Modulação intestinal na esclerose múltipla

Durante a última década, pesquisas revelaram que a vasta comunidade de microrganismos que habitam o intestino — conhecida como microbiota intestinal — está intrinsecamente ligada à saúde e à doença humana, em parte como resultado de sua influência nas respostas imunológicas sistêmicas. Evidências acumuladas demonstram que esses efeitos na função imunológica são importantes em doenças neuroinflamatórias, como a esclerose múltipla (EM), e que a modulação do microbioma pode ser terapeuticamente benéfica nessas condições.

Esta imagem abaixo ilustra as interações complexas entre a microbiota intestinal e o sistema imunológico no contexto da esclerose múltipla. Ela contrasta uma microbiota intestinal saudável (lado esquerdo) com um estado de disbiose intestinal (lado direito), mostrando como esses diferentes estados influenciam as respostas imunológicas e potencialmente contribuem para a patologia da EM.

Microbiota Saudável (Esquerda)

  1. Fibras alimentares (marcadas como 1) no intestino são fermentadas pela microbiota em ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), que ajudam a manter um ambiente intestinal saudável e regulam a inflamação.

  2. Os SCFAs promovem a modulação imunológica, influenciando células imunológicas, como as células dendríticas (3) e as células B (6), que produzem citocinas regulatórias e anticorpos (por exemplo, anticorpos IgA).

  3. O metabolismo do triptofano produz serotonina, que apoia a saúde intestinal, enquanto as células ILC3 (5) produzem citocinas como LTα/β, que mantêm a integridade epitelial.

  4. As células T regulatórias (Tregs) são ativadas, mantendo o equilíbrio imunológico por meio de citocinas como o TGFβ e contribuindo para a tolerância sistêmica.

Disbiose Intestinal (Direita)

  1. A disbiose intestinal, caracterizada por um desequilíbrio na microbiota, leva à redução de SCFAs e ao comprometimento da barreira epitelial (lesão epitelial).

  2. Bactérias específicas do intestino, como as bactérias filamentares segmentadas (SFB), liberam metabólitos que ativam células imunológicas (por exemplo, macrófagos CXCR1+, 12) e desencadeiam respostas pró-inflamatórias.

  3. Esses sinais ativam as células apresentadoras de antígenos (APCs, 13) e as células T CD4+, desviando a resposta imunológica em direção às células Th17 (17) em vez das Tregs.

  4. Citocinas pró-inflamatórias, como IL-23, IL-22 e IL-2 (15, 16), são reguladas positivamente, intensificando ainda mais a inflamação.

  5. A inflamação induzida pela disbiose pode, eventualmente, afetar tecidos distantes, como o sistema nervoso central (SNC) (18), contribuindo para a patologia da EM.

Principais Observações para EM

  • Em condições saudáveis, a microbiota intestinal promove a tolerância imunológica por meio das Tregs e de citocinas anti-inflamatórias, apoiando a saúde epitelial e prevenindo a ativação imunológica excessiva.

  • Na disbiose, a redução de SCFAs e o desequilíbrio microbiano levam à inflamação intestinal e à desregulação imunológica sistêmica, favorecendo a ativação de células Th17, que estão implicadas na progressão da EM.

  • A comunicação entre o intestino e o SNC (eixo intestino-cérebro) é central, com sinais originados no intestino influenciando a neuroinflamação e a patologia da EM. A disbiose juntamente com uma permeabilidade intestinal aumentada, permitem a translocação de micróbios ou seus produtos do lúmen intestinal para a lâmina própria, promovendo assim a inflamação. A inflamação no intestino pode resultar na ativação de células T encefalitogênicas que podem viajar para o SNC, onde podem induzir danos inflamatórios com subsequente desmielinização e perda axonal. A inflamação do SNC é o gatilho para EM. A neuroinflamação na EM/EAE pode ser a consequência de uma permeabilidade vascular alterada da BHE. O vazamento de componentes plasmáticos, como o fibrinogênio, leva à rápida ativação da microglia que pode ser o gatilho da doença, com a consequente infiltração de células inflamatórias e transmissão de sinal para o intestino, resultando na permeabilidade da barreira intestinal, propagando assim o ciclo de inflamação cérebro-intestino.

