Como o Exercício Físico Modifica seu DNA (Sem Mudar a Sequência!)

Você já se perguntou como o exercício físico realmente transforma seu corpo? Mais do que apenas músculos visíveis e resistência aumentada, o exercício causa mudanças profundas no nível molecular — especialmente no nosso epigenoma. Ou seja, ele modifica como nossos genes se comportam, sem alterar o DNA em si.

Dois estudos científicos recentes revelam como atividades como corrida, musculação ou ciclismo podem reprogramar nossas células musculares por meio de mecanismos epigenéticos complexos. Vamos entender como isso funciona?

🏃‍♂️ Exercício: O Estímulo Que Ativa o Genoma

Toda vez que você se exercita, ocorrem respostas imediatas no seu corpo — como aumento na produção de energia — e também mudanças de longo prazo, como aumento da massa muscular e melhora na performance.

Essas adaptações são guiadas por alterações em três níveis moleculares principais:

  1. Metabólico

  2. Epigenético

  3. Transcriptômico (produção de RNA a partir dos genes)

🧪 Metabolismo e Epigenética: Uma Conexão Inesperada

Durante o exercício, as mitocôndrias (as “usinas” das células) aumentam sua atividade, gerando metabólitos importantes como lactato, citrato e succinato. Estes não servem apenas para gerar energia — eles modulam enzimas epigenéticas!

Esses metabólitos participam de ciclos como:

  • Ciclo do ácido metil-malônico (One-carbon metabolism)

  • Ciclo da metionina

Esses ciclos fornecem grupos metil, acetil ou lactil, usados para modificar o DNA e as histonas (proteínas que organizam o DNA).

🧬 Modificações Epigenéticas: Como os Genes São “Ligados” ou “Desligados”

Existem três mecanismos principais de controle epigenético que o exercício ativa:

1. Metilação do DNA

  • Adição de grupos metil à base citosina (5-metil-citosina).

  • Costuma reprimir a expressão genética.

  • Exercício pode causar desmetilação de genes-chave, como PGC-1α, liberando sua expressão e promovendo biogênese mitocondrial.

2. Modificações de Histonas

  • Acetilação, metilação, fosforilação ou lactilação das histonas alteram a compactação do DNA.

  • Histonas mais “abertas” facilitam a transcrição de genes envolvidos em crescimento muscular, metabolismo e angiogênese.

3. miRNAs (microRNAs)

  • Pequenas moléculas de RNA que controlam a tradução de genes.

  • Exercício modula miRNAs como:

    • miR-23 (regula PGC-1α)

    • miR-494 (estimula biogênese mitocondrial)

    • miR-16 (promove formação de vasos sanguíneos)

Os miRNAs atuam após a transcrição. Eles interferem na tradução — ou seja, no processo em que o RNA mensageiro (mRNA) é lido para produzir proteínas.

Epitranscriptômica: A Nova Fronteira

Mais recentemente, descobriu-se que o RNA também pode ser quimicamente modificado, afetando sua estabilidade e função. A metilação do RNA (ex: m⁶A) pode ser “apagada” por enzimas como FTO e ALKBH5, influenciando a adaptação muscular.

Essas alterações não mudam a sequência genética, mas mudam como o gene se comporta, o que pode melhorar a capacidade muscular, a regeneração e até o metabolismo geral do corpo.

🏋️‍♂️ Endurance vs. Resistência: Efeitos Diferentes no Epigenoma

O tipo de exercício também importa:

  • Endurance (ex: corrida, ciclismo)
    → Aumenta mitocôndrias, fluxo sanguíneo, capacidade oxidativa.

  • Resistência (ex: musculação)
    → Estimula hipertrofia muscular e força.

Cada modalidade ativa um perfil epigenético distinto, ajustando o funcionamento genético de acordo com a demanda.

Conclusão: Mude Seus Genes com Movimento

Essas descobertas deixam claro que exercício é uma forma poderosa de reprogramar sua biologia. Ao se exercitar regularmente, você ativa mecanismos que:

  • Melhoram o desempenho muscular

  • Reforçam o metabolismo

  • Podem até influenciar o risco de doenças crônicas

Tudo isso sem alterar seu DNA — apenas ensinando seus genes a se comportarem melhor. Da próxima vez que pensar em pular o treino, lembre-se: você não está apenas trabalhando o corpo — está literalmente reescrevendo o futuro das suas células.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Leite materno, nosso primeiro cronoregulador

Você sabia que o leite materno não apenas alimenta, mas também ensina o relógio biológico do bebê a funcionar corretamente? Esse conceito fascinante é explorado no artigo científico "Human Milk as Chrononutrition: Implications for Child Health and Development", que revela o papel do leite materno como nosso primeiro cronoregulador — ou seja, um regulador do ritmo biológico.

O que é crononutrição?

Antes de tudo, vale entender o que significa crononutrição. Esse termo se refere à relação entre os ritmos do nosso corpo (como o sono, a digestão e a liberação de hormônios) e os horários em que nos alimentamos. Nosso organismo segue um ritmo circadiano — um ciclo de cerca de 24 horas — e a alimentação pode reforçar ou desregular esse ritmo.

O leite materno varia ao longo do dia

Uma das descobertas mais interessantes é que a composição do leite materno muda conforme o horário do dia. De manhã, ele tende a ter mais cortisol, que ajuda o bebê a ficar mais alerta. À noite, há maior concentração de melatonina e nucleotídeos que favorecem o sono. Esses componentes ajudam o recém-nascido a formar sua percepção de dia e noite, mesmo antes de seu relógio biológico estar totalmente desenvolvido.

