Genética e obesidade

O artigo “The Role of Epigenetics in Hypothalamic Energy Balance Control: Implications for Obesity” revisa como mecanismos epigenéticos — como metilação do DNA, modificações de histonas e regulação por RNAs não codificantes — influenciam o desenvolvimento e a função do hipotálamo, órgão central no controle do balanço energético, fome, saciedade e gasto calórico. Essas alterações podem programar uma predisposição à obesidade, especialmente quando ocorrem em períodos críticos como gestação, infância ou puberdade.

A obesidade é uma condição multifatorial, influenciada por uma interação complexa entre fatores genéticos e ambientais. Em casos de obesidade severa, a influência genética pode ser muito grande, com estimativas de herdabilidade variando entre 60 a 80%.

Alterações nos genes LEP, LEPR, POMC e MC4R afetam diretamente a regulação do apetite pelo hipotálamo e estão associadas a formas monogênicas de obesidade.

O hipotálamo é uma região do cérebro fundamental na regulação de diversas funções do corpo, incluindo o apetite e o controle da fome. Ele atua como um centro integrador que recebe sinais do corpo sobre o estado energético e, com base nisso, regula o comportamento alimentar.

Hipotálamo e Controle do Balanço Energético

O hipotálamo integra sinais periféricos (leptina, insulina, grelina) com sinais centrais para:

  • Regular apetite (via núcleos arcuato, PVN, LHA)

  • Controlar gasto energético

  • Manter homeostase glicêmica e lipídica

Essa regulação depende da correta expressão de genes específicos nas vias anorexígenas (POMC, CART) e orexígenas (NPY, AgRP).

Mecanismos Epigenéticos Principais

O termo epigenética foi usado pela primeira vez em 1942 pelo cientista Conrad Waddington. Ele o definiu como a área da biologia que estuda como os genes interagem com outras substâncias do corpo para formar as características de um organismo (o fenótipo).

Mais tarde, essa definição foi atualizada. Hoje, epigenética se refere às mudanças na forma como os genes são ativados ou desativados, que podem ser herdadas, sem que haja alteração na sequência do DNA. Essas mudanças podem ser causadas por fatores ambientais (como alimentação, estresse ou poluição) ou por experiências vividas nos primeiros anos de vida.

Imagine que o DNA é como um livro de receitas que contém todas as instruções (genes) para fazer o corpo funcionar. Cada página do livro representa um gene.

Agora, a epigenética funciona como marcadores feitos com post-its ou canetas nesse livro. Esses marcadores podem destacar, riscar ou dobrar certas páginas. Isso significa que algumas receitas (genes) podem ser ligadas (ativadas) ou desligadas (silenciadas) — sem alterar o conteúdo original do livro.

Esses marcadores podem ser colocados ou removidos ao longo da vida por causa de coisas como a alimentação, o estresse, a poluição, ou até o carinho que alguém recebeu na infância. E, em alguns casos, esses marcadores podem até ser passados para os filhos, mesmo que o DNA (o livro) continue exatamente o mesmo.

Atualmente temos bem descritos na literatura científica 3 mecanismos epigenéticos, ou seja, 3 mecanismos que são capazes de alterar a expressão de nossos genes sem alterar a sequência das bases:

🧬 Metilação do DNA

  • Adição de grupos metil à citosina (CpG) → geralmente reduz expressão gênica.

  • Pode silenciar genes importantes no controle do apetite (ex: POMC) ou alterar resposta à leptina/insulina.

🧬 Modificações de histonas

  • Alteram a estrutura da cromatina (mais aberta = mais expressão).

  • Acetilação (via HATs) favorece transcrição; desacetilação (via HDACs) reprime.

  • Histonas no núcleo arcuato modulam genes-chave do metabolismo energético.

🧬 miRNAs e outros RNAs não codificantes

  • Pequenas moléculas de RNA que reprimem a tradução de mRNAs.

