Digestão no autismo

Os distúrbios gastrointestinais (GI) são comuns em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), sendo frequentemente negligenciados, embora possam agravar outros problemas relacionados, como distúrbios do sono, comportamentais e psiquiátricos. É fundamental compreender como esses problemas gastrointestinais se apresentam e quais são os fatores de risco envolvidos.

Prevalência e Tipos de Distúrbios Gastrointestinais em Crianças com TEA

Desde os primeiros relatos de Dr. Leo Kanner sobre o TEA, distúrbios alimentares, como seletividade alimentar, recusa alimentar e dificuldades na ingestão oral, foram identificados como comuns nessa população. Crianças com TEA têm até cinco vezes mais chances de apresentar esses problemas alimentares do que crianças com desenvolvimento neurotípico. Além disso, a seletividade alimentar costuma ser mais intensa, com uma preferência por carboidratos e alimentos industrializados.

Os sintomas gastrointestinais são observados com frequência em crianças com TEA, com prevalência que varia de 9% a 91%. Esses problemas incluem constipação, diarreia e dor abdominal. A constipação é frequentemente a comorbidade gastrointestinal primária, especialmente em crianças com maior comprometimento social e habilidades verbais limitadas. Além disso, distúrbios gastrointestinais estão correlacionados com uma maior gravidade do TEA.

Outros aspectos incluem a alternância entre constipação e diarreia, embora a natureza desse quadro ainda precise de mais estudos. Em 2010, um painel de especialistas propôs diretrizes para a avaliação e tratamento de distúrbios gastrointestinais em crianças com TEA, abordando condições como dor abdominal, constipação, diarreia crônica e doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), que são comumente encontradas nesta população.

Outro distúrbio gastrointestinal relevante é a pica, que envolve a ingestão de itens não alimentares, e tem sido associada a problemas como síndrome do intestino irritável e constipação. Estudos indicam que até 60% das crianças com TEA podem apresentar pica em algum momento, o que pode resultar em complicações sérias, como intoxicação por chumbo e obstruções intestinais, exigindo monitoramento rigoroso.

Comorbidades Clínicas Associadas a Distúrbios Gastrointestinais no TEA

As comorbidades médicas mais frequentemente associadas aos distúrbios gastrointestinais em crianças com TEA incluem convulsões, distúrbios do sono e problemas psiquiátricos. Essas condições clínicas estão intimamente ligadas às dificuldades gastrointestinais e podem agravar os sintomas do TEA, tornando essencial um cuidado integrado e abrangente para as crianças afetadas.

As principais comorbidades cerebrais e intestinais associadas ao TEA (Madra, Ringel, & Margolis, 2020)

Distúrbios do Sono e Comorbidades Psiquiátricas em Crianças com TEA

Distúrbios do sono afetam cerca de 80% das crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), variando desde redução na duração do sono até parassonias. Esses problemas podem estar associados a outras comorbidades clínicas ou psiquiátricas ou ocorrer de forma isolada. O desconforto gastrointestinal (GI), comum no TEA, como constipação e dor abdominal, pode prejudicar a higiene do sono e piorar distúrbios do sono, especialmente quando associados ao refluxo gastroesofágico (DRGE). O impacto no sono pode afetar diretamente a qualidade de vida dessas crianças.

Comorbidades Psiquiátricas no TEA

Até 70% das crianças com TEA apresentam distúrbios psiquiátricos, com a ansiedade sendo a mais comum. Outros transtornos, como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e transtorno desafiador opositivo, também são frequentes. A ansiedade está fortemente associada a problemas gastrointestinais crônicos no TEA, com manifestações como fobias simples, transtorno obsessivo-compulsivo e fobias sociais, que afetam crianças em todos os níveis de funcionamento cognitivo. Essas comorbidades frequentemente persistem desde a infância até a adolescência e não apresentam diferenças significativas entre meninos e meninas.

