Terapia hormonal na menopausa

A intensidade dos sintomas da menopausa varia muito entre as mulheres porque a transição menopausal não depende apenas da queda dos níveis de estrogênio. Ela envolve a interação entre genética, neurobiologia, metabolismo, composição corporal, ambiente, histórico reprodutivo e capacidade individual de adaptação às alterações hormonais. Mais sobre o tema aqui.

Ondas de calor, suores noturnos, alterações do sono, irritabilidade e dificuldades cognitivas, quando acontecem, podem comprometer significativamente a qualidade de vida. Apesar disso, durante muitos anos, a terapia hormonal foi cercada por receios, muitas vezes levando mulheres a conviver com sintomas sem receber tratamento adequado.

Em outubro de 2026, o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), uma das principais organizações de ginecologia e obstetrícia dos Estados Unidos, publicou novas diretrizes clínicas para o tratamento dos sintomas relacionados à menopausa. A atualização representa uma mudança importante na abordagem terapêutica: a terapia hormonal da menopausa passa a receber recomendação forte para mulheres com sintomas vasomotores, desde que não apresentem contraindicações.

A mensagem central é que a terapia hormonal não deve ser descartada de forma generalizada por causa da idade ou do medo dos riscos. A decisão precisa considerar o momento da menopausa, o histórico clínico e o perfil individual de cada mulher.

Por que a terapia hormonal voltou a ser discutida?

A controvérsia ganhou força em 2002, com a divulgação dos primeiros resultados do estudo Women's Health Initiative (WHI). Os resultados apontaram aumento de determinados riscos, incluindo câncer de mama e eventos cardiovasculares, em mulheres que utilizavam algumas formulações hormonais.

A divulgação desses dados provocou uma redução expressiva na prescrição de hormônios. Entretanto, análises posteriores mostraram que a interpretação dos resultados precisava considerar fatores importantes, como:

  • A idade das participantes no início do tratamento.

  • O tempo transcorrido desde a menopausa.

  • O tipo de hormônio utilizado.

  • A via de administração.

  • A presença ou ausência do útero.

  • O histórico individual de doenças cardiovasculares e câncer.

Uma questão particularmente importante foi a idade das mulheres incluídas no WHI. Grande parte das participantes tinha mais de 60 anos, e muitas estavam há mais de dez anos na menopausa quando iniciaram o tratamento.

Isso não significa que os resultados do WHI devam ser desconsiderados. Significa que não podemos aplicar os riscos observados indiscriminadamente a todas as mulheres, independentemente da idade e do contexto clínico.

A avaliação atual considera que o balanço entre benefícios e riscos é geralmente mais favorável quando a terapia é iniciada antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa.

O que muda com as novas diretrizes de 2026?

A nova recomendação do ACOG dá maior respaldo à terapia hormonal sistêmica para mulheres com sintomas vasomotores, especialmente ondas de calor e suores noturnos, além dos distúrbios do sono relacionados a esses sintomas.

Entre os principais pontos estão:

Terapia hormonal como opção de primeira linha

Para mulheres sem contraindicações, a terapia hormonal recebe recomendação forte para o controle dos sintomas vasomotores e das alterações do sono associadas.

A idade e o momento de início importam

O início antes dos 60 anos ou até dez anos após a menopausa apresenta, em geral, uma relação benefício-risco mais favorável.

Não existe mais uma regra universal de duração máxima

A antiga orientação de utilizar sempre a menor dose pelo menor tempo possível deixa de ser uma regra aplicável indistintamente. A duração deve ser individualizada, com reavaliações periódicas dos sintomas e dos riscos.

Existem alternativas não hormonais

Mulheres que não podem utilizar hormônios ou que preferem outras abordagens também dispõem de tratamentos farmacológicos e não farmacológicos com evidências científicas.

Estrogênio isolado ou associado à progesterona?

A escolha da composição hormonal depende principalmente da presença ou ausência do útero.

  • Mulheres com útero: precisam associar um progestagênio ao estrogênio sistêmico. Essa associação protege o endométrio contra a estimulação estrogênica excessiva e reduz o risco de hiperplasia e câncer endometrial.