  • Ex: miR-200a, miR-103/107 modulam sensibilidade à leptina e expressão de NPY/AgRP.

Janela Crítica: Programação Epigenética Precoce

Ambiente intrauterino e pós-natal pode “programar” epigeneticamente o hipotálamo, com consequências duradouras:

  • Desnutrição ou obesidade materna → Uma alimentação pobre durante a gravidez pode causar alterações epigenéticas no feto, modificando genes que controlam o apetite, o armazenamento de gordura e o metabolismo. Isso pode aumentar o risco de obesidade e diabetes tipo 2 na vida adulta. Alterações significativas de peso podem mudar o padrão de metilação de genes como POMC, leptina e seus receptores.

  • Exposição a dietas ricas em gordura e açúcar durante o desenvolvimento → altera epigenoma hipotálamo → aumento de ingestão calórica no adulto.

  • Efeitos podem ser transgeracionais, via gametas.

Epigenética e Disfunção Hipotalâmica na Obesidade

O acúmulo de mudanças epigenéticas ao longo do tempo pode alterar as trajetórias de saúde de um indivíduo de maneira positiva ou negativo. Os nutrientes são considerados reguladores epigenéticos que interagem com o epigenoma e alteram o funcionamento dos nossos genes ao longo da vida.

  • Indivíduos obesos apresentam alterações epigenéticas em genes envolvidos na sinalização da leptina e insulina.

  • Alterações em genes reguladores da inflamação e do sistema dopaminérgico também contribuem para maior apetite e menor saciedade.

  • Há neurogênese hipotalâmica alterada, comprometendo circuitos de controle de energia.

Implicações Terapêuticas

  • Intervenções precoces (alimentação materna, aleitamento, ambiente) podem prevenir alterações epigenéticas deletérias.

  • Drogas que modulam epigenética (ex: inibidores de HDACs, nutrientes como folato, B12 e colina) têm potencial de reprogramar vias metabólicas.

  • Estratégias como nutrição personalizada, suplementação precoce e modulação de microbiota podem atuar na reversão de marcas epigenéticas associadas à obesidade.

Já fez seu exame genético? Marque aqui sua consulta de nutrição de precisão.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Genética e perimenopausa

A perimenopausa é uma fase de transição reprodutiva que envolve alterações hormonais significativas, com sintomas como insônia, ansiedade, depressão, fadiga, ondas de calor e alterações cognitivas. Este artigo destaca como a nutrição personalizada e a medicina de precisão podem auxiliar no manejo desses sintomas, focando em três polimorfismos (COMT, FUT2, MTHFR) genéticos que influenciam a saúde metabólica e hormonal

Polimorfismos são variações na sequência do DNA que ocorrem naturalmente na população. Eles representam diferenças em um único "letra" (nucleotídeo) do código genético — por isso são chamados de SNPs (Single Nucleotide Polymorphisms).

Imagina que um gene tenha essa sequência de bases nitrogenadas:

...AAGGCT**C**TGA...
Em outra pessoa, o mesmo trecho pode ser:
...AAGGCT**T**TGA...

Essa troca da base C por T é um polimorfismo.

1. Polimorfismo COMT (Catecol-O-Metiltransferase)

COMT é uma enzima que degrada catecolaminas (dopamina, adrenalina) e estrogênios catecólicos. Atua na regulação do humor e do metabolismo de estrógenos.

Polimorfismo chave:

Val158Met (rs4680) – altera a atividade da enzima:

  • Val/Val (alta atividade): degrada dopamina rapidamente → pode levar a baixos níveis de dopamina → menos resiliência ao estresse, piora do humor.

    • Alimentação rica em tirosina

      • Fontes de tirosina: ovos, peixes, peru, amêndoas, sementes de abóbora → aumentam dopamina naturalmente.

    • Suplementação com tirosina pode ajudar na produção de dopamina.

    • Chocolate amargo com moderação: pode estimular dopamina (mas cuidado com a ansiedade).