Via de dois gumes intestino-cérebro na EM (Parodi, & Rosbo, 2021).

Modulação intestinal na esclerose múltipla

A modulação intestinal na esclerose múltipla é uma abordagem terapêutica emergente que visa restaurar o equilíbrio da microbiota intestinal e regular as interações entre o intestino e o sistema imunológico. Como a disbiose intestinal está associada à inflamação crônica e ao descontrole imunológico que contribuem para a patologia da EM, estratégias para modular o microbioma podem ajudar a reduzir a progressão da doença.

Estratégias de Modulação Intestinal

  1. Probióticos:

    Suplementos de bactérias benéficas (como Lactobacillus e Bifidobacterium) podem ajudar a restaurar o equilíbrio da microbiota intestinal. Estudos mostram que probióticos podem reduzir a inflamação sistêmica e melhorar a função das células T regulatórias (Tregs).

  2. Prebióticos:

    Compostos não digeríveis (como fibras alimentares) que promovem o crescimento de bactérias benéficas. Prebióticos ajudam a aumentar a produção de SCFAs, que têm propriedades anti-inflamatórias e reforçam a barreira intestinal.

  3. Dieta personalizada:

    Dietas ricas em fibras, antioxidantes e alimentos anti-inflamatórios, como a dieta mediterrânea, podem melhorar a composição da microbiota. Reduzir alimentos pró-inflamatórios, como açúcares refinados e gorduras saturadas, pode limitar a disbiose.

  4. Transplante de microbiota fecal (TMF):

    Transferência de microbiota saudável de um doador para pacientes com EM. Resultados preliminares sugerem melhora da função imunológica e redução da inflamação.

  5. Ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs):

    Suplementos de butirato podem ajudar a reduzir a inflamação intestinal e a modular a resposta imune.

Desafios e Perspectivas Futuras

A microbiota varia entre indivíduos, tornando essencial uma abordagem personalizada. O ideal seria estudar a microbiota através de uma análise metagenômica.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Piores sintomas de depressão pela manhã?

Algumas pessoas com diagnóstico de depressão sentem que o pior momento do dia é a manhã. Isto pode ser gerado pelos picos de cortisol, pela inflamação e alterações genéticas que geram mudanças no ritmo circadiano. Aqui estão estratégias específicas para cada um destes aspectos:

1. Níveis de Cortisol

O pico de cortisol matinal exacerbado em pessoas com depressão pode ser mitigado com alimentos que estabilizam os níveis de glicose e reduzem o estresse oxidativo.

Estratégias:

  • Atividade física: A alta liberação de cortisol pela manhã pode desencadear ansiedade e piorar os sintomas depressivos. Para combater isso, é crucial começar o dia com alguma atividade física, mesmo que seja apenas um pequeno passo. O movimento ajuda a dissipar o cortisol e interrompe a resposta de congelamento induzida pela depressão.

  • Rotina matinal positiva: Planejar uma rotina matinal agradável pode ajudar a motivar a levantar da cama. Isso pode incluir atividades como ler algo positivo, praticar gratidão, evitar notícias negativas e redes sociais, ou até mesmo usar meias engraçadas.

  • Tempo extra pela manhã: Ter tempo extra pela manhã para realizar atividades relaxantes ou prazerosas, como assistir a um programa de TV, ouvir música, alongar ou fazer ioga, pode tornar o início do dia mais agradável.

  • Ter algo pelo que ansiar: Planejar atividades agradáveis para o dia ou para a semana pode dar um impulso motivacional para enfrentar a manhã.

