tumores, como câncer de fígado e mama. [3-6]

Uma correção importante: infecção não é sinônimo de microbioma

Estima-se atualmente que aproximadamente 12% dos novos casos de câncer no mundo estejam relacionados a agentes infecciosos. Uma análise da International Agency for Research on Cancer, publicada em 2026, estimou 2,3 milhões de casos de câncer atribuíveis a infecções em 2024. [7]

Entretanto, esses números não significam que 12% dos cânceres sejam causados pelo microbioma intestinal. Entre os principais agentes infecciosos relacionados ao câncer estão HPV, Helicobacter pylori, vírus da hepatite B, vírus da hepatite C, Epstein-Barr e outros agentes específicos.

É mais correto dizer que microrganismos podem participar da carcinogênese, enquanto o microbioma intestinal representa uma comunidade ecológica complexa que pode modificar processos relacionados à inflamação, metabolismo e imunidade.

Microbiota e microbioma: qual a diferença?

Os termos são frequentemente utilizados como sinônimos, mas existe uma diferença conceitual.

  • Microbiota refere-se à comunidade de microrganismos presentes em determinado ambiente, como o intestino.

  • Microbioma é um conceito mais amplo, relacionado ao conjunto de microrganismos, seus genes, suas funções e suas interações com o ambiente e com o hospedeiro.

A literatura científica ainda apresenta alguma variação na utilização desses termos, mas essa distinção é útil quando discutimos estudos de microbiologia, metagenômica e metabolômica. [8,9]

O microbioma não é passivo

As comunidades microbianas intestinais participam de processos fisiológicos importantes, incluindo:

• metabolismo de nutrientes;

• produção de metabólitos, como ácidos graxos de cadeia curta;

• transformação de ácidos biliares;

• manutenção da barreira intestinal;

• interação com células do sistema imune;

• modulação da inflamação;

• comunicação entre o intestino e outros órgãos.

Os ácidos graxos de cadeia curta, especialmente acetato, propionato e butirato, são exemplos importantes. Esses metabólitos podem atuar sobre células epiteliais e imunológicas e também influenciar a função da barreira intestinal por mecanismos que incluem receptores celulares e modulação da atividade de histonas desacetilases. [10]

Disbiose: quando a comunidade microbiana muda

O termo disbiose é utilizado para descrever alterações na composição, diversidade ou função das comunidades microbianas. Ela pode estar associada a alimentação, medicamentos, antibióticos, inflamação, doenças metabólicas, alterações do trânsito intestinal e outros fatores.

Entretanto, é importante evitar uma interpretação simplista. Não existe um único "microbioma saudável" nem uma composição bacteriana universal que possa ser utilizada como padrão para todos os indivíduos.

Além disso, a associação entre determinada bactéria e câncer pode ser consequência da própria doença. Um estudo publicado em 2024 mostrou que algumas associações entre microbiota e câncer colorretal diminuíam ou desapareciam depois do controle de fatores como tempo de trânsito intestinal, calprotectina fecal e IMC. [11]

Portanto, disbiose deve ser interpretada como um fenômeno biológico complexo, e não simplesmente como a presença de bactérias "boas" ou "ruins". Entenda mais aqui.

O que sabemos sobre microbioma e câncer colorretal?

É no câncer colorretal que a relação entre microbiota e carcinogênese está mais avançada.

Estudos mostram alterações importantes na comunidade microbiana associada ao câncer colorretal, incluindo mudanças na composição bacteriana, nos metabólitos produzidos e nas interações entre microrganismos, epitélio intestinal e sistema imune. [3,4]

Algumas bactérias também foram investigadas diretamente por sua capacidade de favorecer processos carcinogênicos. Um exemplo é Fusobacterium nucleatum, frequentemente encontrado em maior quantidade em tumores colorretais. Estudos experimentais sugerem que essa bactéria pode interagir com células epiteliais e imunológicas e participar da progressão tumoral. [3,12] Ainda assim, não significa que encontrar F. nucleatum em uma pessoa seja suficiente para diagnosticar ou prever câncer.

Como o microbioma pode participar da carcinogênese?