    • Alimentos ricos em zinco e ferro: essenciais para conversão de neurotransmissores (carne vermelha magra, lentilha, espinafre).

    • Estratégias para equilíbrio do cortisol: adaptação ao estresse, sono e atividade física moderada.

  • Met/Met (baixa atividade): degrada lentamente → pode levar a excesso de dopamina e estrogênios tóxicos → maior risco de ansiedade, tensão, enxaqueca, cânceres dependentes de estrogênio.

    • Priorizar desintoxicação hepática de estrogênios com crucíferos (brócolis, couve) e compostos como DIM e indol-3-carbinol.

    • Consumir:

      • Crucíferos: brócolis, couve-flor, couve, rúcula → ajudam a eliminar estrogênio.

      • Alho, cebola, ovos: ricos em enxofre → suporte à fase 2 da detox hepática.

      • Chá-verde e cúrcuma: antioxidantes que equilibram a inflamação.

      • Frutas vermelhas: ricas em polifenóis → proteção contra danos oxidativos do excesso de catecóis.

    • Evitar xenoestrogênios (plásticos, cosméticos com parabenos).

    • Aumentar metilação com apoio de B12, B6 e metilfolato.

2. Polimorfismo FUT2 (Fucosiltransferase 2)

Afeta secreção de antígenos no muco intestinal e, portanto, a diversidade do microbioma – essencial para metabolismo estrogênico e imunidade.

Polimorfismo chave:

rs601338 (G428A)

  • Non-secretoras (AA): menor diversidade intestinal, propensão à disbiose, deficiências de B12, inflamação e risco de doenças autoimunes.

    • Suplementação com probióticos específicos (Bifidobacterium, Lactobacillus).

  • Secretoras (AG/GG): microbiota mais diversa, melhor resposta imune e digestiva.

    • Ingestão de prebióticos (fibras solúveis, inulina).

    • Checar e corrigir níveis de B12, zinco e ferro.

    • Alimentação rica em polifenóis (chá verde, frutas vermelhas) e pobre em ultraprocessados.

3. Polimorfismo MTHFR (Metilenotetrahidrofolato Redutase)

Essencial para o ciclo da metilação → produção de neurotransmissores, detox hormonal, síntese de DNA e metabolismo da homocisteína.

Polimorfismos chave:

C677T (rs1801133) e A1298C (rs1801131)

  • C677T homozigoto (TT): atividade enzimática reduzida em até 70% → maior risco de hiper-homocisteinemia, depressão, problemas vasculares e má detox hormonal.

  • A1298C: afeta ciclo da metilação com menor impacto que C677T, mas combinados agravam quadro.

    • Evitar ácido fólico sintético → usar metilfolato (5-MTHF).

    • Suplementar com B12 metilada, B6 e riboflavina (B2).

    • Dieta rica em folato natural: vegetais verdes escuros, leguminosas, abacate.

    • Monitorar níveis de homocisteína e ajustar suporte de cofatores conforme necessário.

Como Interpretar e Integrar os Polimorfismos

  • Interação entre genes: Polimorfismos não atuam isoladamente. Por exemplo, uma mulher com MTHFR alterado e COMT lenta pode ter dificuldades em eliminar estrogênios, aumentando sintomas como irritabilidade, enxaqueca e risco de câncer.

  • História clínica + genética = precisão terapêutica. É essencial integrar sintomas, exames laboratoriais e genótipos para direcionar condutas.

Já fez seu exame genético? Marque aqui para a interpretação do seu painel dentre de uma consulta de nutrição de precisão.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Ozempic, Wegovy, Mounjaro e perda de peso rápida: consequências na sua aparência

Você provavelmente já ouviu falar dos medicamentos para perda de peso como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Eles têm se tornado cada vez mais populares por ajudarem as pessoas a emagrecerem de forma rápida.

