Akkermansia muciniphila: O Papel no Microbioma Intestinal e Sua Relevância em Doenças Neuropsicológicas

A microbiota intestinal humana varia consideravelmente entre os indivíduos e ao longo do tempo dentro de cada pessoa, sendo influenciada por fatores como genética, dieta, suplementos nutricionais e uso de antibióticos. Nos últimos anos, os estudos sobre a disbiose intestinal se expandiram para diversas doenças, e uma bactéria tem se destacado entre elas: Akkermansia muciniphila. Esta bactéria Gram-negativa tem mostrado correlações com uma série de doenças, incluindo distúrbios metabólicos e intestinais, além de doenças neuropsicológicas.

O que é Akkermansia muciniphila?

Akkermansia muciniphila é uma bactéria anaeróbica Gram-negativa que produz ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs). Ela foi isolada pela primeira vez de fezes humanas em 2004 e coloniza a interface mucosa entre o epitélio intestinal oxigênico e o lúmen anóxico do trato digestivo. Sua abundância pode representar até 5% das bactérias intestinais em condições normais.

Estudos mostraram que A. muciniphila tende a ser mais abundante em indivíduos saudáveis e magros, em comparação com aqueles com sobrepeso ou obesidade. Além disso, sua presença está associada à diversidade metagenômica e à coexistência com outras bactérias benéficas, como Faecalibacterium prausnitzii e Methanobrevibacter smithii.

Akkermansia muciniphila e a Saúde Intestinal

Uma das funções essenciais de A. muciniphila é a manutenção da integridade da barreira intestinal e da camada de muco. Ela facilita a produção de muco, o que contribui para a espessura da camada mucosa, a redução da permeabilidade intestinal e a prevenção da passagem de lipopolissacarídeos (LPS) bacterianos para a corrente sanguínea. Em doenças como a Doença Inflamatória Intestinal (DII), onde a camada de muco é mais fina, a abundância de A. muciniphila é frequentemente reduzida, o que prejudica a barreira intestinal e aumenta a permeabilidade.

Akkermansia muciniphila e Doenças Neuropsicológicas

Nos últimos anos, estudos começaram a explorar o impacto de A. muciniphila em doenças neuropsicológicas. Embora seja mais conhecida por seu papel em distúrbios metabólicos e gastrointestinais, sua análise tem sido estendida para condições como depressão, ansiedade e outros transtornos mentais. Pesquisas indicam que alterações na abundância de A. muciniphila estão associadas a esses distúrbios, levantando questões importantes sobre o papel da bactéria no desenvolvimento e progressão de doenças neuropsicológicas.

Uma questão crucial é se A. muciniphila desempenha um papel único na patogênese dessas doenças ou se sua modulação poderia servir como uma estratégia terapêutica. A manipulação dessa bactéria, seus proteínas da membrana externa ou seus metabolitos pode oferecer novos caminhos para o tratamento de doenças neuropsicológicas a longo prazo.

Potencial Terapêutico de Akkermansia muciniphila

Akkermansia muciniphila é uma bactéria intestinal conhecida por sua capacidade de produzir ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como o propionato e o acetato. Esses compostos têm efeitos benéficos no corpo, incluindo a manutenção da função da barreira epitelial, diminuição de danos oxidativos no DNA, regulação da produção de citocinas, promoção de efeitos anti-inflamatórios e melhoria da saúde metabólica. Além disso, os SCFAs podem melhorar a função do sistema imunológico e estimular o metabolismo, com destaque para o aumento da oxidação de gorduras e ativação do tecido adiposo marrom.

Akkermansia muciniphila e a Integridade Neurovascular

Estudos demonstraram que A. muciniphila tem um papel importante na manutenção da integridade da barreira hematoencefálica (BBB). Em condições patológicas, inflamações podem danificar essa barreira e comprometer a função cerebral. A ausência de A. muciniphila foi associada ao aumento da permeabilidade da BBB, o que pode facilitar o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer. Por outro lado, dietas ricas em cetonas, que aumentam a abundância de A. muciniphila, melhoraram o fluxo sanguíneo cerebral e facilitaram a remoção de proteínas tóxicas, como o amyloid β (Aβ).