  • Mulheres submetidas à histerectomia: geralmente podem utilizar estrogênio isolado, desde que não existam outras contraindicações.

É importante não confundir progesterona micronizada com todos os progestagênios sintéticos. Embora tenham funções relacionadas, apresentam diferenças farmacológicas e podem ter perfis de efeitos metabólicos e biológicos distintos.

A escolha deve considerar a tolerabilidade, o histórico clínico e os objetivos terapêuticos.

Adesivo, gel ou comprimido: a via de administração faz diferença?

Sim. A via de administração é um dos aspectos importantes na avaliação da segurança da terapia hormonal.

O estrogênio administrado por via oral passa inicialmente pelo fígado, fenômeno conhecido como primeira passagem hepática. Esse processo pode modificar a síntese de proteínas envolvidas na coagulação e aumentar o risco de tromboembolismo venoso.

Já o estradiol transdérmico, administrado por adesivos, géis ou sprays, evita essa primeira passagem hepática.

Estudos observacionais indicam que a via transdérmica apresenta menor associação com tromboembolismo venoso do que a via oral.

Isso não significa que o estradiol transdérmico seja isento de riscos. A escolha depende do histórico de trombose, risco cardiovascular, perfil metabólico, enxaqueca, função hepática e outras características individuais.

Para muitas mulheres, a via transdérmica merece ser considerada na avaliação médica.

5. Terapia hormonal e risco de câncer de mama

Esse é provavelmente um dos temas que mais geram dúvidas.

O risco não é igual para todas as formulações hormonais.

Os estudos do WHI demonstraram diferenças importantes entre o uso de estrogênio isolado e a associação de estrogênio com acetato de medroxiprogesterona, a formulação utilizada naquele braço do estudo.

No acompanhamento de longo prazo, o estrogênio isolado, utilizado por mulheres histerectomizadas, esteve associado a menor incidência e mortalidade por câncer de mama. Já a combinação estudada apresentou aumento da incidência de câncer de mama.

Entretanto, esses resultados não devem ser extrapolados automaticamente para todas as combinações hormonais, especialmente aquelas que utilizam progesterona micronizada.

Também é necessário considerar fatores individuais, como histórico familiar, densidade mamária, obesidade, consumo de álcool e antecedentes pessoais.

Mulheres com histórico de câncer de mama ou outros tumores hormônio-dependentes precisam de avaliação especializada. Em determinadas situações, a terapia hormonal sistêmica pode não ser recomendada.

E quando a mulher não pode ou não deseja utilizar hormônios?

As novas diretrizes também reconhecem alternativas farmacológicas não hormonais.

Entre elas estão:

  • Antidepressivos ISRS e IRSN: determinadas formulações podem reduzir a frequência e a intensidade dos sintomas vasomotores.

  • Fezolinetant: atua nos receptores de neurocinina 3 (NK3), modulando os circuitos hipotalâmicos envolvidos na regulação da temperatura corporal.

  • Elinzanetant: atua nos receptores de neurocinina 1 e 3 (NK1 e NK3), com resultados positivos também para alterações do sono.

  • Gabapentina: pode ser considerada especialmente quando os sintomas noturnos comprometem o sono.

O fezolinetant e o elinzanetant representam um avanço interessante porque atuam em mecanismos neurobiológicos envolvidos nas ondas de calor, sem a necessidade de administrar estrogênio.

Esses medicamentos exigem avaliação de contraindicações, interações e monitoramento de segurança, incluindo atenção à função hepática.

O papel da nutrição e do estilo de vida na menopausa

Embora a terapia hormonal seja uma das intervenções mais eficazes para os sintomas vasomotores, ela não substitui as estratégias nutricionais e comportamentais necessárias para preservar a saúde durante o envelhecimento.

A menopausa é acompanhada por modificações metabólicas que podem favorecer:

  • Aumento da adiposidade abdominal.

  • Redução da massa muscular.

  • Resistência à insulina.

  • Alterações no perfil lipídico.

  • Maior risco de doença cardiovascular.

  • Redução da densidade mineral óssea.

Nesse contexto, a abordagem nutricional precisa considerar não apenas o peso corporal, mas também a composição corporal, a sensibilidade à insulina, a saúde óssea e o risco cardiometabólico.