Mas, apesar da empolgação, há um lado da história que nem todo mundo comenta. Junto com a perda de peso, esses medicamentos também podem causar uma perda significativa de massa muscular e densidade óssea. E isso é um problema sério.

O que está por trás disso? Sarcopenia.

A sarcopenia é um termo médico para a perda progressiva de massa, força e função muscular. Normalmente, ela é associada ao envelhecimento. Mas quando a perda de peso acontece muito rápido — como costuma ocorrer com o uso de GLP-1, que é o tipo de medicamento desses remédios — essa perda muscular pode aparecer mesmo em pessoas jovens.

Isso pode gerar um quadro chamado de obesidade sarcopênica: a pessoa aparenta estar magra, mas tem pouquíssima massa muscular e isso compromete a saúde. O corpo fica mais frágil, o metabolismo mais lento, e tarefas simples do dia a dia — como subir escadas — se tornam um desafio.

A perda de peso é boa, mas tem que ser com qualidade

Perder peso pode sim trazer muitos benefícios, especialmente quando se trata de doenças como diabetes tipo 2 e problemas cardiovasculares. Mas o ideal é que essa perda de peso venha da gordura, não do músculo.

Segundo especialistas, até um terço do peso perdido pode ser massa muscular se a pessoa não cuidar da alimentação e não fizer exercícios certos. E isso piora quando o emagrecimento é muito rápido.

Então, como emagrecer com saúde enquanto usa esses medicamentos? Com mudanças no estilo de vida. Veja como:

1. Aumente a ingestão de proteína

A proteína é essencial para preservar os músculos. A recomendação é consumir de 25 a 30g de proteína por refeição. E mais: ela ainda ajuda a saciar a fome.

Dicas práticas:

  • Prefira iogurte grego e queijo cottage no lugar de creme de leite.

  • Tenha frango grelhado ou ovos cozidos sempre prontos na geladeira.

  • Acrescente feijão ou grão-de-bico nas saladas.

  • Troque o arroz branco por quinoa.

  • Use shakes ou suplementos de proteína quando necessário.

2. Faça treino de força

Treinos de resistência, como musculação, são essenciais para preservar e até ganhar massa muscular enquanto você perde peso. Além disso, aumentam o metabolismo e melhoram a qualidade de vida.

Não precisa virar atleta de uma hora para outra. Comece com 2 a 3 treinos por semana, e encaixe onde der:

  • Mantenha halteres perto da mesa de trabalho.

  • Faça agachamentos enquanto espera o micro-ondas.

  • Aproveite os intervalos da TV para fazer uma prancha ou flexões.

3. Durma bem

Pode parecer simples, mas dormir bem ajuda o corpo a regular hormônios como a cortisol (ligado ao estresse) e o hormônio do crescimento. Dormir mal, por outro lado, aumenta a fome e o desejo por alimentos calóricos.

4. Mantenha seu acompanhamento nutricional e psicológico

O uso de GLP-1 deve sempre ser feito com acompanhamento médico, preferencialmente com endocrinologistas, nutricionistas e psicólogos. Eles ajudam a garantir que a perda de peso seja saudável, equilibrada e segura.

Estar mais leve não é o mesmo que estar mais saudável. O foco deve ser na composição corporal — ou seja, mais músculo, menos gordura — e não apenas no número da balança. Além disso, a saúde mental é fundamental para evitar compulsão e balancear as questões emocionais. Por isso, recomenda-se também o acompanhamento psicológico.

Rosto de ozempic

O fenômeno conhecido como 'Ozempic face' tem sido amplamente discutido. Espera-se a perda de gordura. Contudo, isto pode levar a uma aparência facial muito magra e angular, com definição de estruturas ósseas que antes estavam menos evidentes.

O emagrecimento rápido pode resultar em excesso de pele, que pode se confundir com uma aparência mais envelhecida ou até menos saudável. Essa condição é mais evidente em métodos de emagrecimento mais intensos, que levam a uma perda de peso significativa.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/