A Proteína de Membrana Externa Amuc_1100

A proteína Amuc_1100 é uma das proteínas da membrana externa mais expressas por A. muciniphila e desempenha um papel importante na manutenção da homeostase imunológica do hospedeiro e na melhoria da função da barreira intestinal. A interação entre Amuc_1100 e a mucina é essencial para a colonização bacteriana no trato intestinal. Além disso, a proteína ativa vias de sinalização que regulam a expressão de proteínas da junção apertada, essenciais para a integridade da barreira intestinal e neurovascular. Recentemente, também foi sugerido que Amuc_1100 desempenha um papel na regulação do metabolismo de aminoácidos, o que pode ter implicações terapêuticas em doenças intestinais e neuropsicológicas.

Akkermansia muciniphila em Doenças Neuropsicológicas

O conceito de "eixo microbiota-intestino-cérebro" tem ganhado destaque nos últimos anos, mostrando a conexão entre o microbioma intestinal e doenças do sistema nervoso central (SNC). A disbiose, ou desequilíbrio da microbiota, foi associada ao desenvolvimento de várias condições neurológicas. No caso de A. muciniphila, estudos indicam que a abundância dessa bactéria varia conforme a doença. Por exemplo, a quantidade de A. muciniphila diminui em condições como esclerose lateral amiotrófica (ELA) e transtornos neuropsiquiátricos, enquanto aumenta em doenças como Parkinson e esclerose múltipla.

A pesquisa sugere que a modulação de A. muciniphila pode ser uma estratégia promissora para o tratamento de doenças neuropsicológicas, melhorando a função da barreira hematoencefálica e modulando a inflamação. No entanto, a relação da bactéria com doenças como Alzheimer e autismo ainda não está completamente esclarecida, necessitando de mais estudos para determinar seu impacto.

Akkermansia muciniphila: Impacto em Doenças Neuropsicológicas e Esclerose Múltipla

Akkermansia muciniphila, uma bactéria intestinal, tem mostrado ser relevante em diversas condições de saúde, incluindo doenças neuropsiquiátricas e neurodegenerativas. Estudos recentes têm explorado sua relação com distúrbios como atrofia de múltiplos sistemas (MSA), esclerose múltipla (EM) e distúrbios psicossociais, sugerindo que a abundância dessa bactéria pode influenciar o curso de várias doenças.

Akkermansia muciniphila e Distúrbios Psicossociais

Estudos humanos indicam que a abundância de A. muciniphila nos fecais de bebês de 2,5 meses está negativamente correlacionada com os sintomas de distúrbios psicológicos maternos durante a gestação, como a angústia psicológica pré-natal (PPD). Esse achado, proveniente do estudo FinnBrain Birth, sugere que a PPD crônica pode afetar a presença dessa bactéria nos filhos, o que poderia influenciar o desenvolvimento deles (Aatsinki et al., 2020).

Akkermansia muciniphila na Atrofia Múltipla de Sistemas (MSA)

A MSA é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta adultos e se caracteriza por sintomas como parkinsonismo, ataxia cerebelar e falha autonômica. Estudos metagenômicos mostraram um aumento da abundância de A. muciniphila nas fezes de pacientes com MSA, enquanto outros gêneros como Megamonas e Bifidobacterium estavam diminuídos. Embora o mecanismo por trás do aumento de A. muciniphila na MSA não esteja totalmente esclarecido, acredita-se que a bactéria ajude a restaurar a homeostase imunológica, um processo que ainda necessita ser mais investigado (Wan et al., 2019).

Akkermansia muciniphila e Esclerose Múltipla (EM)

A EM é uma doença autoimune do sistema nervoso central, caracterizada por desmielinização e danos axonais. Estudos indicam que A. muciniphila está associada ao aumento de respostas inflamatórias em pacientes com EM. A presença dessa bactéria foi observada em maiores quantidades em pacientes com EM, especialmente naqueles não tratados ou em remissão da doença. Em contraste, a diminuição de A. muciniphila foi associada a uma resposta imunológica anti-inflamatória, o que pode representar uma possível estratégia terapêutica para a EM (Cekanaviciute et al., 2017; Jangi et al., 2016).