  • Consumir alimentos ricos em triptofano: Auxilia na produção de serotonina e melatonina. Exemplos: ovos, peru, sementes de abóbora.

  • Efeito do magnésio: Essencial para reduzir a resposta ao estresse. Fontes: espinafre, amêndoas, abacate.

  • Reduzir alimentos com alto índice glicêmico: Evita picos de açúcar no sangue que podem amplificar os níveis de cortisol. Priorize carboidratos complexos como aveia, quinoa e batata-doce.

  • Chá de ervas adaptogênicas: Rhodiola rosea e ashwagandha podem ajudar a equilibrar o cortisol.

  • Vitamina CA vitamina C é conhecida por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, e ela desempenha um papel importante na modulação do sistema endócrino, incluindo a redução dos níveis de cortisol. A vitamina C é armazenada em altas concentrações nas glândulas adrenais, onde o cortisol é produzido. Estudos sugerem que ela pode ajudar a controlar a liberação excessiva de cortisol, particularmente em situações de estresse. Aposte em fontes de vitamina C como frutas cítricas, kiwi, pimentões, acerola, brócolis, couve, tomate.

  • Beta-sitosterol: pode ajudar a reduzir a resposta do corpo ao estresse, o que pode, por sua vez, diminuir a produção excessiva de cortisol. Ele age modulando o sistema endócrino e imune, ajudando o corpo a lidar com o estresse de maneira mais eficiente. O cortisol é liberado como parte da resposta inflamatória do corpo ao estresse. O beta-sitosterol tem propriedades anti-inflamatórias que podem ajudar a reduzir o processo inflamatório, diminuindo a necessidade de liberação de cortisol. Fontes: abacate, óleo de abacate, semente de abóbora, semente de girassol

2. Diferenças Genéticas (Gene RORA e Desalinhamento Circadiano)

Alimentos que ajudam a regular o ciclo circadiano podem compensar diferenças genéticas relacionadas ao gene RORA.

Estratégias:

  • Terapia de luz: opção popular e eficaz para tratar a depressão matinal. A exposição à luz é um fator crucial para regular o ritmo circadiano. Passar 15 a 30 minutos pela manhã sob a luz solar ou usando uma caixa de terapia de luz pode ajudar a aliviar os sintomas depressivos em até 60% das pessoas.

  • Sincronização alimentar: Consumir refeições ricas em proteínas no café da manhã para estimular o ritmo circadiano. Não pule o café da manhã.

  • Suplementação de melatonina: Tomar uma dose de melatonina (0,5 mg), mais cedo à noite, por volta das 17h, pode auxiliar na redefinição do ritmo circadiano. É fundamental, no entanto, usar melatonina de alta qualidade, pois muitos suplementos não são regulamentados e podem ter quantidades variáveis da substância.

  • Precursores de melatonina: Consumir alimentos como cerejas, uvas, tomates e nozes antes de dormir pode melhorar a qualidade do sono.

  • Ácidos graxos ômega-3: Demonstraram ajudar no alinhamento do ritmo circadiano. Fontes: salmão, sardinha, linhaça.

  • Ajuste do horário da medicação: Se a medicação para a depressão causar sonolência, deve ser tomada à noite. Caso contrário, se a medicação causar efeitos estimulantes, deve ser tomada pela manhã.

  • Higiene do sono: Dormir o suficiente é essencial para combater a depressão. Adotar boas práticas de higiene do sono, como reduzir o consumo de cafeína, álcool, alimentos pesados, drogas, nicotina e tempo de tela, pode melhorar significativamente a qualidade do sono e, consequentemente, os sintomas depressivos.

3. Inflamação do Hipotálamo

A inflamação crônica pode ser combatida com nutrientes anti-inflamatórios e antioxidantes.

Estratégias:

  • Ácidos graxos ômega-3: Reduzem a inflamação. Fontes: peixes gordurosos, óleo de linhaça, chia.

