Vitamina D e sua saúde

O cálcio e a vitamina D são nutrientes essenciais para a saúde óssea, cuja depleção ou déficit resulta em complicações esqueléticas adversas. Esses nutrientes têm sido considerados críticos, a ponto de ensaios clínicos destinados a mostrar a eficácia dos medicamentos para osteoporose sistematicamente incluem vitamina D e cálcio como parte do regime de tratamento.

Durante o desenvolvimento esquelético, o cálcio e a vitamina D exercem papéis críticos. A deficiência de vitamina D na infância é considerada um importante problema de saúde pública em todo o mundo.

A vitamina D pode ser sintetizada na epiderme pela ação da radiação ultravioleta B ou obtida exogenamente, via alimentação ou suplementos. Após chegar ao fígado, a vitamina D sofrerá, nos hepatócitos, por meio de uma reação catalisada pela enzima 25-hidroxilase, uma hidroxilação no carbono 25, convertendo-se em 25-dihidroxivitamina D (25-OHD).

O 25-OHD é convertido em várias células, pela ação da enzima 25-hidroxivitamina D ou 1-α-hidroxilase (CYP27B1) em 1α,25-dihidroxi-vitamina D (1α,25(OH)2D), que regula muitas funções não só nas células de origem, mas também em células vizinhas ou outros tecidos. Tanto 25-OHD quanto 1α,25(OH)2D são oxidados por hidroxilases (primeiro para CYP24A1 e depois para CYP3A4) e os metabólitos resultantes podem ser excretados.

Isso significa que qualquer coisa que aumente a expressão dessas enzimas pode contribuir para a deficiência de vitamina D. Alguns medicamentos e extratos vegetais podem levar à deficiência de vitamina D, pois estimulam aumento da CYP24A1.

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A falta de vitamina D interfere na absorção de cálcio. Além do efeito no intestino e ossos, a vitamina D regula a homeostase da mucosa intestinal, mantendo a integridade da barreira epitelial e, portanto, a translocação de metabólitos microbianos para o hospedeiro. Essa regulação também influencia a maturação do sistema imunológico e as respostas inflamatórias.

Pessoas com câncer não devem ir para quimioterapia ou cirurgia com vitamina D baixa pois o resultado será pior. A suplementação ajuda também neste caso. Fora isso, também melhora a composição intestinal. Um estudo mostrou que a suplementação de vitamina D em meninas adolescentes (ou seja, 9 doses semanais de 50.000 UI) resultou em um aumento de Firmicutes, Bifidobacterium e Enterococcus e uma diminuição de Bacteroidetes e Lactobacilos.

Indiretamente, melhorar a microbiota, melhora a saúde óssea. Quando a microbiota é mais estável e saudável há maior produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC). Estes ácidos graxos, produzidos pelas bactérias intestinais, ajudam a melhorar a absorção de cálcio em humanos.

O livro de Michael F. Holick, "Vitamina D", é considerado uma referência essencial sobre o tema. Ele oferece informações detalhadas sobre a importância da vitamina D, como obtê-la e como ela pode melhorar a saúde.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Microbiota intestinal e saúde óssea

Nos últimos anos, a ciência tem revelado algo fascinante: nossos ossos não são apenas sustentação estrutural, mas também protagonistas em uma complexa rede de interações metabólicas, hormonais e imunológicas — muitas das quais passam diretamente pelo intestino.

Cálcio, fósforo e diversidade microbiana

Estudos em modelos animais têm demonstrado que a suplementação de cálcio pode promover um aumento significativo na diversidade da microbiota intestinal, estimulando especialmente o crescimento de bactérias benéficas como Bifidobacterium sp., Ruminococcaceae e Akkermansia. Em humanos, a combinação de 1000 mg de cálcio e fósforo por dia, durante 8 semanas, levou ao aumento da fração Clostridium XVIII nas fezes — um indicativo de uma microbiota mais ativa e possivelmente mais saudável.

Vitamina K: mais que um coadjuvante na saúde óssea

Além de seu papel tradicional na regulação da osteocalcina e na diferenciação celular óssea, a vitamina K também parece influenciar a estrutura mineral e orgânica do osso. Um estudo recente detectou uma queda nas formas microbianas da vitamina K em camundongos com resistência óssea comprometida — apontando uma conexão direta entre a microbiota, a produção desta vitamina e a robustez óssea.