Uma pesquisa recente, envolvendo 576 pacientes com EM, revelou que A. muciniphila estava significativamente mais presente em pacientes não tratados e naqueles com formas recidivantes-remitentes e progressivas da doença, mas não apresentou diferenças significativas entre os grupos tratados com terapias modificadoras de doença (iMSMS Consortium, 2022). Curiosamente, em um estudo piloto, a suplementação de vitamina D aumentou a abundância de A. muciniphila em pacientes não tratados, o que pode sugerir um papel para a vitamina D no tratamento da EM (Cantarel et al., 2015).

Akkermansia muciniphila e Doença de Parkinson (DP)

Em estudos pós-morte, foi sugerido que a doença de Parkinson (DP) pode começar no intestino, com inclusões de ɑ-sinucleína sendo transportadas do trato gastrointestinal para o cérebro via nervo vago. Diversas pesquisas demonstraram que pacientes com DP têm uma abundância elevada de A. muciniphila no intestino, o que pode ser influenciado por mudanças no comportamento alimentar e fatores como constipação crônica e tratamentos medicamentosos.

Embora a abundância de A. muciniphila seja alta, a produção de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs) é reduzida, possivelmente devido a outros microrganismos presentes. Curiosamente, A. muciniphila também é mais abundante em pacientes com distúrbios comportamentais, como o transtorno de comportamento do sono REM, um dos primeiros sinais da DP. Isso levanta a possibilidade de que alterações na abundância dessa bactéria possam servir como biomarcadores para diagnóstico precoce da doença. Estudos de longo prazo são necessários para avaliar essa hipótese e a influência dos medicamentos de DP na abundância dessa bactéria.

Akkermansia muciniphila, Doença de Alzheimer (DA) e Déficits Cognitivos

Estudos em roedores alimentados com dieta rica em gordura (HFD) mostram que a redução de A. muciniphila está associada ao declínio cognitivo, mas a suplementação com dietas cetogênicas aumenta sua abundância e reduz o risco de neurodegeneração. Em modelos transgênicos de DA, a abundância de A. muciniphila mostra correlação com a presença de β-amiloide, embora o efeito da suplementação oral dessa bactéria mostre benefícios cognitivos em várias condições experimentais. Em humanos, a bactéria foi encontrada mais abundante em pacientes com DA em estágio inicial, o que aponta para seu potencial terapêutico.

Akkermansia muciniphila no Autismo e Epilepsia

No Transtorno do Espectro Autista (TEA), os resultados sobre a abundância de A. muciniphila são conflitantes, com algumas pesquisas mostrando aumento e outras redução dessa bactéria. No entanto, modelos de transplante fecal de microbioma de indivíduos com TEA para camundongos sugeriram que a alteração do microbioma pode reproduzir comportamentos típicos de autismo, incluindo um aumento de A. muciniphila. Em modelos animais de epilepsia, a abundância de A. muciniphila é reduzida, mas em crianças com paralisia cerebral e epilepsia, os níveis são mais elevados, sugerindo que a modulação microbiana poderia representar uma terapia inovadora para convulsões.

Potencial Terapêutico da A. muciniphila

A modulação da abundância de A. muciniphila apresenta um grande potencial terapêutico. Intervenções como dieta, exercício, suplementos e até procedimentos cirúrgicos têm mostrado aumentar essa bactéria e melhorar os sintomas de doenças metabólicas e neuropsiquiátricas. Em modelos animais, a suplementação de A. muciniphila aliviou déficits cognitivos e comportamentais, enquanto dietas cetogênicas demonstraram aumentar sua presença, ajudando na proteção contra doenças neurodegenerativas.

Contodo, a pesquisa sobre o impacto de A. muciniphila em doenças como a MSA e a EM aponta para a necessidade de mais estudos para entender os mecanismos imunológicos subjacentes e como esses podem ser utilizados para desenvolver terapias mais eficazes.

Como saber que tipos de bactérias tenho no intestino?

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Fisiopatologia da doença de Parkinson

A doença de Parkinson (DP) é um distúrbio neurodegenerativo progressivo caracterizado principalmente por sintomas motores e não motores. Sua fisiopatologia envolve alterações complexas nos sistemas nervoso central e periférico, destacando-se a degeneração de neurônios dopaminérgicos na substância negra pars compacta do cérebro.