Além disso, nutrientes como aminoácidos, gorduras e certos hormônios também apresentam variações diurnas, funcionando como pistas temporais para o corpo do bebê. Essa é uma das razões pelas quais o leite materno é tão único — ele se adapta às necessidades do bebê não só em termos nutricionais, mas também temporais.

Por que isso é importante?

Nos primeiros meses de vida, o bebê ainda está desenvolvendo seu ritmo circadiano. Tende a trocar o dia pela noite. Expor o organismo dele a sinais temporais coerentes com o ciclo natural do dia e da noite pode ajudar a:

  • Estabelecer um padrão mais estável de sono e vigília;

  • Regular melhor o metabolismo;

  • Fortalecer o sistema imunológico;

  • Contribuir para o desenvolvimento neurológico.

O leite materno, portanto, não é só alimento: é também uma “mensagem do tempo” que ajuda a sincronizar o organismo do bebê com o mundo ao seu redor.

E o leite ordenhado?

Com o aumento do uso de leite materno ordenhado e armazenado, surge um ponto de atenção: misturar leite ordenhado de diferentes horários pode confundir o relógio biológico do bebê. Por isso, pesquisadores já sugerem que, quando possível, o leite ordenhado seja rotulado com o horário da coleta — especialmente se for usado regularmente para substituir mamadas ao vivo.

Conclusão

O leite materno é uma verdadeira joia da natureza — além de fornecer os nutrientes ideais para o crescimento, ele também ajuda a construir os primeiros alicerces do ritmo biológico da criança. Entender esse papel cronorregulador nos ajuda a valorizar ainda mais a amamentação e a pensar com carinho sobre práticas que respeitem essa sincronia natural.

Se você é mãe, profissional de saúde ou apenas curioso sobre os mistérios do corpo humano, vale a pena olhar para o leite materno com novos olhos: ele é, literalmente, a primeira ponte entre o tempo e o corpo do bebê. Aprenda mais no curso ALIMENTAÇÃO DE 0 A 2 ANOS.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Relógio Interno, Intestino e Emoções: Como Comer na Hora Certa Pode Ajudar sua Saúde Mental

Você já percebeu como uma noite mal dormida ou uma refeição pesada tarde da noite pode te deixar mais irritado ou ansioso no dia seguinte? A ciência tem uma explicação: nosso relógio biológico, o intestino e a saúde mental estão profundamente conectados.

Desajustes nos ritmos circadianos — causados por maus hábitos de sono, alimentação irregular ou estresse crônico — estão ligados a problemas como depressão, ansiedade e distúrbios do humor. As doenças mentais estão aumentando de forma alarmante e as disrupções circadianas contribuem para esta tendência.

A boa notícia? Estratégias de ressincronização dos ritmos circadianos melhoram os sintomas psiquiátricos. Estas estratégias envolvem horário de sono adequado, mudanças baseadas na alimentação e no microbioma intestinal para ajudar a reequilibrar esse sistema (Codoñer-Franch et al., 2023).

O que são Ritmos Circadianos?

São ciclos biológicos de cerca de 24 horas que controlam praticamente tudo no nosso corpo: sono, fome, temperatura, metabolismo, hormônios e até o humor. Quando esses ritmos ficam desregulados (por exemplo, com noites mal dormidas ou refeições em horários errados), isso é chamado de disrupção circadiana — e ela pode abrir caminho para diversos problemas mentais.

Como o Intestino Entra Nessa História?

Nosso intestino abriga trilhões de microrganismos — o chamado microbioma intestinal. Ele se comunica com o cérebro por meio de substâncias químicas, como serotonina e GABA, que regulam emoções, sono e estresse.

O microbioma também segue um ritmo diário. Ele “acorda”, “trabalha” e “descansa” conforme o horário das refeições e do sono. Quando esses ritmos são quebrados (comendo de madrugada, por exemplo), a diversidade e a função das bactérias boas diminuem, afetando o equilíbrio emocional. O ritmo das bactérias intestinais é amplamente governado pelo horário das refeições.

Estratégias Alimentares com Potencial Terapêutico (Cronoterapêuticas)

Podemos usar estratégias baseadas na dieta e no intestino para ajudar a restaurar a saúde mental, respeitando o relógio biológico. Algumas dessas estratégias incluem:

1. Alimentação com Restrição de Tempo (Time-Restricted Eating)

  • Comer apenas durante uma janela de 8–12 horas por dia, e jejuar no restante.

  • Alinha o metabolismo ao ritmo circadiano e melhora a saúde do intestino e do cérebro.

2. Dietas ricas em fibras e prebióticos

  • Alimentos como vegetais, frutas, aveia e leguminosas alimentam as “boas bactérias” do intestino.

  • Isso ajuda a regular a produção de neurotransmissores ligados ao humor.

3. Evitar comer tarde da noite

  • Comer em horários irregulares ou à noite atrapalha o relógio interno e piora a qualidade do sono e do humor.

4. Probióticos e psicobióticos

  • Certas cepas de bactérias (como Lactobacillus e Bifidobacterium) podem reduzir sintomas de ansiedade e depressão, atuando como reguladores do eixo intestino-cérebro. São os chamados psicobióticos.

Efeitos na Saúde Mental

Corrigir o ritmo biológico por meio da alimentação pode ter efeitos semelhantes aos de antidepressivos leves, especialmente quando combinado com outras abordagens, como terapia ou medicação.

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