Nutrição no tremor essencial

O tremor essencial (TE) é um distúrbio neurológico que causa tremores involuntários e rítmicos, geralmente nas mãos, mas também pode afetar a cabeça, voz e outras partes do corpo. A nutrição por si só não cura o TE, mas uma alimentação adequada pode ajudar a minimizar os sintomas, melhorar a saúde neurológica e reduzir fatores que podem piorar o tremor.

Recomendações nutricionais para o tremor essencial:

1. Reduzir cafeína e estimulantes

  • Evite: Café, chá preto/verde, refrigerantes com cafeína, energéticos.

  • Motivo: A cafeína estimula o sistema nervoso central e pode intensificar os tremores.

2. Limitar álcool

  • Nota: Embora o álcool possa temporariamente aliviar o tremor, seu uso frequente não é recomendado e pode piorar o quadro com o tempo.

3. Evitar alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar

  • Excesso de açúcar pode causar picos glicêmicos e flutuações de energia, o que pode agravar os tremores.

4. Consumir alimentos ricos em antioxidantes

  • Exemplos: Frutas vermelhas, vegetais verde-escuros, nozes, sementes, azeite de oliva.

  • Motivo: O estresse oxidativo pode contribuir para a degeneração neurológica.

5. Aumentar a ingestão de magnésio, vitamina B6 e B12

  • Fontes de magnésio: Espinafre, abacate, banana, amêndoas.

  • Fontes de B6 e B12: Carnes magras, ovos, leite, peixes, grãos integrais.

  • Importância: Esses nutrientes auxiliam na função neuromuscular e saúde do sistema nervoso.

6. Ômega-3

  • Fontes: Peixes gordurosos (salmão, sardinha), linhaça, chia.

  • Motivo: Tem ação anti-inflamatória e neuroprotetora.

7. Hidratação

  • Manter boa hidratação ajuda na função geral do organismo e pode evitar agravamento dos sintomas por desidratação.

Suplementação

  • Em alguns casos, pode-se considerar suplementar vitaminas do complexo B, magnésio ou ômega-3, mas sempre com orientação médica ou nutricional. Falo sobre o tema no vídeo:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Principais componentes moleculares do relógico circadiano

Entenda como funcionam os principais componentes moleculares do relógio circadiano — CLOCK, BMAL1, E-box, PER e CRY — que regulam os ritmos de 24 horas no corpo por meio de um sistema de feedback transcricional e translacional (um ciclo de ativação e inibição de genes e proteínas).

1. CLOCK e BMAL1 – Os ativadores do relógio

  • O que são: CLOCK (Circadian Locomotor Output Cycles Kaput) e BMAL1 (Brain and Muscle ARNT-Like 1) são fatores de transcrição, ou seja, proteínas que se ligam ao DNA para ativar a expressão de outros genes, como aqueles envolvidos na glicogênese e gliconeogênese.

  • Função: Eles formam um complexo heterodimérico (CLOCK:BMAL1) que se liga a sequências específicas no DNA chamadas E-boxes para ativar a transcrição de genes do relógio, principalmente PER e CRY.

  • Momento do dia: Esse complexo é mais ativo durante o dia, estimulando a produção de proteínas que irão, mais tarde, desligá-lo — fechando o ciclo. Além dos genes de relógio, centenas de outros genes têm expressão circadiana, dependendo do tecido. Incluem:

Os genes da tabela acima, ativados por CLOCK:BMA1, não têm função direta no relógio. São genes-alvo de saída (outputs) que sintonizam processos fisiológicos com o ciclo de 24h. Voltando à regulação da expressão gênica:

2. E-box – A chave de ativação no DNA

  • O que é: A E-box (do nome enhancer box) é uma sequência específica de DNA (geralmente "CACGTG") encontrada nos promotores de genes-alvo.

  • Função: É onde o complexo CLOCK:BMAL1 se liga para iniciar a transcrição de genes como Per (Period) e Cry (Cryptochrome).

  • Importância: Sem a E-box, o ciclo circadiano molecular não funcionaria, pois é o ponto inicial para a produção das proteínas PER e CRY.

3. PER e CRY – Os inibidores do relógio

  • O que são:

    • PER (Period) e CRY (Cryptochrome) são proteínas codificadas pelos genes ativados por CLOCK:BMAL1.

  • Função:

    • À medida que as proteínas PER e CRY são produzidas, elas se acumulam no citoplasma e formam complexos entre si.

    • Após um tempo, migram para o núcleo e inibem a atividade do complexo CLOCK:BMAL1, interrompendo a transcrição de seus próprios genes.

  • Momento do dia: Eles se acumulam à noite e atingem o pico quando reprimem a transcrição no final da noite, reiniciando o ciclo. Alguns genes, como os envolvidos na degradação e limpeza, expressam-se mais à noite. Distúrbios do sono, como a insônia, podem desregular profundamente a expressão de genes controlados pelo relógio circadiano, especialmente no fígado e em outros relógios periféricos.

Resumo do Ciclo Circadiano Molecular:

  1. Manhã/início do dia:

    • CLOCK:BMAL1 se ligam à E-box e ativam os genes Per e Cry, especialmente durante o dia.

    • PER e CRY começam a ser produzidos, mas ainda não estão ativos no núcleo.

  2. Tarde/noite:

    • PER e CRY se acumulam, formam complexos e entram no núcleo.

  3. Noite/final da madrugada:

    • o dímero PER:CRY liga-se às proteínas CLOCK:BMAL1. Esta interação proteína-proteína resulta em mudanças conformacionais ou bloqueio físico, afetando a capacidade do complexo de recrutar coativadores necessários para transcrição.

