O que é um interneurônio?

Um interneurônio é um neurônio cuja função principal é fazer a ligação e a modulação da comunicação entre outros neurônios. Ele não recebe diretamente informação do exterior nem envia comandos para os músculos. Em vez disso, atua dentro do sistema nervoso central, integrando e ajustando sinais entre neurónios sensoriais e motores.

Funções principais

  • integração de informação

  • filtragem de sinais

  • coordenação de circuitos neuronais

  • regulação da intensidade da atividade cerebral

  • sincronização de redes neuronais

Onde se encontram?

  • cérebro

  • medula espinhal

A maioria dos interneurônios no cérebro é inibitória e usa GABA como neurotransmissor. Isso ajuda a evitar excesso de atividade neuronal e a manter o equilíbrio do sistema nervoso.

Em termos simples: são os neurônios que “organizam o trânsito” da informação no cérebro, garantindo que os sinais não fiquem caóticos e sejam processados de forma eficiente.

Diferente dos:

  • neurônios sensoriais → que trazem informação do corpo para o cérebro;

  • neurônios motores → que levam comandos do cérebro para músculos e órgãos;

os interneurônios funcionam como “processadores locais”.

Eles:

  • integram informações;

  • regulam circuitos;

  • filtram sinais;

  • coordenam respostas;

  • sincronizam atividade cerebral.

Imagine o cérebro como uma cidade elétrica:

  • neurônios excitatórios = “aceleradores”

  • interneurônios = “freios e coordenadores do trânsito”

Sem eles, os sinais ficam caóticos, há excesso de ativação, ocorre perda de sincronização. Assim, os interneurônios são fundamentais para evitar hiperexcitação excessiva, regular ansiedade, estabilizar humor, controlar impulsividade, organizar sono, controlar convulsão.

Relação com transtornos neuropsiquiátricos

Alterações em interneurônios estão associadas a:

  1. bipolaridade;

  2. esquizofrenia;

  3. epilepsia;

  4. autismo;

  5. ansiedade;

  6. depressão;

  7. TDAH.

Especialmente os interneurônios GABAérgicos do tipo parvalbumina+ são muito estudados em:

  • sincronização cerebral;

  • função mitocondrial;

  • metabolismo energético cerebral.

Isso conversa bastante com a hipótese metabólica discutida por pesquisadores como Christopher Palmer.

Interneurônios têm:

  • alta demanda energética;

  • muitas mitocôndrias;

  • grande sensibilidade ao metabolismo energético.

Por isso, resistência insulínica cerebral, inflamação, disfunção mitocondrial, podem afetar sua função. Essa é uma das razões pelas quais estratégias metabólicas (sono, exercício, cetogênica, controle glicêmico) vêm sendo estudadas em saúde mental.

Exemplo simples

Quando você quer pegar uma xícara quente:

  • neurônio sensorial percebe calor;

  • interneurônio processa rapidamente;

  • neurônio motor manda retirar a mão.

O interneurônio é o “centro de decisão rápida”.

Modulação de interneurônios

Em TDAH, TEA e transtorno bipolar, a disfunção não é localizada, mas distribuída em circuitos frontais, límbicos e estriatais, com alteração funcional de inibição sináptica e ganho neural.

  1. Modulação farmacológica

  • Psicoestimulantes (metilfenidato, anfetaminas)

    • Aumentam dopamina e noradrenalina em córtex pré-frontal

    • Melhoram sinal ruído e eficiência de controle inibitório

    • Efeito indireto sobre interneurônios via otimização de redes frontoestriatais

  • Atomoxetina

    • Aumento sustentado de noradrenalina

    • Melhora de controle executivo e redução de variabilidade cortical

    • Modulação indireta de circuitos inibitórios

  • Estabilizadores de humor (lítio, valproato, lamotrigina)

    • Restabelecem estabilidade de excitabilidade neuronal

    • Aumentam limiar convulsivo funcional e reduzem hiperexcitabilidade límbica

    • Modulação de plasticidade sináptica e sinalização intracelular envolvendo GSK3β e canais iônicos

