MAESTROS DO INTESTINO

O artigo "GLP-1 and GLP-2 Orchestrate Intestine Integrity, Gut Microbiota, and Immune System Crosstalk", publicado na revista Microorganisms (2022), oferece uma visão de como os hormônios derivados do intestino, especificamente o GLP-1 e o GLP-2, atuam como maestros na regulação da saúde intestinal e sistêmica.

O Papel dos Peptídeos GLP-1 e GLP-2

O intestino é considerado a maior glândula endócrina do corpo. As células L (localizadas principalmente no íleo e cólon) secretam GLP-1 e GLP-2 em resposta à ingestão de nutrientes.

  • GLP-1: Importante no metabolismo da glicose, inibição do esvaziamento gástrico, supressão do glucagon e controle do apetite via eixo intestino-cérebro.

  • GLP-2: Fundamental para a saúde intestinal. Promove a proliferação de células das criptas, expansão das células-tronco intestinais e crescimento da mucosa, sendo vital para a absorção de nutrientes.

Orquestração da Barreira Intestinal e Imunidade

O artigo destaca que esses peptídeos não apenas regulam o açúcar no sangue, mas são fundamentais para a integridade da barreira:

  • Integridade: O GLP-2, especificamente, fortalece as junções de oclusão (tight junctions), reduzindo a permeabilidade intestinal (o "leaky gut").

  • Imunidade: As células enteroendócrinas (EECs) possuem receptores (como TLRs) que detectam padrões moleculares de bactérias (MAMPs). O GLP-1 e o GLP-2 ajudam a mediar a resposta imune contra patógenos enquanto mantêm a tolerância aos comensais benéficos, reduzindo a inflamação na lâmina própria.

O "Crosstalk" com a Microbiota (Relação Biunívoca)

Existe uma via de mão dupla entre as bactérias e esses hormônios:

  • Microbiota estimulando Hormônios: Metabólitos bacterianos, especialmente os Ácidos Graxos de Cadeia Curta (AGCCs) como acetato, propionato e butirato, ativam receptores (FFAR2 e FFAR3) nas células L para aumentar a secreção de GLP-1.

  • Hormônios moldando a Microbiota: O uso de agonistas de GLP-1 (como a liraglutida) altera a composição bacteriana. Estudos em animais mostraram que esses medicamentos aumentam a proporção de Bacteroidetes/Firmicutes e favorecem gêneros como Akkermansia e Lactobacillus, associados a um perfil metabólico mais magro e saudável.

Aplicações Clínicas e Síndrome Metabólica

O artigo discute como a disbiose (desequilíbrio da microbiota) leva à redução da secreção desses peptídeos, o que agrava a inflamação sistêmica e a resistência à insulina.

  • Prebióticos e Probióticos: São citados como ferramentas para elevar naturalmente os níveis de GLP-1 e PYY, melhorando a saciedade e a saúde metabólica.

  • Doenças Inflamatórias (DII): O GLP-2 é visto como um alvo terapêutico promissor para restaurar a mucosa em pacientes com Doença de Crohn ou Colite, devido ao seu efeito regenerador.

A saúde intestinal e metabólica depende de um equilíbrio delicado onde o GLP-1 e o GLP-2 servem como ponte entre os sinais nutricionais, o sistema imunológico e a microbiota. Intervenções que protegem a função das células L ou mimetizam esses hormônios têm efeitos sistêmicos que vão muito além do controle do diabetes, atingindo a integridade estrutural do intestino.

🍎 Aplicação Prática

A disbiose reduz a secreção desses hormônios, gerando resistência à insulina e inflamação. Mas temos ferramentas:

  • Prebióticos: Não servem só para "soltar o intestino"! Eles sinalizam a produção de GLP-1 natural — o mesmo hormônio que medicamentos modernos imitam para controle de peso.

  • Saúde Sistêmica: Cuidar desses hormônios é estratégico para tratar desde diabetes até doenças inflamatórias intestinais (Crohn e Colite).

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/