Principais aspectos da fisiopatologia da DP:

1. Degeneração dos neurônios dopaminérgicos

  • Os neurônios da substância negra pars compacta, que enviam projeções ao estriado (composto pelo putâmen e núcleo caudado), sofrem degeneração.

  • A redução de dopamina no estriado resulta em um desequilíbrio funcional nos circuitos dos gânglios da base, afetando o controle motor.

  • O sistema excitatório e inibitório é desregulado, levando a sintomas como tremor, rigidez, bradicinesia e instabilidade postural.

2. Acúmulo de corpos de Lewy

  • Ocorre o acúmulo anormal da proteína α-sinucleína dentro dos neurônios, formando agregados tóxicos, como oligômeros e fibrilas. Estes agregados são o passo inicial do processo patológico da DP.

  • Os agregados proteicos contribuem para a disfunção e morte celular, não apenas em áreas motoras, mas também em outras regiões cerebrais, causando sintomas não motores.

  • Com o tempo, os agregados de α-sinucleína se acumulam ainda mais e formam estruturas maiores e mais complexas, que são os corpos de Lewy.

  • Os corpos de Lewy são inclusões intracelulares maduras e bem organizadas, resultado da progressão do processo patológico. Contêm principalmente α-sinucleína, mas também outras proteínas mal dobradas, lipídeos e componentes celulares.

3. Danos em outros sistemas neurológicos

  • Além dos gânglios da base, outras áreas do sistema nervoso central e periférico são afetadas:

    • Tronco encefálico (ex.: núcleo dorsal da rafe e locus coeruleus).

    • Córtex cerebral, em estágios avançados.

    • Sistema nervoso autônomo, relacionado a sintomas como constipação e hipotensão postural.

4. Disfunção mitocondrial e estresse oxidativo

  • A função mitocondrial é comprometida nos neurônios dopaminérgicos, gerando excesso de radicais livres.

  • Causas: Exposição a toxinas, envelhecimento, ou mutações em genes relacionados à DP, como PRKN, PINK1 e DJ1.

  • Efeitos: O dano mitocondrial causa:

    • Redução da produção de ATP (energia celular).

    • Aumento de espécies reativas de oxigênio (ROS, radicais livres).

    • Elevação dos níveis intracelulares de cálcio (Ca²⁺), levando à disfunção neuronal.

    • Danos às proteínas, lipídeos e DNA celular, acelerando a degeneração neuronal.

5. Inflamação neurogênica

  • A ativação de células da glia (como micróglias e astrócitos) promove a liberação de citocinas inflamatórias, contribuindo para a disfunção sináptica e a morte neuronal.

6. Disfunção no clearance de proteínas

  • A capacidade de eliminar proteínas defeituosas ou mal dobradas é comprometida devido à:

    • Alteração nos proteassomos: Estruturas que degradam proteínas defeituosas.

    • Autofagia prejudicada: O sistema de limpeza lisossomal (responsável por reciclar componentes celulares) é comprometido, especialmente por mutações em genes como GBA ou ATP13A2.

Manifestação clínica correlacionada à fisiopatologia

  1. Sintomas motores:

    • Resultam do desequilíbrio dopaminérgico nos circuitos dos gânglios da base.

    • Exemplos: tremor de repouso, rigidez, bradicinesia e instabilidade postural.

  2. Sintomas não motores:

    • Ligados a áreas extramotoras do cérebro e sistema nervoso periférico:

      • Disfunções olfatórias (envolvimento do bulbo olfatório).

      • Distúrbios do sono REM.

      • Alterações autonômicas (ex.: hipotensão, constipação).

      • Sintomas cognitivos e psiquiátricos (ex.: depressão, ansiedade).

Tratamento da doença de Parkinson

O tratamento da doença de Parkinson (DP) tem como objetivo principal controlar os sintomas (motores e não motores) e melhorar a qualidade de vida dos pacientes, uma vez que ainda não há cura ou terapias capazes de interromper a progressão da doença. A abordagem é personalizada, considerando fatores como idade, estágio da doença e tolerância aos medicamentos.

