Causas das variações de sintomas na menopausa

A intensidade dos sintomas da menopausa varia muito entre as mulheres porque a transição menopausal não depende apenas da queda dos níveis de estrogênio. Ela envolve a interação entre genética, neurobiologia, metabolismo, composição corporal, ambiente, histórico reprodutivo e capacidade individual de adaptação às alterações hormonais.

Duas mulheres podem apresentar concentrações semelhantes de estradiol e FSH e ter experiências completamente diferentes. Uma pode atravessar a menopausa praticamente sem sintomas, enquanto outra apresenta ondas de calor intensas, insônia, ansiedade, alterações de humor, dificuldades cognitivas e dores articulares.

Essa diferença é particularmente interessante porque demonstra que a concentração hormonal não determina, isoladamente, a intensidade dos sintomas. A sensibilidade dos tecidos e a resposta do organismo à mudança hormonal também importam.

1. Genética: por que algumas mulheres são mais sensíveis à queda do estrogênio?

A genética pode influenciar tanto a produção e o metabolismo dos hormônios quanto a sensibilidade dos tecidos à sua ação.

Alguns genes investigados nesse contexto incluem:

  • ESR1 e ESR2: codificam os receptores de estrogênio alfa e beta, respectivamente. Variantes nesses genes podem influenciar a sinalização estrogênica.

  • COMT: participa do metabolismo das catecolaminas e dos estrogênios. Sua atividade pode modificar a disponibilidade de determinados metabólitos.

  • CYP1A1, CYP1B1 e CYP3A4: participam de diferentes etapas do metabolismo dos estrogênios.

  • CYP19A1: codifica a aromatase, enzima responsável pela conversão de androgênios em estrogênios.

  • SHBG: influencia a quantidade de hormônios sexuais disponíveis na circulação.

Entretanto, é importante fazer uma ressalva: embora existam associações entre variantes genéticas e características da menopausa, ainda não existe um painel genético validado capaz de prever individualmente a intensidade dos sintomas ou indicar quem precisará de terapia hormonal.

2. O hipotálamo: o centro de controle das ondas de calor

Uma das explicações mais interessantes está no hipotálamo, região cerebral responsável por regular a temperatura corporal, o sono, o apetite e diversas funções hormonais.

Com a redução do estradiol, ocorre uma alteração na atividade de neurónios especializados chamados neurónios KNDy, assim denominados porque produzem três neuropeptídeos:

  • Kisspeptina (KISS1).

  • Neuroquinina B (NKB).

  • Dinorfina.

Esses neurônios estão localizados no núcleo arqueado do hipotálamo e participam da regulação do eixo reprodutivo.

Durante a transição menopausal, a redução do estrogênio modifica a atividade desse circuito. A sinalização da neuroquinina B sobre os receptores NK3 na região pré-óptica do hipotálamo contribui para desestabilizar o controle da temperatura corporal.

O resultado é uma redução da chamada zona termoneutra, que corresponde à faixa de temperatura interna na qual o organismo não precisa ativar mecanismos de aquecimento ou resfriamento.

Nas mulheres mais sensíveis, pequenas variações da temperatura corporal podem desencadear respostas exageradas de dissipação de calor, provocando:

  • Vasodilatação periférica.

  • Sudorese intensa.

  • Sensação súbita de calor.

  • Aumento da frequência cardíaca.

  • Despertares noturnos.

Isso ajuda a explicar por que duas mulheres com níveis hormonais semelhantes podem apresentar frequências muito diferentes de ondas de calor.

3. A velocidade da queda hormonal também importa

Não é apenas a concentração de estrogênio que interessa. A dinâmica das alterações hormonais pode ser relevante. Durante a perimenopausa, os níveis de estradiol podem oscilar consideravelmente, com períodos de concentrações elevadas seguidos por quedas acentuadas. Essa instabilidade hormonal pode produzir manifestações diferentes das observadas após a menopausa estabelecida.

Além disso, a sensibilidade dos receptores e dos circuitos cerebrais às alterações hormonais varia entre indivíduos. Portanto, a menopausa não deve ser interpretada simplesmente como uma deficiência hormonal uniforme. Trata-se de uma transição neuroendócrina complexa.

4. Inflamação, adiposidade e metabolismo

O tecido adiposo não é apenas um reservatório de energia. É um órgão endócrino e metabolicamente ativo, capaz de produzir adipocinas, citocinas e outros mediadores que participam da regulação metabólica.

A obesidade, especialmente quando acompanhada de resistência à insulina e inflamação metabólica, está associada a maior frequência e intensidade de sintomas vasomotores em estudos epidemiológicos.

Outros fatores podem contribuir:

  • Tabagismo.