  • Antipsicóticos atípicos (risperidona, quetiapina, aripiprazol)

    • Modulação dopaminérgica e serotoninérgica

    • Redução de hiperatividade dopaminérgica subcortical

    • Efeito sobre estabilidade de redes inibitórias em estados de desregulação afetiva e psicose

2. Modulação não farmacológica com impacto em interneurônios

  • Exercício físico

    • Aumenta BDNF, melhora plasticidade GABAérgica e sincronização cortical

    • Reduz hiperexcitabilidade e melhora controle executivo

  • Sono

    • Restauração de homeostase sináptica

    • Recuperação de atividade de interneurônios parvalbumina dependentes de oscilação gama

    • Privação reduz inibição funcional

  • Estresse e eixo HPA

    • Cortisol cronicamente elevado reduz eficiência pré-frontal e inibição cortical

    • Técnicas respiratórias e mindfulness aumentam tônus vagal e reduzem excitabilidade

  • Nutrição e suplementos

    • Magnésio: modulação NMDA e excitabilidade neuronal

    • Zinco: regulação de GABA e glutamato

    • Ômega 3: fluidez de membrana e redução de neuroinflamação

    • Vitaminas do complexo B: síntese de neurotransmissores e metilação

    • Vitamina D: modulação imune neural e plasticidade

A modulação de interneurônios é indireta. Medicamentos atuam principalmente em monoaminas e canais iônicos, enquanto estilo de vida e nutrientes modulam inflamação, energia neuronal e plasticidade sináptica. O resultado final é ajuste do balanço excitação inibição e da estabilidade de redes corticais. Aprenda mais na plataforma https://t21.video

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

DAO, COMT e MAO lentos. E agora?

Você fez o exame genético e descobriu variantes lentas dos genes DAO, COMT e MAOA. E agora? O objetivo do exame genético não é desesperar ninguém, mas abrir novas avenidas para o autocuidado. 

Estas variantes genéticas reduzem a atividade de enzimas responsáveis pela degradação de histamina, dopamina, serotonina, adrenalina e outras aminas biogênicas. Mas isso não significa doença. 

• COMT → metaboliza catecolaminas como dopamina, noradrenalina e adrenalina

• MAOA → degrada serotonina, dopamina e outras monoaminas

• DAO → principal enzima da degradação da histamina alimentar

Quando essas vias funcionam mais lentamente, pode existir maior tempo de ação desses neurotransmissores e menor capacidade de “limpeza” metabólica. Podem aumentar a sensibilidade fisiológica ao ambiente, ao stress, à alimentação, aos hormônios e a alguns medicamentos.

Na prática, algumas pessoas apresentam maior tendência a:

• ansiedade e hiperalerta

• dificuldade para “desligar” o cérebro

• distúrbios do sono

• irritabilidade e baixa tolerância ao stress

• enxaquecas

• palpitações

• sensibilidade à cafeína e álcool

• sintomas relacionados à histamina: rubor, rinite, urticária, desconforto gastrointestinal

• TPM intensa e maior sensibilidade hormonal

• sintomas tipo POTS: tontura, fadiga, taquicardia ao levantar

Mas genética não atua sozinha.

O impacto clínico depende da interação com:

• microbiota intestinal

• inflamação

• SIBO/disbiose

• consumo de álcool

• qualidade do sono

• stress crônico

• deficiências nutricionais

• carga hormonal

DAO lento, por exemplo, muitas vezes só se torna problemático quando existe inflamação intestinal ou excesso de carga de histamina.

Outro ponto importante: esses polimorfismos são relativamente comuns na população. Eles não determinam destino, personalidade ou diagnóstico.

Eles apenas modulam tendência biológica e resposta ao ambiente.