1. Tratamento farmacológico

Os medicamentos utilizados atuam principalmente para repor dopamina ou corrigir o desequilíbrio nos circuitos dos gânglios da base.

a) Levodopa (L-DOPA)

  • Mecanismo: É o precursor da dopamina, que atravessa a barreira hematoencefálica e é convertida em dopamina nos neurônios.

  • Uso combinado:

    • Sempre administrada com inibidores da dopa-descarboxilase periférica (como carbidopa ou benserazida) para evitar a conversão precoce de levodopa em dopamina fora do cérebro.

  • Eficácia: É o tratamento mais eficaz para os sintomas motores, como bradicinesia e rigidez.

  • Efeitos adversos:

    • A longo prazo, pode causar flutuações motoras (ex.: períodos "on-off") e discinesias (movimentos involuntários).

b) Agonistas dopaminérgicos

  • Exemplos: Pramipexol, ropinirol, rotigotina (transdérmica) e apomorfina.

  • Mecanismo: Estimulam diretamente os receptores de dopamina.

  • Indicação:

    • Alternativa à levodopa em estágios iniciais, especialmente em pacientes jovens.

    • Usados em combinação com levodopa em estágios avançados.

  • Efeitos adversos: Sonolência, alucinações, comportamentos compulsivos (ex.: jogo, compras).

c) Inibidores da MAO-B

  • Exemplos: Selegilina, rasagilina, safinamida.

  • Mecanismo: Inibem a enzima monoamina oxidase tipo B (MAO-B), que degrada a dopamina no cérebro, prolongando sua ação.

  • Indicação: Estágios iniciais ou como adjuvantes à levodopa.

d) Inibidores da COMT

  • Exemplos: Entacapona, tolcapona, opicapona.

  • Mecanismo: Inibem a enzima catecol-O-metiltransferase (COMT), prolongando o efeito da levodopa.

  • Indicação: Reduzem as flutuações motoras em pacientes tratados com levodopa.

e) Anticolinérgicos

  • Exemplos: Trihexifenidil, biperideno.

  • Mecanismo: Reduzem a hiperatividade colinérgica nos gânglios da base.

  • Indicação: Eficazes no controle de tremor em pacientes mais jovens.

  • Efeitos adversos: Boca seca, constipação, confusão mental (especialmente em idosos).

f) Amantadina

  • Mecanismo: Potencializa a liberação de dopamina e tem efeitos anti-glutamatérgicos.

  • Indicação: Útil para tratar discinesias induzidas pela levodopa.

2. Tratamento cirúrgico

Indicado para pacientes com resposta insuficiente ao tratamento farmacológico ou com flutuações motoras graves.

a) Estimulação cerebral profunda (DBS)

  • O que é: Implante de eletrodos nos gânglios da base (geralmente no núcleo subtalâmico ou globo pálido interno).

  • Mecanismo: Estimula as regiões-alvo para reduzir sintomas motores.

  • Indicação: Pacientes com flutuações motoras severas ou tremor resistente aos medicamentos.

  • Benefícios: Reduz a necessidade de levodopa e melhora a qualidade de vida.

3. Terapias não farmacológicas

Essas abordagens complementam o tratamento para gerenciar sintomas motores e não motores.

a) Fisioterapia

  • Melhora a mobilidade, força muscular e equilíbrio.

  • Técnicas específicas ajudam a prevenir quedas e manter a funcionalidade.

b) Fonoaudiologia

  • Trata distúrbios de fala (hipofonia) e disfagia, comuns na DP.

c) Terapia ocupacional

  • Ajuda a adaptar as atividades do dia a dia, preservando a independência.

d) Exercícios físicos

  • Benefícios neuroprotetores e melhora da mobilidade.

  • Atividades como yoga, tai chi e dança ajudam no equilíbrio e na flexibilidade.

e) Suporte psicológico

  • Essencial para lidar com sintomas psiquiátricos (depressão, ansiedade) e o impacto emocional da doença.

4. Tratamento dos sintomas não motores

a) Distúrbios do sono: Melatonina ou clonazepam.

b) Depressão: Antidepressivos (ex.: inibidores seletivos da recaptação de serotonina).

c) Demência: Inibidores da acetilcolinesterase (ex.: rivastigmina).

d) Constipação: Dieta rica em fibras, hidratação e laxantes suaves.

e) Hipotensão ortostática: Fludrocortisona ou midodrina.