    • PER e CRY começam a ser degradados, permitindo que CLOCK:BMAL1 volte a funcionar no próximo ciclo.

Por que isso é importante?

Esse ciclo molecular mantém a precisão do ritmo circadiano. Ele está presente em quase todas as células do corpo e regula:

  • Ciclo sono-vigília

  • Temperatura corporal

  • Produção hormonal

  • Metabolismo

  • Comportamento

Qualquer desregulação nesse sistema (por mutações, luz artificial, alimentação irregular, etc.) pode gerar uma dessincronização entre o relógio central (no núcleo supraquiasmático - SCN) e os relógios periféricos (como o do fígado). Isso resulta em desalinhamento temporal e aumenta o risco de inflamação crônica de baixo grau, resistência insulínica, ganho de peso, aumento de cortisol, modificação da regulação epigenéitca.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Creatina e depressão

Você já ouviu falar que creatina pode ir além do ganho de massa muscular? Pesquisas recentes mostram que essa substância também tem um papel importante na saúde mental, especialmente no combate à depressão.

🧠 O que é a creatina?

A creatina é um composto naturalmente produzido pelo corpo e também obtido por meio da alimentação, principalmente de carnes e peixes. No cérebro, ela é essencial para fornecer energia às células nervosas. Alterações nos níveis de creatina podem afetar o funcionamento cerebral e até influenciar o humor.

🔍 O que dizem os estudos?

1. Níveis cerebrais de creatina e depressão

O cérebro é um dos órgãos com maior demanda energética do corpo humano. Apesar de representar apenas cerca de 2% da massa corporal total, ele consome aproximadamente 20% do oxigênio do organismo. Isso se deve à sua estrutura altamente complexa — composta por cerca de 86,1 bilhões de neurônios, além de um número semelhante de células gliais, que oferecem suporte e modulam a função neuronal. Manter essa rede intricada de células exige um suprimento constante e eficiente de energia.

É nesse contexto que a creatina pode exercer um papel fundamental. Amplamente conhecida por seus benefícios no desempenho muscular, a creatina também atua como um reservatório energético no cérebro. Por meio de sua conversão em fosfocreatina, ela ajuda a regenerar rapidamente o ATP — a principal moeda de energia do organismo — especialmente em momentos de alta demanda. A enzima creatina quinase catalisa essa reação reversível, formando um sistema de tamponamento que garante a manutenção da atividade neuronal.

Um estudo com 84 jovens adultos mostrou que menores níveis de creatina no córtex pré-frontal (região relacionada ao controle emocional) estavam associados a maior gravidade dos sintomas depressivos. Isso sugere uma ligação direta entre a energia cerebral e a saúde mental [1].

Ensaios clínicos controlados têm sugerido que a creatina pode aumentar a eficácia dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs), especialmente em mulheres, e até acelerar a resposta ao tratamento.

2. Ingestão alimentar de creatina

Análise de dados de mais de 22 mil adultos nos EUA revelou que pessoas que consumiam menos creatina na dieta apresentavam maior risco de depressão. Quem estava no grupo com menor ingestão teve uma taxa de depressão de 10,23%, enquanto no grupo com maior consumo essa taxa foi de apenas 5,98%. [2].

3. Suplementação de creatina e melhora dos sintomas

Um estudo piloto com mulheres usuárias de metanfetamina mostrou que a suplementação com creatina monohidratada levou a uma redução significativa nos sintomas de depressão já nas duas primeiras semanas de uso [3].

Outro estudo com pacientes com depressão resistente ao tratamento também apontou melhora com o uso de creatina. No entanto, em pacientes com transtorno bipolar, a suplementação pode exigir cautela, pois pode haver risco de episódios de mania [4].

4. Creatina e transtorno bipolar

Em pessoas com transtorno bipolar, os níveis de uma enzima relacionada à creatina (creatina quinase) estavam mais elevados nas fases de mania, em comparação às fases depressivas ou de estabilidade, sugerindo que o metabolismo da creatina pode variar conforme o estado de humor. [5].

O que podemos concluir?

Há evidências crescentes de que níveis baixos de creatina — tanto no cérebro quanto na alimentação — estão associados a maior risco e gravidade da depressão. A suplementação com creatina aparece como uma possível estratégia complementar para tratar sintomas depressivos, especialmente em casos específicos.

Porém, mais pesquisas são necessárias para entender completamente como a creatina atua no cérebro e quais são os melhores protocolos de uso para diferentes tipos de depressão. Se você sofre com depressão e está buscando alternativas naturais, marque sua consulta de nutrição.

Referências

1) P Faulkner et al. Relationship between depression, prefrontal creatine and grey matter volume. Journal of psychopharmacology (Oxford, England) (2021). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34697970/

2) AV Bakian et al. Dietary creatine intake and depression risk among U.S. adults. Translational psychiatry (2020). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32066709/

3) TL Hellem et al. Creatine as a Novel Treatment for Depression in Females Using Methamphetamine: A Pilot Study. Journal of dual diagnosis (2015). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26457568/

4) S Roitman et al. Creatine monohydrate in resistant depression: a preliminary study. Bipolar disorders (2007). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17988366/

5) G Feier et al. Creatine kinase levels in patients with bipolar disorder: depressive, manic, and euthymic phases. Revista brasileira de psiquiatria (Sao Paulo, Brazil : 1999) (2011). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21829911/

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/