Três mecanismos são particularmente importantes.

1. Inflamação e sinalização imune

A comunicação entre microrganismos, epitélio intestinal e sistema imunológico pode modificar o ambiente inflamatório. Produtos bacterianos, incluindo componentes da parede celular, podem ativar receptores da imunidade inata. Um exemplo é o lipopolissacarídeo, ou LPS, que pode ativar a sinalização envolvendo TLR4, MyD88 e NF-κB.

Essa via está relacionada à produção de mediadores inflamatórios e, em determinadas condições, pode contribuir para um microambiente favorável à carcinogênese. [13] É importante, entretanto, não simplificar o processo para "LPS causa câncer". O efeito depende da concentração, do local, da integridade da barreira intestinal, da resposta do hospedeiro e de vários outros fatores.

2. Metabólitos produzidos pela microbiota

As bactérias intestinais transformam componentes da alimentação e moléculas produzidas pelo hospedeiro. O resultado são centenas de metabólitos capazes de interagir com o organismo. Entre eles estão os ácidos graxos de cadeia curta e os ácidos biliares secundários.

O butirato, produzido principalmente pela fermentação bacteriana de fibras, é um dos metabólitos mais estudados. Ele participa da manutenção do epitélio intestinal, da função da barreira e da regulação imunológica. Em células tumorais colorretais, também pode atuar como inibidor de histonas desacetilases e interferir na proliferação celular. [10,14]

Isto não quer dizer que quanto mais butirato, melhor. A resposta depende do tipo celular, da concentração, do metabolismo da célula e do estágio do processo tumoral. Esse fenômeno é conhecido como paradoxo do butirato. [15,16]

Portanto, é mais correto dizer que o butirato apresenta potencial antitumoral e efeitos importantes sobre a homeostase intestinal, mas não que seja um agente preventivo de câncer isoladamente.

Nobels, A., van Marcke, C., Jordan, B.F. et al. The gut microbiome and cancer: from tumorigenesis to therapy. Nat Metab 7, 895–917 (2025). https://doi.org/10.1038/s42255-025-01287-w

3. Ácidos biliares e metabolismo

A microbiota participa da transformação dos ácidos biliares. Alguns metabólitos derivados dessa transformação podem exercer efeitos sobre inflamação, sinalização celular e metabolismo.

O ácido desoxicólico, por exemplo, tem sido investigado por seu potencial papel na carcinogênese colorretal, especialmente em contextos metabólicos específicos. [4,17]

A relação também é relevante no fígado. O eixo intestino-fígado conecta microbiota, ácidos biliares, metabolismo e imunidade. Alterações nessa comunicação vêm sendo estudadas na progressão de doenças hepáticas e no carcinoma hepatocelular. [5,18]

Entretanto, grande parte dessa literatura ainda é mecanística ou baseada em modelos animais, e não permite afirmar que uma determinada alteração da microbiota seja, isoladamente, causa de câncer hepático.

E a permeabilidade intestinal?

A barreira intestinal é formada por uma combinação de muco, células epiteliais, junções intercelulares, moléculas antimicrobianas e componentes imunológicos. Quando essa barreira é comprometida, aumenta a possibilidade de contato do organismo com produtos microbianos.

O LPS é um dos componentes mais estudados nesse contexto. Estudos experimentais e clínicos relacionam alterações da barreira intestinal, LPS e ativação de vias inflamatórias, incluindo TLR4/NF-κB, especialmente no contexto do câncer colorretal. [13]

Antibióticos podem alterar esse sistema?

Sim. Antibióticos podem modificar profundamente a composição e a função da microbiota intestinal. Estudos observacionais também encontraram associação entre exposição a antibióticos e maior risco de neoplasias colorretais. Uma meta-análise publicada em 2025, que incluiu 23 estudos e mais de 1,1 milhão de participantes, encontrou uma associação de aproximadamente 13% entre uso de antibióticos e risco de tumores colorretais. [19]

Mas esse resultado precisa ser interpretado com cautela. Pessoas que utilizam antibióticos frequentemente podem apresentar infecções, inflamação ou outras condições que também estão relacionadas ao risco de câncer. Portanto, associação epidemiológica não significa que o antibiótico seja, isoladamente, a causa do tumor. Isso reforça a importância do uso racional desses medicamentos, e não a ideia de evitar antibióticos quando eles são clinicamente necessários.

