A lactase é tradicionalmente descrita como a enzima responsável pela hidrólise da lactose em glicose e galactose na borda em escova dos enterócitos. No entanto, do ponto de vista bioquímico, ela integra o complexo enzimático lactase-phlorizin hydrolase, uma β-glicosidase com especificidade de substrato muito mais ampla do que apenas a lactose.
A função pouco discutida
A lactase-phlorizin hydrolase apresenta atividade sobre diversos glicosídeos vegetais. Muitos polifenóis presentes em frutas, especialmente flavonoides como quercetina, isoflavonas e algumas antocianinas, encontram-se na forma glicosilada. Nessa estrutura, o núcleo fenólico está ligado a um ou mais açúcares.
Essa forma glicosilada geralmente possui menor capacidade de atravessar a membrana apical do enterócito. A clivagem do resíduo de glicose pela lactase libera a aglicona, estruturalmente mais lipofílica, favorecendo absorção por difusão passiva ou posterior metabolização intracelular.
Estudos in vitro com modelos de células Caco-2 demonstram que a hidrólise enzimática por lactase aumenta significativamente a captação de flavonoides como a quercetina quando comparada à forma intacta glicosilada. Esse mecanismo não substitui a ação da microbiota colônica, mas pode antecipar a biodisponibilidade já no intestino delgado.
O desafio da absorção de polifenóis
A biodisponibilidade de polifenóis é notoriamente baixa. Parte relevante desse fenômeno decorre da dependência de processos de deglicosilação. Quando a hidrólise na borda em escova é reduzida, maior fração do composto alcança o cólon intacta, onde será metabolizada por bactérias. Isso altera o perfil de metabólitos circulantes e pode modificar a magnitude e o tipo de resposta biológica sistêmica.
Portanto, a atividade da lactase não impacta apenas sintomas gastrointestinais, mas também a cinética de absorção de fitoquímicos.
A diferença genética
A persistência ou não da lactase na vida adulta é determinada por polimorfismos na região regulatória do gene LCT. Indivíduos com genótipos associados à não persistência apresentam redução progressiva da expressão enzimática após o desmame.
Dados observacionais indicam que portadores de genótipos de baixa atividade apresentam menores concentrações plasmáticas de metabólitos derivados de determinados flavonoides após ingestão alimentar equivalente. Isso sugere que a variabilidade genética pode modular a resposta metabólica a alimentos ricos em polifenóis.
É importante enfatizar que a literatura ainda é heterogênea e que múltiplos fatores interferem na biodisponibilidade, incluindo matriz alimentar, microbiota intestinal, atividade de transportadores e fase II hepática. Contudo, a expressão de lactase surge como uma variável adicional relevante.
Implicações práticas
A consequência clínica potencial é que indivíduos com baixa atividade de lactase podem apresentar menor eficiência na absorção inicial de alguns polifenóis glicosilados. Isso não implica ausência de benefício, mas possível diferença quantitativa ou qualitativa na resposta metabólica.
Essa evidência reforça o conceito de Nutrição de Precisão. Polimorfismos que tradicionalmente eram associados apenas à intolerância à lactose podem ter repercussões mais amplas na interação entre dieta e metabolismo.
Avaliar genética, sintomas, padrão alimentar e contexto clínico permite estratégias mais individualizadas, seja por ajuste dietético, modulação da microbiota ou uso criterioso de suplementação.
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