A presença de ansiedade em crianças com TEA aumenta o risco de problemas gastrointestinais inferiores, em parte devido à maior reatividade ao estresse. Estudos indicam que crianças com TEA apresentam níveis mais elevados de cortisol pós-estresse, correlacionados com sintomas gastrointestinais mais intensos. Além disso, foi sugerido que disfunções no sistema nervoso autônomo podem estar relacionadas a problemas gastrointestinais, com a variabilidade da frequência cardíaca sendo um marcador para a gravidade dos sintomas.

Distúrbios Comportamentais e Gastrointestinais

Distúrbios gastrointestinais também estão associados a comportamentos mal adaptativos, como irritabilidade, retraimento social e hiperatividade. Crianças com TEA que enfrentam dores abdominais, gases, diarreia e constipação tendem a apresentar mais irritabilidade e comportamentos desafiadores. O desconforto gastrointestinal pode se manifestar de forma não verbal em crianças não verbais, como comportamento irritável inexplicável ou comportamentos de busca de objetos para mastigar.

Fatores de Risco para Distúrbios Gastrointestinais no TEA

A pesquisa tem identificado fatores genéticos e ambientais que podem contribuir para os distúrbios gastrointestinais em crianças com TEA. Por exemplo, um polimorfismo no receptor de tirosina quinase MET tem sido associado ao TEA e à disfunção gastrointestinal, embora nem todos os indivíduos com essa mutação apresentem sintomas. A interação entre fatores genéticos e ambientais é complexa e continua sendo uma área de investigação ativa.

O Papel da Dieta nos Distúrbios Gastrointestinais e Comportamentais

A dieta pode influenciar tanto a função gastrointestinal quanto o comportamento no TEA. Dietas sem glúten e/ou caseína são populares, mas não há evidências robustas que comprovem que elas tragam benefícios consistentes para os sintomas gastrointestinais ou comportamentais. Embora algumas crianças possam se beneficiar dessas dietas, elas são restritivas e podem levar a deficiências nutricionais. Se a dieta de exclusão for considerada, deve ser feita sob orientação de um nutricionista.

A dieta também pode afetar o microbioma intestinal, o qual tem sido relacionado a mudanças no comportamento, humor, cognição e saúde gastrointestinal. Embora as crianças com TEA apresentem diferentes perfis de microbiota intestinal em comparação com crianças neurotípicas, os resultados dos estudos são variados e necessitam de mais pesquisas para esclarecer o papel do microbioma na saúde dessas crianças.

O Papel do Microbioma Intestinal

Estudos sugerem que o microbioma intestinal pode ter um impacto significativo tanto na função intestinal quanto no comportamento e humor de crianças com TEA. A diversidade microbiológica pode ser alterada em crianças com TEA, o que pode influenciar aspectos do desenvolvimento neurocomportamental. Embora ainda existam resultados contraditórios, algumas pesquisas indicam que o desequilíbrio na microbiota intestinal pode estar associado a dificuldades na digestão de carboidratos ou a uma maior reatividade imunológica ao glúten. Esse fator pode ser uma das razões pelas quais algumas crianças com TEA respondem mal à ingestão de glúten, embora essa teoria não tenha sido confirmada em estudos mais amplos.

Fatores ambientais, como a dieta materna e a exposição pré-natal a condições como obesidade e diabetes gestacional, também podem influenciar o microbioma intestinal e o risco de TEA nas crianças. Estudos com animais indicam que dietas ricas em gordura durante a gestação resultam em disbiose intestinal, afetando o comportamento e o desenvolvimento neurológico das crias.

Diagnóstico de Distúrbios Gastrointestinais em TEA

O diagnóstico de problemas gastrointestinais em crianças com TEA pode ser desafiador devido à falta de comunicação verbal, uma característica comum entre as crianças com TEA. Muitas vezes, o desconforto gastrointestinal se manifesta de maneiras atípicas, como irritabilidade ou comportamentos repetitivos, dificultando a identificação das causas. Ferramentas de triagem baseadas na observação dos cuidadores, como o inventário de sintomas gastrointestinais, são úteis para detectar condições gastrointestinais em crianças com TEA, melhorando a precisão do diagnóstico.