E o câncer de mama?

A relação entre microbioma e câncer de mama é uma área de pesquisa em crescimento. Estudos investigam possíveis mecanismos envolvendo:

• metabolismo de estrogênios;

• imunidade;

• inflamação sistêmica;

• metabólitos microbianos;

• microbiota intestinal;

• microbiota presente no próprio tecido tumoral.

Uma meta-análise publicada em 2025 encontrou associações entre características da microbiota intestinal e câncer de mama. Entretanto, revisões sistemáticas recentes também ressaltam a grande heterogeneidade dos estudos e os desafios para transformar essas associações em aplicações clínicas. [6,20,21]

Portanto, atualmente é mais adequado dizer que existe uma associação biologicamente plausível e crescente evidência experimental e observacional, e não que a disbiose intestinal esteja comprovadamente causando câncer de mama.

O microbioma pode influenciar o tratamento do câncer?

Essa é uma das áreas mais interessantes da pesquisa atual. A composição e a função da microbiota intestinal parecem influenciar a resposta a determinados tratamentos, especialmente aos inibidores de pontos de controle imunológico, como terapias dirigidas a PD-1 e CTLA-4.

Estudos clínicos demonstram associações entre determinadas características do microbioma e resposta à imunoterapia. Entretanto, ainda existe grande variabilidade entre estudos e não há uma assinatura microbiana universal capaz de prever a resposta de todos os pacientes. [22,23]

Um exemplo particularmente interessante são estudos de transplante de microbiota fecal associados à imunoterapia em melanoma. Em um ensaio clínico de fase I publicado na Nature Medicine, 20 pacientes com melanoma avançado receberam transplante de microbiota fecal combinado com bloqueio de PD-1. O estudo encontrou sinais de atividade clínica e alterações na composição do microbioma, mas foi um estudo pequeno e de fase inicial. [24]

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 também encontrou sinais promissores para estratégias de modulação do microbioma durante imunoterapia, mas destacou a heterogeneidade dos estudos, a predominância de estudos iniciais e a necessidade de ensaios clínicos randomizados maiores. [25]

Portanto, o microbioma já é considerado um modulador potencial da resposta à imunoterapia, mas sua manipulação ainda não pode ser tratada como uma intervenção oncológica universalmente estabelecida.

Probióticos são capazes de prevenir câncer?

Aqui também precisamos separar hipótese de evidência clínica. Probióticos podem modificar determinados aspectos da microbiota e da resposta imune, e existem estudos sugerindo benefícios em alguns contextos relacionados ao câncer colorretal.

Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados encontrou redução na ocorrência de adenomas com probióticos, prebióticos ou simbióticos em populações de maior risco, mas não demonstrou redução significativa na incidência de câncer colorretal. [26]

Probióticos e outras estratégias de modulação da microbiota são áreas promissoras de pesquisa, mas ainda não existe evidência suficiente para recomendar um probiótico específico como estratégia geral de prevenção do câncer.

Alimentação é mais importante que suplementos

A alimentação é um dos principais fatores capazes de modificar o ambiente intestinal e o metabolismo microbiano. Fibras alimentares são particularmente importantes porque podem ser fermentadas por bactérias intestinais e aumentar a disponibilidade de ácidos graxos de cadeia curta.

Além dos mecanismos microbiológicos, estudos epidemiológicos associam maior consumo de fibras a menor risco de câncer colorretal. Uma meta-análise de estudos prospectivos encontrou associações inversas entre maior ingestão de diferentes tipos de fibras e risco de câncer colorretal, embora os resultados variem conforme a fonte da fibra. [27]

Uma revisão guarda-chuva mais recente também encontrou associação entre maior consumo de fibras e menor risco de diversos cânceres, incluindo câncer colorretal, mas classificou a qualidade global de parte dessas evidências como baixa ou muito baixa. [28]

Uma dieta rica em fibras é associada a melhor saúde e menor risco de algumas doenças, mas não significa que fibras ou um determinado alimento "matem" células cancerígenas.

