O acidente vascular cerebral (AVC) constitui a segunda causa de mortalidade e a principal causa de incapacidade adquirida em adultos no mundo, com estimativa de 12,2 milhões de novos casos anuais. Apesar dos avanços em recanalizações agudas — trombolíticos e trombectomia mecânica — a maioria dos sobreviventes apresenta sequelas neurológicas persistentes, com custos humanos e econômicos expressivos.
Um paradoxo clínico bem estabelecido é a variabilidade de desfechos funcionais entre pacientes com perfis de lesão aparentemente similares. Dois pacientes com infartos de volume e topografia comparáveis podem apresentar trajetórias completamente distintas de recuperação motora, cognitiva e de linguagem. Esta heterogeneidade sugere a existência de determinantes biológicos individuais da neuroplasticidade, entre os quais os fatores genéticos ocupam papel cada vez mais reconhecido.
Genes envolvidos na neuroplasticidade pós-AVC
Por que pacientes com lesões cerebrais semelhantes podem apresentar recuperações tão diferentes?
A resposta pode estar, em parte, na genética da neuroplasticidade. Genes como BDNF, COMT, APOE e DRD2 estão associados a mecanismos que influenciam plasticidade cerebral, neurotransmissão, cognição e resposta à reabilitação.
🔬 BDNF Val66Met: pode modificar a plasticidade dependente de atividade e está associado a diferenças na recuperação motora e cognitiva.
🧠 COMT Val158Met: modula a disponibilidade de dopamina no córtex pré-frontal e pode influenciar a resposta ao treinamento cognitivo e motor.
🧬 APOE ε4: relaciona-se a maior vulnerabilidade cognitiva e pode influenciar a recuperação após o AVC.
⚡ DRD2: variantes relacionadas à sinalização dopaminérgica podem modificar a resposta a estratégias de reabilitação assistida por fármacos.
O próximo passo é integrar genômica + proteômica + metabolômica + dados clínicos para identificar, de forma mais precisa, quem pode responder melhor a diferentes estratégias de reabilitação.
Isso abre caminho para uma reabilitação personalizada de precisão em que intensidade, modalidade e estratégias terapêuticas sejam cada vez mais orientadas pelas características biológicas individuais.