5. Terapias em pesquisa

  • Terapia gênica: Estudo de genes como GDNF para proteger neurônios.

  • Transplante de células-tronco: Tentativa de regenerar neurônios dopaminérgicos.

  • Novos medicamentos: Pesquisas sobre inibidores da agregação de α-sinucleína e moduladores imunológicos.

Importância da Nutrição

1. Nutrientes com efeito neuroprotetor ou modulador da dopamina

a) L-tirosina

  • O que é: Um aminoácido precursor da dopamina.

  • Efeito: Pode aumentar a síntese de dopamina, pois é convertido em L-DOPA no organismo.

  • Fontes alimentares: Carnes, peixes, ovos, laticínios, nozes, sementes e leguminosas.

  • Observação: Suplementação deve ser feita com cautela e acompanhamento médico.

Aminoácidos e co-fatores para síntese de dopamina (Mader, 2023)

b) Coenzima Q10

  • O que é: Um antioxidante natural essencial para a função mitocondrial.

  • Efeito: Reduz o estresse oxidativo, que é uma das causas de degeneração neuronal no Parkinson.

  • Fontes alimentares: Peixes gordurosos, carnes, espinafre, brócolis e nozes.

  • Estudos: Alguns estudos sugerem que a CoQ10 pode desacelerar a progressão da DP em estágios iniciais. Suplementação de 300 mg/dia por tempo prolongado (96 semanas) indicou melhoria dos sintomas com o passar do tempo (Yoritaka et al., 2015).

c) Vitamina D

  • Efeito: Pode modular a inflamação e proteger contra a degeneração neuronal.

  • Fontes alimentares: Peixes gordurosos, gema de ovo, cogumelos e alimentos fortificados.

  • Observação: Níveis adequados de vitamina D estão associados a menor risco de progressão da DP.

d) Ácidos graxos ômega-3

  • O que são: Gorduras poli-insaturadas com propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras.

  • Efeito: Podem reduzir a inflamação e proteger os neurônios dopaminérgicos (Li, & Song, 2022).

  • Fontes alimentares: Peixes gordurosos (salmão, sardinha), linhaça, chia, nozes.

e) Curcumina (da cúrcuma)

  • Efeito: Antioxidante e anti-inflamatório potente; pode inibir a agregação de α-sinucleína e proteger os neurônios.

  • Fontes alimentares: Cúrcuma (açafrão-da-terra).

2. Nutrientes com propriedades antioxidantes

a) Vitamina C

  • Efeito: Neutraliza espécies reativas de oxigênio (ROS) e combate o estresse oxidativo.

  • Fontes alimentares: Laranja, limão, kiwi, morango, pimentão, brócolis.

b) Vitamina E

  • Efeito: Antioxidante que protege as membranas celulares contra danos.

  • Fontes alimentares: Amêndoas, sementes de girassol, espinafre, óleos vegetais (girassol, oliva).

c) Selênio

  • Efeito: Cofator de enzimas antioxidantes (glutationa peroxidase), que protegem contra o estresse oxidativo.

  • Fontes alimentares: Castanha-do-pará, nozes, frutos do mar, ovos.

d) Glutationa

  • O que é: Um antioxidante intracelular produzido pelo organismo.

  • Efeito: Ajuda a reduzir a toxicidade de α-sinucleína e protege os neurônios.

  • Fontes alimentares: Aspargos, abacate, espinafre e brócolis (estimulam a produção de glutationa).

Nutrientes que podem modular neurotransmissores

a) Cafeína

  • Efeito: Pode proteger os neurônios dopaminérgicos e melhorar os sintomas motores, segundo estudos.

  • Fontes alimentares: Café, chá preto, chá verde, chocolate amargo.

  • Observação: Consumo moderado é mais indicado.

b) Teanina

  • O que é: Um aminoácido encontrado no chá verde.

  • Efeito: Pode melhorar a cognição e reduzir o estresse, modulando a dopamina e outros neurotransmissores.

c) Resveratrol

  • O que é: Um polifenol com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

  • Fontes alimentares: Uvas roxas, vinho tinto, amendoim, cacau.

  • Efeito: Pode ajudar a prevenir a neurodegeneração.

