Uso de bezafibrato para redução da neuroinflamação

Um estudo publicado na revista Science Translational Medicine investigou se melhorar a função mitocondrial poderia restaurar a integridade da barreira hematoencefálica e influenciar o comportamento social em um modelo genético de alto risco para transtornos neuropsiquiátricos.

O foco foi a síndrome de deleção 22q11.2, uma condição genética associada a maior risco de autismo, esquizofrenia e alterações cognitivas.

Por que a barreira hematoencefálica depende de energia?

A barreira hematoencefálica não é apenas um filtro físico. Ela é um tecido metabolicamente ativo e altamente dependente de energia.

Um dado relevante: células da barreira hematoencefálica possuem maior densidade mitocondrial do que a maioria das células vasculares Isso indica que o metabolismo energético é essencial para manter sua função.

Quando essa função falha, podem ocorrer:

  • inflamação cerebral

  • alteração da comunicação neuronal

  • mudanças comportamentais

O que os pesquisadores fizeram

O estudo utilizou dois modelos experimentais:

  • células humanas derivadas de indivíduos com deleção 22q11.2

  • camundongos com a mesma alteração genética

Foram avaliados três eixos principais:

  • função mitocondrial

  • integridade da barreira hematoencefálica

  • comportamento social

Em seguida, os pesquisadores testaram o medicamento bezafibrato. Esse fármaco é tradicionalmente utilizado para reduzir triglicerídeos e melhorar o perfil lipídico, mas atua diretamente em vias celulares relacionadas à produção de energia e inflamação.

O que é o bezafibrato do ponto de vista biológico?

O bezafibrato é um agonista de receptores PPAR, principalmente:

  • PPAR-α

  • PPAR-δ

  • PPAR-γ

Esses receptores regulam processos fundamentais:

  • metabolismo energético

  • oxidação de ácidos graxos

  • função mitocondrial

  • inflamação

  • estresse oxidativo

Na prática, trata-se de um modulador metabólico celular, não apenas um redutor de lipídios.

Principais achados do estudo

1) Existe disfunção mitocondrial nessa condição

As células da barreira hematoencefálica apresentaram:

  • menor produção de ATP

  • menor consumo de oxigênio

  • metabolismo energético reduzido

Isso caracteriza falha na respiração mitocondrial.

2) A barreira hematoencefálica estava comprometida

A disfunção energética foi associada a:

  • menor integridade da barreira

  • maior vulnerabilidade a inflamação e toxinas

Esse achado reforça um conceito importante: a barreira hematoencefálica é um tecido metabolicamente dependente.

3) O bezafibrato melhorou a função mitocondrial

Após o tratamento, observou-se:

  • aumento da respiração mitocondrial

  • melhora da produção de energia

  • restauração parcial da integridade da barreira

Não houve aumento no número de mitocôndrias, o que sugere melhora funcional, não estrutural.

4) Houve melhora no comportamento social (em animais)

Os animais tratados apresentaram:

  • melhora da memória social

  • melhor reconhecimento de outros indivíduos

  • maior interação social

Um achado importante foi a correlação direta entre integridade da barreira hematoencefálica e desempenho social. Isso sugere uma relação funcional entre metabolismo celular e comportamento.

O mecanismo proposto

O estudo sugere a seguinte sequência fisiológica:

Disfunção mitocondrial
→ menor produção de energia
→ falha da barreira hematoencefálica
→ inflamação e disfunção neural
→ alterações cognitivas e comportamentais

E o inverso também parece ocorrer:

Melhor função mitocondrial
→ melhor integridade da barreira
→ melhor função cerebral

Alterações na expressão de genes da barreira hematoencefálica

Em animais tratados com bezafibrato, foram identificados muitos genes diferencialmente expressos na população de células da barreira hematoencefálica em comparação com controles sem tratamento. Houve centenas de genes com expressão aumentada e reduzida, refletindo respostas transcricionais amplas induzidas pela intervenção.

Análise de enriquecimento funcional mostrou que, entre os genes cuja expressão aumentou com o bezafibrato, estavam conjuntos relacionados a:

  • importação transmembrana de proteínas em organelas intracelulares

  • transporte transmembrana mitocondrial

  • transporte de proteínas para a matriz mitocondrial

Essas vias são consistentes com aumento da função mitocondrial e melhor homeostase celular, e sugerem que bezafibrato reprograma a expressão de genes envolvidos no gerenciamento da energia e na função mitocondrial.