Estratégias que costumam ajudar:

• regulação do stress e sono

• redução de excesso de histamina alimentar em fases sintomáticas

• suporte intestinal

• correção de deficiências nutricionais

• magnésio, vitaminas do complexo B, vitamina C e cobre, quando indicados

Genética funcional não serve para rotular pessoas. Serve para entender vulnerabilidades fisiológicas e individualizar intervenções.

Quer aprender mais? Marque sua consulta ou acesse os cursos de genômica e metabolômica.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Inflamação materna e risco de TEA e TDAH

Infecção materna, obesidade, autoimunidade, disbiose ou inflamação sistêmica durante a gestação induzem “maternal immune activation” (MIA). Isso aumenta IL1b, IL-6, IL-17A, TNF-α e ativa microglia fetal (Han et al., 2021, Yin et al., 2024; Croen et al., 2023; Gardner et al., 2025).

A microglia ativada passa a expressar mais proteínas do complemento, especialmente C1q e C3. O sistema complemento, tradicionalmente associado à imunidade inata, também atua no cérebro regulando poda sináptica, plasticidade e homeostase neuronal. O cérebro em desenvolvimento usa esse sistema fisiologicamente para selecionar quais sinapses devem permanecer e quais serão eliminadas (Stevens, & Johnson, 2021) Marca sinapses fracas ou desnecessárias para eliminação por micróglias. Esse processo é fisiológico e essencial para a maturação dos circuitos neurais.

O C1q liberado favorece ativação da micróglia e pode aumentar a inflamação via NF-kB, elevando expressão de pro-IL e NLRP3. Isso desloca o metabolismo neural e glial para um estado glicolítico inflamatório, com aumento de lactato, disfunção mitocondrial e redução da eficiência oxidativa. O resultado é um eixo pro-apoptótico mediado pela neuroinflamação sustentada.

  • C1q “marca” sinapses imaturas ou pouco ativas.

  • C3b/iC3b opsoniza essas sinapses.

  • A microglia reconhece via CR3 e fagocita.

Isso é essencial para o neurodesenvolvimento normal. O problema surge quando há hiperativação crônica ou timing inadequado. Em modelos animais, excesso de C1q/C3 está associado a poda excessiva, perda sináptica excessiva e alteração de circuitos corticais (Gomez-Arboledas, Acharya, & Tenner, 2021).

A ativação aberrante do complemento está associada a múltiplas doenças neurodegenerativas e neuroinflamatórias:

  • Alzheimer

  • Esclerose múltipla

  • Traumatismo craniano

  • AVC

  • Infecção por Zika

  • Lesão por radioterapia cerebral

Os interneurônios GABAérgicos parecem particularmente vulneráveis porque amadurecem tardiamente e dependem muito de refinamento sináptico adequado. Modelos de ativação imune materna mostram (Gillespie et al., 2023):

• redução de parvalbumina, proteína ligadora de cálcio, altamente expressa em alguns interneurônios GABAérgicos rápidos do córtex e hipocampo. O resultado é a pior integração temporal de informação sensorial e cognitiva.
• alteração de GAD65/GAD67, enzimas de síntese de GABA a partir de glutamato.

  • GAD65 (GAD2): associado a terminais sinápticos e liberação rápida

  • GAD67 (GAD1): manutenção basal de GABA intracelular

Redução funcional de GAD implica em menor disponibilidade de GABA sináptico, redução de inibição tônica e fásica, maior excitabilidade de redes piramidais.
• defeito em interneurônios corticais, leva a redução de arborização dendrítica, falha de migração ou posicionamento cortical, redução da conectividade inibitória local.
• desequilíbrio excitação/inibição. Quando E/I aumenta há maior excitabilidade cortical, menor limiar de ativação sensorial, com vários efeitos sistêmicos possíveis:

  • déficit de atenção e menor controle inibitório

  • impulsividade

  • hipersensibilidade sensorial

  • labilidade emocional

  • maior carga de esforço cognitivo

  • pior consolidação de memória de trabalho

  • maior vulnerabilidade a estresse e privação de sono

Assim, a inflamação materna leva a uma microglia hiperreativa, com complemento aumentado, poda aberrante e circuitos GABAérgicos disfuncionais.