Atividade física, sono e estresse

Esses fatores também podem influenciar a microbiota, mas a evidência é menos direta quando falamos especificamente de prevenção de câncer mediada pelo microbioma.

Estudos mostram que atividade física pode modificar a composição e a função da microbiota intestinal. Entretanto, ainda não está demonstrado que essas alterações sejam responsáveis pela redução do risco de câncer associada à atividade física. [29]

O mesmo princípio deve ser aplicado ao estresse e ao sono. Existe uma relação bidirecional entre estresse, sistema nervoso, imunidade, barreira intestinal e microbiota, mas ainda não podemos afirmar que controlar o estresse ou melhorar o sono previna câncer especificamente por meio da microbiota. [30]

Conclusão

Em alguns contextos, determinados microrganismos e seus produtos podem participar causalmente da carcinogênese. Mas não podemos generalizar essa relação para todo o microbioma ou para todos os tipos de câncer.

No câncer colorretal, existem evidências mecanísticas particularmente fortes envolvendo determinados microrganismos, metabólitos, inflamação e interação com o epitélio intestinal. [3,4]

Para câncer de fígado e mama, existem mecanismos biologicamente plausíveis e evidências crescentes, mas a causalidade e a aplicação clínica ainda estão em investigação. [5,6]

Além disso, estudos de microbioma são particularmente suscetíveis a fatores de confusão. Dieta, medicamentos, obesidade, trânsito intestinal, inflamação e características do próprio tumor podem modificar a microbiota.

O microbioma é modificável, mas não é simples. Uma abordagem baseada em evidências deve priorizar fatores que já apresentam benefícios independentes do microbioma, como:

• alimentação predominantemente baseada em alimentos minimamente processados;

• consumo adequado de fibras, quando clinicamente apropriado;

• variedade alimentar;

• atividade física regular;

• manutenção de composição corporal saudável;

• uso racional de antibióticos;

• sono adequado;

• redução do consumo de álcool;

• não fumar;

• adesão aos programas de rastreamento de câncer recomendados.

Essas estratégias fazem parte de uma abordagem global de redução de risco e promoção da saúde, enquanto a ciência continua investigando exatamente quais características do microbioma são relevantes, para quem e em quais circunstâncias.

A ciência está avançando de uma pergunta relativamente simples, "quais bactérias estão presentes?", para perguntas muito mais importantes: o que essas comunidades fazem, quais metabólitos produzem, como interagem com o hospedeiro e quais dessas alterações são realmente causais?

É justamente nessa integração entre microbioma, metabolômica, imunologia e genômica que a pesquisa atual começa a revelar uma visão mais precisa da relação entre microrganismos e câncer. Aprenda sobre ciências ômicas aqui.

Referências

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Disponibilidade de frutas em Portugal e no Brasil, por estação

Minhas frutas favoritas em Portugal são mirtilos (primavera/verão), figos e melancia (verão), uvas (verão/outono), diospiro, uma variedade de caqui (outono), laranja e tangerina (dão quase o ano todo, mas como mais no inverno). Minha fruta do coração em Portugal é o figo. Quais são suas frutas favoritas?

Calendário de frutas em Portugal (APN, 2021)

No Brasil, minhas frutas favoritas são jaboticaba (primavera), abacate e manga (verão), banana prata (ano todo), caqui (outono), mexerica (inverno). Mas acho que não há fruta que eu não goste. Agora, a minha favorita de todas é jaboticaba. Sempre quero ir à Brasília entre outubro e novembro para aproveitar. Qual é sua fruta brasileira favorita?

Calendário de frutas no Brasil

Benefícios do consumo de frutas

Frutas inteiras fornecem, fibras, polifenóis, vitaminas, minerais e outros compostos bioativos. Para cada aumento de 200 g/dia no consumo de frutas e vegetais, reduz-se o risco de várias doenças (Aune et al., 2017):

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/