4. Compostos para suporte mitocondrial e autofagia

a) Ácido alfa-lipóico

  • Efeito: Antioxidante e cofator enzimático que protege as mitocôndrias contra danos.

  • Fontes alimentares: Espinafre, brócolis, batata.

b) Polifenóis

  • Exemplos: Catequinas (chá verde), quercetina (maçã, cebola), antocianinas (frutas vermelhas).

  • Efeito: Estimulam a autofagia, reduzindo o acúmulo de α-sinucleína.

b) Creatina

  • Composto natural encontrado nos músculos e no cérebro, que tem como função principal ajudar no fornecimento de energia para os músculos durante atividades intensas. Ela é comumente utilizada como suplemento para melhorar o desempenho atlético e aumentar a massa muscular.

  • Efeito: Pode ter um efeito neuroprotetor e pode ajudar a proteger os neurônios, especialmente em doenças neurodegenerativas, pois reduz o estresse oxidativo, protege contra a disfunção mitocondrial, melhorando a função motora e retardando o declínio da função física.

5. Probióticos

  • Efeito: Melhoram a saúde intestinal, que está intimamente relacionada ao eixo intestino-cérebro.

  • Observação: Estudos sugerem que a disbiose intestinal pode piorar os sintomas da DP. Além disso, a perda de células nervosas pode acontecer também no intestino, afetando os movimentos intestinais.

  • Fontes alimentares: Iogurte, kefir, kombucha, alimentos fermentados. Existem também suplementos contendo bactérias probióticas, mas precisa ser muito criteriosa pois o uso inadequado de bactérias pode agravar os sintomas do Parkinson (expliquei neste outro texto o caso da Akkermansia. Recomenda-se a avaliação da microbiota intestinal para escolha das melhores alternativas.

5. Fibras prebióticas

  • Efeito: Melhoram a saúde intestinal, são usadas como fonte de energia, fermentadas para produção de ácidos graxos de cadeia curto (SCFAs) com vários efeitos benéficos, incluindo a regulação imune e redução da neuroinflamação.

  • Observação: Estudos sugerem que a disbiose intestinal pode piorar os sintomas da DP. Além disso, a perda de células nervosas pode acontecer também no intestino, afetando os movimentos intestinais.

  • Fontes alimentares: bananas verdes, framboesas, morango, alho, cebola, alho-poró, aspargos, couve-de-bruxelas, grão de bico, lentilhas, aveia, batata doce, inhame, chia, linhaça, psyllium.

  • Fibras podem ser usadas principalmente para pacientes constipados ou com dificuldade de mastigação ou deglutição de alimentos de origem vegetal. Lembrando que atividade física, boa hidratação, rotina intestinal (horários regulares para ir ao banheiro), massagens abdominais também são estratégias importantes no caso de prisão de ventre.

Cuidados

  1. Alimentação equilibrada: Uma dieta rica em frutas, vegetais, grãos integrais e gorduras saudáveis fornece antioxidantes e nutrientes essenciais.

  2. Interação com medicamentos: Alguns nutrientes ou suplementos podem interagir com medicamentos para Parkinson, como a levodopa (ex.: excesso de proteínas na dieta pode reduzir a eficácia da levodopa).

    • Recomenda-se consumir proteínas à noite para evitar interferência na absorção da levodopa durante o dia.

  3. Supervisão nutricional: Antes de iniciar qualquer suplemento ou mudança na dieta, é essencial consultar um nutricionista especialista na áreas.

O tratamento da doença de Parkinson combina medicamentos, intervenções cirúrgicas e terapias complementares para oferecer um manejo mais eficaz dos sintomas, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Epidrugs (Epifármacos)

O conceito de epigenética mudou desde que foi introduzido pela primeira vez na década de 1940 por Conrad Waddington para descrever “o ramo da biologia que estuda as interações causais entre genes e seus produtos que dão origem ao fenótipo”.

Hoje em dia, o significado de epigenética é aceito como o estudo de mudanças hereditárias no perfil de expressão genética que não implicam uma mudança na sequência de DNA, mas modificam a acessibilidade do código por meio da metilação do DNA e modificações de aminoácidos na cauda amino-terminal de histonas e RNAs não codificantes.

