A síndrome dos ovários policísticos (SOP) está recebendo um novo nome. Isto porque a questão vai muito além dos ovários. A síndrome pode envolver inflamação, resistência insulínica, alterações de saciedade, estresse oxidativo, ritmo circadiano, metabolismo energético…
Assim, bem mais do que uma simples atualização de nomenclatura, é entender que precisamos olhar a mulher como um todo. Por isso, um artigo publicado na revista The Lancet em 2026, devemos agora usar SOMP: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome).
Muitas pacientes permanecem anos em acompanhamento sem melhora metabólica, hormonal ou sintomática consistente, mesmo seguindo protocolos considerados “padrão”. Não podemos reduzir condições complexos.
O consenso internacional publicado no The Lancet reconhece que a nomenclatura anterior obscurecia componentes metabólicos, endócrinos e sistêmicos centrais da condição. Precisamos pensar em quais sistemas biológicos estão desregulados e como interagem entre si.
Isso muda completamente a forma de pensar diagnóstico, prognóstico e tratamento. Mulheres com apresentações clínicas semelhantes podem possuir arquiteturas biológicas radicalmente diferentes sustentando o mesmo fenótipo clínico.
Em algumas, há predomínio inflamatório, envolvendo vias relacionadas a TNF, IL6, CRP e NLRP3. Em outras, predominam alterações metabólicas importantes, associadas a genes como INSR, IRS1, TCF7L2, PPARG, FTO, LEPR, LEP, MC4R, THADA e ADIPOQ.
Outros grupos podem apresentar hiperatividade do eixo LH-androgênios, envolvendo genes como DENND1A, LHCGR, LHB, FSHR, CYP19A1, CYP17A1, CYP11A1, HSD3B2, AR, SHBG, KISS1, KISS1R e GNRHR.
Também podem coexistir alterações circadianas (MTNR1B, CLOCK, PER3, CRY1), hiperfagia (LEP, LEPR, MC4R, POMC, PCSK1), impulsividade alimentar (DRD2, DRD4, DAT1/SLC6A3, COMT) e sofrimento neuropsíquico relevante envolvendo vias serotoninérgicas, dopaminérgicas e do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, incluindo SLC6A4, HTR2C, FKBP5, NR3C1 e BDNF.
Talvez seja justamente por isso que abordagens padronizadas falhem com tanta frequência. A medicina e nutrição de precisão começa exatamente nesse ponto: quando entendemos que o mesmo rótulo clínico pode emergir de mecanismos fisiológicos completamente distintos.
E talvez o aspecto mais importante dessa mudança seja este:
o reconhecimento formal de que simplificamos excessivamente condições biologicamente complexas. Já fez seu teste genético?
Referências
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