O elo entre dieta e ossos mais fortes

Fibras fermentáveis, como galacto-oligossacarídeos e fruto-oligossacarídeos, alimentam bactérias intestinais que produzem ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) — como o butirato e o propionato. Esses compostos não só reduzem a inflamação como também reprogramam o metabolismo dos osteoclastos (células que reabsorvem o osso), favorecendo a formação óssea. Em modelos animais, a administração de AGCC protegeu contra perda óssea induzida por inflamação e deficiência de estrogênio, além de estimular a produção de proteínas osteoprotetoras como OPG e sialoproteína óssea.

Mecanismos de regulação do metabolismo ósseo pela microbiota intestinal (Lyu et al., 2023).

Além dos AGCC outras substâncias também são importantes:

  • Poliaminas, sintetizadas por várias espécies bacterianas do intestino a partir de aminoácidos (como arginina e lisina), podem influenciar a proliferação de osteoblastos. Atuam como sinalizadores celulares, regulando crescimento e regeneração óssea.

  • H₂S (gás sulfídrico), produzido por algumas bactérias intestinais (como Desulfovibrio spp.), por meio da fermentação de aminoácidos sulfurados (como cisteína), tem efeito regulatório na remodelação óssea.

  • Ácidos biliares, produzidos no fígado, são modificados por bactérias (como Bacteroides, Clostridium, Lactobacillus e Bifidobacterium), que contém enzimas como BSH. Produzem ácidos biliares secundários que atuam como sinalizadores metabólicos que interagem com receptores como FXR e TGR5, influenciando:

    • Inflamação sistêmica,

    • Metabolismo ósseo,

    • Regulação hormonal.

Hormônios e microbiota

O eixo intestino-osso é altamente influenciado por hormônios:

  • IGF-1: Essencial para o crescimento ósseo, seus níveis são maiores em animais com microbiota intacta. AGCC são capazes de aumentar o IGF-1 circulante, sugerindo que bactérias intestinais modulam esse hormônio anabólico.

  • Estrogênio: O microbioma regula sua ativação via enzimas como a β-glicuronidase. Uma microbiota desequilibrada reduz os níveis circulantes de estrogênio, contribuindo para a osteoporose. Probioticos como Lactobacillus e Bifidobacterium longum demonstraram efeitos protetores em modelos de osteopenia.

  • Andrógenos: Ainda em investigação, mas estudos sugerem que o microbioma pode influenciar os níveis de DHT, um andrógeno importante na manutenção da massa óssea.

  • Paratormônio (PTH): também conhecido como hormônio da paratireoide, é um regulador central do metabolismo do cálcio e da remodelação óssea. Sua função mais clássica é o aumento da concentração de cálcio no sangue. Mas, estudos mostram que o efeito anabólico do PTH depende da presença de AGCC, produzidos pela microbiota.

Microbiota, inflamação e perda óssea

A perda óssea associada à inflamação — típica da menopausa e do envelhecimento — é fortemente influenciada pelo microbioma. Em estados de disbiose (desequilíbrio microbiano), ocorre um aumento da ativação de células T pró-inflamatórias (como Th17), que produzem citocinas osteoclastogênicas como IL-17, TNF-α e RANKL, favorecendo a perda óssea. A ativação de receptores imunes como NOD1/NOD2 e TLR5 por componentes bacterianos estimula citocinas pró-osteoclastogênicas (como TNF-α e RANKL), promovendo a perda de densidade mineral óssea (DMO). Intervenções probióticas ou dietéticas que modulam essa resposta podem oferecer estratégias terapêuticas inovadoras.

Exercício físico: benefícios além da musculatura

A prática regular de atividade física melhora a DMO e reduz inflamação — e parte desse efeito pode ser mediado por alterações na microbiota intestinal. Camundongos mais ativos mostraram aumento de Bifidobacteriaceae, bactérias associadas à proteção contra perda óssea.