Sobre C4

C4 refere-se ao componente 4 do sistema complemento.

Via clássica do complemento

C4 liga-se a superfícies e facilita reconhecimento por fagócitos, forma o complexo C3, amplificando a cascata, participa da remoção de complexos antígeno-anticorpo na circulação.

A deficiência de C4 aumenta a autoimunidade, como no lúpus, leva a falha da depuração de imunocomplexos. Já o aumento da atividade de C4, especialmente no cérebro, está associado a aumento da poda sináptica, com implicações na esquizofrenia (Hogenaar, Bokhoven, 2021).

Os cuidados maternos para redução da inflamação são fundamentais na gestação. Além disso, o tratamento de carências nutricionais é imprescindível, uma vez que:

• deficiência de folato/B12 → metilação alterada
• aumento de homocisteína
• estresse oxidativo
• ativação microglial
• disfunção endotelial
• pior regulação imune

A deficiência de metilação também altera expressão gênica de proteínas regulatórias imunes. Portanto, o vínculo é mais epigenético/imunometabólico do que um bloqueio direto de “inibidores do complemento”.

Patógenos conseguem modular complemento e escapar da imunidade. Vários microrganismos:
• recrutam fator H
• degradam C3/C5
• reduzem opsonização
• alteram regulação imune

Isso pode perpetuar inflamação crônica de baixo grau e ativação microglial persistente.

Além disso, disbiose intestinal altera:
• permeabilidade intestinal
• LPS circulante
• IL-6/IL-17
• eixo microglia-intestino

e isso conversa diretamente com MIA e neuroinflamação (Han et al., 2021). Nos trantornos do desenvolvimento a imunidade pode estar alterado. Há suporte epidemiológico consistente para associação entre TDAH e doenças atópicas, inflamatórias e autoimunes. Não é causalidade única, mas correlação replicada em coortes grandes, meta-análises e estudos de registro.
Meta-análises e coortes populacionais mostram aumento de risco de TDAH em crianças com doenças atópicas.

Achados típicos:
• maior prevalência de TDAH em asma e rinite alérgica
• associação com dermatite atópica (eczema)
• relação dose-resposta em algumas coortes (mais doenças atópicas → maior risco de sintomas atencionais)

Estudos-chave:
Miyazaki et al. (2017), meta-análise: associação entre asma e TDAH
Schmitt et al. (2013), dermatite atópica e TDAH em coortes pediátricas
Nielsen et al. (2021), JAMA Psychiatry: doenças autoimunes maternas aumentam risco de TDAH
Walle et al. (2025), BMC Med: doenças autoimunes e inflamatórias maternas são associadas a maior risco de TDAH nos filhos

Os mecanismos propostos incluem:

• ativação mastocitária
• histamina cerebral
• citocinas pró-inflamatórias
• microglia ativada
• alteração dopaminérgica
• alteração GABAérgica
• permeabilidade intestinal (Aarts et al., 2017) e hematoencefálica (Sayed et al., 2024)

A microglia cronicamente ativada pode manter circuitos em estado “imaturo”. Isso ajuda a explicar hipersensibilidade sensorial, fadiga cognitiva, disfunção autonômica e maior vulnerabilidade ao estresse inflamatório.

Células do sistema imune possuem receptores GABA para conter a inflamação no sistema nervoso central (Tian, & Kaufman, 2023). A disfunção GABAérgica crônica associa-se a:
• maior excitotoxicidade
• menor sincronização cortical
• pior sono profundo
• aumento de neuroinflamação
• redução de plasticidade

Este artigo propõe que disfunção GABAérgica é um mecanismo central que liga envelhecimento, hiperatividade de redes neurais e declínio de memória episódica na doença de Alzheimer. Ou seja, a disfunção pode acelerar fenótipos de envelhecimento cerebral. Mais nos cursos de saúde de precisão.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/