  • Polifenóis antioxidantes: Presentes em frutas vermelhas, cacau, chá verde e cúrcuma (curcumina).

  • Vitamina D: Regula respostas imunológicas. Fontes: óleo de fígado de bacalhau, ovos, cogumelos expostos ao sol.

  • Probióticos e fibras prebióticas: Melhoram o eixo intestino-cérebro, reduzindo a inflamação sistêmica. Fontes: iogurte natural, kefir, banana verde.

4. Desalinhamento do Relógio Biológico e do Despertador

Ajustar os horários das refeições e os tipos de alimentos pode ajudar a sincronizar o relógio biológico.

Estratégias:

  • Jejum intermitente controlado: Seguir janelas alimentares regulares pode ajudar no alinhamento circadiano.

  • Cafeína com moderação: Pode ser usada estrategicamente pela manhã para estimular o estado de alerta, mas evite após o meio-dia.

  • Carboidratos à noite: Promovem a liberação de insulina, que ajuda na conversão de triptofano em serotonina e melatonina.

5. Picos de Interleucina-6

A interleucina-6 está associada à inflamação. Alimentos com propriedades anti-inflamatórias podem atenuar os picos.

Estratégias:

  • Consumir flavonoides: Presentes em frutas cítricas, chá verde e cebola, ajudam a reduzir marcadores inflamatórios.

  • Cúrcuma com pimenta preta: A piperina aumenta a biodisponibilidade da curcumina, reduzindo interleucinas pró-inflamatórias.

  • Aumentar fibras alimentares: Reduzem inflamações ao equilibrar o microbioma intestinal. Fontes: aveia, feijão, maçãs.

Outras Considerações:

  • Hidratação adequada: Inflamação e produção de cortisol podem ser exacerbadas por desidratação.

  • Terapia: pode ser muito útil para desenvolver mecanismos de enfrentamento da depressão, aprender a cuidar de si mesmo, definir metas realistas e sentir-se mais fortalecido.

Essas estratégias devem ser adaptadas às necessidades individuais, idealmente sob supervisão de um nutricionista ou médico. A combinação de uma dieta equilibrada, exercícios regulares e práticas de higiene do sono também potencializa os benefícios.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Dieta cetogênica e esclerose múltipla

A esclerose múltipla (EM) é uma doença neurodegenerativa complexa que afeta cerca de 2,3 milhões de pessoas em todo o mundo, causando danos ao sistema nervoso central (SNC). A patologia é caracterizada por processos inflamatórios que afetam principalmente a substância cinzenta, e a ausência de um tratamento curativo até o momento torna os tratamentos modificadores da doença os mais utilizados, visando retardar sua progressão e aliviar os sintomas. Entre os sintomas mais comuns estão a fadiga, a atrofia muscular progressiva, a incapacidade funcional e os problemas cognitivos e emocionais, como ansiedade e depressão.

Mecanismos Patogênicos na Esclerose Múltipla

A doença envolve três mecanismos centrais, todos relacionados à degeneração neuronal:

  1. Excesso de Ca²⁺ intraaxonal,

  2. Desmielinização axonal, que resulta na degeneração dos axônios pela perda do suporte trófico da mielina,

  3. Inflamação, mediada por linfócitos T e B reativos, que danificam as células nervosas.

Esses processos prejudicam a mitocôndria, reduzindo a produção de ATP e aumentando o estresse oxidativo. Isso culmina na perda da mielina, uma substância crucial para a condução de sinais nervosos, o que provoca atrofia cerebral e impacto clínico no paciente.

Atrofia e Incapacidade Funcional

A incapacidade funcional é um dos principais desafios da EM, e é medida através da Escala Expandida de Status de Incapacidade (EDSS). Essa escala não apenas quantifica a deficiência física, mas também tem implicações no bem-estar emocional do paciente, pois está diretamente associada à presença de ansiedade e depressão. Uma das questões mais relevantes associadas à incapacidade funcional é a obesidade.