No exame de células endoteliais humanas derivadas de 22q11.2DS tratadas com bezafibrato, os autores relatam também mudanças em transcritos que regulam dinamismo mitocondrial (fusão e fissão), sugerindo que o tratamento afeta a organização estrutural das mitocôndrias.

Esses resultados indicam que o bezafibrato não age apenas ajustando uma ou outra molécula isolada, mas altera programas de expressão gênica em larga escala em células da barreira hematoencefálica, particularmente em vias ligadas à função mitocondrial e ao transporte intracelular de proteínas.

Isso apoia a ideia de que a intervenção pode melhorar a função celular fundamental (energia e integridade da barreira) através de reprogramação genética, não apenas por efeitos bioquímicos imediatos.

O que isso significa na prática clínica

Este estudo não demonstra tratamento clínico para autismo ou esquizofrenia. Ele demonstra um mecanismo biológico plausível.

As implicações mais relevantes são conceituais:

  • disfunção mitocondrial pode ser um fator central em doenças neuropsiquiátricas

  • a barreira hematoencefálica é um alvo terapêutico relevante

  • o metabolismo energético cerebral pode influenciar comportamento

Limitações importantes

  • estudo realizado em células e animais

  • ausência de ensaios clínicos em humanos

  • dose e segurança para uso neurológico ainda não estabelecidas

  • efeito observado em um modelo genético específico

Portanto, trata-se de evidência mecanística, não terapêutica. Não vamos usar ainda a medicação no autismo, mas podemos fazer muito pelas mitocôndrias. Aprenda mais nos cursos de genômica e metabolômica (use o cupom 20% para desconto no combo).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

REAC no autismo

Estudo avaliou um protocolo de neuromodulação não invasiva chamado REAC BWO Neurodevelopment–Autism, que utiliza campos eletromagnéticos de baixa intensidade para modular a atividade bioelétrica cerebral em crianças com transtorno do espectro autista (TEA).

REAC (Radio Electric Asymmetric Conveyer) é uma tecnologia de neuro e bioestimulação não invasiva que utiliza ondas de rádio de baixa intensidade para reequilibrar o sistema nervoso e celular. Focada na Otimização Neuro Postural (NPO) e Psico-Física (NPPO), corrige assimetrias, reduz stress/ansiedade e trata dor crónica e distúrbios cognitivos.

Estudos anteriores mostraram:

  • 34% ↑ Modulação Ca²⁺

    • Aumento na entrada de cálcio em neurônios é essencial para sinalização celular e neuroplasticidade.

  • 41% regulação da bomba sódio potassio, fundamental para potencial de membrana e função neuronal

  • 28% aumento de BDNF, fertilizante do cerebro, importante para neuroplasticidade

A hipótese é que alterações nas oscilações neurais e na conectividade cerebral contribuem para sintomas de comunicação, comportamento e integração sensorial no autismo. A intervenção busca melhorar a coerência dessas redes neurais.

Tipo de estudo

  • Estudo retrospectivo

  • Antes e depois (sem grupo controle)

Amostra:

  • 39 crianças com TEA

  • Idade média: ~7,8 anos

  • 31 meninos e 8 meninas

Intervenção:

  • 1 sessão inicial de otimização postural neural

  • 18 sessões de neuromodulação

  • Cada sessão: ~8 minutos

  • Frequência: 3 a 4 vezes por dia

  • Duração total: cerca de 2 semanas

O que foi medido?

O principal desfecho foi o ATEC (Autism Treatment Evaluation Checklist), um instrumento que avalia:

  • Comunicação

  • Sociabilidade

  • Consciência sensorial e cognitiva

  • Comportamento e saúde física

Pontuações menores indicam melhora clínica.

Principais resultados

Redução global dos sintomas

Pontuação média total:

  • Antes: 67,76

  • Depois: 56,25

  • Redução média: −11,5 pontos

  • Significância estatística: p < 0,0001

Isso representa um efeito considerado grande em termos estatísticos.

Resposta clínica

  • 59% tiveram melhora clinicamente relevante

  • 30,8% não apresentaram mudança significativa

  • 10,3% apresentaram piora percebida pelos cuidadores

Apesar de relatos de melhor consciência sensorial e sociabilidade não é mágica e não funciona para todos. Lembrando que esses achados foram qualitativos, não padronizados.

