Intestino, vitaminas e autismo

Um estudo de 2022 investigou como o metabolismo de vitaminas e aminoácidos no intestino pode estar ligado aos sintomas e ao desenvolvimento neurológico de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Os pesquisadores analisaram amostras fecais e encontraram alterações significativas nas vias metabólicas relacionadas a vitaminas do complexo B, ácido fólico e aminoácidos essenciais, como triptofano e metionina. Essas moléculas são fundamentais para o funcionamento cerebral, produção de neurotransmissores e regulação imunológica.

Essas mudanças no metabolismo intestinal se correlacionaram com a gravidade dos sintomas comportamentais e níveis de desenvolvimento cognitivo e motor das crianças. Ou seja, o equilíbrio da microbiota intestinal pode ter impacto direto na forma como o cérebro se desenvolve e funciona.

Embora o estudo não prove uma relação de causa e efeito, ele reforça a ideia do “eixo intestino-cérebro” — mostrando que o intestino é muito mais do que um órgão digestivo: é também um poderoso regulador da saúde mental e neurológica.

Compreender melhor essas interações pode abrir caminho para novas estratégias terapêuticas, como ajustes nutricionais, suplementação personalizada ou probióticos voltados ao suporte do desenvolvimento infantil no autismo.

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1) Nutrição e autismo

2) Genômica dos transtornos do neurodesenvolvimento

3) Metabolômica dos transtornos do neurodesenvolvimento

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Autismo e erros inatos do metabolismo

Erros inatos do metabolismo (EIM) são distúrbios genéticos que afetam processos bioquímicos básicos. Estudos mostram que podem estar associados a comportamentos do autismo (TEA).

Embora o TEA tenha causas complexas (genéticas, ambientais, epigenéticas) e, em muitos casos, a etiologia permaneça desconhecida, os autores ressaltam que alguns casos podem ter origem metabólica tratável ou parcialmente tratável (Zigman et al., 2021).

Em muitos EIM, há sintomas do sistema nervoso central (mais de 50% dos pacientes) ou manifestações psiquiátricas. Em alguns casos, pacientes com EIM apresentam sintomas de TEA ou características autísticas.

No entanto, para TEA “não-sindrômico” (sem outros sinais clínicos óbvios além de autismo), a prevalência de EIM é baixa (<0,5%) segundo alguns estudos.

Tipos de EIM associadas ao TEA

  • Aminoácidos/metabolismo de transportadores: ex. Fenilcetonuria (PKU) — se não tratada, pode levar a deficiência intelectual e traços autísticos.

  • Distúrbios do ciclo da ureia — hiperamonemia que afeta o cérebro, podendo levar a sintomas neurológicos e comportamentais.

  • Distúrbios da biossíntese de colesterol — por exemplo Síndrome de Smith‑Lemli‑Opitz (SLOS) que tem frequentemente características de autismo.

  • Distúrbios mitocondriais e de energia — disfunção mitocondrial aparece com frequência em pacientes com TEA.

  • Distúrbios de neurotransmissores, purinas, creatina, etc.

Diagnóstico e abordagem terapêutica

  • Em casos de TEA com características “sindrômicas” (ou seja, com outros sinais clínicos neurológicos ou somáticos), deve haver avaliação de EIM — histórico clínico, exame neurológico, exames metabólicos básicos (aminoácidos plasmáticos, ácidos orgânicos urinários, acilcarnitinas, etc).

  • As terapias possíveis variam conforme o distúrbio: dieta de restrição (ex: na PKU), suplementação de co-fatores, terapia de reposição enzimática, transplante de órgão em casos selecionados.

  • Em particular, destacam-se seis princípios terapêuticos gerais: (1) redução do substrato tóxico, (2) remoção de metabólitos tóxicos, (3) suplementação do produto faltante, (4) estímulo da atividade enzimática deficiente, (5) terapia de reposição enzimática, (6) transplante de órgão.

Para famílias e profissionais que lidam com TEA, é importante lembrar que nem todos os casos são “apenas genéticos/ambientais”: há uma fatia que pode ter causas metabólicas tratáveis — o que abre esperança de intervenção precoce.

Valorize a avaliação detalhada: se existir atraso global, regressão, outros sinais neurológicos (convulsões, ataxia), ou sinais somáticos (problemas metabólicos, digestivos, etc), considerar encaminhamento para avaliação metabólica/genética.

Embora algumas crianças com TEA terem erros inatos do metabolismo identificáveis, isso representa apenas uma pequena fração dos casos (estima-se até ~5%). Porém, estudos metabolômicos mais amplos têm relacionado alterações em aminoácidos (glicina, taurina), metabolismo energético (succinato) ao TEA.

Estes estudos mostram evidências de possíveis disfunções mitocondriais, de fosforilação oxidativa e de estresse oxidativo em grupos com TEA. Mostram também alterações associadas ao microbioma intestinal.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Autismo com herança mendeliana x não-mendeliana

O Transtorno do Espectro do Autismo pode resultar tanto de mutações mendelianas (clássicas), em que um único gene segue um padrão previsível de herança, quanto de mecanismos não mendelianos, que envolvem múltiplos genes, variações estruturais e fatores epigenéticos/ambientais.

1. Autismo com herança Mendeliana (clássica)

Esses casos representam cerca de 5–10% dos TEA, geralmente associados a síndromes genéticas monogênicas bem definidas.
O padrão de herança pode ser autossômico dominante, autossômico recessivo, ou ligado ao X.

Quando o autismo é parte de uma síndrome genética conhecida, a herança geralmente é mendeliana. Esses casos são chamados de TEA sindrômico ou monogênico.

2. Autismo com herança não Mendeliana

A maioria dos casos de TEA (≈ 80–90%) segue um padrão complexo, não mendeliano, envolvendo múltiplos genes e fatores ambientais. O autismo é altamente heterogêneo, com grande variação entre indivíduos. Há muitos genes candidatos (mais de 100 genes implicados, variação de número de cópias, variantes de novo, etc).

Na imagem abaixo vemos a representação de alguns cones. Cada cone é uma pessoa. Dentro do cone estão bolas coloridas, que simbolizam faotres de risco genéticos ou ambientais que podem contribuir para o desenvolvimento de um transtorno complexo, como o autismo.

Cada fator de risco adiciona certo volume ao cone. A linha tracejada no topo do cone é o limiar (threshold) para manifestação do transtorno. Se os fatores de risco ultrapassam a linha tracejada, a pessoa manifesta os sintomas. É como se o copo entornasse.

Na imagem, o pai (father) carrega algumas variantes, a mãe (mother) outras. Seus filhos 1 e 4 herdaram mais variantes e o copo transborda, com o desenvolvimento do autismo. As crianças 2 e 3 herdaram variantes menores e não ultrapassaram o limite para o desenvolvimento do transtorno. Assim como no TEA, outros transtornos também resultam da combinação de muitos fatores genéticos, epigenéticos e ambientais.

Diferentes indivíduos na mesma família podem carregar variantes semelhantes, mas só desenvolvem transtornos se a soma dos riscos ultrapassar determinado limiar. Isso ajuda a explicar:

- Penetrância incompleta (nem todos com mutações ou polimorfismos são afetados)

- Variabilidade fenotípica (irmãos com o mesmo gene podem ter trajetórias distintas).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/