Obesidade e Esclerose Múltipla

A obesidade é comum entre os indivíduos com EM, e estudos sugerem que níveis elevados de obesidade estão correlacionados com um aumento da incapacidade funcional. A adiposidade excessiva está associada a vários problemas metabólicos, como a resistência à insulina e um perfil lipídico alterado, que pode exacerbar os processos inflamatórios. A inflamação crônica é uma característica comum da EM e pode ser um dos fatores responsáveis pela progressão da doença. Certas interleucinas pró-inflamatórias como IL-17, IL-6 e IL-1β desempenham papéis cruciais nesse processo.

Inflamação, Depressão e Ansiedade

Estudos têm mostrado uma associação direta entre a inflamação e os distúrbios emocionais em pacientes com EM. Níveis elevados de citocinas inflamatórias, especialmente IL-6, IL-1β e IL-17, estão frequentemente associados a sintomas depressivos e de ansiedade. A IL-6, por exemplo, tem sido identificada como um fator preditivo da depressão, com a correlação entre seus níveis e o início desses sintomas podendo ser detectada até 6 anos antes do diagnóstico.

Essas interleucinas causam alterações no funcionamento do sistema nervoso, principalmente devido ao estresse oxidativo e à hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), que por sua vez afetam a plasticidade sináptica e a função cognitiva. A relação entre esses mediadores inflamatórios e a depressão é clara: o aumento das citocinas inflamatórias pode afetar a função cerebral e, como resultado, agravar a atrofia cerebral e o declínio cognitivo em pacientes com EM.

Relação entre Glutamato e Aspectos Emocionais

Além da inflamação, mecanismos neurodegenerativos também desempenham um papel significativo na EM. Um dos fatores mais críticos é o excesso de glutamato, um neurotransmissor excitatório no SNC. O glutamato, em níveis elevados, pode causar excitotoxicidade, levando à degeneração neuronal. Esse excesso de glutamato tem sido associado a sintomas de ansiedade e depressão, distúrbios comuns em pacientes com EM.

Os receptores de glutamato, especialmente os mGluRs (receptores metabotrópicos), têm sido identificados como potenciais alvos terapêuticos para tratar distúrbios de ansiedade e depressão em pacientes com EM. Além disso, estudos recentes mostraram que a IL-17, uma interleucina inflamatória, está fortemente associada ao aumento da excitação neuronal e ao excesso de glutamato, exacerbando os sintomas emocionais da doença.

O Papel da IL-17 e Inflamação no Glutamato

A IL-17, em particular, tem um impacto significativo na excitação neuronal, prejudicando a captação de glutamato pelos astrócitos e estimulando a liberação excessiva desse neurotransmissor. A inflamação crônica, exacerbada por citocinas como a IL-17, pode reduzir a proteção neuronal e aumentar a excitação neuronal, agravando os sintomas emocionais, como ansiedade e depressão. A relação entre inflamação, excitotoxicidade do glutamato e neurodegeneração torna-se um mecanismo central na patogênese da EM.

A Influência da Dieta Cetogênica na Esclerose Múltipla

Estudos demonstram que indivíduos com EM apresentam desequilíbrios na ingestão de macronutrientes, especialmente relacionados à obesidade abdominal e níveis elevados de interleucina 6 (IL-6), que são característicos da dieta ocidental rica em gorduras saturadas e açúcares, promovendo inflamação e resistência à insulina.

O Impacto da Dieta Cetogênica na Esclerose Múltipla

A dieta cetogênica (KD) foi inicialmente criada para mimetizar os efeitos bioquímicos do jejum intermitente. Essa dieta envolve a redução de carboidratos e o aumento da ingestão de gorduras, com uma ingestão controlada de proteínas. A redução da glicemia e a diminuição da glicólise promovem uma melhor função mitocondrial ao reduzir a produção de espécies reativas de oxigênio, e o aumento de corpos cetônicos no sangue tem efeitos neuroprotetores devido à redução da inflamação.

