O corpo possui uma série de depósitos de gordura, cada um com uma função. O tecido adiposo participa da comunicação entre órgãos por meio da liberação de moléculas sinalizadoras. Entre elas estão as adipocinas, substâncias que podem influenciar o metabolismo energético, a sensibilidade à insulina e os processos inflamatórios.
Além disso, o tecido adiposo libera vesículas extracelulares que transportam diferentes componentes moleculares e participam da comunicação entre células.
As diferenças entre os depósitos de gordura dependem de diversos fatores:
Composição celular: os depósitos apresentam populações celulares e características moleculares distintas.
Vascularização: o suprimento sanguíneo influencia a disponibilidade de oxigênio, nutrientes e sinais circulantes.
Inervação: a comunicação com o sistema nervoso participa da regulação da atividade do tecido adiposo.
Sensibilidade hormonal: os depósitos podem responder de maneira diferente aos sinais endócrinos.
Remodelação tecidual: a capacidade de expandir, renovar e reorganizar o tecido influencia sua função metabólica.
Essas diferenças ajudam a explicar por que a mesma quantidade de gordura corporal pode ter consequências metabólicas distintas entre indivíduos.
Por que a capacidade de armazenar gordura importa?
O tecido adiposo saudável desempenha uma função essencial: armazenar energia e liberar ácidos graxos conforme a necessidade do organismo. Ésteres de ácidos graxos e ácidos graxos hidroxilados atuam em todos os órgãos metabolicamente importantes, exercendo efeitos anti-inflamatórios e antidiabéticos. As vesículas extracelulares (VEs) secretadas pelos adipócitos transportam mRNA, miRNA e proteínas. Elas participam ativamente da comunicação entre o tecido adiposo e outros órgãos.
O problema não se resume ao excesso de gordura, mas também envolve a capacidade de armazenamento e a adaptação dos diferentes depósitos às mudanças nas necessidades energéticas.
Quando essa regulação é comprometida, aumenta a possibilidade de alterações no fluxo de lipídios e de acúmulo de gordura em outros tecidos, como o fígado e o músculo esquelético. Esse processo pode contribuir para a disfunção metabólica. O acúmulo abdominal está associado a maior risco cardiometabólico.
Por outro lado, a capacidade de armazenar gordura de maneira relativamente favorável, particularmente nos depósitos gluteofemorais, pode estar associada a menor risco cardiometabólico.
Isso não significa que a gordura subcutânea seja sempre benéfica ou que o aumento do tecido adiposo gluteofemoral deva ser considerado um objetivo terapêutico. A função do tecido, a quantidade acumulada e o contexto metabólico precisam ser considerados em conjunto.
O que essa evidência significa para a prática clínica?
Revisão de 2026 reforça a importância de avaliar a distribuição da gordura corporal, e não apenas o peso ou o índice de massa corporal (IMC).
Na avaliação nutricional, alguns indicadores podem ajudar a identificar diferentes dimensões do risco metabólico:
1. Circunferência da cintura
É uma medida antropométrica simples, útil para estimar a adiposidade abdominal e auxiliar na avaliação do risco cardiometabólico.
2. Relação cintura/estatura
Relaciona a circunferência da cintura à altura e pode complementar a avaliação da distribuição da gordura corporal.
3. Composição corporal
Métodos como a absorciometria de raios X de dupla energia (DXA) permitem estimar a distribuição regional da gordura. A ressonância magnética e a tomografia computadorizada podem quantificar depósitos específicos, incluindo a gordura visceral, quando existe indicação clínica.
4. Marcadores metabólicos
Glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico e pressão arterial ajudam a contextualizar os achados antropométricos e a avaliar o risco individual.
Nenhum desses indicadores deve ser interpretado isoladamente. A avaliação deve considerar idade, sexo, histórico clínico, composição corporal, hábitos de vida e outros fatores relevantes.

