Jejum intermitente funciona para quem?

O jejum intermitente refere-se a um cronograma regular de jejum no qual os alimentos são consumidos apenas dentro de um período de tempo específico. As formas mais populares de jejum intermitente são:

  • Alimentação com restrição de tempo: refere-se ao jejum de 14 horas até 23 horas por dia e à alimentação dentro de um período de 10 horas ou menos. Isso é frequentemente referido como 14:10, 16:8, 18:6, 20:4 etc., onde o primeiro número é as horas de jejum e o segundo número é a janela de alimentação (ou número de horas durante as quais a ser consumido).

  • OMAD significa One Meal A Day (uma refeição ao dia): variedade extrema de restrição de tempo, na qual a pessoa jejua por cerca de 23 horas todos os dias e come uma refeição por dia (23:1).

  • Jejum de um dia inteiro: Este tipo de jejum envolve um dia de jejum sem comida ou o consumo de uma refeição de baixa caloria com no máximo 25% das necessidades calóricas diárias. As versões populares disso são 6:1, quando a pessoa come normalmente por seis dias e jejua por um dia, e 5:2, quando a pessoa jejua por dois dias durante uma semana.

  • Jejum em dias alternados: também chamado de jejum de 1:1 ou em dias alternados (JDA) e refere-se a comer normalmente em dias alternados e a jejuar em dias alternados. O dia de jejum pode ser um dia completo sem comida ou consumo de uma refeição de baixa caloria com no máximo 25% das necessidades calóricas diárias.

O Jejum Intermitente é benéfico?

Estudos mostram que o jejum intermitente tem efeitos positivos na perda de peso, além de reduzir a resistência à insulina, e que o jejum intermitente tem uma ampla gama de benefícios para muitas doenças, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e melhora cardiovascular fatores de risco.

Um argumento contra o jejum intermitente é que estudos em animais e ensaios clínicos falharam em mostrar melhorias significativas do jejum intermitente em relação à restrição calórica. Mas, na realidade, o jejum intermitente e a restrição calórica muitas vezes andam de mãos dadas, porque quando se come com menos frequência é mais difícil consumir a mesma quantidade de calorias como se comesse três vezes ao dia, todos os dias. A restrição calórica contribui para os muitos benefícios fisiológicos do jejum intermitente, que não se trata apenas de comer com menos frequência, mas também de comer menos.

Se a pessoa faz jejum, mas nos outros horários compensa, ou seja, se não há restrição calórica, os efeitos parecem sumir. Foi o que mostrou este estudo. Ou seja, muitos benefícios advém do menor consumo de calorias e não do horário das refeições.

Mas funciona para todo mundo?

Cuidado com promessas de influenciadores, que frequentemente utilizam dados de estudos com animais para justificar teorias sem comprovação em humanos. Nada funciona para todo mundo e individualização a cada fase da vida é sempre importante. Em geral, há pouco risco em estreitar a janela de alimentação a não ser em algumas situações:

  • Gestantes

  • Crianças e adolescentes

  • Indivíduos com caquexia do câncer ou relacionada ao envelhecimento

  • Pessoas com história passada de transtorno alimentar (anorexia nervosa, bulimia, transtorno da compulsão alimentar periódica) devem ter muito cuidado também

  • Pessoas com baixa massa magra ou em risco de perda de massa magra - falo sobre isto neste vídeo:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

O efeito da menopausa sobre o estrogênio

Antes da menopausa, os ovários produzem estradiol, o estrogênio mais potente. Mas, na menopausa, os ovários praticamente param de produzir estradiol, e o corpo depende de estrogênio periférico (estrona) produzido no tecido adiposo. Com isso, surgem alguns sintomas como calorões, alterações de memória e libido.

Nem tudo é desvantagem na menopausa. Existem doenças estrogênio-dependentes que geralmente melhoram nesta fase, incluindo:

  • Miomas uterinos: Tendem a encolher após a menopausa.

  • Endometriose: A regressão é comum pela falta de estímulo estrogênico.

  • Fibroadenomas mamários: Frequentemente diminuem de tamanho.

Contudo, um estilo de vida saudável é importante. Em mulheres obesas ou com resistência à insulina, o tecido adiposo continua produzindo estrogênios (estrona), mantendo algum estímulo para tecidos sensíveis. Com isso, tumores de mama ou endométrio que sobrevivem à menopausa podem se tornar mais agressivos.

A menopausa não significa ausência completa de estrogênio. Isso explica por que algumas mulheres continuam com sintomas ou risco de crescimento tumoral mesmo sem ovários ativos.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Hipersensibilidade visceral

Hipersensibilidade visceral é um fenômeno fisiopatológico caracterizado por uma resposta aumentada dos órgãos internos a estímulos mecânicos, químicos ou inflamatórios que normalmente não provocariam dor ou desconforto significativo. Está associada a alterações na transdução e transmissão de sinais nociceptivos (de dor) ao nível periférico (receptores viscerais e aferentes nervosos) e central (medula espinhal e cérebro), envolvendo modulação neural anormal, plasticidade sináptica e sensibilização central.

A hipersensibilidade visceral pode desempenhar um papel na síndrome do intestino irritável e é influenciada por fatores como secreções do tecido adiposo, microbiota gastrointestinal, deficiência de vitamina D e o eixo cérebro-intestino [1].

Em pacientes com hipersensibilidade visceral (por exemplo, SII), a interação entre os componentes dos alimentos e uma microbiota intestinal desequilibrada pode aumentar a atividade dos nervos nociceptivos por meio de: (1) secreção de imunomoduladores (por exemplo, histamina) ou (2) aumento da abundância de lipossacarídeos bacterianos (LPS), que, por sua vez, desencadeiam uma resposta imune do hospedeiro, como a secreção de mediadores de mastócitos (isto é, histamina, triptase e prostaglandinas), levando à ativação dos nervos nociceptivos.

Outros mecanismos potenciais que requerem investigação adicional incluem (a) ativação direta dos nervos nociceptivos por mediadores microbianos e (b) ativação de células epiteliais por mediadores microbianos, levando à secreção de fatores (por exemplo, proteases) que, em última análise, impulsionam a ativação dos nervos nociceptivos.

Dor visceral, transtornos mentais e do neurodesenvolvimento

A relação entre dor visceral e transtornos mentais é complexa, com o estresse psicológico e condições inflamatórias na primeira infância contribuindo para a dor crônica na vida adulta [2].

A hipersensibilidade sensorial está fortemente ligada a comportamentos repetitivos tanto em crianças autistas quanto em crianças com desenvolvimento típico, sendo que o diagnóstico de autismo neste estudo não adicionou influência preditiva além da própria hipersensibilidade sensorial [3].

Porém, outro estudo encontrou uma associação positiva entre hipersensibilidade alimentar e o risco de transtorno do espectro autista (TEA), particularmente em meninas e crianças menores de 12 anos [4].

Referências

1) W Yanping et al. The interaction between obesity and visceral hypersensitivity. Journal of gastroenterology and hepatology (2022). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36478286/

2) JN Sengupta et al. Visceral pain: the neurophysiological mechanism. Handbook of experimental pharmacology (2009). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19655104/

3) SE Schulz et al. Sensory hypersensitivity predicts repetitive behaviours in autistic and typically-developing children. Autism : the international journal of research and practice (2018). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30244585/

4) H Li et al. Association of food hypersensitivity in children with the risk of autism spectrum disorder: a meta-analysis. European journal of pediatrics (2020). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33145704/

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/