Foi proposto que essas mudanças poderiam ser classificadas em três tipos: epigenética direta, que ocorre na vida útil de uma pessoa; epigenética indireta, que ocorre dentro do útero devido a eventos durante a gestação; e epigenética indireta, que se refere às mudanças que afetaram os predecessores individuais e, de alguma forma, talvez por meio de mudanças nos gametas ou no ambiente intrauterino, são transmitidas através das gerações.

O imenso interesse no campo levou a muitos estudos mostrando a ligação entre mudanças epigenéticas e certas doenças, como diabetes, insuficiência cardíaca, câncer, doenças inflamatórias intestinais e doenças neurodegenerativas.

Certas enzimas foram descritas como tendo um papel fundamental nessas modificações epigenéticas: DNA metiltransferases (DNMTs), responsáveis ​​pela adição covalente de um grupo metil ao DNA, levando à repressão de certos genes; histona acetiltransferases (HATs), com a função de acetilação de proteínas histonas, permitindo que a estrutura da cromatina se abra e se torne mais ativa transcricionalmente, e histona desacetilases (HDACs), que regulam a desacetilação de histonas, levando à hipoacetilação em direção à heterocromatina e à supressão genética.

Assim, a busca por moléculas que pudessem atingir esses alvos começou, e o termo “epidrugs’’ foi cunhado para descrever compostos químicos que alteram a estrutura do DNA e da cromatina, promovendo a interrupção de modificações transcricionais e pós-transcricionais pela inibição de DNMTs e HDACs, principalmente. Em 2022, vários compostos foram aprovados pela Food and Drug Administration dos EUA para uso clínico, enquanto outros compostos são sondas químicas.

Exemplos de epidrugs representativos e candidatos a epidrugs incluem azacitidina (inibidor de DNMT1), 5-aza-2′desoxicitidina (inibidor de DNMTs e HDACs), procaína (inibidor de DNMTs), hidralazina (inibidor de DNMTs), vorinostat (inibidor de HDACs), romidepsina (inibidor de HDACs), panobinostat (inibidor de HDACs) e belinostat (inibidor de HDACs).

Outros Epifármacos Emergentes

  • Alvo em RNAs não codificantes (por exemplo, miRNAs e lncRNAs envolvidos na regulação epigenética).

  • Medicamentos que modulam outros complexos de remodelação da cromatina.

Nutrientes que Funcionam como Epifármacos

Certos nutrientes e compostos bioativos podem atuar como moduladores epigenéticos, influenciando diretamente ou indiretamente os processos epigenéticos. Exemplos incluem:

1. Folato (Vitamina B9)

  • Fonte: Vegetais de folhas verdes, legumes, cereais fortificados.

  • Função: Fornece grupos metil para reações de metilação no DNA.

2. Vitamina B12

  • Fonte: Carnes, ovos, laticínios.

  • Função: Cofator em reações de metilação do DNA.

3. Polifenóis

  • Exemplos: Resveratrol (encontrado no vinho tinto), catequinas (presentes no chá verde) e curcumina (da cúrcuma).

  • Função: Moduladores de acetilação e metilação de histonas.

4. Ácido Graxo Ômega-3

  • Fonte: Peixes gordurosos (salmão, sardinha), nozes, sementes de linhaça.

  • Função: Influencia a regulação epigenética de genes anti-inflamatórios.

5. Compostos Sulfurados

  • Exemplo: Sulforafano (presente em vegetais crucíferos como brócolis).

  • Função: Inibe HDACs, promovendo a expressão de genes supressores tumorais.

6. Colina

  • Fonte: Ovos, carne de frango, soja.

  • Função: Importante na produção de grupos metil para metilação do DNA.

7. Flavonoides

  • Exemplo: Genisteína (soja).

  • Função: Modula a metilação do DNA e a expressão de oncogenes.

8. Zinco

  • Fonte: Nozes, sementes, carnes.

  • Função: Cofator de enzimas epigenéticas.

Epifármacos e nutrientes epigenéticos representam uma fronteira na medicina personalizada, abordando doenças em seu núcleo regulatório e oferecendo esperança para condições resistentes aos tratamentos convencionais. Aprenda mais no curso de genômica nutricional.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/