Embora menos estudado que o eixo intestino-osso, o eixo intestino-músculo também é promissor. Camundongos livres de germes ou tratados com antibióticos apresentam menor massa muscular e pior desempenho físico. A inoculação com cepas probióticas específicas ou o transplante de microbiota de humanos fisicamente ativos restaurou parcialmente a função muscular nesses animais. Estudos clínicos, como os que investigam o Bacillus coagulans, podem abrir portas para novas intervenções no envelhecimento saudável.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Dieta cetogênica para pacientes com diabetes tipo 1

Um dos maiores mitos da nutrição é o de que diabéticos tipo 1 precisam obrigatoriamente consumir e contar carboidratos. A insulina e a possibilidade de consumir qualquer coisa, de doces a tortas, sorvetes, bolos, aparentemente parecia uma libertação para o diabético. Bastava que comece o que quisesse, contasse carboidratos e aplicasse mais e mais insulina.

Só que décadas de acompanhamento de pacientes e pesquisas mostraram que quanto mais insulina o diabético aplica, mais seus riscos aumentam. Nos últimos anos, novas pesquisas vem mostrando que o que liberta mesmo o diabético da infinita contagem de carboidratos e de doenças crônicas é a restrição de carboidratos.

Recentemente conheci na Suiça a nutricionista Yvonne Reuter, diabética tipo 1 que segue a dieta cetogênica. Nesta entrevista, em inglês, Yvonne conta sua experiência e porque recomenda a dieta cetogênica para seus pacientes:

O que é a dieta cetogênica?

A dieta cetogênica, ou keto, é uma dieta com muito baixo teor de carboidratos e alto teor de gordura que demonstrou oferecer vários benefícios à saúde. Nos últimos anos surgiram estudos com a aplicação da dieta no tratamento do câncer, transtorno bipolar e reversão do declínio cognitivo. Em geral, estes pacientes mantém um consumo de carboidratos abaixo de 50 mg ao dia, para maior benefício.

Existem também muitos estudos com aplicação na prevenção e tratamento do diabetes tipo 2. O diabetes tipo 2 não deve ser confundido com diabetes tipo 1. No diabetes tipo 2 ainda há produção de insulina, apesar das células estarem resistentes ao hormônio.

O diabetes mellitus tipo 1 é uma condição crônica na qual o pâncreas produz pouca ou nenhuma insulina. Por isto, estes pacientes obrigatoriamente aplicar insulina exógena. O que a Yvonne relata no vídeo é que todo paciente tipo 1 deve conhecer sua necessidade basal de insulina. Ou seja, a quantidade de insulina que deve ser aplicada mesmo que o paciente não coma nada. Conhecendo-se esta necessidade basal é muito mais fácil iniciar e manter a dieta keto com segurança.

Quando o corpo não tem disponibilidade de carboidratos para produção de energia, começa a utilizar gorduras e a produzir corpos cetônicos, que passam a ser a principal fonte de energia das células.

Yvonne e outros pesquisadores são da linha que a dieta cetogênica é mais segura do que o consumo de carboidrato e aplicação de doses elevadas de insulina. Quando há um grande consumo de carboidratos e hiperglicemia, o risco de cetoacidose é maior. Na cetoacidose encontramos no plasma altos níveis de glicose (acima de 240mg/dL) e corpos cetônicos (frequentemente acima de 10 mmol/L podendo chegar a 25 mmol/L), além de pH sanguíneo abaixo de 7,3.

A cetoacidose diabética é uma emergência médica. É uma condição diferente da cetose nutricional, em que glicose está abaixo de 90 mg/dL e corpos cetônicos não costumam ultrapassar 3 mmol/L. A maioria dos profissionais trabalham com uma margem de segurança entre 0,6 e 1,5 mmol/L.

Foi demonstrado que a dieta cetogênica reduz significativamente os níveis de açúcar no sangue em pessoas com diabetes tipo 1 e 2, reduz os níveis de hemoglobina glicada, contribui para redução da adiposidade, para redução da quantidade de insulina a ser aplicada durante o dia em pelo menos 20 unidades.

Para que a estratégia seja segura o paciente deve monitorar várias vezes aos dia os níveis de glicose e corpos cetônicos no sangue. Sem isso, não há possibilidade da dieta cetogênica ser feita com segurança. O paciente deve ser supervisionado por equipe de endocrinologista e nutricionista para os ajustes na dieta e medicação.

APARELHOS PARA MONITORAÇÃO DE GLICOSE E CORPOS CETÔNICOS (BETA-HIDROXIBUTIRATO) NO SANGUE:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/