Dieta cetogênica e bipolaridade

Transtorno psiquiátrico que atinge entre 2 e 5% da população. O risco de desenvolvimento maior se existem outros casos na sua família. O transtorno apresenta-se em dois polos: depressão e fase de ativação (mania ou hipomania). Nem sempre a pessoa tem depressão (mas na maioria das vezes ocorre e em grande parte da vida). Pode passar apenas pela fase de ativação (mania ou hipomania).

Mania: fase de ativação na qual a pessoa fica mais agitada, com necessidade reduzida de sono, mais acelerada, a impulsividade aumenta (pode ser para comida, sexo, compras) cm exposição maior a riscos. O humor pode estar eufórico ou expansivo, mas é mais raro. A irritabilidade é que é mais comum.

Hipomania é uma fase de ativação menos intensa, menos óbvia e, por isso mesmo, é mais difícil de diagnosticar. A depressão é a fase de desativação, com energia mais baixa, humor mais deprimido ou anedonia.

Classificação do transtorno bipolar

Bipolar tipo 1 - 60% do tempo normal, 30% do tempo deprimido e 10% do tempo em mania. O contínuo de manifestações pode ser classsificado em gravidade leve, moderada, grave, com ou sem características psicóticas. Geralmente o paciente demora 10 anos para receber o diagnóstico adequado.

Bipolar tipo 2 - 50% do tempo com humor normal, 49% do tempo deprimido e 1% do tempo em hipomania. Muito fácil de confundir com depressão unipolar. O paciente pode levar até 18 anos para receber o diagnóstico, aumentando o sofrimento da pessoa e de seus familiares.

Ciclotimia - subtipo de transtorno do espectro bipolar no qual sintomas depressivos e maníacos subsindrômicos menos graves duram pelo menos 2 anos (1 ano em crianças). Está associada a maior cronicidade e resistência ao tratamento e níveis semelhantes de comprometimento em comparação com outros subtipos de transtorno do espectro bipolar.

Bipolaridade sem outra especificação - mais complexo de ser enxergado pois não se enquadra nos outros subtipos estabelecidos. Apesar de englobar a maior parte dos pacientes ainda faltam marcadores neurobiológicos para identificar melhor estes pacientes.

Diagnóstico do transtorno bipolar

Estudos tentam identificar genes e marcadores ômicos para facilitar o diagnóstico do transtorno bipolar. Contudo, atualmente estes marcadores não são suficientes para o diagnóstico, que continua sendo clínico, feito pelo psiquiatra (Muneer, 2020). O médico vai categorizar o paciente nos sintomas descritos pelo DSM-V.

Tratamento do transtorno bipolar

Certos medicamentos podem ajudar a controlar os sintomas do transtorno bipolar. Algumas pessoas podem precisar experimentar vários medicamentos diferentes antes de encontrar os que funcionam melhor. Os tipos mais comuns de medicamentos prescritos pelos médicos incluem estabilizadores de humor e antipsicóticos atípicos. Estabilizadores de humor, como lítio ou valproato, podem ajudar a prevenir episódios de humor ou reduzir sua gravidade. O lítio também pode diminuir o risco de suicídio.

Embora a depressão bipolar seja frequentemente tratada com medicação antidepressiva, um estabilizador de humor também deve ser tomado, pois um antidepressivo sozinho pode desencadear um episódio maníaco ou um ciclo rápido em uma pessoa com transtorno bipolar. Às vezes, medicamentos que visam o sono ou a ansiedade são adicionados aos estabilizadores de humor como parte de um plano de tratamento.

A eficácia clínica dos medicamentos varia com o tipo de transtorno e podem gerar efeitos colaterais com impactos cardiovasculares e metabólicos crônicos.

Os medicamentos são associados à psicoterapia. O tratamento visa ajudar uma pessoa a identificar e mudar emoções, pensamentos e comportamentos preocupantes. A psicoterapia também oferece apoio, educação, habilidades e estratégias para pessoas com transtorno bipolar e suas famílias.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é um tratamento importante para a depressão, e a TCC adaptada para o tratamento da insônia pode ser especialmente útil como um componente do tratamento da depressão bipolar.