Algumas estratégias importantes incluem:

  • Proteína adequada: a ingestão proteica deve ser suficiente para preservar a massa muscular, especialmente quando associada ao treinamento resistido.

  • Treinamento de força: é fundamental para a manutenção da massa muscular, da força, da funcionalidade e da saúde óssea.

  • Qualidade dos carboidratos: priorizar alimentos ricos em fibras, leguminosas, vegetais e grãos integrais pode contribuir para melhorar a resposta glicêmica e o perfil metabólico.

  • Gorduras alimentares: priorizar fontes de gorduras insaturadas, como azeite, oleaginosas, sementes e peixes, favorece a qualidade global da alimentação.

  • Sono e ritmo circadiano: a regularidade dos horários, a exposição à luz natural e a redução de estímulos luminosos à noite podem contribuir para a organização do ciclo sono-vigília.

  • Saúde intestinal: uma alimentação diversificada, rica em fibras e alimentos vegetais, favorece a diversidade microbiana intestinal e a produção de metabólitos relacionados à saúde metabólica.

É importante destacar que a nutrição e os suplementos não substituem a terapia hormonal quando esta está clinicamente indicada.

Da mesma forma, isoflavonas de soja e fitoterápicos não devem ser considerados equivalentes ao estradiol. As novas diretrizes não encontraram evidências suficientes para recomendar suplementos de fitoestrogênios ou ervas como tratamento comprovado dos sintomas vasomotores.

Menopausa, tireoide e metabolismo: uma interação que merece atenção

Mulheres com hipotireoidismo, especialmente aquelas em tratamento com levotiroxina, precisam de atenção adicional ao iniciar uma terapia hormonal.

O estrogênio oral aumenta a concentração de globulina ligadora de tiroxina (TBG), proteína que transporta os hormônios tireoidianos no sangue. Consequentemente, pode haver redução da fração livre de T4 e necessidade de ajuste da dose de levotiroxina.

Esse efeito é menos pronunciado com o estradiol transdérmico, que apresenta menor impacto sobre a TBG.

Por isso, mulheres que utilizam levotiroxina devem ter a função tireoidiana reavaliada após o início, a suspensão ou a mudança da via de administração do estrogênio.

A avaliação de TSH e T4 livre é particularmente importante nos primeiros meses após essas mudanças.

A terapia hormonal previne doenças cardiovasculares ou demência?

Não. Essa distinção é fundamental.

Embora existam estudos investigando os efeitos dos hormônios sobre o metabolismo, o sistema cardiovascular e o cérebro, a terapia hormonal da menopausa não deve ser prescrita com o objetivo exclusivo de prevenir doenças cardiovasculares, demência ou declínio cognitivo.

Seu principal benefício estabelecido é o tratamento dos sintomas da menopausa, especialmente os vasomotores.

A possível melhora do sono, da disposição e da qualidade de vida pode produzir benefícios indiretos importantes, mas não deve ser confundida com prevenção comprovada de doenças neurodegenerativas.

O que ainda precisa ser individualizado?

As novas recomendações não significam que todas as mulheres devam utilizar hormônios.

Antes de iniciar o tratamento, é necessário avaliar:

  1. Idade e tempo transcorrido desde a última menstruação.

  2. Intensidade e impacto dos sintomas.

  3. Histórico pessoal e familiar de câncer de mama e endométrio.

  4. Antecedentes de trombose, embolia pulmonar e acidente vascular cerebral.

  5. Risco cardiovascular e perfil metabólico.

  6. Função hepática e outros problemas clínicos relevantes.

  7. Presença ou ausência do útero.

  8. Preferências e objetivos da mulher.

A presença de sangramento uterino inesperado ou persistente durante a terapia exige investigação.

Também é necessário realizar acompanhamento periódico para verificar a eficácia, a tolerabilidade e a necessidade de manter ou modificar o tratamento.

O objetivo não é simplesmente repor hormônios. É compreender as mudanças fisiológicas da menopausa e oferecer intervenções adequadas para que cada mulher atravesse essa fase com saúde, autonomia e qualidade de vida.

Referências

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/