Segurança

  • Nenhum evento adverso foi registrado

  • Adesão ao tratamento foi de 100%

  • Todos os participantes completaram o protocolo

Limitações metodológicas (ponto crítico)

O próprio estudo reconhece limitações relevantes:

  1. Não houve grupo controle

  2. Amostra pequena

  3. Avaliação baseada em relato dos cuidadores

  4. Sem medidas neurofisiológicas objetivas

  5. Sem acompanhamento de longo prazo

Por isso, não é possível afirmar causalidade nem eficácia clínica definitiva.

Em termos de nível de evidência, trata-se de baixo a moderado, exploratório.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Como a ausência de dois genes altera profundamente o metabolismo no câncer da próstata

Este estudo investigou o efeito de duas alterações genéticas comuns em homens com cancro da próstata, chamadas UGT2B17 e UGT2B28, quando esses genes estão completamente ausentes (deleção total).

Esses genes pertencem a uma família de enzimas responsáveis por “processar e eliminar” substâncias do organismo, incluindo hormonas e compostos lipídicos. Quando estão ausentes, o corpo precisa reorganizar várias vias metabólicas para compensar.

O que foi estudado

Os investigadores analisaram o sangue de homens com cancro da próstata e compararam dois grupos:

  • indivíduos sem o gene UGT2B17

  • indivíduos sem o gene UGT2B28

  • grupo controlo com genes normais

Foi feita uma análise ampla de milhares de moléculas no sangue para observar alterações metabólicas globais.

Principais resultados

A ausência de cada gene provoca alterações metabólicas diferentes, mostrando que não são redundantes.

1. Ausência de UGT2B17

  • Aumento de metabólitos ligados a hormonas esteroides

  • Redução de compostos conjugados por glucuronidação

  • Mudança na forma como o corpo “desativa” hormonas sexuais

  • Sinal de compensação por outra via metabólica (sulfatação)

Interpretação: o organismo acumula mais derivados hormonais ativos, o que pode influenciar processos hormonodependentes como o cancro da próstata.

2. Ausência de UGT2B28

  • Redução global de vários metabólitos

  • Diminuição de mediadores inflamatórios e lípidos bioativos

  • Alterações em moléculas ligadas ao metabolismo energético das células

  • Perfil metabólico mais “suprimido” em comparação ao controlo

Interpretação: há uma modulação mais ampla de inflamação e metabolismo lipídico, sugerindo papel importante na regulação sistémica.

O que isto significa na prática

Os dois genes não têm função redundante. Cada um controla partes diferentes do metabolismo:

  • UGT2B17 está mais ligado ao metabolismo de hormonas esteroides

  • UGT2B28 está mais ligado a lípidos e processos inflamatórios

Quando ausentes, o corpo reorganiza completamente o metabolismo circulante. Deleções completas destes genes são relativamente comuns e associadas a risco/progressão de PCa e outras doenças, mas os mecanismos metabólicos subjacentes são pouco compreendidos.

Metabolômica

  • Ambos os KOs causaram reprogramação metabólica ampla, alterando >5% dos 1545 metabólitos medidos, mas com perfis divergentes.

  • UGT2B17 KO: predomínio de metabolitos aumentados, incluindo sulfatos de esteroides; níveis reduzidos de conjugados glucurónidos; acumulação de certos esteroides e alterações em ácidos biliares, sugerindo compensação por sulfatação.

  • UGT2B28 KO: maioria dos metabolitos diminuídos; redução acentuada de oxilipinas e mediadores inflamatórios; alterações em carnitinas e dicarboxilatos, e alterações específicas em lípidos e esfingolípidos.

Esteroides e lípidos

  • UGT2B17 KO mostrou elevação de sulfatos esteroides e redução de glucurónidos específicos, implicando perturbação do metabolismo de esteroides circulantes.

  • UGT2B28 KO associou-se a diminuições em certos esteroides e marcadores inflamatórios, e perfil lipidómico distinto com redução de acilcarnitinas e ácidos gordos.

Implicações para o cancro da próstata

Estas alterações podem:

  • influenciar a disponibilidade de hormonas que estimulam o tumor

  • modificar inflamação sistémica

  • alterar o ambiente metabólico que suporta o crescimento tumoral

Ou seja, a genética germinal pode moldar o metabolismo de forma relevante para a progressão da doença.

Mensagem principal

Pequenas diferenças genéticas herdadas podem gerar grandes diferenças no metabolismo sistémico. No cancro da próstata, isso pode alterar hormonas, inflamação e lípidos, criando perfis biológicos distintos entre indivíduos.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/