Outros tratamentos

Abstenção de drogas, álcool, regulação do sono, estratégias de redução de estresse e dieta cetogênica são cada vez mais estudados para prevenção e também para tratamento do transtorno bipolar.

Dieta cetogênica e bipolaridade

A dieta cetogênica tem sido usada como uma intervenção eficaz para a epilepsia desde a década de 1920, mas tem atraído cada vez mais interesse para tratamento dos transtornos neuropsiquiátricos.

A dieta cetogênica reduz os carboidratos e aumenta a gordura na dieta. O objetivo é aumentar o uso da gordura e forçar as mitocôndrias a produzirem mais corpos cetônicos.

Os corpos cetônicos podem ser transportados diretamente para o cérebro e inseridos no ciclo de Krebs, para produção de energia. Além disso, estudos mostram que os corpos cetônicos imitam os efeitos farmacológicos dos estabilizadores de humor.

Estudos com modelos animais e humanos relataram um aumento na biogênese mitocondrial, um aumento na massa mitocondrial e um aumento na produção de energia após o tratamento com dieta cetogênica.

Esses estudos demonstraram que os efeitos da dieta cetogênica foram melhores quando o paciente foi introduzido à dieta logo no início de seu diagnóstico. Além disso, a cetose nutricional precisa ser mantida pelo período de seis meses para o alcance dos benefícios metabólicos de longo prazo.

Outro benefício do aumento de corpos cetônicos é o aumento de antioxidantes para combater o acúmulo de radicais livres no cérebro, os quais podem contribuir para danos neuronais e sintomas apresentados pelos pacientes.

Corpos cetônicos também ajudam a regular neurotransmissores. Os intermediários da cetose podem ter um papel na atenuação dos sintomas maníacos e depressivos potencialmente causados por interrupções nas vias neurais pela regulação de neurotransmissores.

Acredita-se que o mecanismo da cetose favoreça a liberação de glutamato do sistema nervoso, pois a diminuição dos níveis de glutamato foi associada à diminuição dos níveis de glicose e ao aumento dos níveis de GABA (relaxante).

A cetose nutricional tem sido associada a efeitos benéficos em larga escala na saúde metabólica, como perda de peso, regulação dos níveis de insulina, diminuição dos níveis de triglicerídeos e colesterol LDL (Yu, Oz, & Sethi, 2023).

Em um estudo piloto, 20 pacientes completaram protocolo dieta cetogênica modificada em 6 a 8 semanas. As leituras diárias médias de cetona no sangue foram de 1,3 mmol/L. Os pacientes mantiveram-se em cetose 91% do tempo, indicando alta adesão à dita. Onze eventos adversos leves foram registrados, incluindo fadiga, constipação, sonolência e fome. Um evento adverso grave foi relatado (cetoacidose euglicêmica em um participante que tomava medicação inibidora de SGLT2).

Assisti a palestra do Dr. Ian Campbell no congresso Keto Live na Suiça em junho de 2023. Uma das dificuldades do estudo é que os pacientes deveriam ter descontinuado a dieta para efeitos de comparação, mas a maioria não quis pois estavam sentindo-se muito melhor do que antes do experimento. Este estudo vai continuar e para acompanhar o desenrolar acesse https://www.bipolarketostudy.com/ e acompanhe o bipolarcast onde o Dr. Ian Campbell discute as atualizações da área, entrevista pacientes, pesquisadores e profissionais de saúde.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Arginina na nutrição de pacientes críticos

O aminoácido arginina desempenha um papel intrincado na cicatrização de feridas, produção de óxido nítrico, função, proliferação e maturação dos linfócitos T.

Todos esses três papéis fisiológicos são importantes para um paciente gravemente enfermo e, especialmente, para pacientes sépticos. As alterações metabólicas complexas observadas na sepse que contribuem para a redução da disponibilidade de citrulina e arginina sugerem que a suplementação de arginina poderia ser benéfica na população séptica altamente estressada.