Abordagens Terapêuticas

O tratamento de problemas gastrointestinais no TEA segue os mesmos princípios utilizados para a população geral, mas requer uma abordagem multidisciplinar devido à complexidade dos sintomas. Isso inclui o envolvimento de especialistas em sono, psiquiatria, neurologia e nutrição. Além disso, novas opções terapêuticas estão sendo investigadas, como a manipulação do microbioma intestinal. O uso de transplante de microbiota fecal (FMT) e probióticos tem mostrado resultados promissores em estudos iniciais, melhorando tanto os sintomas gastrointestinais quanto comportamentais.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Ftalatos, Saúde e Epigenética: O Impacto de Exposições Químicas no Desenvolvimento Humano

Os ftalatos, uma classe de plastificantes sintéticos amplamente utilizados, são reconhecidos como desreguladores endócrinos, com capacidade de interferir no desenvolvimento humano. Estes compostos podem ser classificados em dois grupos principais: ftalatos de alto peso molecular (HMWPs) e ftalatos de baixo peso molecular (LMWPs). A exposição aos HMWPs ocorre predominantemente através da alimentação e do contato com plásticos de PVC, enquanto os LMWPs são absorvidos principalmente pela pele, poeira e ar interno.

Os ftalatos são um grupo de compostos usados para flexibilizar plásticos de PVC e são encontrados em embalagens de alimentos, cosméticos e produtos de higiene pessoal. A exposição ocorre principalmente pela ingestão de alimentos contaminados.

Riscos à Saúde e Desenvolvimento Fetal

A exposição gestacional aos ftalatos é preocupante devido à sua capacidade de atravessar a placenta, transferindo-se para o feto em desenvolvimento. Estudos associam essa exposição a efeitos adversos na gravidez, como maior risco de pré-eclâmpsia, parto prematuro e menor peso ao nascer. Além disso, a exposição pré-natal aos ftalatos está ligada a condições de saúde a longo prazo, incluindo obesidade infantil, doenças respiratórias, problemas neurodesenvolvimentais (TDAH, TEA) e disfunções reprodutivas.

Mecanismos Epigenéticos e Exposição aos Ftalatos

Os mecanismos pelos quais os ftalatos afetam o desenvolvimento incluem modificações epigenéticas, especialmente a metilação do DNA (DNAm). Essa modificação regula a expressão gênica e pode atuar como um registro das exposições ambientais iniciais, influenciando a saúde ao longo da vida. Estudos em modelos animais mostram que a exposição ao ftalato altera padrões de DNAm em regiões genômicas associadas ao crescimento, metabolismo e desenvolvimento neurológico.

Em humanos, a pesquisa tem focado em tecidos como a placenta e o sangue do cordão umbilical. O BPA é usado em plásticos como mamadeiras, latas de alimentos e bebidas e em materiais como resinas epóxi. Ele pode ser encontrado também em selantes dentários e em plásticos de PVC. A exposição humana ao BPA ocorre principalmente por meio de alimentos e bebidas, mas também pode ocorrer pelo contato com papel térmico de recibos de caixa.

Resultados indicam associações entre metabólitos de ftalatos e BPA e alterações epigenéticas em genes relacionados a hormônios sexuais, crescimento e funções imunológicas. Essas mudanças epigenéticas podem contribuir para o aumento de peso corporal, risco de síndrome metabólica e problemas neurocomportamentais.

Avanços e Desafios na Pesquisa

Estudos mais recentes analisam como diferentes tecidos, como sangue venoso e células epiteliais bucais (BECs), podem oferecer insights complementares sobre os efeitos dos ftalatos. Enquanto o sangue reflete respostas imunológicas, os BECs, originados do mesmo tecido embrionário que o cérebro, podem ser melhores substitutos para estudar impactos no desenvolvimento cerebral.