  • Sedentarismo.

  • Alterações do sono.

  • Resistência à insulina.

  • Maior adiposidade abdominal.

  • Estresse crônico.

É importante não interpretar essas associações como uma relação causal direta em todos os casos. A obesidade, por exemplo, pode interferir na dissipação de calor, mas os mecanismos são multifatoriais.

5. O sistema nervoso e a saúde emocional

Outro aspecto importante é a interação entre os sistemas neuroendócrino e nervoso autônomo. Mulheres com maior predisposição à ansiedade, sintomas depressivos ou alterações prévias do sono podem apresentar maior vulnerabilidade durante a transição menopausal. Isso não significa que as ondas de calor sejam psicológicas. Elas têm mecanismos fisiológicos bem estabelecidos.

Entretanto, a ansiedade pode aumentar a percepção dos sintomas, dificultar o retorno ao sono e intensificar o impacto das manifestações físicas na qualidade de vida. O histórico de estresse crônico e experiências adversas também aparece associado à maior frequência de sintomas em estudos populacionais.

6. A influência da ancestralidade e do ambiente

Estudos epidemiológicos demonstram diferenças na prevalência dos sintomas vasomotores entre populações. No estudo longitudinal SWAN (Study of Women's Health Across the Nation), mulheres negras apresentaram maior frequência e duração de ondas de calor, enquanto mulheres de origem chinesa e japonesa apresentaram menor frequência desses sintomas.

Essas diferenças não podem ser atribuídas exclusivamente à genética. Fatores ambientais, socioeconómicos, alimentares, culturais, psicossociais e diferenças no acesso aos cuidados de saúde também participam dessa variabilidade.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reforçou a associação entre fatores comportamentais, sociodemográficos e psicológicos e a intensidade dos sintomas da menopausa.

7. Por que algumas mulheres praticamente não sentem a menopausa?

Provavelmente, existe uma combinação de fatores:

  1. Menor sensibilidade dos circuitos hipotalâmicos às alterações hormonais.

  2. Diferentes características genéticas relacionadas à sinalização hormonal e à termorregulação.

  3. Melhor adaptação dos sistemas neuroendócrino e autonómico.

  4. Menor exposição a fatores que agravam os sintomas.

  5. Diferenças individuais na resposta dos tecidos à redução do estradiol.

Também é importante lembrar que nem todas as mulheres apresentam os mesmos sintomas. Uma mulher pode não ter ondas de calor, mas apresentar secura vaginal, alterações do sono ou redução da libido.

A ausência de sintomas vasomotores não significa necessariamente ausência de alterações hormonais ou de consequências metabólicas e ósseas associadas à menopausa.

O que isso significa para a nutrição de precisão?

A variabilidade individual dos sintomas reforça a importância de uma abordagem que vá além da dosagem de estradiol, FSH e outros hormônios.

A investigação sobre a menopausa precisa considerar diferentes dimensões:

  • Genética - ESR1, ESR2, TACR3 e vias de metabolismo hormonal

  • Neuroendócrina - Estradiol, FSH e regulação hipotalâmica

  • Metabólica - Glicemia, insulina, perfil lipídico e adiposidade

  • Inflamatória - Marcadores inflamatórios quando clinicamente indicados

  • Sono - Ritmo circadiano, insônia e fragmentação do sono

  • Comportamental - Alimentação, atividade física, álcool e tabagismo

É importante ressaltar que esses parâmetros não constituem um painel diagnóstico validado para prever a intensidade dos sintomas. São dimensões que podem contribuir para uma avaliação clínica mais abrangente.

A menopausa é um excelente exemplo de medicina de precisão: a mesma alteração hormonal pode produzir respostas fisiológicas muito diferentes, dependendo da interação entre genética, cérebro, metabolismo e ambiente.

Referências para aprofundamento

1. Navarro, V. M., et al. (2025). Effects of menopause on temperature regulation. Temperature, 12(2), 92–132. https://doi.org/10.1080/23328940.2025.2484499

2. Hickey, M., et al. (2026). Risk factors, management and consequences of severe menopausal vasomotor symptoms. Nature Reviews Endocrinology, 22, 404–415. https://doi.org/10.1038/s41574-026-01245-w

3. Factors Associated With Menopause Symptoms: A Systematic Review and Meta-Analysis. (2026). BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology. Consultar publicação.

4. Avis, N. E., et al. (2009). Menopausal symptoms and ethnicity: The Study of Women's Health Across the Nation. Menopause, 16(1), 44–53. Consultar PubMed.

5. Thurston, R. C., & Joffe, H. (2011). Vasomotor symptoms and menopause: Findings from the Study of Women's Health Across the Nation. Consultar estudo.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/