A Aplicação da Dieta Cetogênica em Doenças Neurodegenerativas

A dieta cetogênica demonstrou benefícios iniciais em doenças como epilepsia resistente a medicamentos, e mais tarde foi observada sua relevância em doenças neurodegenerativas, incluindo esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença de Alzheimer (DA), doença de Parkinson (DP), e esclerose múltipla. A dieta cetogênica é eficaz na modulação da função mitocondrial, redução da neuroinflamação, promoção da autofagia, e regulação do microbioma intestinal, todos mecanismos que parecem ser particularmente benéficos na EM, uma vez que a KD também demonstrou promover a remielinização axonal.

Evidências Clínicas dos Benefícios da Dieta Cetogênica na EM

Estudos clínicos têm mostrado os benefícios dessa dieta em indivíduos com EM. Em um estudo piloto randomizado com indivíduos com EM recorrente-remitente, houve uma leve redução nas pontuações do EDSS (Escala Expandida do Estado de Incapacidade). Em outra pesquisa com 65 indivíduos com EM recorrente, após 6 meses de dieta cetogênica, observou-se reduções significativas na massa gorda, levando a melhorias na fadiga, depressão, incapacidade neurológica, e inflamação. Além disso, os níveis de neurofilamento leve (sNfL), um marcador relacionado ao dano neuroaxonal, também diminuíram significativamente.

O Papel dos Corpos Cetônicos na Redução da Inflamação e Melhora Funcional

Em relação à inflamação, a dieta cetogênica influencia a produção de corpos cetônicos, como o β-hidroxibutirato (βHB), que atravessa a barreira hematoencefálica (BBB) e exerce efeitos anti-inflamatórios, reduzindo a neuroinflamação. O βHB também modula a atividade de interleucinas importantes na patogênese da EM, como IL-1β, IL-6, e IL-17, reduzindo a ativação do inflamossomo NLRP3 e promovendo a neuroproteção. Essa ação também inclui a modulação da resposta inflamatória nas células microgliais, crucial para doenças neurodegenerativas.

O Efeito dos Corpos Cetônicos na Ansiedade e Depressão

Indivíduos com dietas ocidentais, ricas em gordura e açúcar, apresentam maior risco de depressão e ansiedade, sendo a inflamação o principal mecanismo subjacente. A dieta cetogênica tem demonstrado efeitos positivos na redução desses distúrbios emocionais. Em modelos animais, observou-se a redução da depressão associada à restauração da ativação inflamatória microglial e à diminuição da excitabilidade neuronal. Além disso, a dieta cetogênica tem mostrado efeitos ansiolíticos, especialmente em doenças como a doença de Alzheimer e doença de Parkinson.

O Impacto na Atividade do Glutamato e no Controle da Ansiedade e Depressão

Níveis excessivos de L-glutamato (L-Glu) no sistema nervoso central podem ser neurotóxicos e estão associados à progressão da EM, além de contribuírem para a inflamação e a incapacidade funcional. A obesidade, por sua vez, está diretamente relacionada à resistência à insulina e à inflamação central, que afeta a função do glutamato. A dieta cetogênica pode melhorar a atividade do glutamato, reduzindo a obesidade e a resistência à insulina, o que tem efeitos benéficos na redução da ansiedade e da depressão. A modulação da atividade do glutamato pode, assim, melhorar a incapacidade funcional e reduzir os distúrbios emocionais.

Considerações Finais

A dieta cetogênica se apresenta como uma estratégia promissora no tratamento de esclerose múltipla, especialmente devido ao seu impacto positivo na redução da inflamação, melhora do perfil lipídico, e regulação da atividade do glutamato, que está relacionada à ansiedade, depressão e à incapacidade funcional. Você pode aprender mais sobre esta dieta neste curso online.
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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/