A escolha do tecido é crucial, já que as alterações epigenéticas são altamente específicas. O estudo Alberta Pregnancy Outcomes and Nutrition (APrON), no Canadá, investigou 152 pares mãe-filho e confirmou que as alterações no DNAm variam entre tecidos e estão ligadas a exposições específicas a ftalatos. Essas descobertas destacam a necessidade de políticas que protejam gestantes e crianças dessas exposições.

Impactos na Saúde Humana

BPA e fitalatos são conhecidos por suas propriedades estrogênicas e por atuarem como desreguladores endócrinos. O BPA, por exemplo, pode se ligar aos receptores de estrogênio, afetando o desenvolvimento sexual e podendo levar a distúrbios neurocomportamentais e hormonais, especialmente em fetos e crianças. Já os ftalatos têm sido associados a distúrbios reprodutivos em homens, como criptorquidia e hipospádia, quando expostos durante o período crítico de diferenciação sexual.

Epigenética e Efeitos a Longo Prazo

Estudos têm mostrado que a exposição a esses produtos químicos pode modificar a expressão genética por meio de alterações epigenéticas, sem alterar a sequência do DNA. Isso pode afetar órgãos e sistemas ao longo da vida. A metilação do DNA e outras modificações epigenéticas, como a alteração de histonas e microRNAs, são mecanismos que podem ser influenciados por esses produtos químicos ambientais, impactando o risco de doenças, como câncer e distúrbios reprodutivos.

Diversas pesquisas têm demonstrado que a exposição a baixos níveis de BPA e ftalatos pode resultar em efeitos adversos à saúde, como obesidade, distúrbios hormonais e problemas de desenvolvimento. A exposição durante a gravidez e a infância é particularmente preocupante, já que esses períodos representam janelas de vulnerabilidade.

Toxicogenômica e Efeitos Epigenéticos do Bisfenol A (BPA) e Ftalatos

1. Toxicogenômica do BPA e Ftalatos

A toxicogenômica do BPA e dos ftalatos revela interações com um grande número de genes e proteínas. De acordo com o Banco de Dados Comparativo de Toxicogenômica, o BPA interage com 1.232 genes e proteínas, enquanto os cinco ftalatos mais comuns (DEHP/MEHP, DBP/BBP/MBP) interagem com 265. Essas interações indicam que tanto o BPA quanto os ftalatos compartilham padrões similares de toxicidade e efeitos adversos à saúde. Um estudo que comparou essas interações encontrou 89 genes e proteínas comuns entre os dois, com destaque para vias relacionadas à inflamação e neoplasias, como cânceres urogenitais e mamários. Isso sugere que esses produtos químicos podem desempenhar papéis significativos no desenvolvimento de doenças crônicas e cânceres.

2. Efeitos Epigenéticos do BPA e Ftalatos

Os efeitos epigenéticos do BPA e dos ftalatos são amplamente documentados, mostrando como esses produtos químicos podem alterar a expressão genética sem modificar a sequência do DNA. A exposição ao BPA pode modificar a metilação do DNA, influenciando características fenotípicas, como a cor da pelagem em camundongos. Esse efeito epigenético pode ser revertido por suplementação de ácido fólico ou fitoestrógenos, como a genisteína, durante a gestação.

A exposição in utero ao BPA e aos ftalatos pode causar alterações na metilação de genes importantes, modificações de histonas (proteínas que regulam a estrutura do DNA) e alterações na expressão de microRNAs. Essas modificações podem persistir ao longo da vida e resultar em distúrbios de saúde, como problemas neurais, imunológicos, infertilidade e doenças complexas como câncer e diabetes.

Exemplos de Alterações Epigenéticas em Animais

  • BPA: A exposição neonatal ao BPA alterou a metilação do gene Pde4d4 na próstata de ratos, levando a uma expressão elevada desse gene. O BPA também afetou a metilação do gene Hoxa10, que está envolvido no desenvolvimento uterino, e causou alterações no cérebro de camundongos, associadas a mudanças na expressão gênica.

  • Ftalatos: No caso dos ftalatos, a exposição a BBP induziu desmetilação no gene ESR1, que está envolvido na resposta ao estrogênio. A exposição ao DEHP aumentou a metilação do DNA em testículos de camundongos, afetando a produção de testosterona e o desenvolvimento fetal.