Apesar disso, estudos não conseguiram demonstrar que a suplementação do aminoácido consiga reduzir mortalidade ou número de infecções em pacientes críticos.

Revisão publicada em 2016 mostrou que a suplementação de arginina não alterou a produção de óxido nítrico, apesar das evidências de que a sepse é um estado de deficiência de arginina. Por outro lado, a suplementação foi segura, não gerando alterações hemodinâmicas, mesmo em doses altas (Rosenthal et al., 2016).

Um ensaio clínico aleatorizado publicado em 2020 comparou pacientes criticamente enfermos com diagnóstico de choque séptico que tomaram um placebo, L-arginina-HCL ou L-alanina. Não houve diferença significativa entre os grupos em relação à microcirculação, parâmetros de perfusão da pele, na hemodinâmica global e no metabolismo de proteínas.

Os autores concluíram que a administração intravenosa prolongada de L-arginina não melhora a perfusão local e a função do órgão, apesar de um aumento na síntese de óxido nítrico. Como houve aumento da pressão intra-abdominal no grupo suplementado com arginina, os autores recomendam aplicação cuidadosa e pesquisas adicionais, especialmente no estágio inicial do choque séptico (Luiking, Poeze, & Deutz, 2020).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

AUTOFAGIA COMO ESTRATÉGIA ANTIENVELHECIMENTO NA SÍNDROME DE DOWN?

Apesar da expectativa média de vida das pessoas com Síndrome de Down ter aumentado muito nas últimas décadas, o risco de Alzheimer precoce permanece alto devido à superexpressão de genes que aumentam a inflamação, o estresse oxidativo, a glicação e o acúmulo de amilóide no cérebro.

Estudos vêm focado no processo de autofagia, um mecanismo de autodestruição controlada de partes de células danificadas, por bactérias, vírus, por compostos tóxicos produzidos pela própria célula, por danos induzidos pelo envelhecimento. Estas células são entregues a lisossomos que digerem o que o corpo não precisa mais. Isso é muito importante principalmente para células com pode de regeneração limitada, como neurônios. Um cientista da Bélgica, Christian de Duve, foi a responsável pela descoberta dos lisossomos. Foi também o responsável pelo entendimento da autofagia.

Alterações no processo de autofagia podem acelerar o envelhecimento e aumentar o risco de neurodegeneração. Por outro lado, a autofagia é essencial para a plasticidade cerebral, necessária para a memória e o aprendizado.

O gene APP, no cromossomo 21 está superexpresso na síndrome de Down e é um provável contribuinte da autofagia deficiente em pessoas com trissomia do cromossomo 21 (Colacurcio et al., 2018).

Alterações na expressão de outros genes podem também comprometer a autofagia, incluindo mTOR, que leva a maior acúmulo de mitocôndrias danificadas e contribui para o Alzheimer em pessoas com síndrome de Down (Domenico et al., 2018; Bordi et al., 2019).

Em 2016, o cientista japonês Yoshinori Ohsumi descobriu que o processo de autofagia era ativado nas leveduras na falta de nutrientes. Algo parecido acontece dentro de nossa células. A partir destes achados pesquisas começaram a surgir para tentar identificar como apoiar a autofagia.

Alguns pesquisadores defendem que a restrição calórica priva a célula de nutrientes e contribui para o processo de autofagia (Jamshed et al., 2019; Erlangga et al., 2023). Mas… deixar criança em jejum? Não precisa, até porque não temos estudos de quanto, como, pra quem, por quanto tempo. Mas também não dá para alimentar toda hora, sem a criança estar com fome e com um monte de porcarias ou excesso de carboidratos. Afinal, elevação da quantidade de glicose no sangue, dispara a insulina, que por sua vez desacelera a autofagia (Møller et al., 2018).

A suplementação de resveratrol vem sendo investigada para ativação de genes que melhoram a autofagia (Tian et al., 2019; Kou, & Ning Chen, 2017; Pineda-Ramírez, & Penélope Aguilera, 2021). Com certeza veremos mais estudos no futuro e esperamos entender mais os efeitos no cérebro da população típica e não típica.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/