Você já ouviu falar de casos onde um jovem saudável morre subitamente e a autópsia diz que "está tudo normal"? Isso é mais comum do que se imagina. Cerca de 40% das mortes súbitas inesperadas em pessoas com menos de 35 anos apresentam uma autópsia negativa.
Mas como isso é possível? A resposta está na diferença entre estrutura e eletricidade:
1️⃣ O problema é invisível a olho nu: As autópsias tradicionais buscam defeitos estruturais (como um músculo cardíaco muito grosso ou artérias entupidas). No entanto, em muitos jovens, isto raramente é encontrado. A causa é uma canalopatia — uma doença elétrica primária.
2️⃣ Defeito molecular: Nessas condições, o coração é anatomicamente perfeito, mas existem falhas microscópicas nos canais iônicos (as "portas" de sódio, potássio e cálcio das células). É como um carro com o motor visualmente novo, mas com uma falha oculta na fiação elétrica.
3️⃣ Síndrome da Morte Arritmogênica Súbita (SADS): Quando a causa permanece incerta após o exame físico, usamos o termo SADS. As principais suspeitas são síndromes como o QT Longo, Brugada e a TVPC.
A solução? A Autópsia Molecular. 🧬 O teste genético post-mortem consegue identificar a causa da morte em 20% a 30% dos casos de SADS.
Por que isso importa? Identificar o gene exato não serve apenas para dar um nome à tragédia, mas para salvar os familiares que estão vivos. Se a causa foi genética, irmãos e pais podem ter a mesma mutação e precisam de acompanhamento para evitar que o mesmo aconteça com eles.
As canalopatias e miocardiopatias cardíacas envolvem uma vasta gama de genes que codificam canais iónicos ou proteínas reguladoras, sendo que a identificação destas mutações é crucial para o diagnóstico e estratificação de risco.
Abaixo estão detalhados alguns genes importantes nas canalopatias.
1. Canal de Sódio Cardíaco (Nav1.5) e Proteínas Relacionadas
O gene SCN5A é o principal responsável pela codificação da subunidade α do canal de sódio cardíaco (Nav1.5), desempenhando um papel central na excitabilidade elétrica do coração. Mutações neste gene podem causar tanto perda quanto ganho de função, resultando em fenótipos variados.
SCN5A: Associado à Síndrome de Brugada (20-30% dos casos), Síndrome do QT Longo Tipo 3 (5-10%), doença do nó sinusal, fibrilhação auricular e cardiomiopatia dilatada.
Subunidades β e outras: Os genes SCN1B, SCN2B, SCN3B e SCN4B codificam subunidades auxiliares que modulam a função do canal de sódio. Outras proteínas interatuantes incluem a caveolina-3 (CAV3), a sintrofina α (SNTA1) e o gene GPD1L. Embora a subunidade α seja a principal responsável pela condução dos iões, as subunidades β desempenham papéis reguladores fundamentais para a função elétrica correta do coração.
2. Síndrome do QT Longo (SQTL)
A SQTL é geneticamente heterogênea, com pelo menos 15 genes identificados, mas três genes principais respondem por aproximadamente 75% dos casos clínicos:
KCNQ1 (SQTL1): Envolvido em 30-55% dos casos; os eventos são frequentemente desencadeados por exercício físico, especialmente natação.
KCNH2 (SQTL2): Envolvido em 25-45% dos casos; os gatilhos comuns incluem ruídos súbitos ou despertar noturno.
SCN5A (SQTL3): Representa 5-10% dos casos; as arritmias ocorrem tipicamente em repouso ou durante o sono.
Genes raros: Incluem KCNJ2 (Andersen-Tawil), CACNA1C (Timothy) e os genes da calmodulina (CALM1, CALM2, CALM3).
3. Síndrome de Brugada (SBr)
Embora a SBr apresente elevada complexidade genética, o diagnóstico genético positivo é encontrado em apenas 30-35% dos indivíduos.
SCN5A: Continua a ser o gene mais frequentemente mutado (11-28% dos pacientes).
Já foram descritas mais de 300 mutações diferentes apenas no gene SCN5A. Essas mutações localizam-se preferencialmente nos segmentos transmembranares e nos poros do canal, mas podem ocorrer em qualquer parte da proteína.
SCN10A: Recentemente identificado como um gene de suscetibilidade relevante (5-17%).
Canais de Cálcio: Mutações nos genes CACNA1C, CACNB2B e CACNA2D1 também foram descritas.
4. Taquicardia Ventricular Polimórfica Catecolaminérgica (TVPC)
Esta síndrome manifesta-se por arritmias induzidas por estresse emocional ou exercício.
RYR2: Gene do recetor de rianodina cardíaco, responsável por 60-65% dos casos (hereditariedade autossómica dominante).
CASQ2: Codifica a calsequestrina; mutações são raras (<5%) e geralmente de transmissão recessiva.
5. Miocardiopatias e Outras Condições
As miocardiopatias envolvem genes que codificam proteínas do sarcómero, do desmossoma ou do citoesqueleto.
Miocardiopatia Hipertrófica (MCH): Os genes mais comuns são o MYBPC3 (30-40%) e o MYH7 (20-30%).
Miocardiopatia Dilatada (MCD): O gene TTN (titina) é responsável por cerca de 25% dos casos familiares.
Miocardiopatia Arritmogénica (MAVD): Mutações em genes desmossómicos como PKP2 (25-40%), DSG2, DSP e DSC2 são predominantes.
Hipercolesterolemia Familiar (FH): Envolve principalmente os genes LDLR, APOB e PCSK9.
Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP): O gene BMPR2 é o principal fator genético (70-80% dos casos hereditários).
Para compreender o papel destes genes, imagine que o coração é uma orquestra altamente sincronizada: os genes funcionam como as partituras que instruem cada instrumento (canais iónicos) sobre quando e com que intensidade tocar. Se houver um erro na partitura (mutação), um instrumento pode tocar fora do tempo ou com volume inadequado, desafinando toda a sinfonia e gerando o que clinicamente chamamos de arritmia.
Recomendações das Diretrizes
As diretrizes internacionais recomendam que o teste genético seja abrangente ou especificamente dirigido ao sequenciamento completo dos genes principais (como KCNQ1, KCNH2 e SCN5A) em casos de forte suspeita clínica.