3. Efeitos Transgeracionais

Além dos efeitos diretos na geração exposta, a exposição ao BPA e aos ftalatos pode ter efeitos transgeracionais, afetando as gerações futuras. Estudos demonstraram que a exposição a essas substâncias durante a gestação pode promover a puberdade precoce em fêmeas e afetar a espermatogênese nos machos da geração subsequente. A metilação diferencial do DNA foi observada nas gerações F3 expostas, sugerindo que essas alterações podem ser passadas para as gerações seguintes.

Exposição Pré-Natal a Ftalatos e suas Implicações no Desenvolvimento de Bebês

Estudos sobre os efeitos de substâncias químicas no desenvolvimento fetal têm ganhado destaque, especialmente em relação aos ftalatos, produtos químicos presentes em plásticos e outros produtos. Um estudo recente focou na exposição pré-natal a ftalatos de alto e baixo peso molecular durante o segundo trimestre de gestação e seus impactos no desenvolvimento de bebês. A pesquisa identificou 12 CpGs (regiões do DNA com metilação alterada) de alta confiança em amostras de sangue venoso de bebês com 3 meses e 12 CpGs em células epiteliais brônquicas (BECs), sugerindo que biomarcadores de exposição aos ftalatos podem ser detectados ainda na infância.

Especificidade Tecidual e Exposição aos Ftalatos

Os resultados mostraram que as associações de metilação do DNA (DNAm) com a exposição aos ftalatos não se sobrepuseram entre os tecidos analisados, como o sangue e as células BECs. Isso sugere que os efeitos da exposição podem ser específicos de tecido, dado o papel do DNAm na identidade celular. As diferenças nas concentrações de ftalatos entre os tecidos também podem impactar as associações, e mais pesquisas são necessárias para avaliar os melhores métodos para a avaliação de risco cumulativo, como a ingestão diária tolerável (TDI) e o nível de efeito adverso não observado (NOAEL).

Associações com Funções Endócrinas, Imunológicas e Neurodesenvolvimentais

A exposição pré-natal aos ftalatos foi associada a alterações no DNAm de genes relacionados à regulação hormonal, função imunológica, reparo de DNA e neurodesenvolvimento. Muitos dos CpGs identificados estavam em genes vinculados à função endócrina (como os hormônios tireoidianos e sexuais) e ao sistema imunológico, corroborando com estudos que indicam que os ftalatos podem afetar esses sistemas. Além disso, as alterações no DNAm associadas ao neurodesenvolvimento sugerem que a exposição precoce pode influenciar a formação neural e o desenvolvimento cognitivo.

Implicações para a Saúde Imunológica e Reparação de DNA

Além dos impactos no sistema endócrino e no neurodesenvolvimento, o estudo também mostrou que a exposição aos ftalatos está ligada a genes que regulam a função das células imunológicas e o reparo do DNA. Alterações no DNAm foram associadas ao desenvolvimento de doenças autoimunes, inflamatórias e distúrbios alérgicos, como asma e eczema. Isso reforça a ideia de que a exposição a ftalatos pode ter efeitos de longo prazo na saúde imunológica e na integridade genética.

Embora os resultados deste estudo revelem associações promissoras entre a exposição pré-natal aos ftalatos e alterações no DNAm, é necessário mais trabalho para entender completamente os mecanismos subjacentes a essas mudanças e seu impacto nos resultados de saúde e neurodesenvolvimento.

Este estudo também indicou que os CpGs identificados são altamente sensíveis às exposições ambientais precoces, refletindo a importância da metilação do DNA em processos de desenvolvimento essenciais. Essas alterações podem estar associadas a problemas de saúde a longo prazo, como distúrbios endócrinos, reprodutivos e neuropsiquiátricos.

Com base nessas descobertas, a exposição aos ftalatos representa uma preocupação significativa para a saúde pública, destacando a necessidade de monitoramento e regulamentação mais rigorosos para proteger os bebês e crianças de seus efeitos potenciais.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Polimorfismos de MTHFR, deficiência de folato e sua Relação com Transtornos Psiquiátricos

A metilenotetrahidrofolato redutase (MTHFR) é uma enzima crucial no metabolismo do folato e da homocisteína, que são essenciais para processos de metilação do DNA. Esses processos desempenham papel significativo na regulação genética e estão associados a várias condições de saúde, incluindo doenças psiquiátricas como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar e autismo.

Polimorfismos do MTHFR e Seus Efeitos

Algumas variações genéticas (polimorfismos) no gene MTHFR resultam em menor atividade da enzima, comprometendo o metabolismo do folato e a metilação do DNA. Os dois polimorfismos mais estudados são:

  • C677T (rs1801133):

    • Heterozigotos: 67% da atividade enzimática.

    • Homozigotos: Apenas 25% da atividade enzimática.

  • A1298C (rs1801131):

    • Heterozigotos: 83% da atividade enzimática.

    • Homozigotos: 61% da atividade enzimática.

Essas alterações genéticas podem predispor indivíduos a transtornos psiquiátricos e outras condições como doenças cardiovasculares e neurológicas.

MTHFR e Saúde Mental

A redução na atividade do MTHFR pode impactar diretamente a saúde mental devido à interferência nos níveis de folato e metilação do DNA, fundamentais para o funcionamento cerebral.

  • Condições Relacionadas:

    • Esquizofrenia: Associada a alterações epigenéticas causadas por metilação prejudicada.

    • Transtorno Bipolar: Disfunções no metabolismo do folato podem exacerbar sintomas.

    • Depressão e Ansiedade: Ligadas a baixos níveis de folato, que afetam a síntese de neurotransmissores.

    • Autismo: Possível ligação entre mutações no gene MTHFR e manifestações de sintomas.

Tratamento e Suplementação

Apesar de não ser completamente estudado, há evidências de que suplementos de folato podem beneficiar pacientes com atividade MTHFR reduzida.

  • 5-Metiltetraidrofolato (5-MTHF):
    É a forma ativa do folato no organismo e pode ser uma alternativa promissora para corrigir deficiências relacionadas ao MTHFR.

Como o MTHFR Atua?

A MTHFR catalisa a conversão do 5,10-metilenotetrahidrofolato em 5-metiltetraidrofolato, que é essencial para a síntese de metionina, um aminoácido crucial para a doação de grupos metil.

  • Metilação do DNA:
    A metilação regula a expressão genética, sendo essencial para a saúde mental. Alterações nesse processo podem levar a desequilíbrios químicos no cérebro.

O suprimento do grupo metil no metabolismo de um carbono é afetado pelo processo catalítico da enzima MTHFR. O polimorfismo MTHFR afeta a metilação a jusante de proteínas relacionadas à esquizofrenia. DA, glutamato e assim por diante. BH4, tetrahidrobiopterina; DA, dopamina; NE, norepinefrina; 5-HT, 5-hidroxitriptamina

Nutrientes Essenciais para a Saúde Mental

Para garantir o funcionamento ideal do cérebro e a síntese de neurotransmissores, certos nutrientes são indispensáveis:

  • Triptofano e Vitamina B6:

    • São fundamentais para a produção de serotonina.

    • A falta desses elementos pode afetar o humor, sono e bem-estar emocional.

  • Ácido Fólico (Vitamina B9):

    • Essencial para a produção de BH4, garantindo a síntese de neurotransmissores.

  • Vitamina D e Ômega-3:

    • Reduzem a neuroinflamação e promovem a saúde dos receptores de neurotransmissores.

A interação entre MTHFR, nutrientes e neurotransmissores ressalta a importância de uma dieta equilibrada e personalizada para manter a saúde mental. Investir em níveis adequados de vitaminas e ômega-3 pode ser uma estratégia eficaz para mitigar os impactos do polimorfismo MTHFR e promover o equilíbrio químico no cérebro.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/